quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Estória da amizade entre um oleiro e o seu barbeiro, na Vila de Redondo, no ano de 1941


Borracha. F.R.C., oleiro. Redondo, 1941.

Ao meu amigo Dr. António Carmelo Aires,
seguramente o maior coleccionador
e investigador da cerâmica de Redondo

Antelóquio
Recentemente, ao fim da tarde, localizei à venda na Internet, uma peça olárica de Redondo, a qual já lá estava há quatro horas. O meu interesse por ela foi “tiro e queda”, que é como quem diz “amor à primeira vista”. Instantes depois estava comprada e paga, “não fosse o diabo tecê-las”, o que a acontecer não seria a primeira vez e decerto também não seria a última. É que o tempo é uma variável muito importante a ter em conta, já que outros se podem antecipar. Vários foram os factores que contribuíram para a minha forte motivação em a comprar. O leitor irá perceber porquê.

Leitura da peça
O exemplar olárico de Redondo que é objecto do presente estudo, configura uma “borracha”, recipiente em couro para transporte de líquidos, em particular de vinho. O mesmo dispõe de uma abertura para entrada e saída de líquido, a qual pode ser vedada com uma rolha. Dispõe ainda de duas alças, uma, próximo da embocadura e outra, do lado oposto, junto ao fundo. Estas alças visam permitir prender a elas um cordão ou tira de couro, permitindo transportar a borracha a tiracolo. A borracha funciona assim como cantil.
O engobe exterior e interior da peça é numa tonalidade creme, a qual pretende imitar a cor do couro. A superfície da “borracha” foi esgrafitada e pintada em tricromia com as cores tradicionais da cerâmica de Redondo: verde, amarelo e ocre castanho.
A peça, de morfologia periforme, encontra-se decorada em cada uma das duas faces, por um grupo de ilustrações legendadas, que nos relatam uma estória.
Numa das faces, encontram-se ilustrados e identificados por um número, dez utensílios de barbeiro, de meados do séc. XX: 1 – taça da espuma, 2 – pincel da barba, 3 – cabaça do pó de talco, 4 – navalha da barba, 5 – assentador de navalhas, 6 – pente, 7 – tesoura, 8 – máquina de cortar cabelo, 9 – frasco de perfume, 10 – escova de tirar os cabelos. Por debaixo deste conjunto de ilustrações, uma inscrição em maiúsculas, distribuída por quatro linhas: “OFERECE F. R. Cte / A J. FALÉ / BARBEIRO / SM”. Desconheço o significado da sigla SM na última linha. Todavia, é possível concluir que estamos em presença de uma “borracha” em barro vidrado, oferecida e dedicada por um oleiro de Redondo (F. R. Cte) a um barbeiro (J. Falé), decerto o seu barbeiro, residente naquela Vila.
Na outra face da “borracha” encontram-se três ilustrações. Na parte de cima, um cacho de uvas com duas parras. Na parte debaixo e à direita, um homem (supostamente o barbeiro) de boné na cabeça e sentado numa cadeira, não se sabe se por já não ser capaz de se ter em pé. Com a mão direita leva um copo de vinho à boca, enquanto que com a mão esquerda segura uma garrafa de vinho parcialmente cheia, assente na sua perna esquerda. Esta ilustração tem à sua esquerda, logo abaixo do cacho de uvas com parras, uma outra ilustração. Trata-se de uma tripeça na qual assenta um barril, de cuja torneira escorre vinho que está a encher uma garrafa. A mensagem parece óbvia: O barbeiro é um grande bebedor, de tal modo que ainda não tendo despejado uma garrafa, já se encontra outra a encher, para não haver perda de tempo. Na parte debaixo e à esquerda, uma inscrição em maiúsculas, distribuída por quatro linhas: “VIVA / A PARÓDIA / VIVA / 9-5-1941”. As quatro linhas desta inscrição estão cobertas de ocre castanho, como que simulando que o oleiro tivesse entornado vinho quando confeccionava a peça. Nesse sentido, a peça materializa a auto-crítica do oleiro, que se assume igualmente como grande bebedor e amante da “paródia”, tal como o seu amigo barbeiro.

