quinta-feira, 6 de julho de 2023

MORREU O “ROLO” - A Arte Popular Portuguesa ficou mais pobre



CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS 
Fotografias de Joaquim Vermelho (1927-2002),
 cedidas pela Bibloteca Municipal de Estremoz / 
Arquivo Municipal

Faleceu na passada 6ª feira, dia 30 de Junho, na Residência de São Nuno de Santa Maria (Lar dos Combatentes), em Estremoz, com a idade de 88 anos, Joaquim Martins Carriço (Rolo), notável artesão de arte pastoril alentejana.
Era natural da Aldeia de Cima, freguesia da Glória, concelho de Estremoz, onde nasceu em 1935 e onde residiu até 2017, ano em que após a morte da esposa, Maria Augusta Lopes Anjinho e por vontade própria, resolveu ingressar naquela Estrutura Residencial para Pessoas Idosas.

Cerimónias fúnebres
O velatório do falecido teve lugar na Casa Mortuária da Glória, dali saindo o corpo às 16 h 30 min de sábado, dia 1 de Julho, para a Igreja da Glória, onde decorreram as cerimónias fúnebres, presididas pelo diácono João Prates. Terminadas estas, cerca das 17 horas teve lugar o funeral para o Cemitério da Glória, nele se integrando familiares, amigos e admiradores, que apesar do calor que fazia, não quiseram deixar de lhe prestar uma última homenagem.

Nota de pesar do Município
Em nota divulgada pela Autarquia, a Câmara Municipal de Estremoz, une-se no pesar de todos aqueles que tiveram a felicidade de conhecer e usufruir dos conhecimentos e amizade de um verdadeiro Tesouro Vivo desta região.

Como conheci o “Rolo”
Conheci o “Rolo” no decurso da I FEIRA DE ARTE POPULAR E ARTESANATO DO CONCELHO DE ESTREMOZ, que por iniciativa do Município, decorreu entre 15 e 17 de Julho de 1983, no Rossio Marquês de Pombal, frente às esplanadas dos cafés. Nessa Feira participaram 5 dezenas de artesãos do concelho, distribuídos por 32 stands, tendo em conta as diferentes matérias-primas e tipologias de artesanato (barro, bunho, chifre, cortiça, couro, peles, madeira, mármores, metais, palhinha, papel, têxteis e vidro). Foi uma Feira primordial. Como ela nunca mais haverá nenhuma, a começar pela diversidade e elevada qualidade das criações dos artesãos do concelho, dos quais poucos restam vivos. Foi um Feira que teve uma Comissão Organizadora liderada pelo professor Joaquim Vermelho, um visionário no bom sentido do termo e para o qual a Feira foi sempre a “menina dos seus olhos”. Naturalmente que para o êxito da mesma, contribuiu o auspício do Município, liderado por José Guerreiro, o qual no catálogo, a assumiu como o resultado do trabalho colectivo de um grupo de pessoas que ainda acreditam na importância da cultura popular, como forma de desenvolvimento de toda uma sociedade.
Foi neste contexto pioneiro que conheci o “Rolo”, descoberto pelo professor Joaquim Vermelho e posteriormente por ele estudado e divulgado através do seu Núcleo de Dinamização Cultural. Entre eles era conhecido por “Rolo”, referência que eu adoptei, já que sou um apaixonado por alcunhas alentejanas e aquela era aceite pelo visado, o qual lidava bem com ela. Mais tarde, quando ele me concedeu o privilégio da sua amizade, a forma de tratamento fraternal e respeitosa usada com quem era 11 anos mais velho do que eu, foi, naturalmente, a de “Amigo Rolo”.

