quinta-feira, 9 de maio de 2013

As Missões Laicas em África na 1ª República em Portugal

Capas do volumes I E II de “As Missões Laicas em África na 1ª República em Portugal”
de Pedro Marçal Vaz Pereira.

AS MISSÕES LAICAS EM ÁFRICA NA 1ª REPÚBLICA EM PORTUGAL
Este é o título da mais recente obra de Pedro Marçal Vaz Pereira, a lançar pelas dezassete horas e trinta minutos da próxima segunda-feira, dia 13 de Maio, na Sala Algarve, da Sociedade de Geografia de Lisboa.
O autor, filatelista eminente, escritor e jornalista filatélico, subscreve vasta colaboração em revistas e catálogos de exposições filatélicas, tanto em Portugal como no estrangeiro. Em 2005 publicou a obra em 2 volumes “Os Correios Portugueses entre 1853-1900. Carimbos Nominativos e Dados Postais e Etimológicos”, editado pela Fundação Albertino Figueiredo, de Madrid. É Presidente da Federação Portuguesa de Filatelia (FPF) e foi Presidente da Federação Europeia de Sociedades Filatélicas (FEPA), assim como director das respectivas revistas “Filatelia Lusitana” e “FEPA News”.
A obra, profusamente ilustrada e documentada, é constituída por dois volumes com capa dura, 24 cm x 30 cm, de 528 e 512 páginas, respectivamente. A edição é do autor e tem o preço de lançamento de 80 euros, sendo posteriormente comercializada nas livrarias LeYa.
Trata-se de uma obra prefaciada pelo Professor Eduardo Marçal Grilo e que vem preencher algumas lacunas no conhecimento que temos de certos aspectos dum período conturbado da nossa História Pátria. Por isso mesmo é uma obra que vem enriquecer a bibliografia sobre a 1ª República, que relativamente ao assunto em epígrafe, se limitava à obra “As “Missões Laicas”, de A. Teixeira Marcelino, uma publicação de pequeno fôlego (111 páginas) dada à estampa em 1933, pela Imprensa Moderna, do Porto.
A obra contou muito para a sua elaboração com o precioso espólio do bisavô do autor, Dr. Abílio Corrêa da Silva Marçal (1867-1925), que foi Director do Instituto de Missões Coloniais e do respectivo Boletim das Missões Civilizadoras, do qual saíram com regularidade 24 números no período 1920-1925. Licenciado em Direito, exerceu a advocacia e militou no Partido Dissidente Progressista. Após a implantação da República aderiu ao Partido Democrático, ao lado de Afonso Costa de quem foi muito próximo. Em 1917 foi nomeado Secretário do Governo e exerceu o cargo de Presidente da Câmara dos Deputados, tendo recusado em várias ocasiões, o lugar de Ministro para o qual fora indigitado.

O nº 1 do "Boletim das Missões Civilizadoras", de Abril de 1920.



A CRIAÇÃO DAS MISSÔES LAICAS
A revolução republicana de 5 de Outubro de 1910 teve inúmeras repercussões aos mais diferentes níveis, uma das quais foi a “Lei de Separação do Estado e da Igreja”, promulgada em 20 de Abril de 1911, a qual no seu artigo 189º autorizava o Governo a reformar os serviços do Colégio das Missões Ultramarinas, de Cernache do Bonjardim, vulgarmente conhecido como Real Colégio das Missões.
A 10 de Julho de 1913, houve corte de relações diplomáticas ente Portugal e a Santa Sé. A 22 de Novembro desse ano, pelo Decreto nº 233, o Ministro das Colónias, Dr. Almeida Ribeiro, tornou extensivas às colónias as disposições da Lei de Separação. O artigo 19º do referido Decreto autorizava a criação de Missões Civilizadoras nas províncias de Guiné, Angola, Moçambique e Timor, “com absoluta exclusão de qualquer ensino ou propaganda de carácter religioso”. Missões Civilizadoras foi a nomenclatura oficial atribuída às Missões Laicas, visando uma mais fácil aceitação junto do público.
A 8 de Setembro de 1917, pelo Decreto nº 3352, o Governo do Dr. Afonso Costa reformou o Colégio das Missões Ultramarinas, que passou a intitular-se “Instituto de Missões Coloniais”: “escola de educação de alunos com destino ao serviço das colónias, como agentes de civilização”. Ali passaria a receber formação o pessoal que ia integrar as Missões Laicas, criadas quatro anos antes.
A 7 de Abril de 1920 partiram de Lisboa, com destino a Luanda, as duas primeiras Missões Laicas: a Missão "Cândido dos Reis", e a Missão "Cinco d`Outubro". Posteriormente seguiram para Moçambique, a Missão Civilizadora "Camões", a Missão Civilizadora "Pátria", e a Missão Civilizadora "República". Propunham-se levar aos povos das colónias os grandes valores republicanos da solidariedade e da filantropia, já que “educar o preto pelo trabalho e ensinar-lhe a língua portuguesa” era considerado uma grande obra civilizacional sem que para tal houvesse necessidade de recorrer às ordens religiosas. Abílio Marçal, Director do Instituto que as formou, considerou então tratar-se de um enorme esforço empreendido na área da instrução e da educação cívica, que se traduziu na implantação de oficinas, enfermarias, escolas e internatos, fruto da dedicação republicana.
Com a morte de Abílio Marçal em Junho de 1925, o projecto das Missões Laicas para as colónias paralisou e acaba por ruir com a morte do seu mentor.