Epítome
Do exposto se conclui que a peça em estudo constitui aquilo que se pode considerar uma ”Jóia da Coroa”. Com efeito, é de uma tipologia pouco vulgar, está datada, tem oitenta anos, é uma peça com dedicatória, falante e ilustrada, que conta com humor a estória de amizade entre um oleiro e o seu barbeiro na Vila de Redondo. Em suma: é uma peça única, pela qual fiquei desde logo apaixonado e mais confortado desde que a paguei. É com peças destas que vão crescendo e se vão edificando a pulso, passo a passo, colecções modestas como a minha e que assim se vão consolidando.

Hernâni Matos
Publicado inicialmente em 24 de Fevereiro de 2022


quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

Jorge Carrapiço e a escultura em alto-relevo

 

Sargento (2022). Escultura em alto relevo. Jorge Carrapiço (1968-  ).

O alto-relevo do barrista Jorge Carrapiço possui uma tipologia muito própria, que o diferencia dos altos-relevos característicos, quer de Sabina Santos quer de José Moreira. A base não é, nem quadrangular nem trapezoidal, mas sim rectangular. Por sua vez, a figura está enxerida segundo o eixo central, paralelo aos lados maiores do rectângulo. A base é verde bandeira e não se limita a ter a orla pintada a zarcão, como o fazem aqueles barristas. Em vez dessa orla, apresenta uma moldura de igual cor.
Dois orifícios colocados na parte superior da placa, viabilizam a sua suspensão numa parede, com recurso a um fio ou a um arame. As dimensões da placa são 9,5 x 16 cm.
A figura eleita pelo barrista foi o bem conhecido Sargento, com as mãos na anca como é seu predicado. Bem erecto, espadaúdo, peitudo e com as pernas algo abertas como quem procura estabilidade. Em suma: um ar desafiante.
O cromatismo da figura assenta numa tetracromia: azul (farda e gorro), vermelho (peitilho, orla inferior, punhos e divisas do blusão, assim como listas exteriores das pernas das calças e lista do gorro), amarelo (botões) e preto (sapatos). A cor dominante é o azul, que tendo uma conotação celeste, sugere que através dela o barrista tenha procurado transmitir a tranquilidade e a confiança que os militares devem inspirar à população civil.
É notório que o alto-relevo pompeia as marcas identitárias muito próprias do barrista, notórias por exemplo, nos assobios antropomórficos e nos assobios mistos, assim como na banda de música com 21 figuras, com que recentemente nos brindou
A minha impressão sobre a presente criação de Jorge Carrapiço fica aqui expressa sob a forma de redondilha maior:

Um sargento sem igual,
Pelo Jorge foi criado,
Tendo um ar bem marcial
E o peito todo empinado.

Parabéns, Jorge!
Hernâni Matos

domingo, 20 de fevereiro de 2022

Vera Magalhães e a escultura em alto-relevo


Peralta (2022). Escultura em alto relevo. Vera Magalhães (1966- ).

O alto-relevo da barrista Vera Magalhães enquadra-se na bem conhecida estética dos altos-relevos de Sabina Santos: figura implantada segundo uma das diagonais da base quadrangular, verde bandeira e com a orla em zarcão. Um orifício posicionado na parte superior da placa, assegura a sua suspensão numa parede, com recurso a um fio ou a um arame. As dimensões da placa são 14 x 14 x 1 cm.
A figura escolhida pela barrista foi o bem conhecido Peralta, com as mãos na anca como é seu atributo. O cromatismo da figura assenta numa tetracromia: castanho (fato), branco (camisa), preto (sapatos e chapéu) e vermelho (lenço). A cor dominante é o castanho, o que me leva a admitir que a barrista se possa ter inspirado no bem conhecido Peralta de Mestre Mariano da Conceição, pertencente à colecção do Museu Rural de Estremoz. O castanho é a cor da terra e da madeira. Com ela e a meu ver, a barrista terá procurado transmitir à figura, as impressões de simplicidade, estabilidade, qualidade e seriedade.
Indubitavelmente que o alto-relevo ostenta as marcas identitárias muito próprios da barrista, a qual me confessou ser muito crítica do seu próprio trabalho, interrogando-se muitas vezes sobre o caminho a seguir, todavia sem nunca parar.
À laia de remate ao presente texto, sou levado a dizer:

