domingo, 6 de janeiro de 2013

Adagiário do ano

Cenografia do sistema mundial de Copérnico, mapa celeste do cartógrafo Andreas Cellarius
(c. 1596-1665), conhecido pelo seu Harmonia Macrocosmica de 1660, um atlas celeste publicado
 por Johannes Janssonius em Amsterdão. Neste mapa vêem-se as posições relativas dos planetas em
relação ao Sol, as respectivas órbitas e os planos astrológicos completados com os signos do Zodíaco.

Conceito de ano
O ano é o período de tempo que a Terra gasta a fazer uma revolução completa em torno do Sol. Os anos têm uma duração aproximada de 365 dias, 5 horas, 49 minutos e 12 segundos. Todavia como não pode haver todos os anos um 366º dia com as cerca de 6 horas sobrantes, no calendário gregoriano efectua-se, a cada quatro anos, um acerto no calendário e adiciona-se mais um dia ao ano, sendo que este ano se denomina bissexto.
É habitual falar-se também em ano agrícola. Tradicionalmente, o início deste, como de toda a faina agro-pastoril, não tinha data marcada. Começava com as primeiras chuvas do Outono, que surgiam mais ou menos pelo São Miguel, a 29 de Setembro. Actualmente em termos de gestão agrícola, ano agrícola é o período de tempo correspondente à plantação, colheita e comercialização da safra agrícola.
Fala-se ainda de tempo agrícola ou seja a época do ano que é melhor para se realizar uma determinada cultura, obtendo assim o melhor aproveitamento do solo.
O adagiário do ano é vasto e foi por nós sistematizado em cinco grandes grupos:
- O ano como medida do tempo
- Qualificação do ano
- O contexto social
- Adjectivação do ano agrícola
- Adagiário do ano e meses agrícolas
Passemos cada um desses grupos em revista.

O ano como medida do tempo
O ano é uma unidade usada como medida de tempo:
- Maior é o ano que o mês.
- Não há mal que cem anos dure, nem bem que os ature.
- O que perde o mês, não perde o ano.
- Quem veste ruim pano, veste duas vezes no ano.
- Remenda o pano, durar-te-há outro ano.
- Uma sebe dura três anos, três sebes um cão, três cães um cavalo, três cavalos um homem, três homens um corvo, três corvos um elefante.

Qualificação do ano
O ano pode ser qualificado de bom:
- Ano bom passa rápido.
- Em bom ano e em mau ano, aveza bem o papo.
- Quem bem se estreia, bom ano lhe venha.
Pode também ser qualificado de mau:
- Longo e estreito, como o ano mau.
- Mau ano hás de aguardar, por não empeorar.
- Mau ano hás-de aturar, com medo de piorar.
- Não há mau ano por muito pão.
- Não há mau ano por pedra, mas ai de quem acerta.
- O mau ano entra nadando.
- O mau ano tem os dias longos.
Pode igualmente ser qualificado de caro:
- Ano caro, padeira em todo o cabo.
Pode ainda ser qualificado de novo:
- Ano novo, vida nova.
Pode até ser qualificado de tardio:
- Antes ano tardio do que vazio.
- Melhor é ano tardio que ano vazio.
Todavia há quem dê o conselho:
- Não digas mal do ano até que seja passado.

O contexto social
Como lapso de tempo, o ano é determinante no contexto social:
- A boa safra de uvas dum ano compensa a má do outro ano.
- Ao cabo de um ano, tem o criado as manhas do amo.
- Foi Maria ao banho, teve que contar todo o ano.
- Homem necessitado, cada ano apedrejado.
- Juiz da aldeia, um ano no mando, outro na cadeia.
- Mais pró faz o ano que o campo bem lavrado.
- Metade do ano, com arte e engano; outra metade, com engano e arte.
- O longo uso dos anos se converte em natureza.
- Os anos dão experiência.
- Pão e vinho, um ano meu outro do meu vizinho
- Quem num ano quer ser rico, ao meio o enforcam.
- Um ano de Coimbra vale por três de tarimba.
- Uma vez no ano, essa com dano.