OS EVENTOS NA SOCIEDADE DE GEOGRAFIA DE LISBOA
O lançamento da obra de Pedro Marçal Vaz Pereira na Sociedade de Geografia de Lisboa integra-se nas Comemorações do 1º Centenário das Missões Laicas, as quais terão o seguinte desenvolvimento:
- Apresentação de boas vindas aos convidados pelo Professor Aires de Barros, Presidente da Sociedade de Geografia.
- Inauguração da Exposição Histórica das Missões Laicas.
- Lançamento pelo Correios de Portugal da emissão “Centenário das Emissões Laicas” e do respectivo carimbo de 1º dia.
- Apresentação do livro “As Missões Laicas em África na 1ª República em Portugal” pelo Doutor João Pedro Xavier de Brito.
- Conferência sobre “As Missões Laicas em África na 1ª República em Portugal” pelo Senhor Pedro Vaz Pereira.
- Porto de Honra no Salão Nobre.

A EMISSÃO FILATÉLICA
A emissão filatélica “Centenário das Emissões Laicas” é composta por dois selos e um bloco com as taxas de 0,36 e 0,80 euros e um bloco com um selo da taxa de 3 euros. Reproduzem respectivamente:
- Os membros da Missão Civilizadora de Angola:
- Os membros da Missão Civilizadora de Moçambique;
- O Instituto das Missões Laicas em Cernache de Bonjardim.
Para esta emissão filatélica foram criados quatro carimbos de 1º dia, um dos quais além de ser aposto na Sociedade de Geografia de Lisboa será igualmente aposto nas correspondências apresentadas para o efeito na Loja de Filatelia de Lisboa. Os restantes serão apostos nas Lojas de Filatelia do Porto, Ponta Delgada e Funchal.



O selo da taxa de 0,36 € da emissão "Centenário das Missões Laicas".
O selo da taxa de 0,80 € da emissão "Centenário das Missões Laicas" .
 O bloco da taxa de 3,00 € da emissão "Centenário das Missões Laicas".

Os quatro carimbos de 1º dia da emissão "Centenário das Missões Laicas".

domingo, 5 de maio de 2013

Alquimia (Ao Armando Alves)




Alquimia

Ao Armando Alves

A incisão do olhar
na geometria do gesto,
reflexo antropomórfico
do povo que habita em ti

A surpresa do espaço
na forma incontida,
partilhar de alma
que nos enfeitiça

Paleta de cores
que é suor de vida,
paisagem inventada
que de ti floresce

Horizontes vastos
que nos conquistam
na generosidade
da sua partilha

Odores, sons, sabores,
sinestesia telúrica
que nos arrebata
e nos conquista

Obrigado, Armando
por tudo isto,
e por tudo aquilo
que não sei dizer


Estremoz, 3 de Maio de 2013

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Grândola, Vila Morena


canção “Grândola, Vila Morena", utilizada como senha pelo MFA
se transformou em símbolo da revolução de Abril.


Tive o privilégio de conviver pela primeira vez com o Zeca Afonso (1929-1987) no contexto da luta académica contra o fascismo, que uniu as Academias de Lisboa, Coimbra e Porto. Nessas circunstâncias, salvo erro em 1967, viajei no mesmo autocarro que o Zeca, quando o Movimento Associativo da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, no qual me integrava, foi até Coimbra partilhar experiências de luta com os camaradas de lá. Viria a ser uma memorável jornada de luta, com a PIDE a vigiar-nos no Choupal, no decurso dum almoço improvisado e com a malta a cantar:

A pulga salta,
A pulga pica,
Ora vai-te embora,
Ora vai-te embora,
Oh pulga fascista!
 
