terça-feira, 2 de março de 2021

Hernâni Matos, um homem que não passa ao lado da vida


José Alberto Fateixa. Professor. Ex-Deputado à Assembleia da República.
Ex-Presidente da Câmara Municipal de Estremoz

O Hernâni tem mais doze anos que eu e confesso que não sei bem quando comecei a conviver com ele. Os nossos pais eram ambos comerciantes, embora em áreas diferentes, tendo em comum uma antipatia e rejeição pelo Estado Novo. As primeiras imagens que guardo dele são as de um jovem que se destacava pela forma de estar e de se vestir diferentes, que todos afirmavam ser um excelente estudante. Partilho este testemunho de amizade sobre caminhos que ele percorreu ao longo da vida.
O Professor. Fui colega do Hernâni na Escola Secundária, pertencíamos a grupos afins, ele do grupo de “Física-Química” e eu de “Química-Física”. Nesse contexto partilhámos os mesmos espaços. Ele, com formação na área da Física, foi sempre um excelente profissional, preocupado com a qualidade das aprendizagens, com abertura de perspetivas para os seus alunos e com uma participação ativa na vida da escola, valorizando, a aprendizagem científica associada à dimensão cidadã.
O Militante Político. Em 1974 o pai do Hernâni, João Sabino de Matos, o meu pai e tio estiveram envolvidos na constituição da seção do PS em Estremoz e eu da JS, e ele um ativo militante do PC.  Depois, ambos abandonámos essas militâncias e viemos a encontrar-nos no núcleo da UDP da nossa cidade. Posteriormente, as nossas formas de pensar a sociedade levou-nos para caminhos diferentes, em que muitas vezes concordámos, mas também muitas vezes discordámos. Sinto que a maturidade da vida reforçou a importância da pluralidade, do diálogo, do entendimento em torno de objetivos de melhoria da democracia, da valorização do progresso e da justiça social. Saliento o homem de causas, que nunca deixou de defender os valores em que acredita.
O Comunicador. Saber mais, investigar, partilhar conhecimento e tomar posição. Esta pode ser uma síntese do percurso de uma vida de comunicação, na escola, na imprensa local, nas publicações temáticas e especializadas. Nos últimos anos abriu a frente digital com a partilha positiva e inteligente de vivências, apontamentos e conhecimentos que ajudam a sustentar histórias e diferentes dimensões culturais da nossa terra.
O Colecionador. Há muitos anos que guardo imagens de um homem que procura encontrar pontes entre tempos. A procura de utensílios, objetos, documentos, símbolos que permitam ajudar a explicar e entender épocas, modos de viver, o trabalho, a arte, as tradições, as culturas, o rural e o urbano, em suma elementos para a história da cultura popular que impregnam o seu ser.
O Filatelista. O trabalho na área da filatelia revelou ao país outra sua enorme dimensão. O estudo, a categorização, o enquadramento, a divulgação, as exposições em torno do selo e do colecionismo associativo. Essa sua dimensão proporcionou-nos uma catadupa de eventos que assinalam uma intensa e real atividade de dinamização cultural.
O Cruzado. Nos últimos anos para a sociedade o Hernâni assume publicamente uma velha nova frente de dedicação, a barrística e os Bonecos de Estremoz. Estudar, investigar, historiar, compreender, contextualizar, divulgar, defender, valorizar os trabalhos dos transformadores dos barros de Estremoz, em muito em especial do figurado de barro. Tem escolhido um novo terreno de combate, a blogosfera, onde partilha momentos, protagonistas, saberes e histórias de afirmação da nossa cultura popular.
A Pessoa. O Hernâni tem uma existência em que é forçado a lidar com dificuldades suplementares, mas como poucos, deixa marcas na sociedade onde escolheu viver. No nosso relacionamento pessoal ao longo das nossas vidas estivemos próximos e afastados, caminhámos em conjunto e tivemos discordâncias significativas, houve momentos em que não foi fácil e outros enormemente estimulantes e agradáveis. Hoje com uma naturalidade da passagem do tempo e dos anos é para mim muito claro, que é um homem que não quis passar ao lado da vida. A sua formação científica de base reflete-se na disciplina de abordar os seus trabalhos. É o eterno etnólogo que tenta encontrar explicações que dão vida e sustentação à cultura popular, sempre com uma dimensão cívica de agitador por convicções. Do Hernâni sublinho a dedicação e interesses em tantas frentes e a capacidade de fazer acontecer.
Assumo uma sincera admiração e reconhecimento pela caminhada realizada. Hernâni obrigado pela oportunidade de estar contigo neste momento.
 