O fascínio do “Rolo”
Decorridos 40 anos, posso asseverar que foi “amor à primeira vista”. Para além de amigo, dele fiquei cliente até deixar de produzir, marcando presença anual no seu stand, enquanto participou na Feira.
O “Rolo” exercia sobre mim um fascínio incomensurável. Em primeiro lugar, não só pela diversidade das tipologias dos artefactos de arte pastoril que lhe nasciam das suas mãos mágicas, como pela riqueza dos baixos relevos, lavrados em chifres e paus sabiamente escolhidos e nos quais projectava toda a imaginária popular que transportada pela massa do sangue, lhe aquecia a alma. Em segundo lugar, pela oralidade. O “Rolo” era, todo ele, oralidade transbordante: a sua estória de vida, a estória de vida das suas criações e as estórias que estas lhe contavam, como se adquirissem vida autónoma, após o acto de criação.
Visitei-o algumas vezes com a minha mulher, na Aldeia de Cima, ainda a sua esposa era viva. Foram momentos inesquecíveis de fraternal conversa, onde eu ávido da sua oralidade transbordante e rendido à beleza dos frutos mágicos das suas mãos, quase que não falava, porque o que era importante não era o meu falar, o que era importante era o falar dele e que eu ouvia sofregamente, como se fosse um faminto, ávido de pão.

“Rolo” e o Museu Municipal de Estremoz
Pertence ao Museu Municipal de Estremoz, o conjunto mais importante de obras do artífice, reunidas pelo professor Joaquim Vermelho, amigo e estudioso da sua obra, às quais se foram juntar 22 espécimes doados pelo autor, para memória futura. Encontram-se em exposição permanente no Museu e foram objecto da Exposição “MESTRE ROLO - TESOURO DA ARTE POPULAR DE ESTREMOZ", que em 2018 esteve patente ao público na Galeria Municipal Dom Dinis, em Estremoz. Nela esteve presente o artesão, que posteriormente, em 2020, participou numa "CONVERSA À VOLTA DA ARTE PASTORIL", na qual também intervieram António Carmelo Aires (coleccionador) e Hugo Guerreiro, (director do Museu Municipal de Estremoz).

A Arte Popular Portuguesa ficou mais pobre
Com o seu passamento, a Arte Popular Portuguesa ficou mais pobre, pois ele era um dos seus mais prestigiados e afamados intérpretes.
Resta-nos a consolação do deleite da visualização e fruição da sua obra, a qual além de integrar colecções particulares, como é o caso da minha, integra colecções museológicas, como é o caso da mais importante delas todas, que é a do Museu Municipal de Estremoz, no qual se encontra em exposição permanente.
O “Rolo” partiu, mas a memória da sua oralidade e dos frutos mágicos das suas mãos, permanecerão vivos nos nossos corações, o que me leva a proclamar:
- O AMIGO “ROLO” ESTARÁ SEMPRE PRESENTE ENTRE NÓS!

Hernâni Matos
Publicado no jornal E, nº 316, de 7 de Julho de 2023




segunda-feira, 26 de junho de 2023

Sessão evocativa de Aníbal Falcato Alves

 

´
Aníbal Falcato Alves (1921-1994). Fotografia do cineasta Manuel Costa e Silva (1938-1999).
No próximo dia 2 de Julho, pelas 15 h, terá lugar no Auditório da Biblioteca Municipal de Estremoz, uma sessão evocativa da vida e obra do estremocense Aníbal Falcato Alves. O encontro visa recordar a sua faceta de Homem de Cultura, a sua obra, o seu papel e legado na recolha e preservação das tradições, da gastronomia e dos costumes do Alentejo, assim como o seu papel de resistente antifascista e a sua acção como militante comunista.
O evento é promovido pela Comissão Concelhia de Estremoz do PCP e do programa consta:
- 15 h - Abertura de Portas;
- 15 h 30 min - Momento cultural: “Palavras de Abril” (com Débora Soares, Inês Siquenique e José Lourido);
- 16 h - Intervenções da mesa: NOEL MOREIRA (membro da Comissão Concelhia de Estremoz do PCP e do Executivo da DOREV do PCP), JOSÉ GUERREIRO (sociólogo e ex-Presidente da Câmara Municipal de Estremoz), ABÍLIO FERNANDES (militante do PCP e ex-Presidente da Câmara Municipal de Évora), JOAQUINA BABAU (moderadora, membro da Comissão Concelhia de Estremoz do PCP);
- 16 h 45 min - Intervenções do Público;
- 17 h 30 min - Tinto de honra e mostra das obras de Aníbal Falcato Alves;
- 18 h 30 min - Encerramento da sessão evocativa.
O período destinado a intervenções do público, programado para depois das intervenções da mesa, destina-se a que os presentes que o desejarem, possam intervir, partilhando experiências, estórias ou aprendizagens com Aníbal Falcato Alves, não devendo as intervenções exceder os 5 minutos.

