quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Salvemos a olaria! - III

Mestre Mário Lagartinho (1935-2016), o último oleiro de Estremoz.

Cursos de olaria? Não, obrigado!
No número 168 (12-1-2017) deste jornal, em crónica intitulada “Salvemos a olaria!”, após análise dos depoimentos prestados anteriormente por CME, ESRSI e IEFP, concluí que o IEFP assegura e custeia integralmente os Cursos de Olaria, sendo todavia necessário que uma entidade com legitimidade e sentido de responsabilidade para o fazer, como é o caso da CME, possa solicitar institucionalmente e com custo zero, a criação dos Cursos de Olaria ao IEFP. Foi então posta ao Município, a seguinte questão:
- “Está a CME disponível para solicitar ao IEFP a criação dos Cursos de Olaria, tal como é sugerido? “
O Município recusou-se a responder à questão formulada, o que é legítimo, tal como a frustração gerada na opinião pública, face a tal recusa. Para além disso, escudou-se em três declarações: 1 – O Município é receptivo às sugestões dos cidadãos, apresentadas na sequência do desenrolar natural das suas legítimas actividades cívicas. Tais sugestões são importantes em termos de tomada de decisões, mas nada obriga a que a sugestão tenha de ser seguida; 2 – O Município foi sufragado pelos cidadãos que lhe conferiram o poder de decisão sobre as matérias que legalmente são da sua competência; 3 – A sede própria para apresentar sugestões é o próprio Município, a quem compete ponderar sobre o seu interesse.
Este jornal não põe em causa a legitimidade de tais afirmações, mas declara que carece de demonstração, que a apresentação de sugestões na Imprensa local, possa configurar qualquer tipo de “pressão” sobre o Município.

A missão deste jornal
À semelhança dos partidos políticos, a Imprensa ainda que de uma forma distinta, dada a sua natureza diferenciada, constitui um dos pilares mais sólidos da Democracia.
Este jornal respeita os direitos, liberdades e garantias consignadas na Constituição da República Portuguesa e como tal, orienta-se pelos princípios da liberdade, do pluralismo e da independência do poder político e económico, bem como de qualquer credo, doutrina ou ideologia. A sua única subordinação é a Deontologia da Comunicação Social, a Lei de Imprensa, o Estatuto do Jornalista e o Estatuto Editorial.
Como tal, privilegia a informação isenta, rigorosa e objectiva, distinguindo claramente os espaços de opinião e assegurando nestes o confronto das diversas correntes de pensamento, através do exercício do princípio do contraditório. Todavia não fica por aqui, já que a Imprensa assumiu há muito e por direito próprio, um papel formativo e pedagógico, rastreando e equacionando problemas cuja resolução possa interessar à Comunidade. Por isso, a partilha de preocupações com o leitor é legítima, já que pode contribuir para que estes, em liberdade possam reflectir como se impõe sobre temas importantes, muitos dos quais têm a ver com a preservação e a salvaguarda da nossa identidade cultural local, como é o caso do risco de extinção da olaria estremocense.

A César o que é de César         
Este, o início de uma frase atribuída a Jesus nos evangelhos canónicos, aceites como autênticos pela maioria dos cristãos. Aí se lê: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” [Mateus (22:21), Marcos (12:17), Lucas (20:25)]. A frase resume a relação entre o cristianismo e a autoridade secular.
Na literatura de tradição oral, a separação de poderes está patente no adágio “O seu a seu dono”, bem como na expressão idiomática “Cada macaco no seu galho”, que traduz a convicção de que cada um de nós deve ocupar o seu devido lugar, sem intrometer-se em coisas que não são da sua competência. Significa isto que não compete à Imprensa substituir-se ao poder sufragado, tal como não compete a este fazer juízos de que o exercício do jornalismo é uma forma de “pressão” sobre ele.

Em que ficamos?
No número 165 (1-12-2016) deste jornal, vem inserida a reportagem “Autarquia, escola e emprego apoiam a iniciativa”, onde sob a epígrafe “Município disponível para estabelecer parcerias” é afirmado por um porta-voz do Município, que a CME está consciente da necessidade de recuperação e salvaguarda da olaria de Estremoz, através da criação de um centro de formação e promoção desta actividade artesanal, característica do concelho.
Tudo leva a crer agora que o Município queira chamar a si, a responsabilidade de impedir a extinção da olaria estremocense, sem qualquer intervenção do IEFP, recorrendo para tal ao edifício da antiga Olaria Alfacinha, cuja aquisição procura concretizar há mais de 15 anos. Ficamos todos na expectativa de ver concretizar o Plano que o Município tem para a recuperação e salvaguarda da olaria de Estremoz. Este jornal transmitirá para a posteridade a Memória do esforço que foi desenvolvido nesse sentido. Aos vindouros caberá ajuizar o papel de cada um dos intervenientes em todo este processo.