domingo, 7 de julho de 2019

Bonecos de Estremoz: Armando Alves


Fig. 1 - Armando Alves (1935- ) com a idade de 14 anos. Fotografia de Rogério de
Carvalho (1915-1988). Arquivo fotográfico do autor.

Na Conservatória do Registo Civil de Estremoz consta que, no dia 7 de Novembro de 1935, numa casa sita próximo às “Portas de Santo António”, na freguesia de Santa Maria de Estremoz, nasceu uma criança do sexo masculino, a quem foi dado o nome de Armando José Ruivo Alves, filho de António José Simões Alves de 34 anos de idade, serralheiro, e de Maria Amélia Ruivo Simões Alves, de 28 anos de idade, doméstica, domiciliados na referida casa (2).
O recém-nascido era neto paterno de Joaquim Alves e de Joana Rita e materno de Armando Macarro Ruivo e de Felismina Maria Pimentão Ruivo.
O registo de nascimento foi efectuado pelo pai da criança no dia 4 de Dezembro de 1935, tendo apadrinhado o acto Joaquim António Chouriço, solteiro, maior, sapateiro, domiciliado na rua Narciso Ribeiro, 58, desta cidade e Felismina Maria Pimentão Ruivo, casada, doméstica, domiciliada no Terreiro do Barguilha, desta cidade.
De 1942 a 1945, o Armando (Fig. 1) frequentou a Escola Primária do Castelo, situada no actual edifício do Museu Municipal de Estremoz. De 1946 a 1949, frequentou o Colégio do capitão Grincho e, de 1949 a 1952, frequentou a Escola Industrial e Comercial de Estremoz, onde teve aulas de oficinas de olaria com Mestre Mariano da Conceição (1).
Foi no ano lectivo de 1951-52, já com a Escola Industrial e Comercial de Estremoz instalada no Castelo, no local onde hoje funciona a Pousada da Rainha Santa Isabel, que Armando começou a confeccionar os seus Bonecos de Estremoz.
O trabalho de modelação, cozedura, pintura e envernizamento era feito na própria Escola. Armando não terá feito mais que 10 modelos de Bonecos: - Figuras que têm a ver com a realidade local: Amazona, Leiteiro, Mulher a vender chouriços e Homem do harmónio; - Figuras intimistas que têm a ver com o quotidiano doméstico: Mulher a lavar; - Figuras que são personagens da faina agro-pastoril nas herdades alentejanas: Ceifeira, Mulher da azeitona, Pastor de tarro e manta, Pastor com um borrego e Pastor do harmónio (Fig. 2).
Ao todo, não terá manufacturado mais de cinquenta Bonecos que eram comercializados na Papelaria Ruivo, situada no Largo da República, 24, em Estremoz, exactamente um dos locais em que também eram comercializados os Bonecos do Mestre Mariano da Conceição. Fê-lo a pedido da proprietária, a sua tia Joana Ruivo. Cada figura era vendida ao preço de vinte e cinco tostões, enquanto os de mestre Mariano custavam 12$50.
Mestre Mariano marcava os seus Bonecos, estampando na base a marca ESTREMOZ/PORTUGAL em maiúsculas, distribuídas por duas linhas. Porém, o jovem Armando vai além do Mestre e assina simplesmente “Armando” (3) (Fig. 3), em caracteres manuscritos. Fá-lo a verde, o verde da esperança e das searas que, já doiradas, ondularão mais tarde as suas telas de artista consagrado. Tratou-se então de uma aposta forte visando o futuro, uma espécie de premonição da Obra que iria construir. Daí a razão de assinar simplesmente “Armando”. Sabem porquê? É simples. Toda a gente sabe quem é o Armando. Pois claro! É um consagrado artista plástico a quem José Saramago (1922-2010) prestou tributo, chamando-lhe “Inventor de Céus e Planícies”.
Actualmente, o Armando não faz ideia de quem eram as pessoas que compravam os seus Bonecos. Todavia, lembra-se da tia uma vez lhe ter dito que uma dessas pessoas era o coleccionador e médico calipolense, Dr. Couto Jardim (1879-1961).

BIBLIOGRAFIA
(1) - Armando José Ruivo Alves - Processo Individual de aluno nº 572.
(2) - Armando José Ruivo Alves - Registo de Nascimento nº 555 de 1931, da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
(3) - MATOS, Hernâni. Armando, bonequeiro de Estremoz in Brados do Alentejo nº 847, 11/12/2014. Estremoz, 2014 (pág. 15).

Fig. 2 – O Pastor do harmónio criado pelo jovem Armando no ano lectivo de 1951-52.

Fig. 3 - A marca "Armando" manuscrita, pintada a verde na base.

sábado, 29 de junho de 2019

Bonecos de Estremoz: Maria Luísa da Conceição


Fig. 1 - Maria Luísa da Conceição (1934-2015). Fotografia do Arquivo Fotográfico
Municipal de Estremoz / BMETZ - Colecção Joaquim Vermelho.