Antes disso e devido à minha disponibilidade e solidariedade militantes, fui encarregado pelo Movimento de realizar no autocarro uma recolha de fundos a favor do Zeca. Este, expulso do ensino e impedido de leccionar, sobrevivia com dificuldade, graças a algumas explicações que lá conseguia dar. Lá fui de lugar em lugar, com a minha boina basca e cada um lá contribuiu com as magras moedas possíveis, para dar uma ajuda ao Zeca. A solidariedade não se ensina, partilha-se.
Depois disso e depois das “portas que Abril abriu”, encontrámo-nos numa sessão de solidariedade com a Reforma Agrária na qual marcámos presença, cada um à sua maneira. Trocámos um abraço caloroso, ainda que breve, já que o Zeca tinha de cantar e isso era o mais importante, pois ele era o catalizador para a acção.
Algumas histórias ficaram por relembrar, porque um homem não tem tempo de falar de tudo. Dalgumas delas pode-se falar depois, como é o caso da canção “Grândola, Vila Morena", pertencente ao álbum "Cantigas de Maio", editado em 1971. A canção transmitida pela Rádio Renascença, a emissora católica portuguesa, às zero horas e vinte minutos do dia 25 de Abril de 1974, como segunda senha pelo Movimento das Forças Armadas (MFA), confirmou o início do golpe de estado militar que derrubou a ditadura e instaurou a democracia em Portugal. Como tal, transformou-se em símbolo da revolução de Abril.
Na actualidade, é entoada como forma de protesto contra as políticas económicas do governo e da troika, sendo importante que todos assumamos esta canção como símbolo da luta por um mundo melhor, com justiça social, trabalho e esperança no amanhã.
Mais que nunca é preciso relembrar Abril e apontá-lo às novas gerações como um caminho a seguir. Foi o que aconteceu na passada noite de 24 de Abril quando a Academia Sénior de Estremoz comemorou Abril com cravos, poemas e canções na Biblioteca Municipal desta cidade. Foi bonito e daqui se felicita a iniciativa da Academia. Ali não havia quem nunca tenha gostado de cravos. Todavia havia quem os tenha usado ao peito e tenha fugido deles como o diabo da cruz. O mesmo aconteceu com “Grândola Vila Morena”, que duma forma torta, alguém “de direito” entendeu que não devia ser ali cantada, por que era uma canção contra o Governo. Fez o seu papel e com isso negou a própria essência do que ali tinha acontecido. Descontentes com tal atitude, muitos dos presentes dirigiram-se para o exterior da Biblioteca, onde cantaram “Grândola, Vila Morena” três vezes seguidas. Eu por mim, ainda lá estava, até que a voz me doesse.
25 DE ABRIL SEMPRE!

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Ler é preciso!

Rapariga a ler (c. 1887).
Theodore Rousell (1847-1926)
Óleo sobre tela (152 x 161 cm)
Tate Gallery, London.

Li algures que: “A actualizaçâo de software do cérebro humano é a leitura”.
- Boa malha! É o que diria o meu primo Feliciano da Purificação, todo ele consagrado  às coisas de Espírito. Para falar de Paz nem a celeste Maria lhe chega aos calcanhares. De software já não digo tanto. Agora que é dado a arrebatadas leituras, lá isso é.
Porém, o mais importante é que ele representa a síntese dialéctica da loucura mística, do ladrar manso e de sonoros peidos musicais, que repetidamente e com solfejo transtagano, evocam alegoricamente um pífaro de Estremoz.
Não fosse a pestilenta semeadura de gases fecais e já o meu primo Feliciano da Purificação seria há muito Comendador da Húmida Ordem do Alqueva. Todavia não ultrapassa a mera condição de reles Cavaleiro da Ordem do Peido-Mestre. Deste modo, porque sou profundo conhecedor dos seus méritos e para além da fecalidade evidente, entendo que é caso para proclamar:
- Viva o Feliciano da Purificação!
- PUM!

