sexta-feira, 13 de maio de 2022

Lembrança de oleiros finórios

 


O que não é lembrado,
não é dado nem agradecido.
PROVÉRBIO POPULAR

Onde se fala de lembranças

Uma lembrança é um objecto que se compra e se oferece a outrem com a finalidade de despertar em quem o recebeu, a recordação do ofertante e de um determinado local, que tanto pode ser o local onde foi confeccionado, como aquele onde foi adquirido.

Uma vaga lembrança
O prato que é objecto do presente escrito é indubitavelmente uma peça olárica de Redondo, pelo barro, pela tipologia, pela morfologia, pela decoração e pelo cromatismo.
No fundo, esgrafitada e pintada a ocre-castanho, a singela inscrição “LEMBRANÇA”. Não foi necessário complementar aquela inscrição com outra “DE REDONDO”. É que estão lá bem escarrapachadas as marcas identitárias da louça vidrada de barro vermelho, que constituem um dos ex-líbris da vila. A omissão do nome de qualquer localidade no prato, permitia ao louceiro vender o prato de Redondo como lembrança de qualquer outra localidade.

À espera da próxima feira
Em Estremoz, as olarias locais procediam de modo diferente. O vasilhame de barro vermelho não vidrado, era vendido com inscrições relevadas, brasonadas ou não, com os dizeres “LEMBRANÇA DE ESTREMOZ” ou “RECORDAÇÃO DE ESTREMOZ”. Todavia, para venda noutros locais, a palavra ESTREMOZ, era substituída, tanto quanto sei, por ELVAS, ÉVORA, CASTELO DE BODE, TOMAR e possivelmente outras mais. Tal prática tinha os seus inconvenientes, pois as peças que não fossem vendidas numa determinada feira, tinham que ficar à espera da próxima feira no mesmo local.

Moral da estória
A omissão é como que um segredo. Lá diz o rifão: “O segredo é a alma do negócio”. Digam-me lá, se os oleiros de Redondo, eram ou não eram finórios?

quarta-feira, 11 de maio de 2022

Fiape 2022 - Fénix renascida das cinzas



Memórias do passado
Assisti em 1983 ao nascimento da I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz, bem como ao nascimento da Feira da Agricultura, assim como à fusão de ambas naquilo que se viria a designar por FIAPE e que a dada altura se passou a localizar onde actualmente decorre. No presente ano de 2022, após a interrupção de 2 anos pandémicos, teve lugar a 34.ª edição da FIAPE, o que me levou a retroceder no tempo e a reflectir no que aconteceu de há 39 anos a esta parte. Começarei pela Arte Popular e pelo Artesanato. Falarei depois dos restantes componentes da Feira.

Uma viagem ao passado do Artesanato
A nível local e de 1983 para cá, muitos artesãos do concelho deixaram de estar entre nós. Lembro-me de alguns: - BARRISTAS: Sabina da Conceição, Liberdade da Conceição, Maria Luísa da Conceição, José Moreira, António Lino de Sousa, Quirina Marmelo, Aclénia Pereira, Isabel Carona, Arlindo Ginga, Mário Lagartinho; - OLARIA: A Olaria Alfacinha encerrou definitivamente a sua actividade em 1995. A Olaria Regional de Mário Lagartinho deixou de existir com a morte deste, em 2016; - ARTESÃOS DA MADEIRA, DO CHIFRE E DA CORTIÇA: António Joaquim Amaral, Jacinto Lagarto Oliveira, Joaquim Manuel Velhinho, José Carrilho (Troncho), José Francisco Chagas, Manuel do Carmo Casaca, Roberto Carreiras, Teresa Serol Gomes; – ARTE CONVENTUAL: Guilhermina Maldonado; - PAPEL RECORTADO: Joana e Joaquina Simões; PINTURA SOBRE VIDRO: Natália Alves; TRAPOLOGIA: Adelaide Gomes. A nível local houve ainda quem tivesse cessado a sua actividade, devido ao avanço da idade (Joaquim Carriço (Rolo)) , bem como outros que reconverteram a sua actividade (Miguel Gomes).
De 1983 para cá, que o Município de Estremoz procurou a participação de outras regiões do país, não só para dar conta do que aí se faz em termos de artesanato, como para preencher as lacunas deixadas por artesãos locais que, entretanto, faleceram. Durante estes anos todos, nem sempre o Município tratou da melhor maneira os artesãos que nos visitavam, dos quais muitos deixaram de o fazer, por falta de incentivos locais, acrescidos por vezes, de baixo volume de vendas. Para “aguentar o barco”, o Município foi aceitando participações de índole diversa, algumas de artesanato ou suposto artesanato doutras nacionalidades e outras muito dificilmente enquadráveis naquilo que se convencionou designar por artesanato urbano. Com tudo isto, a Feira de Artesanato perdeu qualidade e a FIAPE desprestigiou-se.

