terça-feira, 21 de junho de 2016

Aqui vai água!


 AGUA VAE!
Costume de Portugal.
 H. L'Evêque (1814).

Ao meu olheiro de estimação,
por via de um treçolho,
que me nublou o olhar


Camarada aguadeiro,
perdão, controleiro
de quando meto água,
sempre que esta transvaza
a geometria verbal
da infusa ortográfica:

Revista a química do texto
que se quer biológico,
sem ser insípido,
nem tão pouco inodoro,
proclamo finalmente:
- Aqui vai água!


Hernâni Matos

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Auto das esplanadas andantes


Casal na rua (1887).
Charles Angrand  (1854-1926)
Óleo sobre cartão (39 x 33 cm).
Musée d'Orsay, Paris.

A acção decorre há dois séculos atrás na Igreja Matriz de Santa Maria do Castelo, para onde se dirigem em romagem de profundo fervor religioso, as donas esplanadas, ilustres senhoras que têm andado nas bocas do nosso burgo transtagano.
Na nave central do vetusto Templo e sobressaindo dos demais fiéis, chama a atenção pelo ineditismo da situação e pelo espaço que ocupam, a presença de Dona Formosa, Dona Aliança, Dona Susana, Dona Russa, Dona Alentejana, Dona Águias, Dona Alecrim, Dona Mercearia, Dona Verde, Dona Dinis e Dona Buxa. A sua presença ali deve-se ao facto de terem mandado celebrar uma Missa de Acção de Graças, não só pelas graças já recebidas como a receber, o que as leva a desejar ao Regedor do burgo, uma longa vida, repleta de infindos sucessos pessoais.
É celebrante, o honorável Cónego Túlio, bem conhecido do rebanho de Deus, por numa altura de grave seca que a todos afligia, ter organizado uma Procissão para que chovesse. Infelizmente e apesar dos auspícios da Padroeira local, a chuva não estava nos desígnios do Senhor, pela que a seca continuou.
O vetusto Cónego enverga a sua mais vistosa casula e no início da Liturgia proclama com douta solenidade:
- Irmãos: Estamos aqui nesta Santa Casa para dar graças ao Senhor, por tudo o que de bom nos tem dado, o que inclui as esplanadas do nosso burgo. Que o Senhor com o seu infinito Poder e Sabedoria, dê longa vida ao Regedor que nos governa, para que este possa prosseguir sem interrupções, a obra meritória que incansavelmente vem desenvolvendo. Demos graças a Deus e oremos ao Senhor.
Depois da Comunhão, na qual participaram piamente todas as senhoras donas esplanadas, estas sentiram-se mais confortadas espiritualmente, pelo que depois do Clérigo se ter retirado para a Sacristia e após alguns momentos de reflexão interior, saíram do Templo, permanecendo todavia no adro. Ali deram vazão a uma alegria sem limites, osculando-se repenicadamente, em sinal de mútua, sonora e incomensurável afeição. Depois, cada uma desfiou o rosário das suas reclamações e do direito que lhe assiste ao terrado. Excluindo algumas particularidades, a razão de peso invocada e que é uma causa comum que as une, constitui um esperado corolário daquele conclave:
- A gente tem que se governar. A iniciativa privada é que sabe! Graças a Deus que o Regedor nos apoia. Há quem diga que violamos o Código da Estrada. Qual Código da Estrada, qual carapuça? Isso é invenção da firma Jerónimo Martins e Costa, Lda., que por ter posição maioritária, se julga dona disto tudo e entende que a razão está do seu lado. Só pensa no sector público, em detrimento da iniciativa privada. Mas está enganada. Aqui quem manda é o Regedor. Ponto final, parágrafo.
O sol já ia alto, pelo que alguém foi de opinião, que deviam regressar aos respectivos terrados, a fim de fazer pela vida e recuperar as despesas da Missa.
Como Fernão é frequentador da estalagem do Jorge, a senhora Dona Alentejana foi mandatada para lhe dar conhecimento de todos estes factos, a fim de que junto do Regedor, dê eco de todos estes brados, através do jornal onde cronista é.
Só então as donas esplanadas, senhoras ilustres do nosso burgo, dali saíram pelo seu pé e em boa ordem, em direcção ao terrado, o qual já não é público, mas é delas. A partir de agora, nada vai ser igual. Aquela Missa de Acção de Graças, funcionou como Congresso Constitutivo da UBER – União Benfazeja das Esplanadas Regedorais. Na sequência dele, as esplanadas irão ficar de pedra e cal, para gáudio de uns e desespero de outros. 

terça-feira, 7 de junho de 2016

51- O aguadeiro - 2


Aguadeiro (Anterior a 1990).
Liberdade da Conceição (1913-1990).
Colecção particular.