POST-SCRIPTUM
Estou numa de anarco-literário. A gravata da minha fotografia no Facebook é um mero disfarce embusteiro do tempo da outra senhora. Farto do meu irmão gémeo e da minha prima Hifigénia, hoje nasceu-me o meu primo Feliciano da Purificação. Vamos lá a ver onde é que esta torrente vai desembocar. Todavia há sempre uma solução. Se ele se portar mal e me chatear o toutiço, faço-lhe o funeral literário tal-qualmente fiz à tia e ao mano, mas é sempre uma solução de evitar, já que com os cortes do Gaspar, não ganho para as carpideiras. Doravante, funerais sim, mas a seco!

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Deixem o cravo em Paz!

25 de Abril (?) de 2013 na Assembleia da República

O cravo vermelho não é uma flor de conveniência para encobrir políticas de saque de quem julga que nos engana ao prostituir a Verdade.
A Liberdade não se rende.
Deixem o cravo em Paz!
25 DE ABRIL SEMPRE!

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Estremoz - Rota do Azulejo


Batalha do Ameixial em 1663 (séc. XVIII). Painel de azulejos de uma das salas do Palácio Tocha,
construído no início do século XVIII para residência do capitão Barnabé Henriques e sua família.
No interior sobressaem azulejos que representam cenas campestres, mitológicas ou de batalhas
da História Regional. O actual proprietário é Joe Berardo e o edifício classificado como de
interesse municipal, está encerrado ao público, não sendo visitável.


Ao longo de mais de cinco séculos, o azulejo tem sido usado em Portugal, como elemento associado à arquitectura, não só como revestimento de superfícies, mas também como elemento decorativo.
Pela sua riqueza cromática e pelo seu poder descritivo, o azulejo ilustra bem a mentalidade, o gosto e a História de cada época, sendo muito justamente considerado como uma das criações mais singulares da Cultura Portuguesa e um paradigma da nossa Identidade Cultural Nacional.
O património azulejar da cidade de Estremoz é riquíssimo e está maioritariamente distribuído pelos seguintes edifícios: Convento dos Congregados do Oratório de São Filipe de Néri, Ermida de Santo Cristo, Convento das Maltesas, Convento de São Francisco, Palácio Tocha, Igreja do Anjo da Guarda, Antigo Hospital da Misericórdia, Convento de Nossa Senhora da Consolação, Passos da Irmandade do Senhor Jesus dos Paços, Armaria de D. João V (Pousada da Rainha Santa Isabel), Igreja de Santa Maria, Capela da Rainha Santa Isabel, Igreja de São Tiago, Estação da CP de Estremoz, Quinta de Nossa Senhora do Carmo, Ermida de Nossa Senhora da Conceição e Ermida de Nossa Senhora dos Mártires.
A apetência dos turistas nacionais e estrangeiros para visualizarem e apreciarem os nossos painéis azulejares é grande. Um indicador disso é a página do Facebook “AZULEJOS PORTUGUESES”, dos quais sou um dos gestores, que até hoje já recebeu 19104 “gostos” e que num dia já recebeu 10740 visitas.
Estremoz é uma cidade de serviços e precisa de turistas para animar a frágil economia local, tal como um esfomeado necessita de pão para a boca. Nesta ordem de ideias, não seria possível o Município organizar uma “Rota do Azulejo” e divulgá-la através dos seus Serviços de Imprensa? Aqui fica o alvitre, seguido de algumas sugestões: Um técnico do Município com valência em História de Arte elaborava um guião a ser seguido nas visitas guiadas pelo técnico de turismo que acompanhasse os turistas. Estes, deslocar-se-iam em autocarro do Município e pagariam o serviço que lhes era prestado, incluindo o serviço de Guia. O percurso da rota do azulejo abrangeria a manhã e a tarde e seria interrompido para almoço, confirmado logo de manhã. O almoço-tipo podia ser servido em locais a visitar tais como a Pousada da Rainha Santa Isabel ou a Quinta de Nossa Senhora do Carmo. No final era conferido a cada turista um certificado comprovativo de que tinha conhecido e apreciado o património azulejar de Estremoz.
Como os edifícios, uns são públicos, outros religiosos e outros privados, haveria que limar algumas arestas e estabelecer pontes de entendimento entre as entidades intervenientes. Nada que não possa ser feito. É caso para dizer:
- MÃOS À OBRA! VAMOS DINAMIZAR O TURISMO!