Nasceu às 13 horas de 20 de Maio de 1934 no prédio situado no nº 13 da rua Brito Capelo, da freguesia de Santo André, em Estremoz. Filha legítima de Mariano Augusto da Conceição, de 31 anos, oleiro e de Liberdade Banha da Conceição, de 20 anos, doméstica, ambos naturais da referida freguesia. Neta paterna de Narciso Augusto da Conceição, oleiro, e de Leonor das Neves Conceição, doméstica. Neta materna de José Ricardo Banha e de Agripina da Conceição Banha (5).
A 23 de Julho de 1946 é aprovada no exame do 2º grau do Ensino Primário Elementar. Com 13 anos de idade, candidata-se em 12 de Agosto de 1947 à frequência do Curso de Tapeceira (3 anos) após o Dr. Francisco Affonso de Mattos, médico cirurgião pela Universidade de Coimbra, ter atestado que Maria Luísa foi revacinada contra a varíola há menos de um ano e não sofre de doença infecto-contagiosa, designadamente tuberculose pulmonar ou qualquer das suas formas clínicas. Conclui o curso de Tapeceira em 1950. A 19 de Agosto desse ano candidata-se à frequência do Curso de Aperfeiçoamento de Comércio (4 anos), o qual conclui em 1954, tendo nesse mesmo ano realizado o Exame de Aptidão Profissional (4).
A 21 de Abril de 1957, com 22 anos de idade e na condição de doméstica, casou catolicamente com Octávio Varela Dias Palmela, de 34 anos, comerciante, natural da freguesia de Casa Branca, concelho de Sousel. A celebração do matrimónio decorreu na Capela de Nossa Senhora da Conceição em Estremoz e foi presidida pelo Padre Serafim Tavares. Adoptou então o sobrenome Palmela do marido (2).
O primeiro contacto de Maria Luísa com os Bonecos de Estremoz remonta a 1940, à época da Exposição do Mundo Português, quando, com 6 anos, já ajudava a mãe a pintar os Bonecos confeccionados pelo pai. Com a morte prematura do pai em 1959 e o início da modelação pela mãe, em 1961, Maria Luísa continua a ajudá-la na pintura dos Bonecos. Confecção e pintura são feitas na cozinha, uma vez que aquela que viria a ser a sua oficina e se situava no rés-do-chão da moradia, era então oficina de Sabina Santos, tia de Maria Luísa.
Apesar de ajudar a mãe a pintar, Maria Luísa (Fig. 1) não modela e a sua actividade profissional é tricotar vestuário de lã, o que faz até 1981, ano em que, por motivo de alergia, é levada a abandonar aquela laboração, o que coincide também com o ingresso do filho, Jorge da Conceição, no Instituto Superior Técnico. Passa então a modelar Bonecos de Estremoz, cuja manufactura tinha aprendido por observação do pai, da mãe e da tia. O trabalho continua a ser feito na cozinha. Só com a aposentação da tia em 1988 é que mãe e filha passam a trabalhar na oficina do rés-do-chão, na Rua Brito Capelo, nº 35, em Estremoz. Aqui comercializam os seus Bonecos, passando mais tarde Maria Luísa a fazê-lo também na loja “Artesanato José Saruga”, no Rossio Marquês de Pombal, 98 A, em Estremoz.
Maria Luísa era uma frequentadora assídua de feiras de artesanato: Feira Internacional de Artesanato (Lisboa), Feira Nacional de Artesanato de Vila do Conde, Feira de Artesanato de Coimbra, FIAPE (Estremoz), Salão de Artesanato da Feira de Vila Franca de Xira, Feira de Artesanato da Foz do Douro e Festa Ibérica da Olaria e do Barro (São Pedro do Corval). Foi numa dessas feiras, a XIII Feira de Artesanato de Coimbra, que se sentiu indisposta e acabou por falecer num Hospital de Coimbra, vítima de paragem cárdio-respiratória, na madrugada de 7 de Junho de 2015 (3), (7). Tinha então 81 anos. A comunidade bonequeira de Estremoz ficou de luto e, com a sua partida, a barrística popular de Estremoz ficou mais pobre. Maria Luísa era uma pessoa muito estimada em Estremoz. Daí que o seu funeral para o cemitério local, tenha constituído uma sentida manifestação de pesar, na qual se integraram familiares, amigos, admiradores e oficiais do mesmo ofício, que lhe foram prestar uma última homenagem.
Como traço importante do carácter de Maria Luísa, ressalta o orgulho que sentia em ser quem era, filha de bonequeiros, que tinha prazer em trabalhar e ir junto das pessoas, nas feiras de artesanato.
Era com emoção que falava dos Bonecos de Estremoz, sempre que dava entrevistas, o que era frequente. É que Maria Luísa tinha os Bonecos na massa do sangue. Aqueles que lhe saíram das mãos, tanto os “Bonecos da Tradição”, como aqueles que criou e nisso foi pródiga, são muito apreciados e apresentam marcas de identidade muito próprias e inconfundíveis, que os distinguem dos confeccionados pelos diferentes barristas, incluindo o seu pai e a sua mãe. Deixa como continuador da sua arte, o seu filho, Jorge da Conceição, cujos Bonecos ostentam igualmente marcas de identidade muito próprias.
A qualidade do seu trabalho, levou a que lhe fossem atribuídos inúmeros prémios e distinções, sendo de salientar o 1.º Prémio para a melhor peça de artesanato (Vila do Conde - 1991) e o 1.º Prémio da Exposição de Presépios (Viana do Castelo - 2007), merecendo especial destaque a Medalha de Prata de Mérito Municipal, que lhe foi outorgada pela Câmara Municipal de Estremoz, em 2008.
Maria Luísa da Conceição concedera-me há muito, o privilégio da sua amizade e dela reúno Bonecos que comecei a coleccionar desde a I Feira de Artesanato de Estremoz, em 1983. Em sua casa me recebeu inúmeras vezes, onde, como estudioso, me deslocava sempre que precisava de uma informação ou de um esclarecimento sobre Bonecos de Estremoz.
Em 2012 concedeu-me uma entrevista [1] (6) (Fig. 2) que considero importante e que conjuntamente com descobertas que fiz no Arquivo da Escola Secundária e em correspondência particular, permitiram-me esclarecer aspectos menos claros da História dos Bonecos de Estremoz. Estes foram trazidos à luz do dia, quando naquela Escola proferi uma conferência (8) subordinada ao tema “Mestre Mariano da Conceição (O Alfacinha)”, à qual ela assistiu, bem como o seu filho, Jorge da Conceição.
Maria Luísa da Conceição partiu, mas deixou connosco os Bonecos que criou, disseminados por museus e colecções particulares. Deixou também connosco, a Memória da sua jovialidade e da sua vitalidade. De forte compleição física como seu pai, dele herdou também o gosto, a vontade e a determinação que punha em tudo o que fazia. Aos oitenta e um anos, deslocava-se sozinha no seu automóvel, a fim de participar nas feiras de artesanato, de norte a sul do país. Por isso, deu um elevado contributo para a divulgação dos Bonecos de Estremoz.
Quando faleceu, decorria a candidatura dos Bonecos de Estremoz a Património Cultural Imaterial de Humanidade, para a qual muito contribuiu e da qual era entusiasta. Agora que a candidatura saiu vitoriosa, sou levado a proclamar:
- MARIA LUÍSA DA CONCEIÇÃO, PRESENTE!

