quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

I Jogos Florais do Jornal E de Estremoz


Primavera. Oficinas de Estremoz do séc. XIX.
Colecção Júlio dos Reis Pereira. Museu Municipal de Estremoz.

I JOGOS FLORAIS DO JORNAL E DE ESTREMOZ
BONECOS DE ESTREMOZ
Património Cultural Imaterial da Humanidade

Os I JOGOS FLORAIS DO JORNAL E DE ESTREMOZ visam assinalar a decisão recente da UNESCO de inscrever os “Bonecos de Barro de Estremoz” na “Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade”.
Aos Jogos Florais são admitidos trabalhos inéditos, redigidos em Português e nas seguintes modalidades: - QUADRA POPULAR - Tema: "BONECOS DE ESTREMOZ". Em redondilha maior, de rima ABAB, uma quadra em cada folha. - POESIA OBRIGADA A MOTE – O mote da autoria do Professor António Simões é o seguinte: Bonecos de Estremoz são, / Em variada forma e cor, / Filhos d’arte de artesão / Que os modela com amor. - POESIA LIVRE - Subordinada ao tema: "BONECOS DE ESTREMOZ".
De cada trabalho serão enviados três exemplares, dactilografados à máquina ou em computador em papel formato A4, de um só lado. Os trabalhos não poderão ser adornados com moldura ou qualquer outro ornamento. Todos os trabalhos deverão trazer na primeira página a modalidade a que concorrem, terão que ser subscritos por um pseudónimo, devendo os respectivos autores, enviar anexo a cada trabalho, um envelope fechado com o pseudónimo dactilografado no rosto, e dentro, o nome, morada e número de telefone do Autor.
Cada concorrente poderá apresentar dois trabalhos por modalidade, com excepção da QUADRA onde poderão ser apresentados três trabalhos a concurso, pelo que cada um será subscrito com pseudónimo diferente. Serão desclassificados os trabalhos que não sejam inéditos, isto é, que já tenham sido apresentados noutros concursos.
O prazo de remessa dos originais (data de carimbo dos correios) termina em: 31 DE MARÇO DE 2018 e deverão ser enviados, para: Jornal E de Estremoz / Apartado 135 / 7101-909 ESTREMOZ.
O não cumprimento do estipulado no presente regulamento, anula a apreciação dos trabalhos pelo júri, de cujas decisões não cabe recurso.
As classificações serão tornadas públicas em 3 de Maio de 2018, sendo os concorrentes avisados por escrito.
Haverá três prémios por modalidade, bem como as menções honrosas que o júri entender por bem conceder. Poderá, no entanto, deliberar a não atribuição de qualquer prémio, numa ou mais modalidades, se considerar que a qualidade dos trabalhos apresentados não é consentânea com a projecção que se pretende para esta iniciativa.
A entrega de prémios aos galardoados ocorrerá em cerimónia pública a ter lugar no Auditório da Escola Secundária da Rainha Santa Isabel, no dia 12 de Maio de 2018, a partir das 11 h.
(Texto publicado no jornal E nº 193, de 08-02-2018)

Os meus Bonecos


Manuel Xarepe (Antropólogo)