Hernâni Matos
(Publicado no jornal Brados do Alentejo, de 18 de Abril de 2013)

O Milagre das Rosas. Painel de azulejos (126x173,5 cm) de meados do séc. XVIII,
da autoria de Policarpo de Oliveira Bernardes (1695-1778), pintor e azulejista alentejano,
pertencente ao chamado ciclo dos mestres, período em que se produziram as melhores peças
azulejares, do barroco português. Sacristia da Igreja do Convento de S. Francisco, Estremoz. 
Cena de caça (séc. XVIII). Painel de azulejos do Convento dos Congregados de S. Filipe Nery,
actual edifício dos Paços do Concelho de Estremoz. 
Dar de beber a quem tem sede (séc. XVIII). Um dos painéis de azulejos com as
virtudes Cardeais e Teologais, existentes na antiga Igreja da Misericórdia de Estremoz.
Adão e Eva no Paraíso (Séc. XVIII). Painel existente na Capela dos Passos
situada  no alçado exterior direito da Igreja do Convento de São Francisco. 
Milagre da criança salva das águas (c. 1725). Teotónio dos Santos (?). Painel de
azulejos  (2,60 m x 2,40 m). Capela da Rainha Santa Isabel do Castelo de Estremoz.
 Painel de azulejos (séc. XVIII) da Real Fábrica de Cerâmica de Estremoz.
Museu Municipal de Estremoz.
Painel de azulejos policromos de temática mariana (c. 1669).
Ermida de Nossa Senhora da Conceição, templo maneirista
situado nos arredores de Estremoz, edificado no último quartel
do século XVI. 
Painéis de azulejos (meados do século XVIII), saídos de uma grande
oficina lisboeta, cuja temática iconográfica é inteiramente dedicada
a cenas da vida da Virgem e da Infância de Jesus. Ermida de Nossa
Senhora dos Mártires, cuja origem remonta ao reinado de D. Fernando
e terminada pelo Condestável Dom Nuno Álvares Pereira, Senhor
da Vila de Estremoz.
 Estremoz – Mercado de Sábado (1940). Painel azulejar policromático da autoria
de Alves de Sá (1878-1972), fabricado na Fábrica de Cerâmica da Viúva Lamego,
em Lisboa. Estação da CP em Estremoz.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Um moringue antropomórfico


Moringue antropomórfico. Morfologia: cabeça de homem sorridente com pêra
e usando chapéu de coco. Estilo decorativo: polido, jogando com o contraste
entre a superfície baça e a que foi polida. Altura: 23 cm; Largura. 11 cm;
Profundidade: 13 cm. Fabrico da Olaria Alfacinha. Estremoz, anos 40 do séc. XX.



                                                            
Ao nosso amigo Hugo Guerreiro,
                                                            como nós um seareiro
                                                            na barrística popular de Estremoz.


O recipiente de barro vermelho de Estremoz aqui estudado designa-se moringue antropomórfico, já que “antropomórfico” (antropomorfo + -ico) é um adjectivo que de acordo com José Pedro Machado (8), provém do grego “anthrõpómorphos” e designa aquilo “que tem forma humana”. Por outro lado, pertence à classe de vasilhame que em terminologia oleira é designada por “moringue”, substantivo masculino enraizado na nossa língua pátria. Que têm a dizer sobre este termo os nossos lexicógrafos? É o que averiguámos com os meios limitados de que dispomos, numa biblioteca que apesar de alguns milhares de títulos, não passa de uma biblioteca de vão de escada. Relatamos de seguida, o fruto da nossa pesquisa:
- Raphael Bluteau [(4): 1712-1728], Viterbo [(13): 1798-1799) e Moraes Silva [(11): 1813] não abordam o termo “moringue”.
- Caldas Aulette [(2): 1881] diz: “Bilha de barro bojuda, com aza na parte superior e um gargalo em cada extremidade d’esta. (Serve para conter agua de beber). Formação: É palavra brasileira.”.
- Cândido de Figueiredo [(6): 1899] explica: “Bilha para água, tendo superiormente uma asa, e um gargalo em cada extremidade desta.”.
- Silva Bastos [(3): 1928] define: “Bilha para água, com asa e um gargallo em cada extremidade desta.”.
- Academia das Ciências de Lisboa [(1): 1940] descreve: “Moringue ou moringo é uma bilha.”.
- José Pedro Machado [(8): 1989] refere: “Também não sei explicar este vocábulo, nem mesmo posso, por ora, averiguar até que ponto tem razão Domingos Vieira (12) ao afirmar que se trata de “termo do Brasil”.”. Ainda José Pedro Machado [(9): 1991] refere ser: “Vasilha de tipo quase exclusivamente peninsular; é uma bilha ou garrafão de barro, bojuda, para água, com asa na parte superior e um gargalo em cada extremidade desta.”.
- António Houaiss [(7): 2003] cita Constâncio (5) e diz: “Vaso de barro bojudo e de gargalo estreito usado para acondicionar e conservar fresca a água; bilha de barro para água fresca potável; bilha de barro para água de beber.” Cita Nascentes (10), dizendo que “a palavra provém etimologicamente do cafre muringa.”.
Para além da etimologia quanto a nós insuficientemente esclarecida, parece não haver dúvida que os moringues são vasilhas de barro modeladas com o auxílio da roda de oleiro, com morfologias e estilos decorativos diversificados. Têm, todavia, alguns traços comuns: uma asa para serem pegados, uma abertura afunilada para entrada de água e um bocal em forma de pipo de onde escorre a água a beber. A técnica de utilização do moringue é a seguinte: o potencial bebedor ergue o moringue mais alto que a cabeça e inclina-o, de modo que a água que jorra do pipo lhe escorra pela goela aberta. Deste modo, o moringue é uma vasilha de utilização colectiva, que pode passar de mão em mão, sem ser tocado por nenhuma boca. Por isso era utilizado por trabalhadores para se dessedentarem em fainas agrícolas como as ceifas e o trabalho nas eiras, os quais se processavam na mais rigorosa canícula.
A terminar, gostaríamos de citar D. Francisco Manuel de Melo: “Da infelicidade da Composição, erros de escritura e outras imperfeições da estampa, não há que dizer-vos: vós os vedes, vós os castigais.”. Acrescentaremos todavia o rifão: "Quem dá o que tem, a mais não é obrigado".


