terça-feira, 24 de novembro de 2020

Auto dos ganchos de meia

 
Ganchos de meia (Da esquerda para a direita e de cima para baixo): Padre, Sacristão,
Senhora de Pezinhos, Peralta, Sargento, Palhaço, Frade, Freira, Nossa Senhora, Galo.
Ana Catarina Grilo (1974-  ).

À barrista Ana Catarina Grilo


O enredo desenrola-se na actualidade, na rua de Santo André da chamada Cidade Branca. O perfil dos personagens pode ser descrito assim:
- PESSOA QUE EU CÁ SEI: Coleccionador apaixonado de tudo o que tem a ver com a identidade cultural alentejana. Escritor, Jornalista e Blogger, o seu mais recente livro é um livro de amor aos Bonecos de Estremoz.
- MULHER: casada com a pessoa que eu cá sei, a quem interpela com frequência acerca dos Bonecos que leva para casa.
No desenrolar da acção serão simplesmente designados por CÁ SEI e MULHER.
CÁ SEI acabara de comprar uma série de ganchos de meia à barrista Ana Catarina Grilo. Já perto de casa é surpreendido pela MULHER, que acabara de sair à rua. Vendo-o com um saco na mão, decide questioná-lo, o que dá origem ao seguinte diálogo:  
MULHER - Oh homem! O que levas no saco?
CÁ SEI - São ganchos, mulher. São ganchos. São ganchos de meia.
MULHER - Mostra lá.
CÁ SEI - Podes ver à vontade.
MULHER - O que é isto? Um Padre com um arame na braguilha?
CÁ SEI - Sim. E um Padre que organizou um retiro espiritual no Convento de Nossa Senhora das Graças.
MULHER - Retiro espiritual?
CÁ SEI - Retiro espiritual, sim. Para purificar a alma a pecadores.
MULHER - E para que é este Sacristão?
CÁ SEI - É para ajudar o Padre sempre que for preciso.
MULHER - E esta Senhora de Pezinhos com o chapéu às três pancadas?
CÁ SEI -  Bom. Essa é uma pecadora. Basta olhar para ela.
MULHER - Pecadora porquê?
CÁ SEI - Queres que te diga mesmo?
MULHER - É melhor não.
CÁ SEI - Tu é que sabes.
MULHER -  E este Peralta com ar de fadista?
CÁ SEI - Esse também é pecador. Não se vê logo? Queres que te diga porquê?
MULHER - É melhor não.
CÁ SEI - Tu lá sabes.
MULHER - E este Sargento?
CÁ SEI - Também é pecador.
MULHER - Pecador por quê?
CÁ SEI - Olha, mulher. Decerto que não foi por deixar enferrujar a espada.
MULHER - E este Palhaço?
CÁ SEI -  Igualmente é pecador.
MULHER - Pecador, porquê?
CÁ SEI -  Por dizer graças que não devia.
MULHER - E o que faz aqui Nossa Senhora? Não me venhas agora dizer que também é pecadora.
CÁ SEI – Credo! Não, mulher. Nossa Senhora é Imaculada.
MULHER - Então o que faz aqui?
CÁ SEI - É que o Padre organizou o retiro por inspiração de Nossa Senhora.
MULHER - E o Frade? Qual é o papel do Frade?
CÁ SEI - O Frade é o supervisor da cozinha. É ele quem escolhe as carnes, os peixes e os vinhos.
MULHER - Então o retiro vai meter comezaina?
CÁ SEI - Eu não me atreveria a dizer isso. Mas lá que têm de comer, isso têm.
MULHER - E a Freira, que faz aqui a Freira?
CÁ SEI - A Freira tem à a sua responsabilidade os doces conventuais.
MULHER - Há assim tantos que precisem de alguém que se encarregue deles?
CÁ SEI - Nunca os contei, mas posso-te indicar alguns, tais como: Barrigas de Freira, Biscoitos do Cardeal, Bolo do Diabo, Cavacas de Santa Clara, Coalhada do Convento, Creme da Madre Joaquina, Delícias de Frei João, Hóstias de amêndoa….
MULHER – Mas há assim tantos doces conventuais?
CÁ SEI - Ainda a procissão vai no adro. Queres saber de mais? Olha, aqui tens: Marmelada Branca de Odivelas, Mexericos de Freiras, Orelhas de Abade, Pitos de Santa Luzia, Queijinhos do Céu, Sopapo do Convento, Suspiros de Braga, Toucinho do Céu…
MULHER - Basta homem, que já estou enjoada com tanto doce!
CÁ SEI - Está bem, mas fica a saber que ainda havia muitos mais.
MULHER - E o Galo. O que faz aqui o Galo?
CÁ SEI -  O Galo é para a canja do almoço.
Nesta altura, a mulher já farta do relambório do marido, grita:
- Tu estás é maluco da cabeça e a família não sabe!
O marido vê-se então obrigado a invocar o auxílio do céu e implora:
- Valham-te Santa Justa e Santa Rufina [1] juntas!
 