BIBLIOGRAFIA
1 - Catálogo da I Feira de Arte Popular e Artesanato. Câmara Municipal de Estremoz. Estremoz, 15 a 17 de Julho de 1983.
2 - Maria Luísa Banha da Conceição – Assento de Casamento nº 65 de 1957, da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
3 - Maria Luísa Banha da Conceição – Assento de Óbito nº 94 de 2015, da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
4 - Maria Luísa Banha da Conceição – Processo Individual de aluna nº 528, no Arquivo da Escola Industrial António Augusto Gonçalves e sucessoras.
5 - Maria Luísa Banha da Conceição – Registo de Nascimento nº 301 de 1934, da Conservatória do Registo Civil de Estremoz
6 - MATOS, Hernâni. Entrevista a Maria Luísa da Conceição. Estremoz, 7 de Fevereiro de 2013. Registo sonoro do Arquivo de Hernâni Matos.
7 - MATOS, Hernâni. Maria Luísa da Conceição, presente! in Brados do Alentejo nº 861, 25/06/2015. Estremoz, 2015 (pág. 4).
8 - MATOS, Hernâni. Mestre Mariano da Conceição (O Alfacinha). Escola Secundária da Rainha Santa Isabel. Estremoz, 15 de Fevereiro de 2013. sp.




[1] Sem aviso prévio, surgi-lhe inesperadamente na oficina, acompanhado do fotógrafo Luís Mariano Guimarães. Disse-lhe que queria que me concedesse uma entrevista sobre o trabalho do pai, da mãe e dela própria. A sua resposta foi imediata:
- Sim senhor, mas tem que ser rápida. Sabe porquê? Não me deu tempo para responder.
Deu ela própria a resposta:
- É que tenho aqui uma Santa para lhe pôr dois braços.
Todavia, a entrevista não foi rápida. Falámos agradável e descontraidamente durante mais de uma hora. É que “As palavras são como as cerejas, vêm umas atrás das outras. Com aquela conversa informal começou a ser reescrita a História dos Bonecos de Estremoz. Foi um bom começo duma caminhada que nunca terá fim.


Fig. 2 - Maria Luísa da Conceição e o autor no decurso da entrevista que lhe concedeu
em Fevereiro de 2013.

domingo, 23 de junho de 2019

Bonecos de Estremoz: Liberdade da Conceição


 Fig. 1 - Liberdade da Conceição (1913-1990), mulher de Mariano da Conceição
(1903-1959) a pintar bonecos de Estremoz na Exposição do Mundo Português.
Fotografia do documentário "A Grande Exposição do Mundo Português" (1940),
de António Lopes Ribeiro.