BIBLIOGRAFIA
(1) - ACADEMIA DAS CIÊNCIAS DE LISBOA. Vocabulário ortográfico da língua portuguesa. Imprensa Nacional de Lisboa. Lisboa, 1940.
(2) - AULETE, Caldas. Diccionario Contemporâneo da Língua Portuguesa (1ª edição). 2 vol. Parceria António Maria Pereira, Lisboa, 1881.
(3) - BASTOS, J.T. da Silva. Diccionário Etymológico, Prosódico e Orthográphico da Língua Portugueza (2ª edição). Parceria António Maria Pereira, Lisboa, 1928.
(4) - BLUTEAU, Raphael. Vocabulario portuguez & latino: aulico, anatomico, architectonico ... 8 vol. Collegio das Artes da Companhia de Jesus. Coimbra, 1712 - 1728.
(5) - CONSTÂNCIO, Francisco Solano. Novo Diccionario crítico e etymologico da lingua portugueza. Angelo Francisco Carneiro Júnior, Tipografia de Casimir. Paris, 1836.
(6) - FIGUEIREDO, Cândido de. Novo Diccionário da Língua Portuguesa (1ª edição). 2 vol. Editora Tavares Cardoso & Irmão, 1899.
(7) - HOUAISS, António e al. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. 6 vol. Círculo de Leitores. Lisboa, 2003.
(8) - MACHADO, José Pedro. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa (5ªedição). 5 vol. Livros Horizonte. Lisboa, 1989.
(9) - MACHADO, José Pedro. Grande Dicionário da Língua Portuguesa. 6 vol. Publicações Alfa. Lisboa, 1991.
(10) - NASCENTES, Antenor. Dicionário etimológico da língua portuguesa. Rio de Janeiro, 1932.
(11) - SILVA, Antonio de Moraes. Diccionario da língua portuguesa recopilado dos vocabulários impressos até agora, e nesta segunda edição novamente emendado, e muito acrescentado, por Antonio de Moraes Silva. Typografia Lacerdina. Lisboa, 1813.
(12) - VIEIRA, Frei Domingos. Grande diccionario portuguez ou thesouro da lingua portugueza. Porto: Ed. Chardron e Bartholomeu H. de Moraes. Rio de Janeiro, 1871-1874.
(13) - VITERBO, Joaquim de Santa Rosa de. Elucidario das palavras, termos, e frases, que em Portugal antiguamente se usarão, e que hoje regularmente se ignorão: obra indispensavel para entender sem erro os documentos mais raros, e preciosos, que entre nós se conservão : publicado em beneficio da litteratura portugueza e dedicado ao Príncipe N. Senhor (2 vols.). Na Officina de Simão Thadeo Ferreira. Lisboa, 1798-1799.