CAI O PANO

Hernâni Matos
Publicado inicialmente em 24 de Novembro de 2020 
 
 

[1] Santas Protectoras de todos aqueles que modelam o barro.

sábado, 21 de novembro de 2020

Um gancho de meia antonino



Santo António (Gancho de meia). Joana Santos (1978-  ). 


À Boniqueira Joana Santos,
de Foros do Queimado,
Évora 
Este Doutor da Santa Igreja
que nasceu em Foros do Queimado,
não há mesmo ninguém que o veja,
pois está muito bem guardado.
           
Mora na rua de Santo André,
desta nossa cidade bem branca,
donde nunca sairá pelo seu pé,
pois aqui há quem isso garanta.

Lá bem longe naqueles recantos,
a Boniqueira deu forma e cor,
ao bem mais popular dos santos,
que doou a um seu admirador.

À Boniqueira Joana Santos
e à sua magia rendido
Da arte do barro os encantos,
há muito que foi seduzido.

terça-feira, 17 de novembro de 2020

Poesia Portuguesa - 100


Fernando Pessoa (1912). Adolfo Rodríguez Castañé (1887-1978). Óleo sobre tela.

 
Santo António
Fernando Pessoa (1888-1935)
 
Nasci exactamente no teu dia —
Treze de Junho, quente de alegria,
Citadino, bucólico e humano,
Onde até esses cravos de papel
Que têm uma bandeira em pé quebrado
Sabem rir...
Santo dia profano
Cuja luz sabe a mel
Sobre o chão de bom vinho derramado!
 
Santo António, és portanto
O meu santo,
Se bem que nunca me pegasses
Teu franciscano sentir,            
Católico, apostólico e romano.
 
(Reflecti.
Os cravos de papel creio que são
Mais propriamente, aqui,
Do dia de S. João...
Mas não vou escangalhar o que escrevi.
Que tem um poeta com a precisão?)
 
Adiante ... Ia eu dizendo, Santo António,
Que tu és o meu santo sem o ser.
Por isso o és a valer,
Que é essa a santidade boa,
A que fugiu deveras ao demónio.
És o santo das raparigas,
És o santo de Lisboa,
És o santo do povo.
Tens uma auréola de cantigas,
E então
Quanto ao teu coração —
Está sempre aberto lá o vinho novo.                                        
 
Dizem que foste um pregador insigne,
Um austero, mas de alma ardente e ansiosa,
Etcetera...
Mas qual de nós vai tomar isso à letra?
Que de hoje em diante quem o diz se digne
Deixar de dizer isso ou qualquer outra coisa.
 
Qual santo! Olham a árvore a olho nu
E não a vêem, de olhar só os ramos.
Chama-se a isto ser doutor
Ou investigador.
 