Nasceu às 3 horas de 11 de Agosto de 1913 na freguesia de Santo André, em Estremoz. Filha legítima de José Ricardo Banha, de 33 anos, corticeiro natural da mesma freguesia e de Agripina da Conceição Banha, de 36 anos, doméstica, natural da freguesia de São Bartolomeu, em Vila Viçosa (2).
A 8 de Novembro de 1931, morando na Rua de São Pedro, nº 40, em Estremoz, com 18 anos de idade e na condição de doméstica, casou na Repartição do Registo Civil de Estremoz com Mariano Augusto da Conceição, de 28 anos, oleiro, natural da freguesia de Santa Maria, em Estremoz e residente na Calçada da Frandina, nº 15 da mesma localidade, filho ilegítimo de Narciso Augusto da Conceição, industrial, natural da freguesia de Santo Antão, em Évora. O casamento foi celebrado no regime de comunhão de bens e a noiva adoptou o apelido Conceição do marido (4).
Quando Mariano da Conceição se tornou bonequeiro, Liberdade passou a pintar os Bonecos manufacturados pelo marido. Esteve presente na "Exposição do Mundo Português", que decorreu em Lisboa, de 23 de Junho a 2 de Dezembro de 1940.
O filme "A Exposição do Mundo Português (9), de António Lopes Ribeiro (1908-1995), com a duração de 59 min 52 s, mostra entre os 44 min 25 s e 44 min 39 s, 14 preciosos segundos de filme, onde se vê Liberdade da Conceição (1913-1990), vestida de camponesa, a pintar bonecos de Estremoz (Fig. 1).
Em vida do marido, Liberdade limitava-se a pintar. Todavia, as coisas iriam mudar. Com a idade de 56 anos, Mariano seria atingido por um coice de cavalo no final do I Raid Hípico Alentejano que terminou a 27 de Setembro de 1959 no Rossio Marquês de Pombal, em Estremoz. Vítima de uma fractura da base do crânio, Mariano viria a falecer no dia 29 de Setembro, na sua casa, situada na Rua Pedro Afonso, nº 6, em Estremoz (6), (1), (8), (10), (11).
“A necessidade é mestra de engenhos” sentencia o rifão. Foi assim que, por motivos de natureza económica, Liberdade (Fig. 2) se iniciou em 1962 na modelação de Bonecos, que vira seu marido confeccionar. Continuou a residir na Rua Pedro Afonso, nº 6, onde todavia só ia dormir. Passava o dia na casa da filha, Maria Luísa da Conceição, na Rua Brito Capelo, nº 33, onde na cozinha manufacturava e pintava os seus Bonecos, porque a mesma tinha espaço suficiente para ter a sua mesa de trabalho e porque era ela que cozinhava, sendo assim mais fácil conciliar as duas actividades.
A confecção e pintura dos Bonecos eram feitas na cozinha, uma vez que o nº35 situado no rés-do-chão da moradia, era oficina de Sabina Santos, sua cunhada, que se iniciara na actividade dois anos antes e em ligação à Olaria Alfacinha, o que não veio a acontecer com Liberdade. A sua filha Maria Luísa colaborava com a mãe na pintura dos Bonecos, só se tendo iniciado na modelação em 1981.
Inicialmente, Liberdade cozia os Bonecos na Olaria Alfacinha por deferência dos cunhados, na linha de continuidade do que acontecera com Mariano que também não tinha forno próprio. À medida que ia fazendo os Bonecos e estes secavam, eram metidos em “gaiolas”, recipientes cilíndricos de barro grosso nos quais iam a cozer no forno de lenha da Olaria Alfacinha, para onde eram transportados. Só a partir de 1981, quando Maria Luísa da Conceição começou a confeccionar os seus próprios Bonecos é que esta e o filho Jorge da Conceição construíram um forno a lenha no quintal, o qual passou também a ser usado por Liberdade. Só depois da aposentação de Sabina Santos, em 1988, e depois de Maria Luísa ter ocupado a oficina do nº 35, é que foi abandonado o forno de lenha e comprada uma mufla eléctrica.
A nível de feiras, Liberdade participou na Feira Internacional de Artesanato do Estoril, na Feira da Agricultura em Santarém e posteriormente na Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz.
Os Bonecos de Liberdade além de serem vendidos nas feiras, eram comercializados em Estremoz, na sua residência e nas Lojas de Artesanato de Rafael dos Santos Grades, situadas na Rua Victor Cordon, n.ºs 27 e 30, em Estremoz. De resto, havia lojas de Évora e de Lisboa que lhe adquiriam regularmente Bonecos.
Liberdade viria a falecer no dia 22 de Agosto de 1990, com 77 anos de idade (3). Foi um rude golpe na barrística popular estremocense e a cultura popular local ficou mais pobre. Liberdade partiu, mas deixou-nos os seus Bonecos, bem como a sua filha, Maria Luísa da Conceição e seu neto, Jorge da Conceição para darem continuidade à arte bonequeira.

BIBLIOGRAFIA
1 - Falecimento (Mariano da Conceição) in Brados do Alentejo nº 1475, 04/10/1959. Estremoz, 1959 (pág. 2).
2 - Liberdade da Conceição Banha - Assento de Nascimento nº 446 de 1913, da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
3 - Liberdade da Conceição Banha - Assento de Óbito Informatizado nº 372 de 2016, da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
4 - Liberdade da Conceição Banha - Registo de Casamento nº 68 de 1931 da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
5 - Mariano Augusto da Conceição - Assento de Nascimento nº 305 de 1912 da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
6 - Mariano Augusto da Conceição - Assento de Óbito nº 193 de 1959 da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
7 - Mariano Augusto da Conceição - Registo de Casamento nº 68 de 1931 da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
8 - Mariano Augusto da Conceição in O Eco de Estremoz nº 2951, 04/10/1959. Estremoz, 1959 (pág. 3).
9 - RIBEIRO, António Lopes. A Exposição do Mundo Português. Lisboa, 1940.
10 - Terminou o I RAID HIPICO ALENTEJANO in Brados do Alentejo nº 1475, 04/10/1959. Estremoz, 1959. (pág. 3).
11 - Um estúpido acidente atirou para a morte o sr. mestre Mariano in Boletim da Escola Industrial e Comercial de Estremoz, 29/09/1959. Estremoz, 1959 (pág. 1).
Hernâni Matos

Fig. 2 - Liberdade da Conceição (1913-1990). Fotografia do Arquivo Fotográfico
Municipal de Estremoz / BMETZ – Colecção Joaquim Vermelho.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Poesia Portuguesa - 092




Poema para Galileo 
António Gedeão (1906-1997)

Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano, 
aquele teu retrato que toda a gente conhece, 
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce 
sobre um modesto cabeção de pano. 
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença. 
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício. 
Disse Galeria dos Ofícios.) 
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença. 
Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria… 
Eu sei… Eu sei… 
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia. 
Ai que saudade, Galileo Galilei! 

Olha. Sabes? Lá em Florença 
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário. 
Palavra de honra que está! 
As voltas que o mundo dá! 
Se calhar até há gente que pensa 
que entraste no calendário. 

Eu queria agradecer-te, Galileo, 
a inteligência das coisas que me deste. 
Eu, 
e quantos milhões de homens como eu 
a quem tu esclareceste, 
ia jurar – que disparate, Galileo! 
– e jurava a pés juntos e apostava a cabeça 
sem a menor hesitação – 
que os corpos caem tanto mais depressa 
quanto mais pesados são. 

Pois não é evidente, Galileo? 
Quem acredita que um penedo caia 
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia? 

Esta era a inteligência que Deus nos deu. 

Estava agora a lembrar-me, Galileo, 
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo 
e tinhas à tua frente 
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo 
a olharem-te severamente. 
Estavam todos a ralhar contigo, 
que parecia impossível que um homem da tua idade 
e da tua condição, 
se tivesse tornado num perigo 
para a Humanidade 
e para a Civilização. 
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios, 
e percorrias, cheio de piedade, 
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios. 

Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas, 
desceram lá das suas alturas 
e poisaram, como aves aturdidas – parece-me que estou a vê-las –, 
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas. 
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual 
conforme suas eminências desejavam, 
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal 
e que os astros bailavam e entoavam 
à meia-noite louvores à harmonia universal. 
E juraste que nunca mais repetirias 
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma, 
aquelas abomináveis heresias 
que ensinavas e escrevias 
para eterna perdição da tua alma. 
Ai Galileo! 
Mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo, 
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços, 
andavam a correr e a rolar pelos espaços 
à razão de trinta quilómetros por segundo. 
Tu é que sabias, Galileo Galilei. 
Por isso eram teus olhos misericordiosos, 
por isso era teu coração cheio de piedade, 
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos 
a quem Deus dispensou de buscar a verdade. 
Por isso estoicamente, mansamente, 
resististe a todas as torturas, 
a todas as angústias, a todos os contratempos, 
enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas, 
foram caindo, 
caindo, 
caindo, 
caindo, 
caindo sempre, 
e sempre, 
ininterruptamente, 
na razão directa do quadrado dos tempos. 

António Gedeão (1906-1997)

Galileo perante o Santo Ofício (1847). Joseph-Nicolas Robert-Fleury (1797-1890).
Musée du Louvre, Paris.

terça-feira, 18 de junho de 2019

Bonecos de Estremoz: José Marcelino Moreira


Fig. 1 - José Marcelino Moreira (1926-1991), a modelar uma “Primavera” na sua
oficina da Rua do Nine, nº 12 em Estremoz. Fotografia do filme “Bonecos de
Estremoz” realizado em 1976 por Lauro António. Cortesia de Lauro António.
Arquivo fotográfico do autor.