Hernâni Matos

domingo, 25 de junho de 2023

Centenário do nascimento de João Sabino de Matos

 

João Sabino de Matos (1923-2006)


João Sabino de Matos nasceu a 1 de Julho de 1923 na aldeia da Cunheira, da freguesia e concelho de Chança. Foi o segundo de 4 filhos (2 rapazes e 2 raparigas) de Manuel Sabino (pedreiro) e Antónia Maria (doméstica).
Teve uma infância bastante difícil, já que a família passava dificuldades, agravadas para ele e para os irmãos, quando entraram para a escola primária, situada a 8 Km na vila de Chança e para onde diariamente tinham de ir e vir todos dias, fizesse chuva ou fizesse sol. No caso do João era mais complicado ainda, pois tinha um defeito físico numa perna, fruto de um acidente em casa quando era pequeno. Mas era já uma pessoa determinada e fez a 4ª classe da instrução primária
A juventude também não foi fácil, uma vez que terminada a escola foi dar serventia de pedreiro ao pai, o que era penoso para ele. O pai mandou-o então aprender o ofício de alfaiate, profissão que na aldeia acumulava com a de barbeiro, pois quando não havia farpela para confeccionar, sempre havia barbas e cabelos para dar para a bucha.
Pelos 20 anos já estava em Estremoz para onde veio atraído por um tio. Aqui casou em 1946 com 22 anos de idade, com Selima Augusta Carmelo, telefonista e da mesma idade. Começou, então, a exercer em exclusivo a profissão de alfaiate, primeiro no Largo do Espírito Santo, depois na Rua da Misericórdia e mais tarde na Rua 5 de Outubro, onde veio a abrir uma loja de pronto a vestir, ainda antes do 25 de Abril.
Ao longo da vida formou futuros alfaiates. Subiu a vida a pulso e quer como alfaiate, quer como comerciante, foi uma pessoa considerada pelos seus pares e respeitada na praça. Sem dúvida que foi o melhor alfaiate que Estremoz alguma vez conheceu e que dentro da oficina e fora dela, chegou a ter 15 pessoas a trabalhar sob a sua orientação.
Em termos associativos, foi sócio do Clube de Futebol de Estremoz, da Sociedade de Artistas Estremocense (a cuja direcção pertenceu), do Círculo Cultural de Estremoz e do Orfeão de Estremoz Tomaz Alcaide (onde foi barítono).
Foi desde sempre um opositor ao regime salazarista. Em 1958 apoiou a candidatura do General Humberto Delgado a Presidente da República. Em 1969 nas eleições para a Assembleia Nacional apoiou a Comissão Democrática Eleitoral (CDE).
Antes do 25 de Abril integrou o grupo oposicionista que reunia clandestinamente no monte do Dr. Afonso Costa, pelo que foi com naturalidade que recebeu o 25 de Abril de braços abertos.
Após o 25 de Abril aderiu ao PS e esteve na fundação da Secção do PS de Estremoz, em Maio de 1974.
Ao serviço do PS, foi Presidente da Junta de Freguesia de Santo André entre 1977 e 1979 e entre 1986 e 1989. Foi ainda membro eleito da Assembleia Municipal entre 1980 e 1982 e entre 1986 e 1989. Integrou também a Comissão Administrativa do Hospital da Misericórdia.
Em 2014, no 40º Aniversário da Secção do PS de Estremoz foi homenageado postumamente como um dos membros fundadores do PS local.
Era uma pessoa de carácter, frontal, com coragem física e moral, que não fugia às responsabilidades e que honrava a palavra dada. Valores que como pai me inculcou no espírito e que me norteiam, bem como os ideais de justiça, liberdade, igualdade e fraternidade.
Porque a memória dos homens é curta, achei por bem fazer esta evocação na passagem do 1º centenário do seu nascimento, procurando honrar a sua Memória.