Qual Santo António! Tu és tu.
Tu és tu como nós te figuramos.
 
Valem mais que os sermões que deveras pregaste
As bilhas que talvez não concertaste.
Mais que a tua longínqua santidade
Que até já o Diabo perdoou,
Mais que o que houvesse, se houve, de verdade
No que — aos peixes ou não — a tua voz pregou,
Vale este sol das gerações antigas
Que acorda em nós ainda as semelhanças
Com quando a vida era só vida e instinto,
As cantigas,
Os rapazes e as raparigas,
As danças
E o vinho tinto.
 
Nós somos todos quem nos faz a história.
Nós somos todos quem nos quer o povo.
O verdadeiro título de glória,
Que nada em nossa vida dá ou traz
É haver sido tais quando aqui andámos,
Bons, justos, naturais em singeleza, Que os descendentes dos que nós amámos
Nos promovem a outros, como faz
Com a imaginação que há na certeza,
O amante a quem ama,
E o faz um velho amante sempre novo.
Assim o povo fez contigo
Nunca foi teu devoto: é teu amigo,
Ó eterno rapaz.
 
(Qual santo nem santeza!
Deita-te noutra cama!)
Santos, bem santos, nunca têm beleza.
Deus fez de ti um santo ou foi o Papa? ...
Tira lá essa capa!
Deus fez-te santo! O Diabo, que é mais rico
Em fantasia, promoveu-te a manjerico.
 
És o que és para nós. O que tu foste
Em tua vida real, por mal ou bem,
Que coisas, ou não coisas se te devem
Com isso a estéril multidão arraste
Na nora de uns burros que puxam, quando escrevem,
Essa prolixa nulidade, a que se chama história,
Que foste tu, ou foi alguém,
Só Deus o sabe, e mais ninguém.
 
És pois quem nós queremos, és tal qual
O teu retrato, como está aqui,
Neste bilhete postal.
E parece-me até que já te vi.
 
És este, e este és tu, e o povo é teu —
O povo que não sabe onde é o céu,
E nesta hora em que vai alta a lua
Num plácido e legítimo recorte,
Atira risos naturais à morte,
E cheio de um prazer que mal é seu,
Em canteiros que andam enche a rua.
 
Sê sempre assim, nosso pagão encanto,
Sê sempre assim!
Deixa lá Roma entregue à intriga e ao latim,
Esquece a doutrina e os sermões.
De mal, nem tu nem nós merecíamos tanto.
Foste Fernando de Bulhões,
Foste Frei António —
Isso sim.
Porque demónio
É que foram pregar contigo em santo?
 
Fernando Pessoa (1888-1935)
 
BIBLIOGRAFIA

PESSOA, Fernando. Fernando Pessoa: Santo António, São João, São Pedro. (Organização de Alfredo Margarido). A Regra do Jogo. Lisboa, 1986.

domingo, 15 de novembro de 2020

Esquerda ou direita?


Fig. 1 - Nossa Senhora a cavalo (Tipo 1, de frente e detrás). José Moreira (1926-1991).

Introdução
A “Fuga para o Egipto” é um evento relatado no Evangelho de São Mateus (Mateus 2:13-25), no qual após a Adoração dos Magos, José foge para o Egipto com Maria sua esposa e seu filho recém-nascido Jesus, após ter sido avisado por um Anjo do Senhor, do massacre de crianças com menos de dois anos, que ia ser perpetrado por ordem de Herodes I, o Grande, receoso que a criança que os Magos proclamavam como novo rei, lhe tomasse o trono e o poder.

