segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Poesia portuguesa - 088


 

Fado de não morrer
António Simões (1934- )

Não morreste, eu não deixei,
De mim não te afastaste,
Obediente à minha lei
De não deixar morrer a haste
Da árvore que eu plantei,
E em minha alma ficaste.

Os amigos que perdi,
Ao pé de mim sempre vão,
Tenho-os todos aqui, 
Dentro do meu coração.
Foi para isso que eu nasci:
Não deixar morrer ninguém,
Nem pai, nem filho, nem mãe.
Batam palmas, ovação,
Que eles bem vivos estão:
Os que se julgam perdidos,
Trago-os presos aos sentidos
Aos gestos do dia-a-dia;
Vejo-os em todo o lado,
Tal como eram outrora.
Por isso canto este fado
Cheio da pura alegria
Onde a vida se demora
E a morte não tem lugar.
Vamos lá todos cantar,
Amigos, chegou a hora
De celebrarmos a vida –
Tudo feito de tal sorte,
Com força tão desmedida,
Que para longe fuja a morte,
E fique lá esquecida
No mais remoto lugar:
Amigos, vamos cantar!

António Simões (1934- )
Hernâni Matos