quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Os meus Bonecos


Manuel Xarepe (Antropólogo)

Pede-me o amigo Hernâni para dizer também algo sobre os Bonecos de Estremoz. Que poderei dizer para além do que ele enfaticamente tem dito? Como disse o Armando Alves e outros ainda…
Dizer que fiquei muito contente com o objetivo alcançado? Quem não terá ficado? Posso dizer milhentas palavras de louvor: isso será, como dizem os brasileiros, chover no molhado. Praticamente já tudo ou quase tudo foi dito. E não só de agora. De há muito que Marques Crespo, Sá Lemos, Azinhal Abelho, Joaquim Vermelho e Hernâni Matos se esforçaram para pôr em evidência a massa bruta (passe a expressão), a massa barrenta que mãos hábeis com amor e devoção transformam em contextos antropológicos sociais e religiosos (parafraseando o Hernâni), na doçura encantadora de estética colorida que é o nosso encanto.
Tal como o Matos e o Armando Alves, também fui atraído muito cedo pelos bonecos. Conheci o Professor Sá Lemos mas não a Ti Ana das Peles, muito embora o seu neto Florimundo Estrela (pintor) me tenha falado bastas vezes dela e dos seus bonecos. Conheci muito bem o Mestre Mariano Alfacinha: estou a vê-lo na sua mesa de trabalho na Escola Industrial com uma agilidade impressionante a fazer bonecos sobre bonecos. Depois a pintá-los, mas, com tintas feitas por ele. Eram terras de várias cores e aditivos que eu não entendia. Que maravilha aquelas cores não brilhantes. O tempo passava e eu ali perdido, ganhando o espetáculo que me ficou na retina e na saudade.
Fui para longe e Mestre Mariano para mais longe ainda após estúpido desastre. Vim encontrar a sua esposa, a Liberdade, e sua irmã (dele) Sabina, trabalhando os bonecos e pouco depois a filha do Mestre Mariano e minha colega e amiga de escola, a Maria Luísa, de quem guardo orgulhosamente, entre outos, um Cristo Alentejano.
Tudo na vida evolui. O que foi ontem será diferente amanhã. Até há quem afirme que a tradição não existe! Quando o Armando Alves evoca o mestre José Moreira dizendo que ele tinha no quintal uns tanques onde transformava a terra em barro, remoí de novo um desgosto que tenho há muito. Se outrora tínhamos as bilhas (outro desgosto), as célebres bilhas, os barros de Estremoz… que em todo o lado eram falados: - O barro de Estremoz, faz a água fresca…
Infelizmente foram-se as bilhas. Salvaram-se os bonecos. Mas com barro importado. Que pena!  
Manuel Xarepe
Antropólogo
(Texto publicado no jornal E nº 193, de 08-02-2018)