sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Aníbal Falcato Alves

ANÍBAL FALCATO ALVES (1921-1994).
Fotografia do cineasta Manuel Costa e Silva (1938-1999).

Decorridos quase 20 anos, respigo este texto, armazenado na poeira dos arquivos. Os amigos e a saudade deles, são do melhor que há no mundo. A sua memória e o exemplo de vida, são incentivos à luta e à resistência.
 
CARTA ABERTA UM AMIGO QUE PARTIU

Aníbal:

Partiste inesperadamente, deixando-nos a todos surpresos e chocados. A Natália, os teus filhos, o resto da tua família, os companheiros e os amigos não estavam à espera de uma coisa destas. Claro que eu também não.
Daí a razão desta carta aberta, na qual é suposto que eu esboce o leu retrato, o que convenhamos não é uma tarefa nada fácil. Socorrendo-me do António Simões começarei por dizer-te que: "Fosse como fosse que te descrevesse, seria impossível dar o teu retraio de corpo inteiro. Quem, como tu, se identifica com o húmus da terra que pisa, com o sangue do seu povo, e tem sempre a alma de mesa posta, pronta a acolher os amigos, não cabe nesta folha A4 de 80 gramas em que dactilografo o teu retrato, pois o meu papel de escrita preferido, apesar da sua densidade, não é capaz de suportar esse peso-pesado de coragem e ternura que tu és."
Apesar da dificuldade atrás enunciada, não resisto a fazer de li, este esboço a lápis, ciente de que todos perdoarão, tu incluído, a minha falta de jeito para o desenho verbal.
Lembro-me de, ainda puto de liceu, te ter conhecido de boina basca na cabeça, montado na tua inseparável pasteleira. E foi tal o fascínio que exerceste sobre mim, que eu incapaz de te imitar noutras coisas, copiei de ti a boina basca e a pasteleira, das quais fiz largo uso durante vários anos. Nessa altura eras caixeiro na Tabaqueira e com o Armando Carmelo, o Joaquim Vermelho e o Zé Cachila eras um dos animadores do Cine Clube de Estremoz. Como este, outro não houve. Aqueles programas com as tuas belas gravuras, os ciclos, as sessões comentadas, os debates. Ali, eu e outros putos como eu, aprendemos a ver cinema, a apreciar pintura e música, a conviver, a participar e a resistir e a dizer não. Que bela escola que foi o Cine Clube!
Mais tarde abriste a tua própria Livraria e Papelaria ali na rua 5 de Outubro, onde antes tinham sido a Loja do Thomé e a Loja do Boneco. Ali nos arranjavas os livros proibidos pela censura fascista e que tu corajosamente nos vendias como quem semeia liberdade. Por isso, mais que simples loja era um espaço de convívio e de resistência.
Por essa época, há muito que calcorrearas o Alentejo de lés a lés, sozinho ou com o Giacometti ou o Lopes Graça. E o que tu não fizeste! Tu foste arqueólogo amador e tu fizeste um levantamento etnográfico, sociológico e artístico, cuja dimensão está ainda por avaliar. Ele foi a recolha do genuíno artesanato alentejano, o levantamento fotográfico dos trabalhos do campo, a recolha de poesia popular e de tradições orais, as receitas da gastronomia popular alentejana, as entrevistas com os assalariados rurais, etc, etc.
Foi o teres sabido desde sempre ires beber às raízes mais profundas do povo alentejano, que te deu a tua enorme sabedoria, a tua oralidade transbordante e uma enorme força de viver com a qual contagiavas os que tinham o privilégio de contigo conviver.
Aí pêlos cinquenta anos resolveste mudar de vida e vá de ingressares no Ensino como professor de Trabalhos Manuais primeiro e como orientador pedagógico depois. As tuas mãos nervosas de artista criando beleza levaram o Rogério Ribeiro a dizer que: "Se hoje nos trazes papeis que recortas, afeiçoas, justapões e colas, se ontem sulcavas o linóleo ou a madeira como quem lavra a terra, ou estendias o branco que te inundou os quadros, é porque querias e queres, manter fresca e viva a raiz do pensamento."
Que eu saiba, expuseste pela primeira vez em 1963 no Salão de Primavera, na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa e, a última vez na Biblioteca Municipal do Redondo. No catálogo desta última exposição, que de fotografias se tratava, fez o Armando Carmelo o seguinte retrato: "Aníbal Falcato Alves esteve, desde sempre e com entusiasmo vibrante, ligado a todas as iniciativas culturais da sua terra de origem, muitas das quais ajudou a criar e a subsistir, mercê do empenho pessoal desinteressado que, sempre, por todas elas, demonstrou."
Em 1985, tu, o João Albardeiro, o Jacinto Varela, o Armando Alves e o João Paulo ergueram na Feira de Maio, a "Cozinha dos Ganhões" onde foram promovidos como nunca a cozinha regional alentejana e os vinhos alentejanos. Saiu então o livro de receitas "Cozinha dos Ganhões" do qual foste obreiro. Recentemente publicaste "Os comeres dos Ganhões" onde destacaste o aspecto social dos comeres dos trabalhadores alentejanos. Sem sombra de duvida, que este teu livro foi o último grande amor que te conheci.
Homem livre, sem peias nem no pensamento nem na acção, foste desde sempre solidário. Daí o teu empenhamento desde sempre na luta política e de uma forma mais destacada desde a campanha eleitoral do General Norton de Matos. Nas grandes batalhas estiveste sempre presente no teu posto. No Portugal renascido pudeste publicamente assumir a tua condição de militante comunista, que a tua opção de homem livre e solidário fora há muito tomada. Daí que no passado dia 2 de Julho, após a tua partida, tenha ouvido o companheiro Alexandre Rodrigues, dizer aos muitos amigos presentes: "A melhor homenagem que podemos prestar, ao amigo, ao companheiro, ao camarada Aníbal Falcato é prosseguirmos também nós, com a mesma determinação e confiança a luta por um Alentejo de progresso e bem estar, com os olhos postos no seu elevado exemplo."
Vou terminar Aníbal, que esta carta já vai longa. O resto fica para falarmos um dia. Até lá, adeus e até sempre!
Um forte abraço do amigo:

(Em Estremoz, aos oito de Julho de mil novecentos e noventa e quatro)