Arte cristã
Desde a Idade Média que a “Fuga para o Egipto” constitui um tema recorrente na arte cristã, frequentemente explorado pelos artistas plásticos, que representam Nossa Senhora com o Menino Jesus ao colo, montada numa burrinha e acompanhada por São José, que segue a pé.
A nível da pintura há inúmeras iluminuras dos códices de pergaminho medievais, bem como pinturas sobre os suportes mais diversos (tela, madeira, mármore, vidro, cobre, prata, fresco, etc.). No âmbito da escultura em pedra, a evocação bíblica figura em pias baptismais, túmulos, fachadas, capiteis, edículas, frisos de arquitraves, etc. A ela há a acrescentar ainda a escultura em madeira e barro policromados, bem como painéis de azulejos, vitrais, desenhos e gravuras (em madeira ou a água-forte).
Nessa múltiplas representações, a burrinha que transporta Nossa Senhora (virada para o observador), desloca-se umas vezes para a esquerda e outras vezes para a direita,

Barrística de Estremoz
O presente texto tem por finalidade analisar a “Fuga para o Egipto”, modelada por José Moreira (1926-1991). Como a figura de São José em pé não é geradora de ambiguidade, bastará focar a nossa atenção na Imagem de Nossa Senhora a cavalo. Existem dois tipos desta imagem:
- NOSSA SENHORA A CAVALO (Tipo 1 – Fig.1) - A burrinha marcha para o lado esquerdo do observador e Nossa Senhora está virada para o lado esquerdo do animal e com as costas viradas para o lado contrário (NSAC-Tipo 1).
- NOSSA SENHORA A CAVALO (Tipo 2 – Fig. 2) - A burrinha marcha para o lado direito do observador e Nossa Senhora está virada para o lado direito da asinina e com as costas viradas em sentido oposto (NSAC-Tipo 2).
Tanto na imagem de Tipo 1, como na de Tipo 2, Nossa Senhora monta à amazona numa burrinha cinzenta sem arreios, está sentada sobre uma manta cor de zarcão, terminando por linhas incisas que simulam franjas. Enverga túnica com gola e véu, ambos de cor azul celeste.
Transporta o Menino Jesus ao colo, ao mesmo tempo que o segura com os braços. O Menino está enroupado com uma vestimenta branca, decorada na extremidade com linhas incisas, azuis e cor de zarcão, imitando franjas. Encontra-se ainda envolto numa manta que lhe pende dos ombros e cruza no peito, igualmente branca e com franjas análogas às da extremidade da veste.
Tanto a Fig. 3 como a Fig. 4. mostram bem que as figuras de Nossa Senhora a cavalo do Tipo 1 e do Tipo 2, não são imagens espelhadas uma da outra.

Marcas identitárias de José Moreira
As figuras manufacturadas por José Moreira ostentam marcas identitárias inconfundíveis que o permitem identificar como autor.
O olhar de Nossa Senhora e do Menino Jesus estão definidos por sobrancelhas e pestanas paralelas, sendo estas últimas tangentes às meninas do olho, as quais sendo maiores que noutras representações, tornam o olhar mais expressivo.
Relativamente a outras representações, o asinino tem uma cabeça maior, um olhar mais vivo, as narinas e a boca estão mais bem definidas e os focinhos estão arrebitados, como que procurando afastar-se do pescoço.
A crina do asinino está totalmente virada para o lado do observador, o mesmo se passando com a rabada, comprida e a roçar o chão.
A base em que assenta esta figura tem um topo integralmente verde, ao contrário de outras representações que a têm pintalgada de branco, amarelo e zarcão.

Epílogo              
José Moreira modelava maioritariamente imagens de Nossa Senhora a cavalo do Tipo 1, tal como o fizeram e fazem os barristas de Estremoz, na sequência da revitalização da produção de Bonecos efectuada nos anos 30 do séc. XX, por iniciativa do escultor José Maria de Sá Lemos (1892-1971). Todavia, também modelava imagens de Nossa Senhora a cavalo do Tipo 2, em número muito menor, possivelmente por distracção, já que estando Nossa Senhora virada para o observador, a crina e a rabada estão viradas para lá do plano do papel.
Ana das Peles (1869-1945), da qual José Moreira foi discípulo, modelava a burrinha a marchar para o lado direito do observador e Nossa Senhora virada para o lado direito do asinino e com as costas viradas em sentido oposto, mas punha a crina e a rabada para o lado do observador.
Maioritariamente os asininos de José Moreira marcham para a esquerda, tal como os equídeos de figuras como “Cavaleiro”, “Amazona”, “Lanceiro a cavalo” e “Lanceiro a cavalo com bandeira.
Face à pergunta “Esquerda ou direita?” que constituiu o título do presente texto, a resposta inequívoca é: “Esquerda, pois claro!”.
Publicado inicialmente em 15 de Novembro de 2020