Nasceu a 23 de Março de 1926, no sítio dos Mártires, na freguesia de Santa Maria, concelho de Estremoz. Filho ilegítimo de Felicidade Moreira, de 28 anos, doméstica, natural e residente na referida freguesia e de pai incógnito (5).
José Moreira teve uma infância difícil. Quando a mãe morreu, ficou sem casa e vivia num buraco da muralha. Dado a tropelias, subia a meio da noite para a torre sineira da Igreja de Santiago em Estremoz onde tocava os sinos. Daí a alcunha de “Zé do Telhado”. Foi Ti Ana das Peles, que o veio a recolher em sua casa e lhe ensinou a arte bonequeira. De resto, aprendeu a modelar o barro na Olaria de Mestre Cassiano, cunhado de Ana das Peles, na Rua do Afã, onde ingressou aos 11 anos de idade. Aos 18 muda para a Olaria Alfacinha, na Rua de Santo Antonico, onde trabalhou cerca de 8 anos com José Ourelo (1916-1980). Dali viria a sair nos anos 70, para se dedicar exclusivamente à manufactura de Bonecos de Estremoz.
A 25 de Dezembro de 1956, com 30 anos de idade, casou catolicamente com Josefina Augusta Ferreira (1922-2019), de 34 anos, doméstica, natural do sítio das Casas Novas da freguesia de Santa Maria, concelho de Estremoz, filha legítima de Vicente Ferreira e de Maria Antónia Ferreira, já falecidos e naturais da referida freguesia de Santa Maria. A celebração do matrimónio segundo o regime de comunhão de bens, decorreu na Igreja Matriz de Santa Maria de Estremoz e foi presidida pelo Padre Henrique José Catarro, pároco da freguesia (6).
No quintal da sua residência, na Rua do Nine, nº 12 A, em Estremoz, tinha a oficina e o forno por ele próprio construído. Era ele quem procurava e cavava o barro que depois preparava, visando a confecção de imagens. Estas eram por si executadas, mas a pintura e o acabamento pertenciam a sua mulher, Josefina Augusta Ferreira (1922- )[1].
O pintor Armando Alves (1935- ) acompanhou de perto o trabalho de José Moreira e sobre ele escreveu (2): “Recordo muitas horas de bom convívio e troca de impressões sobre o trabalho desenvolvido pelo casal. Ele a modelar e trabalhar o barro como poucos o fazem e a Josefina nos acabamentos, isto é, a escolher as cores próprias para pintar cada boneco, o que ela fazia com extrema sensibilidade, desenvoltura e saber. Tive o primeiro contacto com o José Moreira, (que também dava pelo nome de José do Telhado), era eu aluno na Escola Industrial e Comercial de Estremoz e ele empregado na Olaria Alfacinha.
Vi-o muitas vezes a trabalhar na roda ao lado do José Ourelo e sob o olhar atento e exigente do mestre Mariano Alfacinha. Mas foi mais tarde que melhor o conheci. Nessa altura era eu professor na Escola Superior de Belas Artes do Porto e sempre que voltava a Estremoz visitava-o em sua casa para ver o que estava a fazer e conversarmos um pouco, sempre a propósito dos seus bonecos, dos “seus inventos”, a que
ele soube dar um cunho muito especial, (que o distingue de todos os artistas do barro que tenho conhecido), e que muito aprecio.
A casa está inserida num pequeno núcleo de arquitectura popular urbana de rara beleza que se desenvolve em vários compartimentos interligados, havendo ao fundo do quintal uma zona onde o José Moreira preparava o barro que ele próprio ia cavar ali para os lados dos Casarões, na estrada para Sousel.
Num tanque raso, por ele construído, fazia passar por várias fases o barro que trazia em bruto dos campos, até o levar à pureza necessária para ser trabalhado.
Opera-se ai o milagre da transformação da massa inerte que é o barro naquilo que hoje é um tesouro da criação humana - os Bonecos de Estremoz.
José Moreira (Fig. 1) e Josefina (Fig. 2) continuaram o trabalho dos artesãos que os antecederam abrindo caminho a outros que mantêm esta tradição que importa não deixar perder.
Recordo com saudade este casal de artistas populares que dedicaram grande parte das suas vidas a trabalhar o barro e a levar mais longe o nome de Estremoz.”
O trabalho de José Moreira e de Josefina está documentado no filme “Bonecos de Estremoz”, que Lauro António realizou em 1976 e que se encontra disponível no YouTube (3).
De José Moreira, disse Joaquim Vermelho (1927-2002) (1): “A renovação por que passou a barrística nos anos trinta encontrou em Zé Moreira um artista sensível para entender os seus valores e um raro criador. O que saía das suas mãos tinha uma marca muito pessoal.” E mais adiante “O Mundo da infância passada em contacto com a vida do campo foi importante escola para a criação das suas obras quer quanto a formas quer quanto a cores. Como a sua escola foi a da vida, que outros saberes não possuía, a sua arte surgiu liberta de influências e modismos’, com a pureza e ingenuidade que são timbre da escola de Estremoz resistindo sempre a uma certa clientela. E acabou por ficar como um exemplo de fidelidade e descomprometimento.“
José Moreira tinha uma maneira peculiar de observar o mundo e de o interpretar, tendo-nos legado traços de identidade pessoal nas peças que manufacturava, as quais são marcas indeléveis que o permitem identificar como autor.
O olhar das figuras antropomórficas, é semelhante ao das imagens de Mariano da Conceição, com sobrancelhas e pestanas paralelas, sendo estas últimas tangentes às meninas do olho. Todavia estas são maiores que nos Bonecos de Mariano, o que torna o olhar mais expressivo.
Nas figuras zoomórficas, os cavalos têm uma cabeça maior que as dos cavalos de Mariano da Conceição e de Sabina Santos. Têm um olhar mais vivo, as narinas e a boca estão mais bem definidas e os focinhos dos equídeos estão arrebitados, como que procurando afastar-se do pescoço. A crina do pescoço está não só representada por incisões no mesmo, como através de pintura na fronte e na nuca, pendendo para o lado esquerdo. E, ao contrário do que se passa nos ginetes de Mariano da Conceição e de Sabina Santos, a crina da cauda, pintada de preto, quase que roça o chão e está inclinada para o lado esquerdo, dando uma certa sensação de movimento. Em termos de comportamento animal, isto é sinónimo de insatisfação, tal como as narinas dilatadas são indício de atenção. Por outro lado, nas figuras a cavalo de José Moreira (Amazona, Cavaleiro, Frade a cavalo, Lanceiro, lanceiro com bandeira), a base é verde, enquanto que nas de Mariano e de Sabina e de acordo com a tradição, a base que representa o chão, é verde, pintalgada de branco, amarelo e zarcão, numa alegoria a um chão atapetado por erva e tufos coloridos de flores silvestres. Todavia, quando José Moreira utiliza noutras figuras esta forma de decoração da base, as pintas são maiores e mais próximas que nos Bonecos de Mariano da Conceição e de Sabina Santos.
Nas figuras masculinas, personagens das fainas agro-pastoris, ao contrário do que se passa nos Bonecos de Sabina Santos, o chapéu é sempre um chapéu aguadeiro, tal como nos correspondentes exemplares de Mariano da Conceição, ainda que por vezes de dimensões maiores.
No conjunto dos “Bonecos da Tradição” existem imagens que ilustram o uso do barrete no Alentejo. Caso de espécimens como “Pastor das migas” e “Matança do porco”. Todos os barristas do século XX e XXI cobriram a cabeça desses exemplares com o tradicional barrete. Porém, José Moreira, irreverente e inovador, nelas substituiu o barrete pelo tradicional chapéu aguadeiro, que a seu ver identificava melhor o homem alentejano.
Frequentador dos Salões de Artesanato do Estoril, do Mercado da Primavera em Lisboa e da Feira Nacional de Artesanato de Vila do Conde, por diversas vezes premiado, foi um embaixador da barrística popular estremocense. Os seus Bonecos, muito expressivos e por isso muito apreciados, estão espalhados por todo o país e pelo estrangeiro.
Em Estremoz, José Moreira comercializava os seus Bonecos não só na sua oficina na Rua do Nine, nº 12, como no rés-do-chão da Capela de Nossa Senhora do Bom Sucesso, na Rua da Rainha Santa Isabel, frente à cadeia Quinhentista. O templo, construído nos finais do século XVI ou inícios do século XVII, destinava-se a servir espiritualmente os presos da cadeia. Ali existiu entre 1982 e 1991 uma loja de artesanato pertencente a Domingos Lameiras, funcionário da Pousada da Rainha Santa Isabel. A loja tinha como funcionária a sua sogra, a conhecida poetisa popular Constantina Babau.
Conheci José Moreira (1926-1991) nos finais dos anos cinquenta do século passado, quando comecei a fazer o avio para a casa dos meus pais na Mercearia Luiz Campos, no Largo General Graça, em Estremoz. José Moreira era igualmente cliente, daí que nos encontrássemos com frequência.
Mais tarde, nos anos sessenta, encontrávamo-nos no bar da Mocidade Portuguesa, por ocasião dos santos populares e ali bebíamos uns copos com o António Lapa do Grupo de Forcados Amadores de Lisboa e com o menino Cigano. José Moreira era um bom conversador e tinha costela de filósofo. Era agradável conviver e falar com ele.
José Marcelino Moreira viria a falecer no dia 20 de Junho de 1991, com 65 anos de idade, no Hospital de Évora, freguesia da Sé (4), (9). Foi uma perda irreparável para a barrística popular estremocense. A sua mulher, Josefina Augusta Ferreira faleceu a 31 de Março de 2019, com 97 anos de idade no Centro Social Paroquial de Santo André - Estremoz (8).