Hernâni Matos
Publicado inicialmente em 25-06-2023

quinta-feira, 22 de junho de 2023

EXPOSIÇÃO "IRMÃS FLORES, 50 ANOS EM 50 BONECOS"

 

Irmãs Flores. Fotografia cedida por cortesia de Sul Ibérico.

Clique nas imagens para
 aumentar o "zoom" das mesmas.

Foi inaugurada no passado sábado, dia 17 de Junho, na Galeria Municipal Dom Dinis, a exposição "Irmãs Flores, 50 anos em 50 Bonecos", que ali ficará patente ao público até ao próximo dia 2 de Setembro. O certame, organizado pelo Museu Municipal de Estremoz, visa proporcionar uma visão retrospectiva de 50 anos de carreira daquelas barristas, ilustrada através de 50 Bonecos de sua produção.


Acto inaugural
Ao acto inaugural compareceram cerca de 4 dezenas de pessoas, entre familiares, amigos e admiradores, que com a sua presença quiseram testemunhar o elevado apreço que nutrem pelas Irmãs Flores e pelo trabalho por elas desenvolvido ao longo da sua carreira.
A cerimónia foi presidida pelo Presidente do Município, José Sadio, que se encontrava acompanhado da Vice-Presidente, Sónia Caldeira. Na oportunidade, elogiou o trabalho desenvolvido pelas Irmãs Flores e o contributo dado ao longo destes anos todos, visando a divulgação, valorização e salvaguarda do Boneco de Estremoz e que permitiu que a sua produção fosse proclamada pela UNESCO em 2017, como Património Cultural Imaterial da Humanidade. Anteriormente usara da palavra, Isabel Borda d’Água, Directora do Museu Municipal de Estremoz. No final, usaram da palavra, Perpétua e Maria Inácia Fonseca, que agradeceram, relembrando esta última todo o apoio e incentivo recebidos de Mestra Sabina Santos e do Professor Joaquim Vermelho, cuja evocação fez com saudade e aos quais foi dedicada a exposição. Seguiu-se uma visita guiada à mesma. Ali foi possível apreciar e ouvir comentar pelas Irmãs Flores, trabalhos de toda uma vida dedicada com paixão e emoção aos Boneco de Estremoz. Ali havia Bonecos de todas as tipologias: Presépios, imagens devocionais, figuras da faina agro-pastoril, figuras da realidade local, figuras do quotidiano doméstico, figuras de negros, figuras alegóricas e figuras de assobio. Presentes também exemplares de olaria enfeitada.
Na exposição chamavam especialmente a atenção duas peças. Uma delas, uma espectacular cantarinha enfeitada com 2 sargentos no jardim e arcos com flores, foi trabalho realizado a 8 mãos. Ilídio Fonseca, irmãos das Irmãs flores, modelou a cantarinha na roda de oleiro, Maria Inácia Fonseca modelou os folhos e os Bonecos, Perpétua Fonseca pintou tudo e Mestra Sabina Santos fez a decoração. A outra peça, é uma magnífica imagem de Nossa Senhora da Conceição, feita a 6 mãos, pelas Irmãs Flores e seu sobrinho, Ricardo Fonseca, igualmente prestigiado barrista.

A consagração de uma carreira
Os 50 anos de carreira das Irmãs Flores ocorreram em Novembro passado, tendo a Câmara Municipal de Estremoz, na sessão ordinária de 16 de Novembro, aprovado por unanimidade um louvor, no qual expressa “reconhecimento e gratidão pelos seus 50 anos de dedicação efetiva ao Boneco de Estremoz, pelo apuro técnico e estético do seu trabalho e pela disponibilidade que sempre demonstraram na salvaguarda e valorização desta arte multisecular.” O louvor foi completado pela entrega de uma placa a assinalar os seus 50 anos de carreira, com que foram distinguidas pelo Município de Estremoz, cerimónia que em Abril passado, marcou o acto inaugural da FIAPE 2023.