Fig. 2 - Nossa Senhora a cavalo (Tipo 2, de frente e detrás). José Moreira (1926-1991).

Fig. 3 - Nossa Senhora a cavalo (Tipo 1 e Tipo 2, ambas de frente). José Moreira (1926-1991).

Fig. 4 - Nossa Senhora a cavalo (Tipo 1 e Tipo 2, ambas detrás). José Moreira (1926-1991).

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Poesia Portuguesa - 099


Joaquim José Vermelho (1927-2002). Arquivo Fotográfico Municipal de Estremoz / BMETZ.

Joaquim José Vermelho (1927-2002). Colaborou na imprensa nacional e regional, nomeadamente nos jornais: A Planície (Moura), Brados do Alentejo (Estremoz), Democracia do Sul (Évora), Eco de Estremoz, Jornal de Almada, Jornal de Estremoz, Jornal de Notícias (Porto), O Calipolense e Primeiro de Janeiro (Porto). Colaborou igualmente em revistas como Almanaque Alentejano, Boletim da Casa do Alentejo, Revista Filme, Revista Celulóide, Revista do IEFP, Revista Objectiva, Revista Olaria, Revista Transtagana e Revista Visor. Obras: Barros de Estremoz (1990), Pousada da Rainha Santa Isabel, Histórias de um Castelo (1992), Estremoz Terra de Encantos (1995), Estremoz Património (1996), 500 Anos / Santa Casa da Misericórdia de Estremoz (Co-autor, 2002), Nas lavras do tempo… Sementes e Raízes (2003), Poesia (2003), Ler nas Pedras (2004), Sobre as Cerâmicas de Estremoz (2005).


BONECOS DE ESTREMOZ
Joaquim Vermelho
 
Bonecos de Estremoz na cantareira
da saleta de estar, sempre sorrindo:
a Primavera vive ali florindo
ao lado do Pastor, da Azeitoneira!

Nesse canto da casa há claridade,
passam beijos de sol da fantasia;
vivem ali os sonhos de outra idade,
fagueiras ilusões da mocidade,
nessa bonecaria!

É um "mundo" de sonho, encantador,
que os meus olhos contemplam, enlevados;
"planície fora segue o bom pastor
mais os seus fartos gados!"

Moços de harmónio, cheirando a função,
camponeses de fato domingueiro!!
De todos se desprende uma canção
que me vem embalar o coração
o santo dia inteiro!

E toda a minha terra, num sorriso,
eu guardo no cantinho dessa casa,   
sentindo o coração a arder em brasa,
vivendo o Paraíso!

Figuras de Presépio! O Deus menino
nas palhas a sorrir, meigo, deitado;
a boa Virgem olha o pequenino
e S. José de lado! Que divino
encanto irradia esse barro moldado!

Meu lindo bonequinho! Tão bizarro!
És um beijo de eterna mocidade,
deram-te vida as mãos que o mole barro
moldaram com carinho e habilidade!

Um bocado de barro, e nada mais!
Mas quanta vida, quanta cor encerra!
A resumir em si carinhos tais,
sonhos da minha terra!