E o resto?
O resto foi indo pouco mais ou menos, mais para menos que para mais, mas lá se foi aguentando.

Os sonhos
"Eu tenho um sonho" (“I have a dream”) confessou o pastor norte americano Martin Luther King, ao defender em 1963, a coexistência pacífica entre negros e brancos. À semelhança do que se passou com aquele líder do Movimento Americano pelos Direitos Civis, também eu tive há muito um sonho. O de que um dia seria possível reverter o caminho para o aniquilamento previsível da Feira de Artesanato. Para isso e a meu ver, bastaria que houvesse vontade política para o fazer, o que exigia a existência de um Executivo Municipal com ganas, estratégia, capacidade e meios para o fazer. Ora isso aconteceu com o actual Executivo Municipal, o qual transporta na lapela, o lema: “VIVE – Viver, Investir, Visitar Estremoz”. Também ele ousou sonhar com determinação de vencer e venceu, uma vez “… / Que o sonho comanda a vida / E que sempre que o homem sonha / O mundo pula e avança… ”, como proclama o poema “Pedra Filosofal” de António Gedeão, imortalizado pela voz e pela guitarra inconfundíveis de Manuel Freire.

Sonhos que se tornam realidade
A Feira de Artesanato retomou este ano a sua primitiva dignidade, facto a que não são estranhas as condições concedidas pelo Município aos artesãos visitantes e à maior participação de barristas de Estremoz.
Por ouro lado, no pavilhão B, destacava-se a presença do stand do Município dedicado às artes do barro. Aí era dada ênfase à vitória da candidatura dos Bonecos de Estremoz a Património Cultural Imaterial da Humanidade, que muito honrou o Município e dignificou e valorizou o trabalho dos barristas.
No mesmo local, era igualmente divulgada a realização dum Curso de Olaria, orientado por Xico Tarefa, Mestre Oleiro de Redondo, com um estrito respeito pela tipologia, morfologia e tipos de decoração característicos das peças oláricas de Estremoz. Trata-se de um primeiro, mas importante passo do Município no sentido de recuperar a olaria de Estremoz, considerada extinta com a morte de Mestre Mário Lagartinho em 2016.

A FIAPE 2022 no seu todo
A FIAPE deste ano apresentou um atractivo especial que consistiu em as entradas serem livres, só se pagando as entradas nos concertos, o que fomentou o fluxo de visitantes. A Feira conheceu um novo e mais interessante traçado, expandindo-se em área. A componente agro-pecuária da Feira revelou-se forte como nunca, não só em termos de concursos de gado como exposição-venda de maquinaria agrícola. Houve excelentes representações institucionais e de actividades económicas, assim como de restaurantes e tasquinhas. Ao longo dos 5 dias de Feira, houve animação musical no recinto e espectáculos diversificados e de qualidade, no palco de espectáculos, no palco da Feira e no palco do pavilhão B.
A meu ver. a FIAPE 2022 foi uma aposta ganha pelo Município. Com ela ocorreu uma mudança de paradigma. Para além de ser revertida a regressão que vinha grassando, a Feira viu-se catapultada a um patamar situado num nível mais elevado, que aqui apraz registar. Tudo leva a crer que a Feira venha ainda a crescer, reforçando a sua qualidade e importância, de modo a posicionar-se como uma das maiores do país entre as congéneres. MÃOS À OBRA, JÁ!

Publicado no jornal E n.º 289, de 12 de Maio de 2022

terça-feira, 3 de maio de 2022

Seis esculturas em alto-relevo

 

Fig. 1 - Ceifeira. Irmãs Flores. (1957 -  , 1958 -  ).