Deveres dos aguadeiros de Estremoz
Os aguadeiros de Estremoz tinham deveres fixados por Posturas Municipais. As mais antigas conhecidas, referentes à utilização da água, remontam a 1852 e são em número de catorze, englobadas sob a epígrafe “Policia das Fontes, Chafarizes, Lago e Tanque da Communa”. Quatro dessas posturas são relativas a aguadeiros e vou reproduzi-las na totalidade: “- Postura nº 45: A limpeza das fontes, chafarizes e tanque da rua da levada, pertence ao zelador avençado com a Camara, com a coadjuvação dos aguadeiros, sob a inspecção da Camara. Sendo commetedor de abuzo, o primeiro pague por cada vez 3.000 réis e os segundos por cada vez, 500 réis cada um. - Postura nº 46: Os aguadeiros tragam campainhas nas bestas sob pena de 300 reis. - Postura nº 47: Aguadeiros que no caso d’incendio dentro da Villa não compareção logo com agua ao primeiro sinal dado pelo toque do sino da Camara, paguem de multa cada um 2.000 réis. - Postura nº 47 B: Aguadeiros que sejam encontrados enchendo nas fontes sem ser da agua que corre nas bicas (onde as há) paguem de multa 300 réis.”.
Merecem especial destaque as posturas confeccionadas em sessão camarária de 10 de Dezembro de 1854 e aprovadas pelo Conselho de Distrito, em sessão de 31 de Maio de 1855. Estas posturas continham um total de noventa e dois artigos a regular a vida dos habitantes do concelho de Estremoz, sendo que 10 deles se referiam à utilização das águas públicas potáveis de fontes, chafarizes, tanques e levada pública. O artigo 13º é específico dos aguadeiros e vou transcrevê-lo na íntegra: ”Aos aguadeiros incumbe o seguinte: 1º Devem trazer nas bestas campainhas ou chocalhos, e conservar em aceio as fontes publicas. 2º Só podem tirar a agua da Fonte Nova, Fonte do Jardim e Fonte das bicas, salvas as excepções que a camara determinar, por alguma circumnstancia extraordinaria. 3º Nas fontes em que a agua correr por bicas, só as estas devem encher. 4º No caso de incendio, são obrigados a apresentar-se logo no logar deste, e a promptificarem-se a todas as ordens que lhe forem dadas pela autoridade competente. Os que obrarem em contrario incorrem, no primeiro caso, na pena de cem réis; no segundo, na de seis centos réis; no terceiro, na de duzentos e quarenta réis; e no quarto, na de dois mil e quatrocentos réis.”
A análise comparativa das posturas de 1852 e de 1855, mostra que estas últimas desobrigaram os aguadeiros de participar na limpeza das fontes, chafarizes e tanque da rua da levada. Deixaram igualmente de ser penalizados pela ausência de chocalhos ou campainhas nas bestas, bem como pelo enchimento nas fontes sem ser da água que corre nas bicas. Por outro lado, a não comparência imediata no local de incêndio é desagravada de 2.000 para 100 réis na primeira vez, mas é sucessivamente agravada em caso de reincidência, até atingir o montante de 4.000 réis na quarta vez.
Mais tarde, em sessão camarária de 11 de Julho de 1875, foi feita uma postura adicional, visando “regular a boa policia municipal com relação a aguas, e com manifesta vantagem dos habitantes do Município”. Esta postura, aprovada pelo Conselho de Distrito em sessão de 14 de Julho de 1875, consta de 3 artigos que traslado integralmente: “Art. 1º.: É proibido ir ás fontes e chafarizes desta villa buscar agua em pipas, ou outras vasilhas de capacidade superior a trinta e seis litros, sob pena pena de dois mil e quinhentos reis pela primeira vez, e de cinco mil reis por cada reincidencia. § Único: É permitido ir ao lago desta villa buscar agua em vasilhas de capacidade superior a trinta e seis litros, com tanto que não encham da bica ou vieira do mesmo lago. Artº 2º.: Ninguem poderá encher nas indicadas fontes e chafarizes, de cada vez, mais de oito vasilhas de capacidade não superior a trinta e seis litros, sob pena de quinhentos reis. Art. 3º.: As presentes posturas começarão a vigorar desde o dia seguinte ao dia da sua publicação.”
Tudo leva a crer que a obrigatoriedade dos aguadeiros compareceram prontamente com água aos incêndios, só tenha cessado com a criação dos Bombeiros Voluntários de Estremoz, no segundo semestre de 1933.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Auto da Feira


UMA FEIRA MEDIEVAL
Gilles de Rome, Livre du gouvernement des Princes.
Françe, siecle 15. Paris, BnF, Arsenal 5062 fol. 149 v.