Adjectivação do ano agrícola
O contexto agro-pastoril leva a adjectivar o ano agrícola de múltiplas formas. Assim, o ano é:...de amargura, ...de ameixas, ...de beberas,...de bugalhos,...chuvoso,...de corrilhão, ...de fartura,...de lavrador, ...de linho,...de muito chocalho,...de neve,...de ovelhas,...de pão,...de peras,...de pouco pasto,...de queixas,...de trabalhos,...de trigo,...de vinho. É o que mostram os adágios:
- Ano de ameixas, ano de queixas.
- Ano de bêberas nem de peras, nunca o vejas.
- Ano de bugalhos, ano de trabalhos.
- Ano de corrilhão, ano de pão.
- Ano de fartura, ano de amargura.
- Ano de lavrador, não é de pescador.
- Ano de linho, ano de vinho.
- Ano de muito chocalho e pouco pescoço.
- Ano de neve, paga o que deve.
- Ano de neves, ano de bens.
- Ano de neves, muito pão e muitas crescentes.
- Ano de ovelhas, ano de abelhas.
- Ano de pouco pasto, de muito rasto.
- Ano de trigo, ano de peras.
- Em ano bom o grão é feno e em ano mau a palha é grão.
- Em ano chuvoso, o diligente é preguiçoso.
- Em ano chuvoso, todo o diligente é preguiçoso.
- Em ano de fome não há ruim pão.
- Em ano geado há pão dobrado.