BIBLIOGRAFIA
1 - A Barrística de Estremoz perde um dos seus mais expressivos representantes (José Marcelino Moreira) in Brados do Alentejo nº 285, 19/07/1991. Estremoz, 1991 (pág. 10).
2 - ALVES, Armando José Ruivo. Depoimento sobre José Marcelino Moreira. Porto, 2014. sp.
3 - ANTÓNIO, Lauro. Bonecos de Estremoz (Filme). Estremoz, 1976.
4 - José Marcelino Moreira -  Assento de Óbito nº 444 de 1991, da Conservatória do Registo Civil de Évora.
5 - José Marcelino Moreira - Registo de Nascimento nº 244 de 1926, da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
6 - José Marcelino Moreira - Transcrição de Casamento nº 181 de 1956, da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
7 - Josefina Augusta Ferreira – Assento de Nascimento nº 783 de 2015, da Conservatória do Registo Civil / Predial / Comercial / Automóvel de Estremoz.
8 - Josefina Augusta Ferreira – Assento de Óbito nº …. de 2019, da Conservatória do Registo Civil / Predial / Comercial / Automóvel de Estremoz.
9 - ÓBITOS – José Marcelino Moreira in Brados do Alentejo nº 284, 05/07/1991. Estremoz, 1991 (pág. 29).

Fig. 2 - Josefina Augusta Ferreira (1922-2019 ), mulher de José Moreira a pintar uma
figura confeccionada pelo seu marido. Fotografia do filme Bonecos de Estremoz”
realizado em 1976 por Lauro António. Cortesia de Lauro António.
Arquivo fotográfico do autor.
Hernâni Matos


[1] - Conheci pessoalmente José Moreira e nunca tive conhecimento que Josefina modelasse. O pintor Armando Alves (2) frequentador da oficina de José Moreira também não. O filme de Lauro António (3) também não fala de Josefina a modelar. Não conheço qualquer evidência física (marca de autor) que confirme que Josefina tenha modelado, ao contrário de Ana Lagartinho (1936- ), mulher de Mário Lagartinho (1935-2016), que assinava os Bonecos que confeccionava. Todavia, o director do Museu Municipal de Estremoz, Hugo Guerreira, afirma que em entrevista que lhe fez já com avançada idade, Josefina lhe disse que também modelava. O mesmo foi dito por Josefina às Irmãs Flores.

terça-feira, 11 de junho de 2019

Estremoz - Surpresas do Mercado das Velharias - 02


Mercado das Velharias, em Estremoz. Fotografia de autor desconhecido.

Fiel frequentador do Mercado das Velharias em Estremoz, reincido em ir ali todos os sábados, como peregrino que vai cumprir uma promessa. Trata-se do compromisso assumido de por ali deambular à procura de registos do passado, que me permitam não só deleitar o espírito, como saciar a minha avidez de contar estórias. É que os objectos encerram em si estórias que se torna imperativo decifrar, para que possam ser transmitidas à comunidade. Daí que aqui dê conta de três exemplares de arte pastoril alentejana ali recentemente adquiridos.

Con­­sagração eucarística
A imagem mostra um invulgar exemplar de arte pastoril em madeira, representando o cálice, vaso sagrado onde, na Missa, se consagra o vinho no Sangue de Jesus Cristo. Vê-se ainda a hóstia circular, que se torna no seu Corpo às palavras da consagração.
O artefacto em madeira simboliza a Con­­sagração Eucarística, mo­men­to culminante da Missa em que, às pa­lavras de Jesus Cristo na Última Ceia, proferidas em sua me­mória pelo sacerdote celebrante, o pão e o vinho se transubstanciam no Corpo e no Sangue de Jesus Cristo.


Consagração eucarística.

Forca de fazer cordão
Trata-se de uma alfaia em madeira usada em tecnologia têxtil rural na manufactura de cordão e cuja origem remonta ao período viking (01) e medieval (02). O seu uso terá diminuído depois do séc. XII (02) e renascido no séc. XVII (04), para diminuir novamente no início do séc. XIX (3). Era usada no fabrico de cordão para utilizar no vestuário ou para pendurar objectos do cinto.
A forca de fazer cordão tem sempre uma extremidade em forma de lira, na qual se manufactura o cordão e, na extremidade oposta uma alça pela qual a forca se segura na mão que não está a ser utilizada na produção de cordão. No caso presente, a alça da forca é de forma circular e assemelha-se à cabeça de uma cágueda (fecho de coleira de gado com chocalho suspenso). Está dividida em duas partes: um circulo central e uma coroa circular que lhe é circundante, ambos lavrados. O círculo central simula uma flor com pétalas irradiando do centro e ligeiramente encurvadas para a direita do observador. A coroa, à excepção da sua parte inferior está decorada com um padrão de zig-zag. A inscrição “ANTONIO” gravada no verso da forca, perpetua na madeira o antropónimo do artista popular que a concebeu e executou.
  
Forca de fazer cordão.

Descamisador
O descamisador (ou sovino) era uma alfaia agrícola, outrora utilizada nas descamisadas, para retirar as folhas que envolvem as maçarocas de milho após a respectiva colheita, de modo a prepará-las para a debulha. O descamisador era muitas vezes em madeira, consistindo de um pau pontiagudo, mais ou menos trabalhado. Com uma mão segurava-se uma maçaroca e com a outra empunhava-se o descamisador, cuja ponta era feita incidir longitudinalmente sobre a maçaroca, de modo a cortar as folhas sobrepostas, que depois eram separadas dela. A descamisada era um trabalho colectivo nocturno, de entreajuda e de convívio da comunidade vicinal.

