domingo, 21 de agosto de 2011

O carapuço na barrística popular estremocense (2ª edição)

Fig. 1 - Pastor a fazer as migas, sentado.
Peça da barrística popular estremocense,
da autoria das Irmãs Flores. 
Fig. 2 - Pastor a fazer as migas, deitado. Peça da barrística popular estremocense,
da autoria das Irmãs Flores. 
Fig. 3 - Matança do porco. Peça da barrística popular estremocense,
da autoria das Irmãs Flores.

Esta é a 2ª edição do post O CARAPUÇO NA BARRÍSTICA POPULAR ESTREMOCENSE, editado em 6 de Junho de 2011, agora revisto, reformulado e ampliado, com a introdução de mais uma oitava e uma quadra do cancioneiro popular alentejano, ligadas à temática do carapuço, bem como mais uma referência bibliográfica.

Há três peças do figurado de Estremoz, que representam camponeses de barrete na cabeça. São elas: “Pastor a fazer as migas sentado” (Fig. 1), “Pastor a fazer as migas deitado” (fig. 2) e “Matança do porco” (fig. 3). Algumas pessoas menos informadas, pensam tratar-se de representações abusivas, já que segundo elas, o barrete não seria característico do Alentejo. Estão redondamente enganadas, já que o barrete se usou literalmente em todo o país. Do Norte para o Sul e do Litoral para o Interior. Todavia, as imagens habitualmente veiculadas pelos nossos ranchos folclóricos, associam mais o barrete às zonas piscatórias (Póvoa de Varzim, Aveiro, Nazaré), bem como ao Ribatejo.
Há que esclarecer o assunto duma forma aprofundada e duma vez por todas, o que faremos duma tríplice maneira, com recurso a referências etnográficas, de literatura oral e fotográficas, que passamos de imediato a referir.
No Alentejo, o vestuário do trabalhador do campo, incluía em 1896, em vez do chapéu e principalmente de Inverno, o barrete, também chamado gorro (Tolosa, Barrancos) ou carapuço (Estremoz, Alandroal, Montemor-o-Novo) [2].
O cancioneiro popular alentejano refere o uso do gorro preto:

“Ó rapaz da cinta verde,
Ó rapaz do gorro preto,
Vou cantar uma cantiga,
E vai ser a teu respeito.” [3]

“Ó rapaz do gorro novo,
Ó rapaz do gorro preto,
A respeito do que cantam,
Preciso é falar com jeito.” [3]

“Ó rapaz do gorro preto,
Volta-o de dentro p’ra fora;
Inda estou do mesmo lado,
Inda me não volto agora.” [3]

“Ó rapaz do gorro, gorro.
Ó rapaz do gorro preto,
A respeito de namoro
É preciso muito jeito.” [3]

O mesmo cancioneiro refere igualmente o uso do gorro verde:

“Ó fêra de S. Mateus,
Onde se vendem pinhões,
Anda agora muito em moda
Gorros verdes à Camões.” [3]

“Ó rapaz do gorro verde,
Quem te mandou cá entrar?
Se não cantas ‘ma cantiga,
Já te podes retirar.” [3]

“Eu venho detrás da serra
Com o meu gorro à campina;
Quem é mestre também erra,
Quem erra também se ensina.” [3]

Consta-se [1] que no início do século XIX, havia o costume de as raparigas do campo, oferecerem aos namorados, um gorro de linha azul, por si confeccionado com cinco agulhas, no decurso dos longos serões de Inverno. Terá havido um rapaz, receptor de uma dessas prendas, que denunciou o acabamento da mesma, de acordo com a oitava:

“Tenho vergonha de pôr
Esta obra na cabeça!
Oh! Vê lá, não te aconteça
Eu perder-te o amor…!
Busca outro superior,
Outro que tenha mais geito,
Que eu sempre te quer’dizer
- Que o gorro não está bem feito!” [1]

Provavelmente haveria rapazes que usavam gorro azul, sem este lhe ter sido oferecido pela namorada. Daí que alguma rapariga interessada no “enganador”, lhe pudesse dizer por gracejo:

“Ó rapaz do gorro azul,
Está-te bem, porque és trigueiro,
Diz-me quanto te custou,
Quero-te dar o dinheiro.” [3]

O uso do gorro preto ou vermelho, está, de resto, referenciado como tradição popular nesta região. [4]
A nível fotográfico, o uso do barrete no Alentejo, está documento por bilhetes-postais ilustrados referentes a actividades agro-pastoris: lavra e sementeira (Fig. 4), apanha da azeitona (Fig. 5) e maioral e ajuda, figuras da pastorícia alentejana (Fig. 6).
Julgamos que com estas considerações tenha ficado demonstrado duma forma insofismável, o uso do barrete no Alentejo, o que legitima as representações da barrística popular estremocense que o utilizam.
Barristas como Mariano da Conceição, Liberdade da Conceição, Sabina Santos, Maria Luísa da Conceição, Quirina Marmelo, Irmãs Flores e Fátima Estróia, cobriram a cabeça destas figuras com o tradicional barrete. Já José Moreira, substituiu nas mesmas figuras, a partir de uma certa altura, o barrete pelo tradicional chapéu aguadeiro, conforme ilustramos com a “Matança do porco" (Fig. 7), de sua autoria.

BIBLIOGRAFIA
[1] – DIAS NUNES, M. “Miscelânea Tradicionalista” in “A Tradição”, Ano IV-Nº 1, Volume IV. Serpa, Janeiro de 1902.
[2] – LEITE DE VASCONCELLOS, J. Etnografia Portuguesa, Vol. VI. Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Lisboa, 1975.
[3] - THOMAZ PIRES, A. Cantos Populares Portuguezes. Vol. IV. Typographia e Stereotipía Progresso. Elvas, 1912.
[4] - THOMAZ PIRES, A. Tradições Populares Transtaganas. Tipographia Moderna. Elvas, 1927.
 fig. 4 - A lavra e a sementeira no Alentejo, no início do século XX.
Postal edição Malva (Lisboa). 
Fig. 5 - A apanha da azeitona no Alentejo, no início do século XX.
Postal edição Tabacaria Gonçalves (Lisboa).
Fig. 6 - Maioral e ajuda, figuras da pastorícia alentejana,
no início do séc. XX. Postal edição Malva (Lisboa).
Fig. 7 - Matança do porco. Peça da barrística popular estremocense,
da autoria de José Moreira.