Exposições recentes
É notável a actividade exposicional suscitada pelo trabalho das Irmãs Flores. Só no séc. XXI e em Estremoz, anteriormente à presente exposição "IRMÃS FLORES, 50 ANOS EM 50 BONECOS"(2023), participaram nas seguintes exposições individuais: - O TRAJE POPULAR PORTUGUÊS (2007), Centro Cultural Dr. Marques Crespo, organização da Associação Filatélica Alentejana; - BONECOS DA GASTRONOMIA (2009), XVII Cozinha dos Ganhões, organização da Associação Filatélica Alentejana; - ALENTEJO DO PASSADO (2011), Centro Cultural Dr. Marques Crespo, organização da Associação Filatélica Alentejana; - FIGURADO DE IRMÃS FLORES NA COLEÇÃO DE ANTÓNIO GRANGER RODRIGUES (2022), Galeria Municipal Dom Dinis, organização do Museu Municipal de Estremoz.

Notas finais
Maria Inácia e Perpétua são discípulas de Mestra Sabina Santos (1921-2005), com quem começaram a trabalhar a Maria Inácia em 1972 e a Perpétua em 1975.
Após a aposentação de Mestra Sabina Santos em 1988, criaram então a sua própria oficina-ateliê, primeiro na Rua das Meiras, 8 e daí transitaram, em 1999, para o Largo da República, 16. Aqui se mantiveram até 2010, ano em que se fixaram no Largo da República, 31-32, sempre na procura de melhores condições de trabalho e de atendimento do público.
Ao longo da sua carreira, o trabalho das Irmãs Flores desenvolveu-se em dois planos distintos, mas necessariamente convergentes. Por um lado, a produção daquilo que se convencionou chamar “Bonecos da tradição”, que são aquelas figuras das várias tipologias que são geralmente manufacturadas por todos os barristas. Por outro lado, a produção de “Bonecos da Inovação”, que são figuras que até então não existiam nas diversas tipologias de Bonecos de Estremoz e que tornam a barrística popular estremocense mais vasta e rica. Nalguns casos, a execução de figuras mais complexas e morosas, levou mesmo a que tenha existido uma autêntica mudança de paradigma. Em qualquer dos casos, o trabalho das Irmãs Flores tem-se pautado sempre por uma estrita fidelidade ao modo de produção e à estética do Boneco de Estremoz, naturalmente que com um estilo e um cromatismo muito próprios.
A comunidade estremocense revê-se na elevada qualidade artística do trabalho das Irmãs Flores, as quais pela já sua longa carreira, são muito justamente consideradas embaixatrizes da nossa barrística. Daí estar em consonância e aplaudir o voto de louvor que lhes foi atribuído pelo Município.
Publicado no jornal E nº 315, de 22 de Junho de 2023

O acto inaugural da exposição. Fotografia de Miguel Belfo -  CME.

Um aspecto parcial da exposição. Fotografia de Miguel Belfo -  CME.

Cantarinha enfeitada, uma das peças em destaque na exposição.

Nossa Senhora da Conceição. Outra das peças em destaque na exposição.

Selecção de recortes de imprensa alusivos ao trabalho das irmãs Flores.

quarta-feira, 14 de junho de 2023

Exposição "Irmãs Flores, 50 anos em 50 Bonecos"




Transcrito com a devida vénia da
newsletter do Município de Estremoz,
de 14 de Junho de 2023.

 EXPOSIÇÃO "IRMÃS FLORES,
50 ANOS EM 50 BONECOS"

Irmãs Flores, duas irmãs que a vida levou a que se unissem e dedicassem a vida à produção do Boneco de Estremoz. Inicialmente por mero acaso e posteriormente por vocação e paixão.

Esta exposição é uma mostra de 50 Bonecos que nos ilustram o percurso de 50 anos de trabalho, amor e dedicação ao Boneco de Estremoz de duas Grandes Mestres, as Irmãs Flores, guardiãs de uma arte popular única que em 2017 viu o seu saber-fazer ser classificado pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade.