Pede-me o amigo Hernâni para dizer também algo sobre os Bonecos de Estremoz. Que poderei dizer para além do que ele enfaticamente tem dito? Como disse o Armando Alves e outros ainda…
Dizer que fiquei muito contente com o objetivo alcançado? Quem não terá ficado? Posso dizer milhentas palavras de louvor: isso será, como dizem os brasileiros, chover no molhado. Praticamente já tudo ou quase tudo foi dito. E não só de agora. De há muito que Marques Crespo, Sá Lemos, Azinhal Abelho, Joaquim Vermelho e Hernâni Matos se esforçaram para pôr em evidência a massa bruta (passe a expressão), a massa barrenta que mãos hábeis com amor e devoção transformam em contextos antropológicos sociais e religiosos (parafraseando o Hernâni), na doçura encantadora de estética colorida que é o nosso encanto.
Tal como o Matos e o Armando Alves, também fui atraído muito cedo pelos bonecos. Conheci o Professor Sá Lemos mas não a Ti Ana das Peles, muito embora o seu neto Florimundo Estrela (pintor) me tenha falado bastas vezes dela e dos seus bonecos. Conheci muito bem o Mestre Mariano Alfacinha: estou a vê-lo na sua mesa de trabalho na Escola Industrial com uma agilidade impressionante a fazer bonecos sobre bonecos. Depois a pintá-los, mas, com tintas feitas por ele. Eram terras de várias cores e aditivos que eu não entendia. Que maravilha aquelas cores não brilhantes. O tempo passava e eu ali perdido, ganhando o espetáculo que me ficou na retina e na saudade.
Fui para longe e Mestre Mariano para mais longe ainda após estúpido desastre. Vim encontrar a sua esposa, a Liberdade, e sua irmã (dele) Sabina, trabalhando os bonecos e pouco depois a filha do Mestre Mariano e minha colega e amiga de escola, a Maria Luísa, de quem guardo orgulhosamente, entre outos, um Cristo Alentejano.
Tudo na vida evolui. O que foi ontem será diferente amanhã. Até há quem afirme que a tradição não existe! Quando o Armando Alves evoca o mestre José Moreira dizendo que ele tinha no quintal uns tanques onde transformava a terra em barro, remoí de novo um desgosto que tenho há muito. Se outrora tínhamos as bilhas (outro desgosto), as célebres bilhas, os barros de Estremoz… que em todo o lado eram falados: - O barro de Estremoz, faz a água fresca…
Infelizmente foram-se as bilhas. Salvaram-se os bonecos. Mas com barro importado. Que pena!  
Manuel Xarepe
Antropólogo
(Texto publicado no jornal E nº 193, de 08-02-2018)


domingo, 4 de fevereiro de 2018

Pela boca morre o peixe


O glutão (1804). George Emmanuel Opiz (1755-1841).
Gouache sobre papel. Colecção particular.
  
O meu médico assistente contou-me que há tempos atrás assistira num auditório a um impropério saído da boca de uma figura pública, digno senão de um burgesso, pelo menos de um bigodudo cabo de esquadra. O clínico tê-lo-á prevenido:
- “Meu caro Senhor, tem que ter cuidado com aquilo que mete na barriguinha!”
Escudando-se no segredo profissional, mas sem me convencer, o meu físico asseverou-me:
- “Não é ninguém das sua relações!”.
Perguntei-lhe então:
- “Senhor doutor, porque é que fez aquela advertência à criatura?”
A resposta foi rápida:
- “É que a incontinência verbal é muitas vezes fruto de uma digestão mal feita, como consequência de um "empanzinamento" da barriga.
E eu concordei:
- “Tem razão senhor doutor. Lá diz o rifão: “Pela boca morre o peixe”.”
E como colector do adagiário popular, acrescentei de seguida:
- Mas há mais, senhor doutor: “Comer toda a vianda, tramar toda a maleita”, “Boa mesa, mau testamento”, “Por comidas e ceias estão as sepulturas cheias”, “Mais mata a gula que a espada”, “A mesa tem morto mais gente que a guerra” e “Mais matou a ceia, que sarou avincena”.
O meu “João Semana” concluiu então:
- “Tem razão Hernâni, ambos percebemos da “poda”!”.
Todavia, ainda teve uma resposta da minha parte:
- “Do sábio, o conselho; do médico, o remédio.".

  Hernâni Matos    

sábado, 3 de fevereiro de 2018

I Jogos Florais do Jornal E, de Estremoz



REGULAMENTO
1 -
Os I JOGOS FLORAIS DO JORNAL E DE ESTREMOZ são uma iniciativa deste jornal, que visa assinalar a decisão recente da UNESCO de inscrever os “Bonecos de Barro de Estremoz” na “Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade”.
2 -
Aos Jogos Florais podem concorrer todos os cidadãos nacionais e estrangeiros abrangidos pelo que se dispõe no presente regulamento.
3 -
Só são admitidos a concurso trabalhos inéditos, redigidos em Português e nas seguintes modalidades:

A - QUADRA POPULAR

Tema: "BONECOS DE ESTREMOZ".

