segunda-feira, 15 de abril de 2013

Um moringue antropomórfico



Moringue antropomórfico. Morfologia: cabeça de homem sorridente com pêra
e usando chapéu de coco. Estilo decorativo: polido, jogando com o contraste
entre a superfície baça e a que foi polida. Altura: 23 cm; Largura. 11 cm;
Profundidade: 13 cm. Fabrico da Olaria Alfacinha. Estremoz, anos 40 do séc. XX.

                                                            Ao nosso amigo Hugo Guerreiro,
                                                            como nós um seareiro
                                                            na barrística popular de Estremoz.




O recipiente de barro vermelho de Estremoz aqui estudado designa-se moringue antropomórfico, já que “antropomórfico” (antropomorfo + -ico) é um adjectivo que de acordo com José Pedro Machado (8), provém do grego “anthrõpómorphos” e designa aquilo “que tem forma humana”. Por outro lado, pertence à classe de vasilhame que em terminologia oleira é designada por “moringue”, substantivo masculino enraizado na nossa língua pátria. Que têm a dizer sobre este termo os nossos lexicógrafos? É o que averiguámos com os meios limitados de que dispomos, numa biblioteca que apesar de alguns milhares de títulos, não passa de uma biblioteca de vão de escada. Relatamos de seguida, o fruto da nossa pesquisa:

- Raphael Bluteau [(4): 1712-1728], Viterbo [(13): 1798-1799) e Moraes Silva [(11): 1813] não abordam o termo “moringue”.
- Caldas Aulette [(2): 1881] diz: “Bilha de barro bojuda, com aza na parte superior e um gargalo em cada extremidade d’esta. (Serve para conter agua de beber). Formação: É palavra brasileira.”.
- Cândido de Figueiredo [(6): 1899] explica: “Bilha para água, tendo superiormente uma asa, e um gargalo em cada extremidade desta.”.
- Silva Bastos [(3): 1928] define: “Bilha para água, com asa e um gargallo em cada extremidade desta.”.
- Academia das Ciências de Lisboa [(1): 1940] descreve: “Moringue ou moringo é uma bilha.”.
- José Pedro Machado [(8): 1989] refere: “Também não sei explicar este vocábulo, nem mesmo posso, por ora, averiguar até que ponto tem razão Domingos Vieira (12) ao afirmar que se trata de “termo do Brasil”.”. Ainda José Pedro Machado [(9): 1991] refere ser: “Vasilha de tipo quase exclusivamente peninsular; é uma bilha ou garrafão de barro, bojuda, para água, com asa na parte superior e um gargalo em cada extremidade desta.”.
- António Houaiss [(7): 2003] cita Constâncio (5) e diz: “Vaso de barro bojudo e de gargalo estreito usado para acondicionar e conservar fresca a água; bilha de barro para água fresca potável; bilha de barro para água de beber.” Cita Nascentes (10), dizendo que “a palavra provém etimologicamente do cafre muringa.”.
Para além da etimologia quanto a nós insuficientemente esclarecida, parece não haver dúvida que os moringues são vasilhas de barro modeladas com o auxílio da roda de oleiro, com morfologias e estilos decorativos diversificados. Têm, todavia, alguns traços comuns: uma asa para serem pegados, uma abertura afunilada para entrada de água e um bocal em forma de pipo de onde escorre a água a beber. A técnica de utilização do moringue é a seguinte: o potencial bebedor ergue o moringue mais alto que a cabeça e inclina-o, de modo que a água que jorra do pipo lhe escorra pela goela aberta. Deste modo, o moringue é uma vasilha de utilização colectiva, que pode passar de mão em mão, sem ser tocado por nenhuma boca. Por isso era utilizado por trabalhadores para se dessedentarem em fainas agrícolas como as ceifas e o trabalho nas eiras, os quais se processavam na mais rigorosa canícula.
A terminar, gostaríamos de citar D. Francisco Manuel de Melo: “Da infelicidade da Composição, erros de escritura e outras imperfeições da estampa, não há que dizer-vos: vós os vedes, vós os castigais.”. Acrescentaremos todavia o rifão: "Quem dá o que tem, a mais não é obrigado".


BIBLIOGRAFIA
(1) - ACADEMIA DAS CIÊNCIAS DE LISBOA. Vocabulário ortográfico da língua portuguesa. Imprensa Nacional de Lisboa. Lisboa, 1940.
(2) - AULETE, Caldas. Diccionario Contemporâneo da Língua Portuguesa (1ª edição). 2 vol. Parceria António Maria Pereira, Lisboa, 1881.
(3) - BASTOS, J.T. da Silva. Diccionário Etymológico, Prosódico e Orthográphico da Língua Portugueza (2ª edição). Parceria António Maria Pereira, Lisboa, 1928.
(4) - BLUTEAU, Raphael. Vocabulario portuguez & latino: aulico, anatomico, architectonico ... 8 vol. Collegio das Artes da Companhia de Jesus. Coimbra, 1712 - 1728.
(5) - CONSTÂNCIO, Francisco Solano. Novo Diccionario crítico e etymologico da lingua portugueza. Angelo Francisco Carneiro Júnior, Tipografia de Casimir. Paris, 1836.
(6) - FIGUEIREDO, Cândido de. Novo Diccionário da Língua Portuguesa (1ª edição). 2 vol. Editora Tavares Cardoso & Irmão, 1899.
(7) - HOUAISS, António e al. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. 6 vol. Círculo de Leitores. Lisboa, 2003.
(8) - MACHADO, José Pedro. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa (5ªedição). 5 vol. Livros Horizonte. Lisboa, 1989.
(9) - MACHADO, José Pedro. Grande Dicionário da Língua Portuguesa. 6 vol. Publicações Alfa. Lisboa, 1991.
(10) - NASCENTES, Antenor. Dicionário etimológico da língua portuguesa. Rio de Janeiro, 1932.
(11) - SILVA, Antonio de Moraes. Diccionario da língua portuguesa recopilado dos vocabulários impressos até agora, e nesta segunda edição novamente emendado, e muito acrescentado, por Antonio de Moraes Silva. Typografia Lacerdina. Lisboa, 1813.
(12) - VIEIRA, Frei Domingos. Grande diccionario portuguez ou thesouro da lingua portugueza. Porto: Ed. Chardron e Bartholomeu H. de Moraes. Rio de Janeiro, 1871-1874.
(13) - VITERBO, Joaquim de Santa Rosa de. Elucidario das palavras, termos, e frases, que em Portugal antiguamente se usarão, e que hoje regularmente se ignorão: obra indispensavel para entender sem erro os documentos mais raros, e preciosos, que entre nós se conservão : publicado em beneficio da litteratura portugueza e dedicado ao Príncipe N. Senhor (2 vols.). Na Officina de Simão Thadeo Ferreira. Lisboa, 1798-1799.