José Alberto Fateixa
Estremoz, 16 de Fevereiro de 2021

segunda-feira, 1 de março de 2021

O nosso amigo Hernâni


Georgina Ferro. Professora.

O nosso amigo Hernâni
 
O Hernâni não se aposentou, de facto.
Só restringiu o modo de leccionar.
Cumpre um papel pedagógico mais lato,
Como bom jornalista e escritor ímpar.
É conferencista em múltiplos assuntos
Que vão desde a arte rural mais singela,
Utensílios de barro e bonecos juntos,
À filatelia que tanto zela!...
 
O Hernâni é um eterno apaixonado
Pela sua terra de alvura caiada,
Pelos campos doirados, pastagem do gado,
Por gente de hoje ou da era passada,
Pelos poetas a quem deu nome e palcos,
Os pintores, os oleiros ou boniqueiras,
Pelos ganhões a pisar trilhos e socalcos,
A quem notabiliza em suas maneiras.
 
Procura as raízes do povo que respeita,
Busca-lhe a singularidade da arte,
A ciência singela, inata, perfeita,
Achando algo de novo em qualquer parte,
A sugerir-lhe uma maior atenção,
Para registar em documento escrito,
Criado com minuciosa  precisão,
Num elogio fácil e bem explícito.
 
Já completou um monumento imortal,
Que é depósito ou cofre de memórias    
Desta bela cidade de mármore e cal,
De ceifas, mondas, gente e suas histórias,           
Dos jogos de infância no largo da Fonte...
A par dos selos, envelopes, e postais,
O Hernâni publicou para que conste,
Coisas que nunca se valorizam demais!
              
Georgina Ferro
Estremoz, 14 de Fevereiro de 2021
 

sábado, 27 de fevereiro de 2021

O amigo Hernâni


João Moura Reis. Médico. Presidente do Conselho de Administração da ULSNA, EPE. 
Ex-Presidente da Assembleia Municipal de Estremoz.

O Hernâni, amigo desde longa data, conheci-o melhor no início dos anos oitenta do século passado. Pessoa “inquieta” e com “bichos-carpinteiros”, sempre a olhar para tudo, sedento de saber e questionando tudo e todos. Em parte a sua formação académica ajudava à percepção científica da “coisa”, à sua inquirição, à sua continuidade e como tal à sua vida através dos tempos, originando recolecção e acabando na colecção. Com a colecção vem o trabalho de investigação científica, assim como a transformação para o saber, que lhe dá o grau ou a capacidade de ser especialista.
A minha maior interacção com o Hernâni foi, como disse, no início dos anos oitenta em que ele, com o meu pai, eu e outros “carolas” dos selos, formámos a AFA - Associação Filatélica Alentejana, como forma de patrocinar o coleccionismo de selos, assim como fazer sair muitos dos que se juntaram a nós, da fase de recolector de “coisas” para a fase de coleccionador. O Hernâni, nunca foi pessoa de se satisfazer com pouco e amigo do ócio, pelo que singrou na Filatelia, com árduo trabalho, chegando a receber vários prémios, de que destaco a “Ordem de Mérito Filatélico”.
Como disse de início, a inquietude do Hernâni não é só com a Filatelia, é com a imprensa escrita, com as novas plataformas informáticas, com a cultura em geral, com a escrita e literatura, com a política concelhia, com a educação e claro com os nossos bonecos de barro de Estremoz, sendo neste momento, talvez o seu “afilhado” mais recente, em termos de estudo e investigação, no entanto com obras escritas e bem fundamentadas por um estudo criterioso e obviamente exaustivo e científico.
Hernâni continua com o teu trabalho, já que o mesmo é bastante profícuo e deixa-nos a capacidade de apreciar tudo o que tens feito. O meu abraço e muito obrigado.
João Moura Reis
Estremoz, 7 de Fevereiro de 2021

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Ao meu amigo Hernâni Matos

 
Manuel Lapão. Empresário.