Em Junho de 2021 debrucei-me sobre o tema das esculturas em alto-relevo, uma tipologia menos vulgar da barrística de Estremoz. Para tal, ilustrei o meu texto com as imagens de três dessas esculturas, duas das quais da autoria das Irmãs Flores (Fig. 1 e Fig. 2) e a outra da autoria de José Moreira (Fig. 3). Consegui, entretanto, adquirir estas esculturas, as quais passaram a integrar a minha colecção.
Na mesma altura, levantei um desafio aos barristas: “Porquê não retomar a produção deste tipo de figuras?”
Até ao momento, houve três barristas que corresponderam ao meu desafio: Luísa Batalha (Fig. 4), Vera Magalhães (Fig. 5) e Jorge Carrapiço (Fig. 6), cujos trabalhos oportunamente divulguei e passaram desde então a integrar a minha colecção.
É um desafio que continua em aberto, pelo que creio que a minha singular colecção de esculturas em alto-relevo, possa vir ainda a aumentar a sua amplitude.

BIBLIOGRAFIA
MATOS, Hernâni. Esculturas em alto-relevo. [Em linha]. Disponível em: https://dotempodaoutrasenhora.blogspot.com/2021/06/esculturas-em-alto-relevo.html [Consultado em 03 de Maio de 2022].
MATOS, Hernâni. Jorge Carrapiço e a escultura em alto-relevo. [Em linha]. Disponível em: https://dotempodaoutrasenhora.blogspot.com/2022/02/jorge-carrapico-e-escultura-em-alto.html [Consultado em 03 de Maio de 2022].
MATOS, Hernâni. Luísa Batalha e a escultura em alto-relevo. [Em linha]. Disponível em: https://dotempodaoutrasenhora.blogspot.com/2021/09/luisa-batalha-e-escultura-em-alto-relevo.html [Consultado em 03 de Maio de 2022].
MATOS, Hernâni. Vera Magalhães e a escultura em alto-relevo. [Em linha]. Disponível em: https://dotempodaoutrasenhora.blogspot.com/2022/02/vera-magalhaes-e-escultura-em-alto.html [Consultado em 03 de Maio de 2022].


Fig. 2 - Pastor. Irmãs Flores (1957 -   , 1958 -  ).

Fig. 3 - Ceifeira. José Moreira (1926 - 1991).

Fig. 4 - Senhora de pezinhos. Luísa Batalha (1974 -   ).

Fig. 5 - Peralta. Vera Magalhães (1966 -   ).

Fig. 7 - Sargento Jorge Carrapiço (1968 -   ).

quinta-feira, 28 de abril de 2022

Qual morte, qual carapuça!



O presente texto de reflexão foi elaborado
 na sequência da recepção de um email do senhor João Ferro,
 enviado no passado dia 16 de Abril, a todos os colaboradores do Jornal E


O senhor João Ferro queixa-se de que quiseram matar os "Brados", jornal que defende tal como eu, que nele tenho sido cronista em diferentes momentos do seu e do meu percurso de vida. Equaciona ainda se "Valerá a pena, haver na nossa terra dois jornais?". Ora, isto "cheira-me a gato escondido com o rabo de fora". Será que o senhor João Ferro entende que o "Jornal E" deveria acabar? Usando as suas palavras: achará ele que o jornal E, deveria ser morto? Só ele é que poderá responder. E é bom que responda.
Pela minha parte, na qualidade de cronista do "Jornal E" em diferentes momentos do seu e do meu percurso de vida, acho que não. Acho que isso seria um disparate de todo o tamanho.
Na minha perspectiva cívica, ética, cultural e também ideológica, uma sociedade democrática é necessariamente plural. Palavra de honra que me chateia a tentação de alguns de que se cante a uma só voz, o que é terrivelmente monótono. Então não é mais interessante e valiosa a polifonia?
O "Jornal E" e os "Brados" são igualmente respeitáveis, apesar do segundo já ter cabelos brancos e o primeiro ainda não.
Cada um deles tem o seu público e há quem seja público dos dois, como é o meu caso.
Cada um deles é uma voz importante em termos locais e regionais e dá-se o caso de conviverem bem um com o outro.
Parafraseando Ives Montand, diria até que são companheiros de estrada. Ora, é sabido que os companheiros de estrada são livres na sua caminhada. Grande parte do percurso é comum, mas há uma altura em que um deles diz: “- Eu não vou por aí!” E não vai, o que constitui seu legítimo direito. É assim que deve ser em termos da vivência democrática proporcionada pelas "Portas que Abril, abriu”, como oportunamente pregoou o saudoso José Carlos Ary dos Santos.
Daí que eu rejeite liminarmente a “ideia peregrina” do senhor João Ferro e parafraseando o senhor Pinto da Costa, proclame alto e bom som:
- “Cada macaco no seu galho!”
É que não é legítimo nem ético, advogar a morte de alguém, para assegurar a vida a quem já desejaram que morresse, mas não morreu e felizmente está vivo.

