O glutão (1804). George
Emmanuel Opiz (1755-1841).
Gouache sobre papel. Colecção
particular.
O meu médico assistente
contou-me que há tempos atrás assistira num auditório a um impropério saído da
boca de uma figura pública, digno senão de um burgesso, pelo menos de um
bigodudo cabo de esquadra. O clínico tê-lo-á prevenido:
- “Meu caro Senhor, tem
que ter cuidado com aquilo que mete na barriguinha!”
Escudando-se no segredo
profissional, mas sem me convencer, o meu físico asseverou-me:
- “Não é ninguém das sua
relações!”.
Perguntei-lhe então:
- “Senhor doutor, porque
é que fez aquela advertência à criatura?”
A resposta foi rápida:
- “É que a incontinência verbal é muitas vezes
fruto de uma digestão mal feita, como consequência de um "empanzinamento" da barriga.
E eu
concordei:
- “Tem
razão senhor doutor. Lá diz o rifão: “Pela boca morre o peixe”.”
E como
colector do adagiário popular, acrescentei de seguida:
- Mas há mais, senhor doutor: “Comer toda a vianda,
tramar toda a maleita”, “Boa mesa, mau testamento”, “Por comidas e ceias estão
as sepulturas cheias”, “Mais mata a gula que a espada”, “A mesa tem morto mais
gente que a guerra” e “Mais matou a ceia, que sarou avincena”.
O meu “João Semana” concluiu então:
- “Tem
razão Hernâni, ambos percebemos da “poda”!”.
Todavia,
ainda teve uma resposta da minha parte:
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