sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

À laia de ode ao penico




Um penico era um monumento à defecação e a sua decoração era reflexo do bom ou do mau gosto do seu utilizador - defecador.
Havia penicos para todos os gostos, desde os rasos para quem gostava de defecar agachado, até ao penico, estilo rés-do-chão e primeiro andar ou, se quiserem, tipo chapéu alto, para quem tinha prazer em fazer uma monumental defecação, sem necessidade de estar dobrado sobre si próprio.
O penico podia ter uma ou duas asas e, eventualmente, ter tampa, por motivos óbvios.
Os materiais eram os mais diversos: esmalte, faiança e loiça de barro vermelho, vidrado, do Redondo.
Estes últimos, do modelo chapéu alto, eram os preferidos por tradicionalistas como eu. É claro que muita gente não se podia dar ao luxo de ter penicos destas dimensões. Lá diz o rifão: "Albarda-se o burro à vontade do dono" e sendo a banquinha de cabeceira, o parque de estacionamento do penico, havia que adequar a volumetria deste à dimensão do seu habitáculo. Ou não houvesse necessidade de um Rolls-Royce ser recolhido numa garagem apropriada.
Por certo que o penico de chapéu alto tinha outras virtualidades. Para já mantinha uma respeitável distância entre o expulsador e o expulsado, facto que não é de desprezar, independentemente da consistência deste último. Por outro lado, a respeitável coluna de ar, entre o expulsador e o expulsado, permitia usufruir melhor a audição de sonoridades, que alguns com apetência musical muito prezavam.
Hoje, vivemos no cinzentismo da retrete estandardizada por padrões europeus, violadora da individualidade e da identidade cultural do acto de defecção. Perante tal prepotência, só uma atitude é possível: o regresso às origens, ou seja ao penico.
É preciso utilizar mais o penico, é preciso divulgá-lo e estudá-lo nas suas múltiplas vertentes, a fim de que o mesmo possa ser preservado. É preciso dedicar um Museu ao penico e torná-lo objecto de uma longa-metragem promocional. O penico deve ser cantado em verso e registado na prosa dos cronistas da actualidade. Este ressurgimento nacional do penico, recomenda a utilização de duas palavras de ordem adequadas:

- VIVA O PENICO! VIVA!
- MORRA A RETRETE! MORRA! PUM!