Hernâni Matos
Publicado no "Jornal E" n.º 299. de 29 de Abril de 2022.

sexta-feira, 22 de abril de 2022

Joana Santos e o “Ti Manel do tarro”



Ti Manel do Tarro (1922). Joana Santos (1978-  ). 




É sabido que de há largos anos a esta parte, sou coleccionador e estudioso da Arte Pastoril Alentejana. Quer daquela que saiu das mãos de criadores anónimos, como da criada por aqueles que tendo saído do anonimato, me concederam a prerrogativa da sua amizade. Foi o caso do veirense Roberto Carreiras (1930-2017), com quem tive o privilégio e o prazer de privar, bem como com sua esposa Rosa Mariano Machado, no decurso das Feiras de Artesanato em Estremoz.
Roberto Carreiras partiu há 5 anos, completados no transacto dia 8 de Janeiro. No elogio fúnebre (*) que lhe fiz na altura do seu falecimento, disse: “Pessoalmente, orgulho-me de as minhas colecções de Arte Pastoril integrarem especímenes afeiçoados pelas suas mãos, que comandadas pela sua alma de visionário, nunca se renderam à rudeza do uso do cajado e do mester de vaqueiro. Foram mãos hábeis que aliadas a um espírito sensível, conseguiram filigranar e esculpir os materiais com mestria.”
Decorridos 5 anos, a barrista Joana Santos teve acesso a uma excelente fotografia de Isabel Borda d'Água, na qual figura Roberto Carreiras, sentado, a manufacturar um tarro de cortiça. De imediato, pensou em criar um Boneco de Estremoz, que perpetuasse no barro a actividade daquele lídimo representante da Arte Pastoril Alentejana. E se bem o pensou, melhor o fez, para gáudio daquele que viria a ser o seu felizardo destinatário, que como devem ter calculado fui eu.
“Ti Manel do tarro” chamou a barrista à sua criação. Ora, Manuel é um nome bastante comum no Alentejo, pelo que ao cognominar a figura com aquele epíteto, a barrista regionaliza a sua criação, que assim transcende a figuração de Roberto Carreiras e ascende à condição de representação generalista dum mesteiral de Arte Pastoril Alentejana.
Fascinado pela obra da barrista, dei-lhe conta desse meu estado de espírito, através da presente missiva:
"Joana:
O “Ti Manel do tarro” está uma maravilha das maravilhas. É um monumento e simultaneamente um hino à matriz identitária da Arte Popular Alentejana. Digo hino, porque para deleite de espírito, da figura que criou, flui o cante da Alma Alentejana. A mesma alma que conjuntamente com as suas mãos benditas, perpetuou no barro a figura icónica do meu grande amigo, o veirense Roberto Carreiras, uma referência eterna da Arte Pastoril Concelhia.
Bem-haja Joana, por toda a beleza que vem criando e connosco partilha."


(*) – MATOS, Hernâni. Roberto, guardador de vacas e artista popular. [Em linha]. Disponível em:





Roberto Carreiras (1930-2017). Fotografia de Isabel Borda d'Água.

quarta-feira, 20 de abril de 2022

Jorge da Conceição e o Porteiro do Céu

 

Fig. 1 - São Pedro (1984). Jorge da Conceição (1963-  ).

A aparição de São Pedro
As horas são como as cerejas. Atrás de uma vem sempre outra. E foi assim que em Outubro passado, já a desoras, ainda me encontrava vigilante no meu posto de pescador à linha, a ver aquilo que conseguia pescar na internet. Já não me lembro da palavra chave que naquela altura utilizei como engodo no motor de busca do OLX. O que é verdade, é que fui surpreendido pelo aparecimento de “peixe graúdo”.
Tratava-se de uma imagem de São Pedro (Fig. 1), de grandes dimensões, identificada como “Boneco de Estremoz” e que na base ostentava a marca manuscrita “Jorge Conceição / Palmela 1984” distribuída por duas linhas, ladeada à esquerda e um pouco mais abaixo pelo carimbo “ESTREMOZ / PORTUGAL” (2 cm x 0,8 cm), distribuído igualmente por duas linhas. Trata-se de uma marcação (Fig. 2), que por desconhecimento meu não foi inventariada nas págs. 81 e 85 do meu livro (1). Se em 2018, à data de edição do livro, podia dizer “Quem dá o que tem, a mais não é obrigado”, na actualidade impõe-se o preenchimento da lacuna, do que aqui dou conta para usufruto do leitor.
A figura, da autoria do prestigiado barrista Jorge da Conceição Palmela, fora criada há quase quarenta anos, na sua primeira fase de produção. De imediato, contactei o vendedor, revelando o meu interesse na sua aquisição e solicitando o envio de coordenadas bancárias, visando o pagamento do item pretendido. O vendedor respondeu-me na manhã seguinte e eu de imediato, efectuei o respectivo pagamento. O inesperado “achado”, dada a sua natureza, ocupa um lugar de destaque e muito especial na minha colecção.

