quarta-feira, 15 de abril de 2020

Bonecos de Estremoz: a Literatura de Tradição Oral


Assobios compostos: Sargento a cavalo, Amazona e Peralta a cavalo. Irmãs Flores.

O conjunto dos Bonecos da Tradição incorpora entre outros apitos, três figuras a cavalo: Amazona, Peralta a cavalo e Sargento a cavalo. Estas imagens têm base rectangular e o apito está localizado na cauda do cavalo. Um rolo de barro foi aí colado com barbotina e depois furado com um arame grosso da base exterior do rolo para o interior, até cerca de metade do comprimento. Na parte superior do rolo foi depois efectuado outro furo, até encontrar o primeiro. Esta particularidade da manufactura dos apitos induziu a que, no domínio dos ditos e apodos colectivos, aplicados aos estremocenses, se dissesse “Têm o apito no cú” [David de Morais (1)]. Daí que, quando alguém disparava um traque, acompanhado ou não de pestilenta semeadura de fedores fecais, se dissesse: “És como os de Estremoz: tens o apito no cú” (1). Outro dito e apodo colectivo aplicado aos estremocenses era o de “Bonecos” [Soeiro de Brito (5)], numa clara alusão à produção de figuras em barro de Estremoz. De acordo com este autor, quando faltava qualquer coisa, costumava dizer-se: “Então o que quer que lhe faça? Quer que o mande vir de Estremoz?” Por outro lado (2) “Há curiosidades dispersas nos dizeres da região, a respeito de perfeições físicas ou morais que se exigiam a uma pessoa: - olha “se queres mais perfeito, manda-o fazer de barro de Estremoz”, ou esta outra: - “Queres noiva como desejas, só no Outeiro de Estremoz. Pintam-se e são bôas de génio”. Também Portugal Dias (4) refere “…a fama proverbial dos Bonecos de Estremoz exaltada em ditos familiares quasi sempre alusão ás perfeições moraes de qualquer: - “Só feito de encomenda em Estremoz” – “Se queres melhor manda-o vir de Estremoz!”… - e ainda na intenção satírica da quadra: 

“Vergonha da minha cara
Se contigo tenho amores!
- Se quizesse amar bonecos…
Mandava-os vir de Estremores.”

Até na ironia da cantiga se contem a ideia de superioridade do boneco de barro que ao menos não tem falhas moraes. - Só feitos de encomenda, concerteza!” A nível de cancioneiro popular é conhecida a moda alentejana “Se eu quisesse amar bonecos”, recolhida em Reguengos de Monsaraz por Pombinho Júnior (3):

“Se eu quisesse amar bonecos,
Mandav’òs vir de ‘Stremôris,
Vergonha da minha cara
Se eu contigo tinha amôris.

Se eu contigo tinha amôris,
Se eu era o tê namorado,
Mandav’òs vir de ‘Stremôris,
Mandav’òs vir do Chiado!”

Os exemplos apontados mostram bem como os Bonecos de Estremoz estão perpetuados na literatura oral, um filão com potencial que urge explorar, para bem da Cultura Popular.

BIBLIOGRAFIA
(1) - DAVID DE MORAIS, J. A. Ditos e Apodos Colectivos. Colibri. Lisboa, 2006. (pág. 55)
(2) - Indústrias em Estremoz – mármores e barros in Brados do Alentejo nº 210, 3/2/1935. Estremoz, 1935 (pág. 17).
(3) - POMBINHO JÚNIOR, J.A. Cantigas Populares Alentejanas. Maranus, 1936.
(4) - PORTUGAL DIAS, Maria. A Vida Eterna das Cousas, Tradição e Arte I in Brados do Alentejo nº 8, 22/03/1931. Estremoz, 1931 (pág. 5).
(5) - SOEIRO DE BRITO, J.M. Ditados tópicos alentejanos. Tipografia Progresso. Elvas, 1938 (pág. 17).
Publicado inicialmente a 15 de Abril de 2020

sábado, 11 de abril de 2020

Bonecos de Estremoz: Miguel Gomes e Célia Freitas


Miguel Gomes (1957-  ) e Célia Freitas (1966-  ).