E nas feiras alegres do Alentejo,
com toda essa graça que o bom Deus lhe pôs,
nas bocas dos rapazes são desejos
os meus lindos bonecos de Estremoz!
 

sábado, 7 de novembro de 2020

Isabel Pires e a Alegoria do Outono

 

Alegoria do Outono (2018). Isabel Pires (1955-  ).

LER AINDA

Folhas secas e frutos maduros
O Outono é a estação do ano compreendida entre o Verão e o Inverno, que corresponde entre nós, aos meses de Setembro, Outubro, Novembro e Dezembro. Caracteriza-se por um declínio gradual da temperatura e é marcada por tempo chuvoso, ventoso e pouco ensolarado.
Uma das características principais da estação é a mudança da coloração das folhagens das árvores, que passam a apresentar tons amarelados e avermelhados e caem. O Outono é assim a estação da libertação que abre as portas a uma futura renovação na Primavera seguinte.
No Outono, os frutos já estão maduros e começam a cair no chão, pelo que têm lugar as colheitas das culturas de Verão (milho, girassol, etc.), de muitos tipos de frutos (uvas, maçãs, peras, marmelos, etc.) e de frutas secas (castanhas, nozes, avelãs, etc.).

O Outono na Tradição Oral
As colheitas de Outono estão presentes na tradição oral. Em particular, no CANCIONEIRO POPULAR, que põe os meses a falar: “Eu sou o Setembro / Que tudo recolho, / Trigos e milhos, / Palhas e restolho.” e “Eu sou o Outubro, / O mês dos Outonos, / Engrosso as terras / Proveito dos donos.”.
As colheitas de Outono estão igualmente presentes no ADAGIÁRIO. Relativamente a Setembro, o adagiário regista que “Agosto amadura, Setembro derruba” e “Em Setembro, colhendo e comendo”, mas recomenda: “Para vindimar deixa Setembro acabar”. Para além disso, afirma que: “Pelo São Miguel (29/09) os figos são mel” e “Setembro que enche o celeiro, salva o rendeiro”.
No que respeita a Outubro, o adagiário proclama que “Outubro sisudo colhe tudo” e pormenoriza algumas dessas colheitas: - Milho e feijão: “Em Outubro não fies só lã; recolhe o teu milho e o teu feijão, senão de Inverno tens a tua barriga em vão”; - Castanha: “Pelo São Simão (28/10), quem não faz um magusto, não é cristão”; - Fava: “Por São Simão (28/10), fava na mão” - Uva: “ Por São Lucas (18/10) bem sabem as uvas” e “Por São Simão e São Judas (28/10), colhidas são as uvas”.

Referências poéticas
A temática do Outono tem sido abordada por muitos poetas portugueses. Do Outono nos fala Fernando Pessoa[i] no poema “No entardecer da terra”[ii] : “No entardecer da terra / O sopro do longo Outono / Amareleceu o chão. / Um vago vento erra, / Como um sonho mau num sono, / Na lívida solidão.  (…)
Do Outono fala também Florbela Espanca[iii] no soneto “Outonal”[iv]: (…) / “Outono dos crepúsculos doirados, / De púrpuras, damascos e brocados! / - Vestes a terra inteira de esplendor!” (…). No soneto “Ruínas” [v] acrescenta: “Se é sempre Outono o rir das Primaveras, / Castelos, um a um, deixa-os cair... / Que a vida é um constante derruir / De palácios do Reino das Quimeras!” (…).
Do Outono nos fala ainda Miguel Torga [vi]  no poema homónimo: “ Tarde pintada / Por não sei que pintor. / Nunca vi tanta cor / Tão colorida! / Se é de morte ou de vida, / Não é comigo. / Eu, simplesmente, digo / Que há tanta fantasia / Neste dia, / Que o mundo me parece / Vestido por ciganas adivinhas, / E que gosto de o ver, e me apetece / Ter folhas, como as vinhas.”