AO MEU AMIGO HERNÂNI MATOS  
  
Caro ”Velho” amigo Hernâni Matos
Fizeste boa carreira de professor
Muito vens brilhando como escritor
Vincando sobranceiramente teus atos
                                                                
Biografando-te sinto-me honrado
Longe de algo na manga ou na palma
Escrevo de ti o que me vai na alma
Eu sou mestre, enquanto tu és mestrado
Proponho que sejas homenageado
Pelos teus procedimentos sensatos
Divulgas conhecimentos natos
Comentas com muita sabedoria
Não estou a fazer qualquer fantasia
Caro ”Velho” amigo Hernâni Matos
 
Secundária de Estremoz te recorda
Pela tua competência a exercer
Fui teu aluno, sei que estou a dizer
Quem frequentou a secundária concorda
Tua determinação nunca transborda
Eras disciplinado e disciplinador
Lecionaste com todo o teu rigor
Tua sonante voz, aluno ouviu      
Muito bem aprendeu quem te seguiu
Fizeste boa carreira de professor
                       
Tua cultura geral é invejável
És filho de um saudoso alfaiate
A escrever e a ler ninguém te bate
Sendo júri atribuía-te o Nobel
À cultura foste sempre muito fiel
Tratas todas as causas com muito amor
Participas sempre com muito calor
Facilidade em orar ou escrever
Manipulas palavras com todo prazer
Muito vens brilhando como escritor
                       
O teu perfil enobrece o bairrismo
Tens Estremoz gravado no teu coração
Pugnas muito pela dinamização
Sempre com muito otimismo
Chancelado plo teu puro dinamismo
Filatélica moldurou teu retrato
Os Bonecos de Estremoz são-te gratos
Pelo muito que lhe tens emprestado
Facto que mereces ser elogiado
Vincando sobranceiramente teus atos
 
Manuel Lapão
Estremoz, 5 de Fevereiro de 2021


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Homem de Paixões


 António J. B. Ramalho. Economista. Professor. Ex-vereador da CME.

O Hernâni é um homem de paixões. As primeiras que lhe conheci foram a Maximafilia e a Filatelia. Depois, um pouco mais tarde, percebi que também na Ciência era um homem rigoroso… para ele a regra geral (e simplificada) do arredondamento era redutora para quem não brinca com números, logo, fiquei a saber que se 0,125 + 0,875 somam 1 (um), então também o arredondamento às centésimas desses números tem de somar 1 (0,12+0,88=1; enquanto 0,88+0,13 já soma 1,01). Este rigor estava também associado a uma certa ansiedade. Dou um exemplo, não vi em mais nenhum colega professor a intenção (que não sei se algum dia concretizou) de trazer os sumários escritos de casa numa etiqueta autocolante, para disponibilizar mais tempo para aquilo que verdadeiramente importava: Ensinar! Foram ainda as paixões que lhe possibilitaram uma transição (mais) pacífica entre a vida ativa e a aposentadoria. Ou seja, outras havia que, provavelmente, já germinavam na sua cabeça mas que, para quem está de fora, apenas nesse momento se tornaram evidentes. Refiro-me à pesquisa histórica, ao arrolamento e inventariação das tradições das suas gentes, da sua cultura, sem nunca esquecer os poetas (tanto eruditos como populares) e outros vultos da Cultura que nasceram ou viveram naquela que é a sua cidade: Estremoz!       

António J. B. Ramalho
Estremoz, 5 de Fevereiro de 2021

Hernâni Matos

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Hernâni Matos

 

Maria Odete Gato Ramalho. Economista, Professora.
Ex-Presidente da Assembleia Municipal de Estremoz.
 

Antes de aparecer o corpanzil alto, magro e ligeiramente curvado, ouve-se o vozeirão como um rochedo no início de uma derrocada que tudo arrasta. Olhamos uns para os outros com pontos de exclamação no olhar: não há a mínima dúvida de quem se aproxima, é o Hernâni! E é assim, arrastando obstáculos, que põe toda a gente a mexer, seja para uma exposição de selos ou de bonecos de Estremoz, seja para um almoço com poetas populares…

