Isabel Catarrilhas Pires (1955- ) é uma consagrada barrista da velha guarda. Começou a modelar o barro em 1986 por auto-aprendizagem e com alguma orientação de Quirina Marmelo. Inspirou-se nos modelos expostos no Museu Municipal de Estremoz, mas desde sempre conferiu ao seu trabalho um cunho muito pessoal.
Está certificada como artesã de Bonecos de Estremoz pela ADERE-CERTIFICA, ”entidade promotora da certificação de produções artesanais tradicionais, sinónimo da garantia da qualidade e autenticidade da produção.”
É uma barrista com uma produção diversificada que se espraia pelas diferentes tipologias de Bonecos de Estremoz. Nas suas criações enfatiza a identidade regional alentejana e é-lhe grata a temática da terceira idade.
A análise de uma figura reunindo os dois requisitos anteriores é objecto do presente texto.
Trata-se de uma figura antropomórfica masculina, envergando calças e capote, calçando botas e com a cabeça coberta por um chapéu.
Do capote emergem dois braços descaídos cobertos por mangas e com as mãos abertas, das quais a direita se apoia numa bengala.
A imagem assenta numa base cilíndrica de cor verde com pintas alternadamente amarelas e vermelhas a circundar a orla do topo superior.
O capote alentejano tem aba larga, gola forrada a pele de borrego e três romeiras. A abotoadura frontal do capote é assegurada por 3 botões. Duas patilhas fixas com botões na banda esquerda da romeira superior asseguram a abotoadura em dois botões pregados na banda direita.
O chapéu sem fita, tem copa cilíndrica com topo abaulado convexamente e aba circular virada para baixo.
As calças e as mangas do casaco são singelas, não merecendo nenhuma referência especial.
O capote, a bengala e a gola do capote são de cor castanha, de diversas tonalidades, sendo a última matizada. As calças são de cor azul. O chapéu, as botas, as mangas do casaco e os botões são de cor negra.
Importa descobrir e relevar todas as mensagens encerradas na figura. Em primeiro lugar, o SIMBOLISMO DAS CORES: - Castanho, cor neutra ligada à terra, à natureza e aos agricultores; - Azul, cor fria associada ao céu e que veicula as ideias de tranquilidade, serenidade e harmonia. - Negro, cor neutra associada ao luto, ao respeito, ao isolamento e à solidão.
Em segundo lugar, o SIMBOLISMO DO CAPOTE, peça de vestuário que tem a ver com a identidade regional alentejana, porque simboliza a protecção conferida aos camponeses na sua labuta à chuva, ao frio e ao vento das mais rigorosas invernias.
Em terceiro lugar, o SIMBOLISMO DA BENGALA, acessório que entre outras funções é um auxiliador da locomoção de pessoas idosas, doentes ou com traumatismos.
A tipologia do capote, a singeleza das calças, a fisionomia do rosto e o recurso à bengala, permitem concluir estarmos em presença de um velho camponês alentejano.
Ao contrário do que acontece noutros criadores, nenhum componente da figura foi unicamente pintado, já que todos eles foram modelados e apresentam volumetria.
A modelação foi apurada e revela um rosto bem delineado. Os olhos têm profundidade com as órbitas brancas delimitadas por duas pestanas negras e nas quais se inserem meninas do olho igualmente negras, encimadas por espessas sobrancelhas grisalhas. Igualmente o nariz, a boca, o queixo, as orelhas e o cabelo grisalho estão bem definidos. O nariz apresenta narinas e é observável a morfologia das orelhas. O rosto apresenta rugas. As mãos estão bem definidas e nelas os dedos ostentam unhas, como se de mãos reais se tratasse. As calças amachucadas revelam uso. No capote é perceptível a textura da lã na gola, os botões apresentam orifícios por onde passa a linha e a romeira superior arqueada sugere que o idoso caminha contra o vento. Tudo isto integra as marcas identitárias da barrista e é revelador do tratamento naturalista das suas figuras, fruto da importância que concede aos pormenores na execução das mesmas. Nesse sentido distancia-se do estilo mais popular doutros barristas do presente e do passado. As suas criações tais como as de Jorge da Conceição, cada um à sua maneira, têm um cunho mais erudito que as restantes, sem contudo deixarem de ser Bonecos de Estremoz. Com efeito, de acordo com o CADERNO DE ESPECIFICAÇÕES PARA A CERTIFICAÇÃO DOS BONECOS DE ESTREMOZ, “… a inovação estética não constitui um problema per si pois é garante da renovação de tipologias e temáticas dos Bonecos de Estremoz.”
De salientar que na decoração da figura, a barrista utilizou sabiamente uma harmoniosa tricromia com recurso a duas cores neutras (castanho e preto) e uma cor fria (azul). Às primeiras está associada pouca energia e à segunda está associado o frio. Creio que sob o ponto de vista cromático, foram as cores mais adequadas para associar à terceira idade, considerada o Inverno da vida.
Como é sabido, valorizo muito os barristas possuidores de marcas identitárias muito próprias e cujo estilo os distingue de outros barristas. Por isso, pela qualidade e riqueza da modelação, pela harmonia cromática da decoração e pela original conjugação da identidade regional alentejana com a temática da terceira idade, a barrista é merecedora das minhas felicitações:
- Parabéns, Isabel Pires!




















