Onde se fala da sorte
Quem soube do sucedido, logo me disse:
- És um homem de sorte!
E eu repliquei sempre:
- Qual sorte, qual carapuça!
Não fosse eu um internauta persistente, com a mente povoada de sonhos e a ânsia de descobrir o que há para ser descoberto e nunca teria tido a sorte que me atribuem. De resto, a nossa tradição oral regista os provérbios: "Cada qual é artífice da sua sorte." e "A sorte ajuda os ousados." Mas houve quem continuasse:
- Isso são provérbios. O que é um facto, é que és um homem de sorte!
Bom. Aqui comecei a ficar com os azeites. Então o meu trabalho de pesquisa persistente não valia nicles? E vá daí, pus-me a pescar por aí, o que diz o pensamento ocidental acerca da sorte e respiguei as seguintes afirmações: “A sorte sorri aos fortes” (2); “A sorte ajuda os audazes” (3); “A diligência é a mãe da boa sorte” (4); “Acredito muito na sorte; verifico que quanto mais trabalho mais a sorte me sorri” (5), “Creio muito na sorte. Quanto mais trabalho, mais sorte pareço ter” (6); “A sorte não existe. Aquilo a que chamais sorte é o cuidado com os pormenores” (7); “A sorte marcha com aqueles que dão o seu melhor” (8); “A seguir ao trabalho duro, o maior determinante é estar no sítio certo à hora certa” (9).
Municiado com estes nobres pensamentos, procurei um a um, os meus opositores, fervorosos adeptos da sorte e disparei-lhos em frases seguidas, mesmo à queima roupa. E perguntei-lhes depois:
- E então? Continuam a acreditar na minha sorte?
Não houve um único que tivesse a coragem de me dizer que sim. Creio que alguns ficaram mesmo convencidos que eu tinha razão. Mas outros, adeptos das crenças cegas, lá no fundo continuaram a pensar que não. Todavia, não arranjaram argumentos para me fazer frente e “fecharam-se em copas”.

Jorge da Conceição visto à lupa
Como refiro no meu livro (1), “Tive o privilégio de ser professor de Física de 12º ano de Jorge da Conceição e desde essa época que o vejo como um perfeccionista que procura dar o melhor de si próprio em tudo aquilo que faz, o que se reflecte não só na concepção como nos acabamentos das figuras que modela.”. No livro dei conta de que Jorge da Conceição é “… filho da barrista Maria Luísa da Conceição (1934-2015), neto dos barristas Mariano da Conceição (1903-1959) e Liberdade da Conceição (1913-1990) e sobrinho de Sabina da Conceição Santos (1921-2005), irmã de Mariano.”. E concluí: ”Filho e neto de peixes sabe nadar, pelo que Jorge da Conceição estava condenado a ser barrista, tomando contacto com o barro desde criança e criando apetência pela manufactura de Bonecos como via fazer à avó e à mãe. Foi assim que aprendeu as técnicas e a arte de modelar o barro, manufacturando Bonecos enquanto estudava, até à idade de 21 anos”, quando frequentava no Instituto Superior Técnico, o Curso de Engenharia Electrónica e de Computadores – Variante de Electrónica e Telecomunicações. A imagem de São Pedro de Jorge da Conceição, datada de 1984, pertence à parte final da sua primeira fase de produção, já que ele decidiu interromper a sua actividade como barrista, para só a retomar em 2013, após uma carreira profissional na área de consultoria que durou 25 anos e o manteve afastado da modelação do barro. Todavia, a chamada do barro, que transporta na massa do sangue, levou-o em 2013 a dedicar-se exclusivamente à barrística.
Jorge da Conceição participou em 1983 e 1984, na I na II Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz. Foi nesta última que alguém comprou a imagem que hoje é minha. Na altura, eu não lhe comprei nada, pois o dinheiro não era muito e eu andava fascinado, como hoje ainda ando, pelo trabalho de sua avó, Liberdade da Conceição, que tal como sua mãe e ele próprio, me concedeu o privilégio da sua amizade. De sua avó, tenho na minha colecção um bom núcleo de figuras, com especial destaque para imagens de Santo António, São João Baptista e São Pedro, qualquer delas de grandes dimensões.