A mostra, a não perder, será inaugurada no sábado, dia 17 de junho de 2023, pelas 18h00, na Galeria D. Dinis e estará patente até dia 2 de setembro de 2023.

Visite!


sexta-feira, 2 de junho de 2023

Ganchos de meia e meias de cinco agulhas (2ª edição)

 

Tipo 3 – Da esquerda para a direita e de cima para baixo: Tarro, bolota, jarra, balde,
 bolota, suporte de copo, sapato com lira, sapato com cruz.

Uma das características mais importantes das peças de arte pastoril é a de corresponderem a uma necessidade sentida por alguém, o que leva essa peça a desempenhar uma função. É o caso dos chamados “ganchos de meia”, que as mulheres das nossas famílias usavam quando faziam croché ou tricotavam peças de vestuário, de lã ou algodão, como era o caso das chamadas “meias de cinco agulhas”.

Ganchos de meia
Independentemente da sua morfologia e decoração, estes ganchos de meia, confeccionados em madeira ou osso, têm um sulco ou um buraco, por onde passa o fio, que do novelo é redireccionado para as agulhas. É fixado na blusa ou no vestido da mulher, na parte superior do peito, geralmente do lado esquerdo. Aí é seguro através dum alfinete-de-ama ou cozido com linha, podendo eventualmente o gancho de meia incluir um pedaço de arame dobrado em U (gancho) para pregar no vestuário.
No decurso do trabalho, o fio que passa pelo gancho de meia, posiciona-se sempre entre o corpo e o trabalho, enrolado no dedo médio e sendo a cada malha, movimentado com o polegar esquerdo.
Tanto os ganchos de meia com sulco como os ganchos de meia com orifício, podem-se desprender da roupa onde estão fixados, sempre que se interromper a execução do trabalho. Todavia, só os ganchos de meia com sulco se podem soltar da peça em execução, pois os ganchos de meia com orifício têm o fio introduzido nele desde o início do trabalho e só o libertam quando este é cortado.

Tipologias dos ganchos de meia
Na minha colecção identifiquei as seguintes tipologias de ganchos de meia:
TIPO 1 – Com um orifício para passar o fio do novelo e um gancho de arame para prender no vestuário;
TIPO 2 - Com um orifício para passar o fio do novelo e 2 orifícios para passar o fio que o prende ao vestuário;
TIPO 3 – Com um sulco para passar o fio do novelo e um orifício para passar o alfinete-de-ama ou o fio que o prende ao vestuário;
TIPO 4 – Com dois sulcos para passar o fio do novelo e um orifício para passar o alfinete-de-ama ou o fio que o prende ao vestuário;
TIPO 5 – Com uma argola por onde pode passar simultaneamente, o fio do novelo e o alfinete-de-ama ou o fio que o prende ao vestuário;
TIPO 6 – Com 3 argolas que permitem a passagem do fio do novelo e do alfinete-de-ama ou do fio que o prende ao vestuário;
TIPO 7 – Com várias aberturas que permitem a passagem do fio do novelo e do alfinete-de-ama ou do fio que o prende ao vestuário;

Meias de 5 agulhas noutros tempos
Com cinco agulhas se fazia o tricô circular usado na manufactura de meias. Estas, eram lisas ou lavradas com motivos diversos, monocromáticas ou multicolores, decoradas com barras ou motivos florais ou geométricos.
Sempre houve quem manuseasse com mestria as cinco agulhas, com a mesma rapidez e precisão que as mãos dum virtuoso, percorrem o teclado dum piano. Mãos que falavam e davam resposta às necessidades caseiras, mas que também faziam para vender para fora, pois era necessário engrossar o magro orçamento familiar.
Havia quem começasse as meias de cima para baixo, em direcção à calcanheira e à biqueira, mas também havia quem as começasse exactamente em sentido contrário.
Quando as meias se gastavam pelo uso, geralmente na calcanheira ou na biqueira, eram reparadas, recorrendo novamente às cinco agulhas. A vida não dava para extravagâncias e poucos se podiam dar ao luxo de desperdícios inúteis. Apesar disso, o aparecimento no comércio de meias baratas, de fabrico industrial e a pressão da vida moderna, conduziram ao decaimento por desuso da manufactura artesanal das meias de cinco agulhas.
Na região onde me insiro, Estremoz, a manufactura das meias de cinco agulhas era uma prática corrente nas suas treze freguesias. Bem próximo de nós, eram famosas as meias manufacturadas pelas mulheres da Aldeia da Serra.