Alegorias do Outono na Pintura
Em Portugal, pintores como Columbano Bordalo Pinheiro[vii] e José Malhoa[viii], entre outros, utilizaram as características do Outono atrás referidas ao criarem composições alegóricas desta estação do ano.
Essas mesmas características constituem o tema central de telas criadas por grandes nomes da pintura universal, dos quais destaco cronologicamente: Francesco del Cossa[ix], Giuseppe Arcimboldo[x], Pieter Pauwel Rubens[xi], Nicolas Poussin[xii], Rosalba Carriera[xiii], Jacob van Strij[xiv],  Jacob Cats[xv] , Jean-François Millet[xvi] e Frederic Edwin Church[xvii].

Alegoria do Outono na Barrística de Estremoz
Na Barrística de Estremoz, existem exemplares designados genericamente por Primaveras, cuja característica principal é ostentarem um arco com flores apoiado nos ombros e circundando a cabeça. A origem de tais Bonecos remonta pelo menos ao séc. XIX. Para além de serem figuras de Entrudo, são alegorias à estação homónima, que evocam remotos rituais vegetalistas de celebração e exaltação do desabrochar da natureza, os quais vieram a ser assimilados pela Igreja Católica, que começou a comemorar o Entrudo.
O ano tem quatro estações, pelo que faz sentido existirem alegorias para todas elas. Foi o que pensou a barrista Isabel Pires que criou alegorias para as estações em falta. O presente texto tem por finalidade analisar a Alegoria do Outono de Isabel Pires.

Morfologia da figura
Formalmente e em termos morfológicos a Alegoria do Outono é semelhante à de alguns modelos de Primavera. Assim: 1 - Ostenta um arco ornamentado com o que simula serem folhas secas de uma planta indeterminada e parras secas repartidas em lóbulos pontiagudos que configuram estrelas, tal como o arco da Primavera está enfeitado com flores; 2 - Segura numa das mãos um cacho de uvas e na outra, um cabaz de vime com os frutos da época: diospiros, romãs, marmelos, castanhas, nozes, uvas. Existe aqui uma analogia com o que se passa nalguns modelos de Primavera, que sustentam uma cornucópia numa das mãos e na outra um ramalhete de flores; 3 - A cabeça está adornada com uma grinalda de folhas secas, tal como a cabeça da Primavera pode estar ataviada com plumas, toucados ou chapéus.
Para além destas analogias formais entre a Alegoria do Outono de Isabel Pires e certos modelos de Alegorias das Primavera, há a salientar que a Alegoria do Outono: 1 - Traja um vestido rodado em tom de Bordeaux, com gola verde de inspiração vegetalista e orla bicolor verde-amarela, cores que para além do Bordeaux são igualmente cores de folhas. As mangas do vestido estão decoradas com um fileira de folhas secas dispostas no sentido longitudinal. Uma guirlanda de folhas secas desce do ombro esquerdo em direcção ao cesto e ali se bifurca em duas guirlandas que seguem em direcção à orla do vestido, donde pendem parcialmente; 2 – Calça meias brancas e botas de cor Bordeaux. Estas têm a extremidade do cano com uma orla verde de inspiração vegetalista, da qual pendem folhas secas de cor Bordeaux e amarelo acastanhado; 3 - Assenta numa base circular de cor verde, orlada no topo com girassóis; 4 – O rosto está muito bem definido e é revelador do tratamento fortemente naturalista que a barrista imprime às suas criações. De salientar que os brincos pendentes das orelhas configuram duas folhas, de cor amarela.

Cromatismo da figura
Sob um ponto de vista cromático são dominantes os tons de Bordeaux e de amarelo, característicos das folhas secas e da fruta da época.

Simbolismo da Alegoria
Em termos simbólicos, a Alegoria do Outono, tal como a Alegoria da Primavera, está ligada à renovação da natureza. Assenta numa base verde, cor que simboliza a esperança e a renovação, aqui associadas ao Outono. As parras secas que ornamentam a composição, configuram estrelas, fontes de luz associadas ao simbolismo celeste, nomeadamente a esperança e a renovação. Os girassóis que ornamentam a base, dada a sua mobilidade em relação ao Sol, são um símbolo de instabilidade, aqui associado ao fluir da natureza e à sucessão cíclica das estações do ano.