Em redondilha maior, de rima ABAB, uma quadra em cada folha.

B - POESIA OBRIGADA A MOTE

Mote:

Bonecos de Estremoz são,
Em variada forma e cor,
Filhos d’arte de artesão
Que os modela com amor.

(António Simões - Estremoz)

Nota: não descurando outras formas de glosar o mote, daremos especial atenção ao tratamento em décimas.

C - POESIA LIVRE
Subordinada ao tema: "BONECOS DE ESTREMOZ".
4 -
De cada trabalho serão enviados três exemplares, dactilografados à máquina ou em computador em papel formato A4, de um só lado. Os trabalhos não poderão ser adornados com moldura ou qualquer outro ornamento.
5 -
Todos os trabalhos deverão trazer na primeira página a modalidade a que concorrem, terão que ser subscritos por um pseudónimo, devendo os respectivos autores enviar anexo a cada trabalho, um envelope fechado com o pseudónimo dactilografado no rosto, e dentro, o nome, morada e número de telefone do Autor.
6 -
Cada concorrente poderá apresentar dois trabalhos por modalidade, com excepção da QUADRA onde poderão ser apresentados três trabalhos a concurso, pelo que cada um será subscrito com pseudónimo diferente. Serão desclassificados os trabalhos que não sejam inéditos, isto é, que já tenham sido apresentados noutros concursos.
7 -
O prazo de remessa dos originais (data de carimbo dos correios) termina em 31   DE MARÇO DE 2018 e deverão ser enviados, para:
Jornal E de Estremoz
Apartado 135
7101-909 ESTREMOZ
8 -
O não cumprimento do estipulado no presente regulamento, anula a apreciação dos trabalhos pelo júri, de cujas decisões não cabe recurso.
9 -
As classificações serão tornadas públicas em 3 de Maio de 2018, sendo os concorrentes avisados por escrito.
10 -
Haverá três prémios por modalidade, bem como as menções honrosas que o júri entender por bem conceder. Poderá, no entanto, deliberar a não atribuição de qualquer prémio, numa ou mais modalidades, se considerar que a qualidade dos trabalhos apresentados não é consentânea com a projecção que se pretende para esta iniciativa.
11 -
 A entrega de prémios aos galardoados terá lugar no dia 12 de Maio de 2018, em Estremoz, no Auditório da Escola Secundária da Rainha Santa Isabel, a partir das 11 h.
12 -
 Estes Jogos Florais ficam interditos aos elementos do Júri e demais pessoas envolvidas na organização dos mesmos.
13 -
Ao Júri cabe a resolução de qualquer ocorrência que não seja abrangida pelo presente regulamento.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Poesia Portuguesa - 089


RETRATO DE FERNANDO PESSOA (1954).
Almada Negreiros (1893-1970).
Óleo sobre tela (201 x 201 cm).
Museu da Cidade, Lisboa.

Todas as cartas de amor são ridículas
Álvaro de Campos (1890-1935)

Todas as cartas de amor são
R
idículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas. 
Também escrevi em meu tempo cartas de amor, 
Como as outras, 
Ridículas. 

As cartas de amor, se há amor, 
Têm de ser 
Ridículas. 

Mas, afinal, 
Só as criaturas que nunca escreveram 
Cartas de amor 
É que são 
Ridículas. 

Quem me dera no tempo em que escrevia 
Sem dar por isso 
Cartas de amor 
Ridículas. 

A verdade é que hoje 
As minhas memórias 
Dessas cartas de amor 
É que são 
Ridículas. 

(Todas as palavras esdrúxulas, 
Como os sentimentos esdrúxulos, 
São naturalmente 
Ridículas.)


Álvaro de Campos (1890-1935)

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

A berardização da paisagem rural


Herdade das Carvalhas na estrada da Glória (Estremoz).