Miguel Gomes (1957- ) e Célia Freitas (1966- ): Miguel Joaquim Serol Gomes é natural da freguesia de Rio de Moinhos, concelho de Borba, onde nasceu em 1957. Com o seu pai Manuel António Capelins, que se viria a fixar em Estremoz na freguesia de Santa Maria, aprendeu a confeccionar artefactos de arte pastoril. Sua mulher, Célia Maria Costa Freitas nasceu em Estremoz em 1966. Só depois de se casar começa a executar o mesmo tipo de artefactos que o seu marido Miguel Gomes. O interesse manifestado por Célia Freitas na modelação do barro, aliado a algumas condicionantes de natureza pessoal, estiveram na origem de o casal, a partir de 1986, se dedicar apenas à modelação de Bonecos, o que fizeram em grande parte por autoformação. Participaram desde sempre na FIAPE em Estremoz e na Feira Nacional de Artesanato em Vila do Conde. Motivos de natureza pessoal levaram-nos a transferir a sua oficina, primeiro para Elvas e depois para Monte Gordo, onde residem na actualidade. O seu “Atelier Memórias e Tradições”, situa-se na Rua Pedro Álvares Cabral, nº 30, loja 1. Aqui comercializam os seus Bonecos. Em Estremoz fazem-no na loja “Artesanato José Saruga”, no Rossio Marquês de Pombal, 98 A, assim como no Artesanato Santo André, na Rua da Misericórdia, 2.


Hortelão no mercado de Estremoz (Homenagem a Isaurindo Figueiredo).
Miguel Gomes (1957-  ). Recolhido com a devida vénia da página do
Facebook "A Horta do Ti Henrique".

Namoro no poço. Miguel Gomes (1957-   ) e Célia Freitas (1966-  ).

O Amor é Cego. Miguel Gomes (1957-   ) e Célia Freitas (1966-  ).

sábado, 4 de abril de 2020

Poesia Portuguesa - 097



Salgueiro Maia
Manuel Alegre (1936-  )

Ficaste na pureza inicial
do gesto que liberta e se desprende.
Havia em ti o símbolo e o sinal
havia em ti o herói que não se rende.

Outros jogaram o jogo viciado
para ti nem poder nem sua regra.
Conquistador do sonho inconquistado
havia em ti o herói que não se integra.

Por isso ficarás como quem vem
dar outro rosto ao rosto da cidade.
Diz-se o teu nome e sais de Santarém

trazendo a espada e a flor da liberdade. 

Manuel Alegre (1936-  )

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Bonecos de Estremoz: Fátima Lopes


A barrista Fátima Lopes a ensinar os mais novos a trabalhar com a roda. Actividade
incluída na iniciativa  “VIRVER MUSEUS - SEMANA DOS MUSEUS EM ESTREMOZ”. Fotografia
de Maio de 2008, recolhida com a devida vénia no blogue do Museu Municipal de Estremoz.

Em 2017, Fátima Alves Lopes (1974- ), natural de São Bento do Cortiço, ceramista e formadora certificada, realiza uma breve incursão na feitura de Bonecos de Estremoz, tendo produzido um número diminuto de exemplares e tipos, os quais comercializou na FIAPE e no Museu Municipal de Estremoz.


Senhora de pézinhos.

Senhora a servir o chá.

domingo, 29 de março de 2020

Bonecos de Estremoz: Paulo Cardoso


Paulo Cardoso (1968- ) na actualidade.
Fotografia recolhida com a devida vénia no Facebook do ex-barrista.


Nos anos 80-90 do séc. XX, Paulo Jorge Menino de Ouro Cardoso (1968- ), que foi oleiro na Olaria Alfacinha, manufacturou Bonecos após aprendizagem com Quirina Alice Marmelo. A comercialização dos mesmos era feita na loja “Artesanato Isabel”, na Rua da Frandina, n.º 8, em Estremoz.
Actualmente é industrial de restauração, em Évora.

Hernâni Matos

Pastor.

Bailadeira grande.