O entrecho decorre há dois séculos atrás no nosso burgo, mesmo em frente da Casa das Leis, na praça Luís de Gamões, que confina com a rua da Paróquia. Aí se avistam os personagens do auto, em número de seis e com perfil que passamos de imediato a descrever:
- CARLOS TUNA: Historiador. Conversador nato e orador eloquente. Identificado com o bloco da Abrilada, é um defensor acérrimo da causa oliventina.
- CARMELO ALTURAS: Avantajado de corpo, mais em altura que em largura. Vozeirão tonitruante que lhe agita o bigode à mongol, grisalho como o cabelo. Recolector nato, é frequentador assíduo de bibliotecas e arquivos. Tem uma apetência especial por coisas de outros tempos, as quais considera marcas identitárias que urge preservar.
- LÉRIAS: Anafado, baboso e bastante reaccionário. Especialista em distorcer realidades para as adequar às suas conveniências.
- FIRMINA TAUTAU: Mulher peituda e refilona. Na sua boca, as palavras são armas com que zurze os prevaricadores, à mesma velocidade com que distribui tabefes.
- FERNÃO: Mensageiro da comunidade como cronista ao serviço do povo.
- FRANCISCO TRÁS: Sargento-Mor jubilado, heróico participante da Abrilada e estudioso de assuntos militares.
O auto compõe-se de uma cena única, fácil de ser sintetizada. Fernão e Carmelo Alturas transitam pela rua da Paróquia e acabam por desembocar na Praça Luís de Gamões. Aqui, frente à Casa das Leis, encontra-se um grupo constituído por Lérias, Firmina Tautau, Francisco Trás e Carlos Tuna. Este último, com a desenvoltura que lhe é peculiar, dirige-se aos presentes, dizendo:
- Meus amigos: A feira medieval animou o clero, a nobreza, os militares, os mercadores e a arraia-miúda. Sobretudo esta última, que nestes dias esqueceu os problemas que a atormentam no dia a dia. Mas em termos de concepção, a feira apresentou um crasso erro de contextualização, quando envolveram na feira, as figuras da Rainha Santa e de D. Diniz. É que a Rainha Santa Isabel morreu em Estremoz em 1336 e a I Feira Medieval de Estremoz, teve lugar 127 anos depois, entre 20 e 30 de Junho de 1463, já na 2ª Dinastia. Tudo graças a carta de mercê datada de Estremoz aos 25 de Janeiro de 1463, concedida por D. Afonso V, que nesse sentido tinha sido solicitado pelos oficiais e homens-bons do Concelho, no decurso da sua permanência em Estremoz, na última quinzena de Janeiro desse ano. De salientar também que em 1463 era inexistente o culto oficial à Rainha Santa, o que só aconteceu após a beatificação concedida em 1516 pelo Papa Leão X, por solicitação de D. Manuel I.
E acrescenta ainda:
- Estão a ver que houve aqui uma grandessíssima trapalhada. E não se percebe bem se quiseram que a Rainha Santa e D. Diniz viajassem para o futuro ou se pretenderam que as feiras medievais tivessem começado mais cedo, assim numa espécie de “Oh tempo, volta para trás!”. De qualquer maneira, o que fizeram foi albardar o burro à vontade do dono, dando um grandessíssimo pontapé no cu dos cartapácios de História.
Carmelo Alturas entende também dar conta do que lhe vai na alma, proclamando:
- Trovadores não houve e jogos medievais também não. Quanto a actividades gímnicas, só as de rapa o tacho e com o púcaro bem cheio de vinho, bota acima e bota abaixo.
Lérias, eufórico, acha que é a altura própria para falar:
- Eu cá gostei da feira. Até fiquei arrelampado de ver as bailarinas com as pernas ao léu. Aquilo era só carne fresca. Foi um regalo para a vista, como já não tinha há muito.
Firmina Tautau interrompe-o, vociferando:
- Cale-se seu velho tarado. Se volta a dizer outra baboseira, chego-lhe a roupa ao pêlo, que é para ver se aprende a ter respeito pelas mulheres.
Fernão concilia, afirmando:
- Tenha calma mulher, que aquilo foi a memória da juventude a vir-lhe à flor da pele. Vai ver que lhe passa num instante.
Ouvindo isto, Firmina Tautau replica:
- Bom. Vamos lá a ver se ele tem tento na língua. De contrário temos o caldo entornado.
Francisco Trás, até aí silencioso, entende que é chegada a altura de se pronunciar:
- Eu até gostei. Os apontamentos militares foram soberbos. O orgulho, o garbo e o pundonor militares, levaram a tropa a dar o melhor de si própria. Fiquei reconfortado depois de assistir a toda aquela espadeirada. E é tudo o que tenho para dizer.
Ouvindo isto, Fernão conclui:
- Vou-me embora meus amigos, que já os ouvi a todos. Tenho que dar à perna, senão não posso dar à pena.
E dito isto, retira-se, a fim de lavrar uma crónica que junto do Regedor, dê eco de todos estes brados, através dum jornal onde cronista é.


quarta-feira, 25 de maio de 2016

50 - O aguadeiro - 1


Aguadeiro (1959).
Mariano da Conceição (1903-1959).
Colecção particular.