Felicitações de Jorge da Conceição
Quando soube da minha “pescaria”, Jorge da Conceição felicitou-me vivamente pela aquisição da imagem, já que são escassas as peças dessa época na posse de coleccionadores. Disse-me ainda que na II Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz, para além de algum “peixe miúdo” à disposição do público, tinha ainda para vender as imagens de Santo António, São João Baptista, São Pedro e São Marçal, das quais vendeu apenas as duas últimas, integrando as duas primeiras a sua colecção. Com o regresso do seu São Pedro à terra mãe, é caso para reconhecer de uma forma proverbial que “O bom filho a casa torna”.

BiMestre Jorge da Conceição
Em 2019 teve lugar em Estremoz, no Palácio dos Marqueses de Praia e Monforte, um Curso de Formação sobre Técnicas de Produção de Bonecos de Estremoz. A formação da componente técnica do Curso foi liderada por Jorge da Conceição, que contou com o apoio inestimável de Isabel Água e de Luís Parente. Ali se formou um grupo de barristas, os quais se encontram presentemente a produzir. São eles: Ana Catarina Grilo, Inocência Lopes, Joana Santos, José Carlos Rodrigues, Luísa Batalha, Madalena Bilro, Manuel J. Broa, Sara Sapateiro, Sofia Luna e Vera Magalhães. Todos eles o reconhecem como uma referência de topo da nossa barrística e praticamente todos o tratam carinhosamente por Mestre, já que foi com ele que aprenderam.
As criações de Jorge da Conceição ostentam marcas identitárias singulares e por isso notáveis. Em primeiro lugar, o rigor e a perfeição na modelação, com integral respeito pelas proporções, pela morfologia, pelas texturas, bem como a representação do movimento. Em segundo lugar, um cromatismo harmonioso que resulta de uma sábia combinação de cores. Tudo isso contribui para que os trabalhos de Jorge da Conceição sejam reveladores da sua incomensurável mestria. Trata-se de facetas do seu trabalho, que ultrapassam o âmbito restrito dos seus formandos e catapultam o barrista a uma nova dimensão de Mestre. Daí eu ter assumido a iniciativa terminológica de o considerar um biMestre. De resto, tenho de lhe agradecer o prazer que me dá em usufruir do deleite de espírito causado pela visualização dos seus trabalhos. Daí que lhe confesse: Jorge,

De si é sempre admirável,
toda e qualquer criação.
Tudo o que faz é notável,
Mestre Jorge Conceição.

Oração a São Pedro
Senhor São Pedro, Pescador, Apóstolo, 1.º Bispo de Roma, 1.º Papa e Mártir, já que sois Porteiro do Céu, atrasai a abertura das portas da abóbada celeste, para que eu me possa libertar da culpa de há cerca de 40 anos não ter comprado Bonecos de Mestre Jorge da Conceição. Dai-me mais uns anos bons, para que eu possa preencher as muitas lacunas que ainda tenho na minha colecção. Amém.

(1) – MATOS, Hernâni. Bonecos de Estremoz. Edições Afrontamento. Estremoz / Póvoa de Varzim, Outono de 2018.
(2) - Terêncio (185 a.C.-159 a. C.), poeta romano
(3) - Virgílio (70 a.C-19 d.C.), poeta romano
(4) - Miguel de Cervantes (1547-1616), romancista espanhol.
(5) . Thomas Jefferson (1743-1826), estadista norte-americano.
(6) - Ralph Waldo Emerson (1803-1882), escritor norte-americano.
(7) - Winston Churchill (1874-1965), estadista inglês.
(8) - Horace Jackson Brown Jr. (1940-2021), romancista americano.
(9) - Michael Bloomberg (1942- ), magnata norte-americano.

Publicado em 20-04-2022


Fig. 2 - Marcação no interior da peanha da imagem de São Pedro. 

Fig. 3 - Jorge da Conceição em 1985.