Meias de 5 agulhas na actualidade
Actualmente, a reacção ao consumo desenfreado suscitado pela sociedade capitalista, tem levado mulheres, especialmente jovens, a um “regresso às origens”, manufacturando meias para si e para as suas crianças. São estilos de vida alternativos e salutares, que se saúdam. É o retomar de práticas que retiram das vitrinas, jóias da arte pastoril, como os ganchos de meia que estiveram na génese do presente texto.

Publicado inicialmente em 2 de Junho de 2023

Tipo 4 – Coração.

Tipo 1 – Sapato, bolota.

Tipo 2 – Sapato (vista superior e vista lateral).

Tipo 5 – Gral, panela de ferro, bolota, bolota, badalo.

Tipo 6 – Par de sapatos, par de bolotas, par de bolotas.

Tipo 7 – Cadeirinha de prometida [1]


[1] Símbolo usado para “selar” o contrato pré-matrimonial no Alentejo de antanho. Através dele, o moço oferecia à sua “prometida” uma cadeirinha em madeira que ela passaria a usar, presa na fita do chapéu de trabalho, até à altura do matrimónio. Depois disso poderia vir a adquirir outra funcionalidade, como a de gancho de meia.

sábado, 27 de maio de 2023

"O Alentejo e a Cultura: que futuro?" - Manifesto contra o desmantelamento da DRCA

 

Direcção Regional de Cultura do Alentejo, Évora. Fotografia de Pedro Roque (2020),
recolhida através do Google e aqui reproduzida com a devida vénia.

Ao anúncio da extinção da Direção Regional de Cultura do Alentejo e da sua integração na Comissão de Desenvolvimento Regional do Alentejo, um grupo de homens e mulheres, com raízes no Alentejo, respondeu com um protesto contra o que consideram um “clamoroso erro”. O resultado é o manifesto que aqui se publica, subscrito por muitas dezenas de cidadãos, entre as quais figuras conhecidas, como os historiadores António Borges Coelho e António Ventura, os músicos Vitorino, Janita Salomé e Francisco Fanhais, autarcas, escritores, atores e de inúmeras outras profissões.

"O Alentejo e a Cultura: que futuro?'

