quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

De Arraiolos não vêm só tapetes


Capa de Alberto de Souza (1880-1961) para o livro “TAPETES DE ARRAYOLOS”,
editado em 1917 por D. Sebastião Pessanha (1892-1975).

É um tremor de terra, Hernâni!
Era um fim de manhã soalheiro de Janeiro. Sentado à secretária, filigranava uma farpa literária destinada a alguém, que algures dela é merecedor. Da cozinha chegava-me às narinas um olor carnal a ensopado de borrego que apurava no fogão. O aroma das especiarias excitava-me o olfacto e o palato.
De repente, sinto um abanão que me induz a vibrar solidariamente com a casa onde moro. Simultanea e sincronicamente, as vidraças da janela começam a tremer com um nervoso que nada tinha de miudinho. Como sou um penso rápido, disse para comigo mesmo:
- “ É um tremor de terra, Hernâni!”
Não deu para rezar a Santa Bárbara, já que não se tratava dum castigo do Céu. Aquilo era obra do Demónio, congeminada nas entranhas da Terra. Havia que sair rapidamente de onde estava, pelo que me levantei da cadeira como que impulsionado por uma mola. Atravessei a sala de jantar, na qual o lustre oscilava e os copos tilintavam nas cristaleiras, em sintonia com as vidraças. Era um concerto para fugir dali. Por isso, desci dois lances de escada a uma velocidade que só eu sei, no que fui acompanhado pela patroa. Chegados à rua, não se falava noutra coisa e cada um relatava a sua experiência pessoal.
Tem a palavra o IPMA
Decorrido algum tempo, o IPMA divulgou a seguinte nota informativa, a qual foi transmitida pelos média:
“O sismo que ocorreu às 11:51 (UTC), com uma magnitude ML=4.9, localizou-se na região NE de Arraiolos, perto de Aldeia da Serra. O hipocentro (preliminar) tem as coordenadas 38.779 N, 7.960 W e a profundidade de 11.8 km.
Indicando um mecanismo focal em desligamento direito, compatível com as determinações realizadas para sismos que ocorreram anteriormente na mesma região, de que é exemplo o sismo ocorrido em 31 de julho de 1998 com magnitude 4.
Este sismo ocorre numa conhecida área de sismicidade, designada habitualmente por “cluster sísmico” de Arraiolos, onde os acidentes morfológicos e os estudos geológicos apontam para uma orientação dominante WNW-ESE. A origem destes sismos está associada a uma zona de transição entre uma área relativamente calma sismicamente a norte, e uma área mais ativa sismicamente a Sul, dentro de uma zona denominada “Zona de Ossa-Morena”, caracterizada por soco Paleozóico da Península Ibérica que no Alentejo apresenta falhas orogénicas WNW-ESE e falhas frágeis tardi-variscas (pós-orogénicas) com a mesma orientação. A morfologia e em particular a rede drenagem tem a mesma orientação desta fracturação.
O IPMA enviou já uma equipa de sismologistas para realizar o inquérito macrossísmico na região. Este inquérito é importante para a caracterização do risco sísmico na região.”
13 badaladas na Torre dos Congregados
Entretanto, soaram 13 badaladas na Torre dos Congregados. Foi como que um toque de clarim, em jeito de ordem para eu dispersar. Tinha chegado a hora regimental de começar a dar ao dente e iniciar a mastigação. Chegado a casa, as escadas foram mais fáceis de subir que de descer, ao contrário do que se passou com Veloso, tal como nos relata Camões no Canto V dos Lusíadas.
O ensopado não se escapou, tal como o borrego não se tinha escapado e daí a razão de haver ensopado. A pinga também não se escapou e desta feita tive direito a reforço, já que com o estremeção não ganhara para o susto.
A feitura desta crónica interrompeu a farpa literária que tinha entre mãos. Alguém terá dito:
- “Enquanto o pau vai e vem, folgam as costas!”
A isso eu respondo:
- “Deixa estar, que não perdes pela demora!”

Hernâni Matos 
Reporter de abanões e tudo
(Texto publicado no jornal E nº 192, de 25-01-2018)