Bailadeira grande.

quinta-feira, 26 de março de 2020

Bonecos de Estremoz: Jorge Carrapiço


Jorge Carrapiço (1968-   ), barrista e músico.

LER AINDA

Jorge Manuel Garrido Carrapiço (1968- ) nasceu a 29 de Agosto de 1968 na freguesia Santo André, do concelho de Estremoz. Filho legítimo de Júlio dos Prazeres Carrapiço, de 32 anos, pintor de construção civil, natural da freguesia de Santo André no concelho de Estremoz e de Gertrudes Maria Carrapiço, de 33 anos, doméstica, natural da freguesia de São Bento do Mato no concelho de Arraiolos.
Frequentou o 2º ano do Curso Preparatório e cedo começou a trabalhar como pintor de construção civil. Na actualidade é funcionário do produtor de vinhos “Quinta do Carmo”, em Estremoz.
Aprendeu a modelar o barro, não só com o seu vizinho e pintor de construção civil, Óscar Cavaco, mas também com o seu professor de Trabalhos Manuais, Aníbal Falcato Alves. A sua motivação na modelação do barro entroncará, porventura, no facto de ser bisneto de Ana das Peles, de quem sempre ouviu a família falar.
Modela nas horas vagas numa arrecadação da sua residência, situada na Travessa do Outeiro nº 6, em Estremoz. Coze em mufla eléctrica localizada noutra divisão da sua casa. Tem manufacturado figuras, umas à maneira de Estremoz e outras não. Tem participado em exposições de presépios, promovidas anualmente pelo Museu Municipal de Estremoz.

 Mulher dos carneiros

  Mulher das galinhas

 Mulher dos perús

Mulher a lavar a roupa.

Mulher a passar a ferro.

Mulher das castanhas.

Senhora de pézinhos.

Senhora ao toucador.

Primavera de arco.

Bailadeira grande.
 Bailadeira pequena

 Galo na árvore

 Galo no disco.

terça-feira, 24 de março de 2020

Bonecos de Estremoz: Isabel Pires


Isabel Pires (1955-  ).

Maria Isabel Dias Catarrilhas Pires (1955- ) é natural de Vila Boim (Elvas) e radicou-se em Estremoz nos anos 80 do séc. XX, visto o seu marido ser funcionário da Pousada da Rainha Santa Isabel. Começou a modelar o barro em 1986 por auto-aprendizagem e com alguma orientação de Quirina Alice Marmelo. Inspirou-se nos modelos expostos no Museu Municipal de Estremoz, mas conferindo ao seu trabalho um cunho muito pessoal. Dá um tratamento naturalista às suas figuras, fruto da importância que concede aos pormenores na execução das mesmas. Nesse sentido distancia-se do estilo tradicional de Estremoz. A sua oficina situa-se na sua residência, situada na Rua Nossa Senhora do Carmo lote n.º 37, Bairro da Salsinha, em Estremoz, local onde comercializa os seus Bonecos. Estes são também vendidos na loja “Artesanato José Saruga”, no Rossio Marquês de Pombal, 98 A, bem como no Artesanato Santo André, na Rua da Misericórdia, 2, em Estremoz. Tem participado na FIAPE e em exposições individuais e colectivas organizadas pelo Museu Municipal de Estremoz. Em 2018 participou na Feira de Artesanato em Pendik, Istambul, na Turquia.

Publicado inicialmente em 24 de Março de 2020

 Berço do Menino Jesus - 1.

 Berço do Menino Jesus - 2.

 Presépio de 3 figuras.

  Presépio.

  Presépio de trono.

  Reis Magos.

  Presépio alentejano.

 Última Ceia.

  Santo António.

  São João Baptista.

 São Miguel.

 Rainha Santa Isabel.

Pastor e ceifeira.

 Coqueira.

 Grupo de alentejanos e alentejanas.

 Grupo de cante alentejano.

 Casal de velhotes.

 Jogo do pião.

  Grupo de "Amor é cego".

 Reis negros.

 Cantarinhas e pucarinhos.

 Galo (assobio).

 Pombas no arco (assobio).

 Primavera (assobio).