Sendo do conhecimento público que está prevista a integração da(s) Direcção Regional de Cultura na(s) Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional, os subscritores, defensores da sua importância como organismo autónomo, decidem manifestar-se através do presente documento.
Para um país cronicamente preocupado com os elevados índices de pobreza e dos parâmetros de bem-estar e desenvolvimento económico, aquém da média europeia, tudo o que à Cultura respeita é relegado para plano secundário, sem que, da parte dos decisores políticos, exista sensibilidade e percepção do erro em que persistem. Não obstante, e apesar dessa indiferença, ela “move-se” e, mesmo no interior do país, em acelerado ritmo de envelhecimento e de desertificação, são as práticas culturais, tais como a gastronomia, o artesanato, as tradições religiosas e profanas e inúmeras formas de actividades laborais e de transformação tradicionais, da carne, do leite e do vinho, mas, também, do empenho artístico do povo, no que respeita ao teatro, à música, à dança, ao folclore, que, associadas a monumentos de vária ordem e a sítios arqueológicos inseridos em importantes e ricas paisagens, movimentam e, em não poucas situações, sustêm, economicamente, lugares e terras e prendem, ainda, os seus habitantes a lugares cujo sustento de outrora desapareceu, na voragem de outros paradigmas económicos e sociais.
Com cerca de um terço do território nacional, o Alentejo foi palco de passagem e habitat de inúmeros povos, os quais deixaram vestígios abundantes da sua actividade, da sua organização social e das suas práticas “divinas”. O Alentejo e as suas gentes são, hoje, um caldo de Cultura que deriva do convívio e apropriação de técnicas de muitas origens e que resulta numa riqueza ímpar, que há que preservar, estudar e desenvolver.
Com uma economia assente na produção agrícola, ao longo de séculos, e numa divisão do território profundamente desigual e injusta, da qual resultou a concentração da riqueza num reduzido número de famílias e uma pobreza extrema da esmagadora maioria dos Alentejanos, restou a esperança e a luta por melhores condições de vida, mas que, por fim, na década de 50/60 do século XX, gerou o êxodo para o litoral do país e para o estrangeiro.
O Alqueva, que se propunha democratizar a exploração e a posse da terra, foi uma desilusão que o presente e o futuro se encarregam de demonstrar, com a introdução de culturas nocivas para a natureza, o ambiente, o património e a paisagem, parecendo haver ainda uma maior concentração da posse da terra, agravada pela sua venda a pessoas e grupos estrangeiros, numa dimensão nefasta, de cujos proventos nada sobra, nem para o Alentejo, nem para o país.
A aposta parece ser, pois, antes que aconteça o impensável – alienar o património ao capital estrangeiro, tal como à terra se fez –, a de que se defenda esse património único.
Património que, nas suas diferenciadas formas de apresentação e manifestação, é um denominador comum para os Alentejanos, enquanto identidade colectiva e regional.
Defender este legado é manifestar solidariedade institucional e reconhecimento, a todos aqueles que fizeram, e fazem, do seu quotidiano uma luta, sem tréguas, contra a desertificação da memória e do território e que, incompreensivelmente, são esquecidos por quem decide e traça, a régua e esquadro, políticas estranhas à realidade dos seus dias e do seu futuro.
A estratégia de defesa, manutenção e desenvolvimento cultural exige, dos poderes públicos, uma atenção redobrada, com o envolvimento de técnicos e especialistas, empenhados cientificamente na abordagem necessária e nas diferentes fases da sua indispensável intervenção, do mesmo modo que, na sua abordagem técnica, se exige, no campo da deliberação e da gestão, equipas com profundo conhecimento científico e estratégico, para a necessária decisão de prioridades. Acresce a imprescindível apetência para o diálogo, com particulares, autarquias, clero, técnicos e outros intervenientes. No fundo, uma proximidade com grande parte dos decisores, assim como com associações, agentes culturais e público.
Tem mantido estas funções a Direção Regional de Cultura do Alentejo, na qual temos sentido um comportamento sério, altamente responsável e de grande empenho e que, apesar da crónica falta de verbas, tem sabido e procurado manter a causa da Cultura, no Alentejo, um organismo vivo e ao serviço da comunidade e do seu desenvolvimento, assim como da sua história e da defesa de valores considerados da sua identidade e memória.
É, pois, um sinal de alerta e de grande preocupação para os signatários o desmantelamento previsto da Direção Regional de Cultura do Alentejo e a sua integração na Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo. Não parece avisado politicamente que um organismo desta natureza, que tem cumprido, com rigor e competência, ao longo de décadas, a gestão do património e a promoção das mais diversas iniciativas culturais, dê lugar a uma amálgama de organismos não explicados, até ao momento, mas cuja legislação já está em marcha, nomeadamente, pela Lei n.º 58/2018, de 21 de Agosto, e pela Lei n.º 27/2022, de 17 de Junho.
Tal como os seres humanos, poderíamos dizer que o território, para além do seu aspecto físico, também tem espírito e é necessário zelar pela sua manutenção. Será que, a par da alienação da terra, com monoculturas estranhas à região, exaurindo até ao limite recursos hídricos, vamos assistir, impávidos e serenos, a um retrocesso cultural, devido a políticas mal calculadas ou intencionalmente canhestras, para atingir desígnios ainda não esclarecidos?
É tempo de exigirmos respostas às tutelas políticas sobre o que se pretende, e de exigir a salvaguarda de quanto se fez até aqui, com o esforço e a criatividade de muitas gerações, do nosso tempo e dos que nos precederam. Em sua memória, é imperioso o protesto e a exigência do respeito que a Cultura nos deve merecer.