Reparem que o alto-relevo
Que a Vera tão bem criou,
Se revela em si um enlevo
com o qual bem nos brindou.

Parabéns, Vera!
Hernâni Matos

sábado, 19 de fevereiro de 2022

Exposição Biográfica de Tomaz Alcaide

 


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Transcrito com a devida vénia de
newsletter do Município de Estremoz,
de 16 de Fevereiro de 2022.


De 19 de fevereiro a 27 de março de 2022 vai estar patente, no Teatro Bernardim Ribeiro, a exposição biográfica de Tomaz Alcaide.
Esta exposição é uma compilação de documentos e memórias que traduzem a importância do tenor estremocense, que foi aplaudido de pé nos melhores teatros do mundo.
Segundo um facto narrado pelo Diretor da Orquestra da Ópera de Paris ao senhor Professor Artur Trindade e que vem descrito no Jornal “Brados do Alentejo”, de 19 de maio de 1940, “O público, que não o conhecia ainda, desgostou-se. Alcaide entrou em cena, com o teatro a abarrotar de gente.
Houve sussurros, arrastar de pés e outras precipitadas manifestações de descontentamento. Mas o nosso compatriota, impõe-se, cria, com a sua presença e a sua arte divina, um ascendente imperativo sôbre o público de Paris; e com tal galhardia se houve que, no fim do 2º acto, aquêle mesmo público descontente, se ergueu num delírio que eu nunca saberia descrever, e que foi uma das maiores apoteoses com que terá sido festejado um artista lírico.”.
Em 2011 o Município de Estremoz entregou-lhe o título de Cidadão Honorário e a Medalha de Ouro da Cidade, no dia em que depositou as suas cinzas no monumento erguido em sua homenagem, junto à casa onde nasceu, a 16 de fevereiro de 1901, data que, 121 anos depois, é motivo para mais uma exposição e mais uma cerimónia de deposição de cinzas, desta vez, da sua esposa Asta-Rose Alcaide.
Visite a exposição do homem que correu o mundo, mas que nunca abdicou da terra que o viu nascer, palavras do próprio publicadas numa nota num livro autobiográfico que publicou em 1961 chamado “Tomaz Alcaide - um cantor no palco e na vida”: “… Deus fez-me nascer em Portugal e por nada deste mundo renegaria a minha pátria.”.
Hernâni Matos

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Cerimónia de deposição de cinzas de Asta-Rose Alcaide

 

Estátua da autoria do escultor Domingos Soares Branco (1925-2013), inaugurada em
1987 pelo então Presidente da República, Mário Soares (1924-2017).
Fotografia de Município de Estremoz

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Transcrito com a devida vénia de
newsletter do Município de Estremoz,
de 15 de Fevereiro de 2022.