Historicamente, sabe-se que em tempos muito recuados se faziam os despejos para a rua, precedidos de um aviso:
“- Lá vai obra”.
Não sei se é daí que vem o termo “obrar” como sinónimo de “defecar”.
Também tenho conhecimento que pelo Carnaval, ainda no século XIX se faziam lançamentos destes sobre transeuntes, possivelmente como vingança. Se não era uma brincadeira de mau gosto, era pelo menos uma brincadeira de mau cheiro.
Depois das Aparições de Fátima em 1917 e sobretudo depois da Igreja ter reconhecido em 1930, que as aparições de Fátima eram dignas de crédito, que comerciantes com olho para o negócio, começaram a vender objectos ostentando a imagem de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, como era o caso dos penicos. Isto esteve na origem duma proibição de Salazar, quer foi bem recebida pela Igreja. Não sabemos é se os penicos foram ou não apreendidos pela PIDE.
Em França, segundo me disseram, na época da Revolução Francesa, havia o hábito de mandar estampar no fundo dos penicos, a imagem de alguém que se detestava, para o brindar com republicanas defecações.
Em Portugal, ainda hoje, quando se quer insultar alguém, apoda-se de “Cara de Penico”.
Nos meus tempos de infância, em casa dos meus familiares, se alguém tinha de atravessar com um penico aviado, uma sala onde estavam outras pessoas, dizia:
“- Com licença, que vai passar o Senhor Doutor.”
Penso que a designação de Senhor Doutor tenha origem no facto de o penico nos permitia aliviar das dores. Provavelmente, esta frase feita é uma das muitas que não é reconhecida pela Douta Ordem dos Médicos.
Se o apoio público à discussão deste tópico continuar, terá de ser convocada uma Assembleia - Geral Constitutiva da Confraria do Penico do Chapéu Alto, na qual a nossa amiga Manuel Mendes terá de ser necessariamente investida como Grã-Mestre, dado ter sido ela a inspiradora e o pivot de tão aliviante debate.
Dado que a Manuela Mendes, nos diz que os dois penicos que nos deu a visualizar, fazem parte de uma colecção mais vasta, somos levados a dizer:
“- Ah, muito me conta, muito me conta, Grã-Mestre.”
Pelos vistos e tendo em conta a sua conhecida modéstia, quando nos diz que aquelas duas vedetas penicais fazem parte de uma colecção mais vasta, julgo ser legítimo concluir que Vossa Senhoria tem um autêntico parque de estacionamento para os seus penicos de estimação.
Tendo em conta que tudo leva a crer que assim seja, julgo não ser despropositado propor à Grã-Mestre, que para nosso usufruto e grandessíssimo e republicaníssimo prazer, nos seja proporcionada uma prolongada visita guiada ao seu acervo de penicos. Naturalmente que antes disso deve tomar as devidas precauções, não se dê o caso de entre os visitantes poder haver algum cleptopenicomaníaco, que por artes mágicas ou por intervenção da pata-negra de Belzebu, lhe consiga subtrair um ou mais desses históricos troféus, que para além de serem o registo de defecações passadas, servem também para memória futura de defecações que hão de vir. E, quantas vezes a importância do Porvir não supera a do Passado?
Proponho desde já que a Grã - Mestre, como é seu timbre, prepare a visita guiada duma forma assaz cuidadosa, dada a natural delicadeza do assunto.
Assegurada que está à partida, a motivação dos visitantes, a estratégia da visita, para que seja proveitosa, não deverá ficar pelo óbvio.
Nada de superficialidades no guião, que limitem o discurso a ficar-se pela cor, pela matéria-prima ou pela decoração do penico.
Mesmo a textura, a altura e a envergadura do penico, são questões comezinhas.
É preciso ir mais além, abordar o binómio rabo-penico e reflectir sobre a interface pele - matéria prima do penico.
Igualmente importantes são questões de temporalidade tais como: “Oportunidade da defecação”, “Defecações imprevistas”, “Defecações prolongadas”. De resto, não deverão deixar de ser abordados arrebatados tópicos como “O penico de Salazar”, “Será que D. Carlos I usava penico reforçado?” ou “É verdade que Staline tinha cara de penico?”.
De resto, a natureza essencialmente pedagógica da visita guiada, impõe que esta tenha um carácter essencialmente prático. È pois desejável que cada um dos guiados, escolha o seu penico preferido e se sente nele, visando concluir se aquele penico é ou não cómodo, que é como quem diz, se aquele é ou não o penico que lhe serve, isto é, se é um penico para o resto da vida ou é apenas um penico passageiro. Recomenda-se, por outro lado, que a abordagem das sonoridades e dos odores, seja feita individualmente, de uma forma mais recatada. Na verdade, a abordagem colectiva destes tópicos, poderia ser inibidora e saldar-se mesmo por sonoridades incaracterísticas e desprovidas de musicalidade, para não dizer mesmo viscosas. Em contrapartida, as sonoridades e os odores usufruídos por cada guiado, devem ser objecto de discussão de grupo, naturalmente enriquecedora como o são todas as discussões de grupo.
Os dados estão lançados. Tem a palavra agora a Grã-Mestre.
Porém, dado o até agora fraco nível de participação no debate penical, estou temoroso de que este possa não ser suficientemente abrangente, o que poria em causa a oportunidade de constituição da Confraria. Aguardamos pois a revelação de disponibilidade incondicional de eventuais confrades.


(Do Manifesto em preparação: “Metralha Ligeira”)