Epílogo
O Outono é a estação das frutas, das folhas secas, da renovação. É o Inverno que se avizinha. Mas no dizer de Albert Camus[xviii], “Outono é outra Primavera, cada folha uma flor.”. Essa a intuição e também a convicção de Isabel Pires, que teve a sagacidade de criar uma Alegoria do Outono ou melhor, a primeira Alegoria do Outono na Barrística de Estremoz. Para além da qualidade da execução e da criatividade, pelo seu pioneirismo é merecedora de toda a nossa admiração, o que aqui registo e sublinho.
 
BIBLIOGRAFIA
ESPANCA, Florbela. Charneca em Flor. Livraria Gonçalves. Coimbra, 1931.
ESPANCA, Florbela. Livro de Máguas - Soror Saudade. Livraria Gonçalves. Coimbra, 1931.
EVANGELISTA, Júlio. Cantares de todo o ano. Colecção Educativa – Série F – N.º 6. Campanha Nacional de Educação de Adultos. Lisboa, s/d.
PESSOA, Fernando. No entardecer da terra in Ilustração Portuguesa , 2ª série, nº 83. Lisboa, 28-1-1922.
TORGA, Miguel. Diário X. Edição do autor. Coimbra, 1968.

Hernâni Matos
Publicado inicialmente em 7 de Novembro de 2020

[i] Fernando Pessoa (1888-1935). 
[ii] Ilustração Portuguesa, 2ª série, nº 83. Lisboa: 28-1-1922.
[iii] Florbela Espanca (1894-1932).
[iv] De “Charneca em Flor”.
[v] De “Livro de Máguas - Soror Saudade”.
[vi] De “Diário X”.
[vii] Columbano Bordalo Pinheiro (1857-1929, pintor naturalista e realista.
[viii] José Malhoa (1855-1933), pintor naturalista.
[ix] Francesco del Cossa (c. 1435-c. 1477), pintor italiano, renascentista.
[x] Giuseppe Arcimboldo (1526-1593), pintor italiano, maneirista.
[xi] Pieter Pauwel Rubens (1577-1640), pintor flamengo, barroco.
[xii] Nicolas Poussin (1594-1665), pintor francês, barroco.
[xiii] Rosalba Carriera (1675-1757), pintora italiana, barroca.
[xiv] Jacob van Strij (1756-1815), pintor holandês, barroco.
[xv] Jacob Cats (1741-1799), pintor holandês, rócócó.
[xvi] Jean-François Millet (1814-1875), pintor francês, realista.
[xvii] Frederic Edwin Church (1826-1900), pintor americano, romântico.
[xviii] Albert Camus (1913-1960), escritor franco-argelino.
 


quarta-feira, 4 de novembro de 2020

A Cegueira do Amor da Boniqueira


O Amor é Cego (2020) - Frente . Joana Oliveira (1978-  ).

Da minha lavra e como preito, dedico à Boniqueira 
esta estrofe de quatro versos hexasilábicos
de rima alternada:

O amor é cego,
Tem venda nos olhos.
O seu superego
não acha escolhos.

Os meus olhos sentem-se fascinados pela imagem transmitida pantograficamente da alma para as mãos da barrista, que permanentemente nos encanta e seduz com a magia transbordante que irradia da morfologia, da cromática e da estética patente nas suas criações.
Obras que simultânea e legitimamente constituem uma proclamação panfletária de auto-afirmação do seu estilo muito próprio no seio da Barrística de Estremoz. É um clamor insubmisso que lhe sai da alma:
-
Esta sou eu! 


O Amor é Cego (2020) - Trás. Joana Oliveira (1978-  ).