O monumento em homenagem a Tomaz Alcaide será palco, dia 19 de fevereiro, pelas 15:30 horas, da cerimónia de deposição das cinzas de Asta-Rose Alcaide.
Asta-Rose Alcaide nasceu no Brasil, em 1922, local onde faleceu a 30 de novembro de 2016. A bailarina e coreógrafa foi casada com o tenor estremocense Tomaz Alcaide, que conheceu num encontro no Teatro Municipal de São Paulo quando o já reconhecido tenor era famoso. Em 1941 casaram-se e foram morar na Argentina, mas durante a segunda guerra mundial mudaram-se para Portugal, onde Asta-Rose trabalhou na Embaixada dos Estados Unidos e ambos contribuíram intensamente para o desenvolvimento cultural europeu e Asta-Rose enriqueceu o seu conhecimento na área da música clássica.
A última vez que esteve em Estremoz, a 12 de dezembro de 2011, foi para assistir à Cerimónia promovida pelo Município de Estremoz, onde foi entregue a Tomaz Alcaide o título de Cidadão Honorário e a Medalha de Ouro da Cidade e, com honras militares, foi depositada a urna com as cinzas do artista, junto ao monumento em sua homenagem, em frente à casa que o viu nascer, a 16 de fevereiro de 1901, data que inspirou o Município para mais uma cerimónia, desta vez, a deposição das cinzas da sua amada Asta-Rose, conforme desejo manifestado pela própria.
Juntos em vida, juntos para além da morte!
Do programa consta a deposição de uma coroa de flores, um momento musical de clarinete e violino, com Mário Tiago e Margarida Espírito Santo, seguido da inauguração de uma exposição sobre Tomaz Alcaide, no Teatro Bernardim Ribeiro.
Hernâni Matos

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Gastão, o pato sortudo

 

Pato antropomorfizado. Olaria Pacheco. Último quartel do séc. XX.

Prólogo
É muito rica e diversificada a temática das ilustrações da cerâmica redondense. E se a ilustração dum prato fosse um personagem da banda desenhada americana? Que diria o leitor?

A leitura do prato
Prato de médias dimensões, com superfície interna de cor amarelo palha, de aba larga, ligeiramente côncava. Decoração esgrafitada e pintada com base em pentacromia verde-amarelo-castanho-azul-preto. Aba decorada com sucessivos arcos pintados de castanho, com a concavidade dirigida para a parte superior da aba e preenchidos a amarelo. Ponteado a azul a toda a volta do prato e próximo da parte inferior da aba. Estes pontos situam-se sobre o raio imaginário que une o centro do prato com o ponto de intersecção dos arcos na parte superior da aba.
No fundo, ao centro, um pato antropomorfizado e com ar despreocupado, caminha sobre um tufo de erva verdes. O pato enverga um fato castanho, adornado por um laço azul e com a cabeça coberta com um chapéu preto. Olaria Pacheco. Último quartel do séc. XX.

Gastão, o pato sortudo
A Ilustração do fundo parece configurar o pato Gastão, personagem ficcional da banda desenhada “Pato Donald”, criada em 1948 por Carl Barks (1901-2000), ilustrador dos Estúdios Disney e criador de histórias em quadrinhos. Gastão e seu primo Donald são sobrinhos do milionário e avarento tio Patinhas e competem entre si para herdar a fortuna do tio.

Hernâni Matos

sábado, 5 de fevereiro de 2022

Seja bem vindo quem vier por bem


Prato falante, raso, de média dimensão, com superfície interna de cor creme,
de aba larga ligeiramente côncava. Decoração esgrafitada e pintada com base
 em tricromia verde-amarelo-castanho. Decorado na aba com motivos fitomórficos,
configurando uma cereja rodeada de 2 folhas, que se repete por quatro vezes
ao longo da aba. No fundo, ao centro, a inscrição “SEJA BEM VINDO QUEM
VIER POR BEM”, máxima que integra o adagiário português.


“SEJA BEM VINDO QUEM VIER POR BEM”, a frase inscrita no prato falante da figura, é uma máxima que integra o adagiário português, bem como a letra da canção “Seja bem vindo quem vier por bem”, que tal como a música são da autoria do saudoso Zeca Afonso (1929-1987):

Seja bem vindo quem vier por bem

Amigo
Maior que o pensamento
Por essa estrada amigo vem
Por essa estrada amigo vem
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também

Em terras
Em todas as fronteiras
Seja bem vindo quem vier por bem
Se alguém houver que não queira
Trá-lo contigo também

Aqueles
Aqueles que ficaram
(Em toda a parte todo o mundo tem)
Em sonhos me visitaram
Traz outro amigo também

Hernâni Matos