- Preciso que vás dizer uma poesia no evento X. Já falei também com a Fátima Crujo e a Francisca Matos.
Num instante despeja o que tem a dizer. E aquela voz de trovão, mesmo quando sussurrada, apoiada pela expressão séria atrás do bigodinho, que vai mexendo (talvez seja mesmo a coisa menos convincente que possui) não dá margem para dizer que não, mesmo que, por dentro, lhe chame chato. Impõe respeito. Não sei bem como, ou o que provoca tudo isto. Agora que penso nisso, acho que este homem se pode traduzir, antes de mais, talvez antes ainda de ser o filho do bom alfaiate Matos, ou do professor de Físico-Química da minha/nossa querida Escola Secundária, ou do homem que é pai da Catarina e marido da Fátima, o que ali vive, o que domina é uma vontade férrea que o empurra para a frente com força e que lhe dá uma capacidade de trabalho impressionante, que se propaga a tudo o que o rodeia.
Por falar em alfaiate, lembro-me do Hernâni sempre impecavelmente enfarpelado, nos seus fatos completos, de boas fazendas, com gravata e lenço na lapela. Outros tempos. Hoje é a aparência mais descontraída. Mas por dentro continua o mesmo. A escrever, a pesquisar, a dar a conhecer o mais que pode a cultura alentejana e, em particular de Estremoz. enquanto outros apenas choram por tradições perdidas.
Uma cultura ou uma civilização, como um ser vivo, nasce, cresce, vive e morre. Não adianta brigarmos a favor ou contra o progresso. Clamar pela continuação de costumes ou tradições. A mudança é inevitável. E não esqueçamos as desvantagens, a dureza e as injustiças de muitos aspetos da vida antiga, quando recordamos, romântica e nostalgicamente, os trabalhos no campo, as searas a perder de vista, a ardósia para escrever, a bola de trapos de jogar nas ruas, ou as “guerras” à pedrada de partir cabeças, entre os rapazes de antigamente. Que fazer no dilema entre a nossa memória seletiva da parte boa dos “tempos da outra senhora” e o avanço tecnológico? A resposta é clara: antes de mais há que registar para manter a memória, seja ela boa ou má! É com registos que se escreve a História e é ela que julgará o melhor e o pior dos tempos. E é isso que faz este nosso amigo.
Obrigada, Hernâni, por essa teimosia, por esse trabalho incansável que regista e dá a conhecer a nossa cultura alentejana e, em particular, a de Estremoz.
Confinada no espaço, mas com o coração expandido com esperança num mundo melhor, em 4 de fevereiro de 2021,
                                                                      
Maria Odete Gato Ramalho
Lisboa, 4 de Fevereiro de 2021

sábado, 20 de fevereiro de 2021

Companheiros Filatélicos


João Manuel Lopes Soeiro. Empresário. Presidente da Confraria Timbrológica Meridional.

Conheço o Hernâni Matos desde adolescente. Hoje com quase cinquenta e oito anos de idade quase que me apetece dizer que o conheço desde sempre…
Travámos conhecimento na Associação Fotográfica do Sul, na sua secção filatélica, onde a paixão pelos selos nos fez percorrer durante muitos anos um caminho comum. Quando falo deste caminho comum, falo de um percurso intenso ligado à filatelia e a muitos eventos filatélicos, realizados em conjunto quer na AFA, quer na ANJEF, quer na Confraria, quer na colaboração prestada a outras coletividades. Fez parte da lista dos filatelistas fundadores da Confraria Timbrológica Meridional em Évora, de vários Corpos Sociais de alguns clubes ligados à filatelia e até da própria Federação Portuguesa de Filatelia.
Sempre o conheci determinado e cheio de projetos, nos quais “arrastava” e “envolvia”, os amigos mais próximos, para que o objetivo fosse conseguido. Poderia enumerar aqui vários exemplos deste dinamismo, mas estou seguro que não é necessário fazê-lo, porque todos os que privam com ele e o conhecem suficientemente bem, o podem fazer tão bem quanto eu. Era até costume dizer-se no meio filatélico, que o Hernâni era a AFA e a AFA era o Hernâni.
Para além das excelentes coleções que possuía, era dotado de grandes conhecimentos e foi por mérito próprio Jurado FIP.
Para além da filatelia, sempre o vi motivado pela escrita, pela pesquisa, pelo aprofundar do conhecimento ligado às raízes culturais do povo alentejano. É um acérrimo defensor da cultura popular, da etnografia e da história, cuja intervenção vai desde a olaria e dos bonecos de barro até aos poetas populares.
Nos últimos anos afastou-se da atividade filatélica, ocupando o seu tempo quase em exclusivo com a escrita, onde o seu blogue dá conta desta profunda atividade e desta inquietação permanente.
Um grande abraço para o meu Amigo Hernâni, com o desejo expresso que prossiga por muitos anos esta sua atividade.

João Manuel Lopes Soeiro 
Évora, 2 de Fevereiro de 2021

 Hernâni Matos

Hernâni Matos e João Soeiro (ao centro), durante a XIX Exposição Filatélica Nacional
realizada em Évora, em 2006. Estão ladeados à esquerda por Pedro Vaz Pereira (Pre-
sidente da FPF) e à direita por Rui Arimateia (Chefe de Divisão de Cultura da CME).