Descamisador.

BIBLIOGRAFIA
(01) PETTERSSON, Kerstin.  En gotländsk kvinnas dräkt. Kring ett textilfynd från vikingatiden, Tor 12. Societas Archaeologica Upsaliensis. Uppsala, 1967-1968 (pág. 174- 200).
(02) - MACGREGOR, Arthur. Bone, Antler, Ivory and Horn: The Technology of Skeletal Materials since the Roman Period.  Croom Helm. London, 1985.
(03) - GROVES, Sylvia. The History of Needlework Tools and Accessories. Hamlyn Publishing. Middlesex, 1966.
 (04) - Oxford English Dictionary. Ver: “Lucets”.

domingo, 9 de junho de 2019

Bonecos de Estremoz: Preta florista


Preta florista. Ana das Peles (1859-1945).


Figura antropomórfica feminina, seminua [1], cor de chocolate, de pé, com as mãos segurando uma canastra com flores, à altura da cintura. A canastra [2] é amarela e apresenta lateralmente linhas incisas e inclinadas que se cruzam para parecer que a canastra foi entretecida com verga [3]. A canastra comporta flores policromáticas e folhas verdes.
Na cabeça, o cabelo curto é negro e picado para imitar carapinha.
A cabeça está envolvida superiormente por um turbante de forma cilíndrica, cor de zarcão e com linhas incisas na horizontal [4]. O turbante está decorado na parte lateral esquerda com um laço amarelo, do qual pende a ponta do turbante que cai até ao peito da figura. As linhas incisas do turbante, apresentaram uma pintura amarela, praticamente toda sumida [5].
Os olhos são dois círculos negros em fundo circular branco [6]. O nariz é uma saliência larga e a boca está pintada de vermelho.
Das orelhas pendem duas argolas amarelas de formato oval, representando brincos. O pescoço é de formato cilíndrico e está envolto por um lenço cor de zarcão [7] com as pontas pendentes e unidas na parte frontal superior do tronco.
Os braços são cilindriformes, arqueados para dentro e na sua extremidade, as mãos apresentam linhas incisas representando os dedos. Cada um dos ombros está ornamentado com três flores policromáticas, de forma cónica.
As pernas são cilindriformes e nas suas extremidades os pés apresentam linhas incisas, configurando os dedos [8].
A figura veste uma saia curta e rodada, cor de zarcão, ornamentada próximo do fundo com uma barra amarela, de aspecto cordiforme [9]. Na cintura, um fita amarela [10] que termina num laço de pontas pendentes na parte posterior.
A figura assenta numa base circular de cor verde, com círculos entalhados e da mesma cor, junto à orla [11].





[1] A figura está seminua porque usa apenas saia e tem o tronco a descoberto. A representação é comum aos demais barristas estudados, exceptuando-se José Moreira, cujo modelo enverga um vestido.
[2] Nos Bonecos de Ana das Peles, de Liberdade da Conceição e de Maria Luísa da Conceição, a canastra não apresenta pegas, como acontece nos restantes barristas estudados.
[3] Ana das Peles imita o entretecimento da verga na canastra recorrendo a incisões. Maria Luísa da Conceição fá-lo recorrendo a linhas inclinadas cor de laranja, as quais se cruzam. Os restantes barristas estudados não simulam o entretecimento da verga. Apenas a canastra de Liberdade da Conceição está decorada no bordo superior com traços alternadamente azuis e cor de zarcão.
[4] O turbante da imagem de José Moreira, ao contrário dos demais, é de cor amarela com uma faixa cor de zarcão e não apresenta linhas incisas na horizontal.
[5] O mesmo acontece nas linhas do turbante do exemplar de Mariano da Conceição. Já nas figuras de Sabina da Conceição e das Irmãs Flores, a pintura amarela das linhas incisas do turbante é bem visível. Por sua vez, nas imagens de Liberdade da Conceição e de Maria Luísa da Conceição, as linhas incisas do turbante foram pintadas a vermelho.
[6] O mesmo se passa em todos os exemplares estudados, à excepção do de Maria Luísa da Conceição, no qual os olhos são dois círculos negros em fundo elíptico branco.
[7] É o que acontece nas restantes figuras estudadas, à excepção da de Mariano da Conceição, em que o lenço é amarelo com pintas cor de zarcão, assim como na das Irmãs Flores, na qual o lenço apresenta uma faixa amarela e outra cor de zarcão, no sentido longitudinal.
[8] Ana das Peles e Mariano da Conceição não configuraram as unhas, o que não acontece nos restantes barristas estudados. Nestes, as unhas podem aparecer com diferentes cores: creme (José Moreira), castanho (Sabina da Conceição), cor de zarcão (Liberdade da Conceição e Maria Luísa da Conceição) e cinzento claro (Irmãs Flores).
[9] O artefacto de José Moreira, ao contrário dos restantes, não apresenta junto do fundo, uma barra amarela de aspecto cordiforme. Apresenta sim, duas barras lisas, uma cor de zarcão na orla do vestido e outra azul-escuro, mais para cima.
[10] No espécimen de José Moreira, a fita é cor de zarcão.
[11] Os círculos são da mesma cor verde da base. Exceptua-se o exemplar de José Moreira, no qual os círculos foram alternadamente pintados de branco e cor de zarcão. Exceptua-se ainda o artefacto de Liberdade da Conceição, no qual os círculos foram preenchidos a azul- escuro.

Preta florista. Mariano da Conceição (1903-1959).

Preta florista. Sabina da Conceição (1921-2005).

Preta florista. Liberdade da Conceição (1913-1990).


Preta florista. José Moreira (1926-1991).


Preta florista. Irmãs Flores (1957, 1958-)


Preta florista. Maria Luísa da Conceição (1934-2015).