A identidade cultural alentejana       
O Alentejo tem marcas identitárias que o distinguem de qualquer outra região do país. São elas: a paisagem, o carácter do povo alentejano, a casa tradicional, o traje popular, os produtos regionais (ervas medicinais, azeites, vinhos, queijos, enchidos), a gastronomia, a arte popular, a tradição oral (adagiário, lendas, adivinhas, lengalengas, gíria popular, alcunhas, cancioneiro), o folclore (cante e saias), os jogos populares, os usos e costumes, etc.
Estas marcas identitárias conferem uma imagem de marca ao Alentejo, da qual muito justamente se orgulham e com a qual se identificam os alentejanos, tanto naturais como adoptivos. É o somatório desses timbres e da oferta turística, que é gerador de fluxos visitadores que muito contribuem para a economia regional. Daí ser preciso, imperioso e urgente que cada um de nós tenha consciência dessa identidade cultural e lute pela sua preservação, valorização e aprofundamento. Essa a razão da presente crónica.
A subversão das marcas identitárias
Quem transita pela estrada da Glória, ao chegar à Herdade das Carvalhas, fica atónito com a mudança de visual. A começar pela nova designação, que depois de travestida passou a ser a da marca “Quinta do Carmo”. Depois, ressalta à vista, a plantação de palmeiras de estaca, junto ao muro que bordeja a estrada. E por fim, blocos de mármore, pintados com cores variegadas e empilhados uns sobre os outros, formando conjuntos de altura variável. Que farão ali naquele cais? Será que aguardam a chegada de camiões de carga que os transportem ao Carnaval de Cascais? Não creio.
Não sou arquitecto paisagista, mas como regionalista convicto e esclarecido, julgo ser legítimo concluir que estamos perante um exemplo manifesto de lamentável “berardização” da paisagem rural. Aos que possam desconhecer a semântica de tal conceito, direi em bom e puro alentejano que consiste em “albardar o burro à vontade do dono”, manifestando um desprezo olímpico pelos usos e costumes locais, consignados pela tradição.
Dir-me-ão alguns que por ali não há burros e não me custa admitir que assim seja. Já quanto a camelos não estou tão certo, uma vez que é uma associação inescapável a que sou conduzido pela presença intrusa das palmeiras.
A prima Hifigénia, mulher de virtudes e com dotes de pitonisa era capaz de agourar:
- Para a imagem de califado ser ainda mais forte, só ali faltam tendas com beduínos a fumar narguilé, já que camelos não devem faltar.
Todavia e com grande mágoa minha, a prima já não pertence ao reino dos vivos. Contudo, o registo memorial das suas sábias alocuções, permanece perene nos nossos espíritos.

Hernâni Matos 
(Texto publicado no jornal E nº 192, de 25-01-2018)

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Poesia portuguesa - 088


 

Fado de não morrer
António Simões (1934- )

Não morreste, eu não deixei,
De mim não te afastaste,
Obediente à minha lei
De não deixar morrer a haste
Da árvore que eu plantei,
E em minha alma ficaste.

Os amigos que perdi,
Ao pé de mim sempre vão,
Tenho-os todos aqui, 
Dentro do meu coração.
Foi para isso que eu nasci:
Não deixar morrer ninguém,
Nem pai, nem filho, nem mãe.
Batam palmas, ovação,
Que eles bem vivos estão:
Os que se julgam perdidos,
Trago-os presos aos sentidos
Aos gestos do dia-a-dia;
Vejo-os em todo o lado,
Tal como eram outrora.
Por isso canto este fado
Cheio da pura alegria
Onde a vida se demora
E a morte não tem lugar.
Vamos lá todos cantar,
Amigos, chegou a hora
De celebrarmos a vida –
Tudo feito de tal sorte,
Com força tão desmedida,
Que para longe fuja a morte,
E fique lá esquecida
No mais remoto lugar:
Amigos, vamos cantar!

António Simões (1934- )
Hernâni Matos