Adagiário do ano e meses agrícolas
 No adagiário português, o adagiário do ano tem a ver predominantemente com os meses agrícolas e as fainas agro-pastoris. Temos assim:
JANEIRO
- Água de Janeiro, todo o ano tem concerto.
- Janeiro geoso e Fevereiro chuvoso fazem o ano formoso.
- Janeiro geoso, Fevereiro nevado, Março frio e ventoso, Abril chuvoso e Maio pardo, fazem o ano abundoso.
- Janeiro geoso, Fevereiro nevoso, Março mulinhoso, Abril chuvoso, Maio ventoso, fazem o ano formoso.
- Janeiro geoso, Fevereiro nevoso. Março frio e ventoso, Abril chuvoso e Maio pardo, fazem um ano abundoso.
- O bom tempo de Janeiro faz o ano galhofeiro.
- Se gela no São Suplício, haverá ano propício
FEVEREIRO
- Chuva em Dia das Candeias, ano de ribeiras cheias.
- Fevereiro chuvoso faz o ano formoso.
- Janeiro geoso e Fevereiro chuvoso fazem o ano formoso.
- Janeiro geoso, Fevereiro nevado, Março frio e ventoso, Abril chuvoso e Maio pardo, fazem o ano abundoso.
- Janeiro geoso, Fevereiro nevoso, Março mulinhoso, Abril chuvoso, Maio ventoso, fazem o ano formoso.
- Janeiro geoso, Fevereiro nevoso. Março frio e ventoso, Abril chuvoso e Maio pardo, fazem um ano abundoso.
MARÇO
- Janeiro geoso, Fevereiro nevado, Março frio e ventoso, Abril chuvoso e Maio pardo, fazem o ano abundoso.
- Janeiro geoso, Fevereiro nevoso, Março mulinhoso, Abril chuvoso, Maio ventoso, fazem o ano formoso.
- Janeiro geoso, Fevereiro nevoso. Março frio e ventoso, Abril chuvoso e Maio pardo, fazem um ano abundoso.
- Março amoroso, Abril chuvoso, Maio ventoso, São João calmoso, fazem o ano formoso.
- Março amoroso, Abril ventoso e Maio remeloso, fazem o ano formoso.
- Março chuvento, ano lagarento.
- Não choveu até ao dia de S. José, ano de seca é.
- Natal ao sol, Páscoa ao fogo, fazem o ano formoso.
- Nos bons anos agrícolas, o Natal passa-se em casa e a Páscoa na rua.
- Para o ano ser bom, passar o Natal na rua e a Páscoa em casa.
ABRIL
- A ti, chova todo o ano, e a mim, Abril e Maio.
- Abril chuvoso e Maio ventoso fazem o ano formoso.
- Abril e Maio são as chaves de todo o ano.
- Abril e Maio, chaves do ano.
- Abril molhado, ano abastado.
- Chova-te o ano todo, mas a mim, Abril e Maio.
- Em Abril e Maio, moenda para todo o ano.
- Entre Abril e Maio, moenda para todo o ano.
- Janeiro geoso, Fevereiro nevado, Março frio e ventoso, Abril chuvoso e Maio pardo, fazem o ano abundoso.
- Janeiro geoso, Fevereiro nevoso, Março mulinhoso, Abril chuvoso, Maio ventoso, fazem o ano formoso.
- Janeiro geoso, Fevereiro nevoso. Março frio e ventoso, Abril chuvoso e Maio pardo, fazem um ano abundoso.
- Março amoroso, Abril chuvoso, Maio ventoso, São João calmoso, fazem o ano formoso.
- Março amoroso, Abril ventoso e Maio remeloso, fazem o ano formoso.
- Natal ao sol, Páscoa ao fogo, fazem o ano formoso.
- Nos bons anos agrícolas, o Natal passa-se em casa e a Páscoa na rua.
- Para o ano ser bom, passar o Natal na rua e a Páscoa em casa.
- Quem em Abril não varre a eira e em Maio não rega a leira, anda todo o ano em canseira.
MAIO
- A chuvinha da Ascensão todo o ano dará pão.
- A ti, chova todo o ano, e a mim, Abril e Maio.
- Abril chuvoso e Maio ventoso fazem o ano formoso.
- Abril e Maio são as chaves de todo o ano.
- Abril e Maio, chaves do ano.
- Água de Maio, pão para todo o ano.
- Chova-te o ano todo, mas a mim, Abril e Maio.
- Do mês de Maio o calor, de todo o ano, o valor.
- Em Abril e Maio, moenda para todo o ano.
- Em Maio, o calor, a todo o ano dá valor.
- Entre Abril e Maio, moenda para todo o ano.
- Janeiro geoso, Fevereiro nevado, Março frio e ventoso, Abril chuvoso e Maio pardo, fazem o ano abundoso.
- Janeiro geoso, Fevereiro nevoso, Março mulinhoso, Abril chuvoso, Maio ventoso, fazem o ano formoso.
- Janeiro geoso, Fevereiro nevoso. Março frio e ventoso, Abril chuvoso e Maio pardo, fazem um ano abundoso.
- Maio chocoso e Junho claroso, fazem o ano formoso.
- Maio chocoso, ano formoso.
- Maio chuvoso torna o ano formoso.
- Maio chuvoso, ano formoso.
 - Maio claro e ventoso, faz o ano rendoso.
- Maio frio e ventoso, faz o ano formoso.
- Maio pardo e ventoso, faz o ano formoso.
- Maio pardo e ventoso, faz o ano venturoso.
- Maio pardo, ano claro.
- Maio pardo, ano farto e ventoso, ano formoso.
- Maio pardo, ano farto.
- Maio pardo, faz o ano farto.
- Maio ventoso, ano formoso.
- Maio ventoso, ano rendoso.
- Maio venturoso, ano venturoso.
- Março amoroso faz o ano formoso.
- Março amoroso, Abril chuvoso, Maio ventoso, São João calmoso, fazem o ano formoso.
- Março amoroso, Abril ventoso e Maio remeloso, fazem o ano formoso.
- Quando em Maio arrulha a perdiz, ano feliz.
- Quando em Maio não troa, não é ano de broa.
- Quem em Abril não varre a eira e em Maio não rega a leira, anda todo o ano em canseira.
- Sáveis em Maio, maleitas todo o ano.
JUNHO
- Junho calmoso, ano formoso.
- Junho chuvoso traz ano perigoso.
- Maio chocoso e Junho claroso, fazem o ano formoso.
- Março amoroso, Abril chuvoso, Maio ventoso, São João calmoso, fazem o ano formoso.
JULHO
- Julho calmoso faz o ano formoso.
AGOSTO
-  Corra o ano como for, haja em Agosto e Setembro calor.
SETEMBRO
- Corra o ano como for, haja em Agosto e Setembro calor
- Para o ano não ir mal, hão-de os rios três vezes encher, entre o São Mateus e o Natal.
- Para que o ano não vá mal, hão-de encher os rios três vezes entre S. Mateus e o Natal.
- Quem planta no Outono leva um ano de abono.
- Se houvesse dois S. Miguéis no ano, não havia moço que parasse no amo.
OUTUBRO
- Outubro chuvoso faz ano venturoso.
- Para o ano não ir mal, hão-de os rios três vezes encher, entre o São Mateus e o Natal.
- Para que o ano não vá mal, hão-de encher os rios três vezes entre S. Mateus e o Natal.
- Quem planta no Outono leva um ano de abono.
NOVEMBRO
- Para o ano não ir mal, hão-de os rios três vezes encher, entre o São Mateus e o Natal.
- Para que o ano não vá mal, hão-de encher os rios três vezes entre S. Mateus e o Natal.
- Pelo São Martinho prova o teu vinho; ao cabo de um ano já te não faz dano.
- Quem planta no Outono leva um ano de abono.
- Se em Novembro ouvires trovão, o ano que vem será bom.
DEZEMBRO
- Assim como vires o tempo de Santa Luzia ao Natal, assim estará o ano, mês a mês até ao final.
- Em Dezembro quem vai ao São Silvestre, vai um ano, vem no outro e não se despe.
- Não há ano, afinal, que não tenha o seu Natal.
- Natal ao sol, Páscoa ao fogo, fazem o ano formoso.
- Nos bons anos agrícolas, o Natal passa-se em casa e a Páscoa na rua.
- O ano vai mal, se não há três cheias antes do Natal.
- Para o ano não ir mal, hão-de os rios três vezes encher, entre o São Mateus e o Natal.
- Para o ano ser bom, passar o Natal na rua e a Páscoa em casa.
- Para que o ano não vá mal, hão-de encher os rios três vezes entre S. Mateus e o Natal.
- Quem planta no Outono leva um ano de abono.