Aguadeiros
Nas aldeias e vilas, as mulheres iam às fontes encher os cântaros de barro, os quais transportavam depois à cabeça, equilibrados miraculosamente pela sogra, que a maioria das vezes não era mais que uma rodilha enrolada em forma de anel.
Nas cidades, existiam aguadeiros, proprietários de carro com grade para transporte de cântaros, puxados por muar ou por burro. Igualmente os havia com recursos mais rudimentares. Havia quem transportasse os cântaros em cangalhas de madeira, assentes no lombo das bestas. Havia também aqueles que nem besta tinham e efectuavam o transporte dos cântaros em carros de mão, que eles próprios empurravam. Os cântaros utilizados eram geralmente em zinco, para não partirem e, com tampa, para não entornarem. Cada aguadeiro tinha, de resto, a sua própria rede de clientes certos, que eram abastecidos a partir da fonte que frequentava.
Em Estremoz eram os aguadeiros que asseguravam a distribuição domiciliária de água, o que constituiu prática corrente até à inauguração da rede pública de abastecimento de água, em 26 de Maio de 1952. Na actualidade, o abastecimento é assegurado pelo sistema aquífero Estremoz-Cano, com uma área total de 202,1 Km2 e que se alonga segundo uma direcção NW-SE entre a região do Cano e o Alandroal, sendo constituído, principalmente pelo chamado anticlinal de Estremoz e pela aplanação do Cano.
Fontes de Estremoz
Embora delas já não corra água, existem ainda na parte baixa da cidade, as fontes onde se abasteciam os aguadeiros: - FONTE DAS BICAS, construída em data desconhecida do séc. XVI e que teve contíguo um tanque de lavagem, que o Município de 1905 transferiu para o Lavadouro Público; - FONTE DO HOSPITAL DE SÃO JOÃO DE DEUS, mandada construir pela Câmara de 1834, no muro contíguo à ermida de São Brás e que a edilidade de 1901 ordenou que fosse removida para o local onde actualmente se encontra; - FONTE DO ESPÍRITO SANTO mandada construir pelo Senado de 1834 e que chegou a ter chafariz para animais de carga e sela. Nos anos sessenta do século passado, o chafariz foi sacrificado ao pseudo progresso, já que foi arrancado a fim de facilitar a circulação automóvel; - A FONTE DOS CURRAIS, situada na Rua Brito Capelo (antiga Rua dos Currais) e que foi mandada construir pela Câmara Municipal em 1907; - FONTE DO CONVENTO DE SANTO ANTÓNIO, subterrânea, situada no exterior e datada de 1702.
A referência mais antiga que conheço relativa a fontes e à água de Estremoz, é de 1726 e aparece no “Aquilegio Medicinal”, de Francisco de Fonseca Henriques: “Na Villa de Eftremoz, e no seu termo ha tantas, e tão excelentes agoas, que parece um retalho da Provincia de Entre Douro, e Minho; porque no rocio da dita villa há duas fontes, huma a que chamaõ das Bicas, e outra a que chamaõ Fonte Nova, ambas de agoa admirável e abundantiffima; (…)”. A existência destas fontes é confirmada nas “Memórias Paroquiais de 1758”, que referem ainda a existência da chamada Fonte da Gafaria, a pouca distância da ermida de São Lázaro.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Auto de Fé


O Quarto Estado (1901).
Giuseppe Pellizza da Volpedo (1868-1907).
Óleo sobre tela (293 x 545 cm).
Civica Galleria d'Arte Moderna, Milano.

A acção decorre há dois séculos atrás na nossa urbe transtagana. Os personagens do auto, em número de oito, podem ser assim descritos:
- JUSTO SEVERO: Caixotão da rua da Paróquia e vizinho da Casa das Leis, que ao depor nele papéis devolutos, contribui para a sua formação jurídica.
- VASCO: Ávido de justiça social e permanentemente mobilizado para a intervenção cívica, é o arauto dos novos tempos.
- FERNÃO: Cronista do burgo e mensageiro da comunidade que nele confia.
- LIBERTÁRIA: Mulher peituda, de pelo na venta e sem papas na língua. Permanentemente em luta contra a injustiça social e sempre pronta a distribuir tabefes por aqueles que se atravessam no seu caminho.
- CARIZ: Jurisconsulto local, bigodudo, de porte imponente, que se desloca na rua com ar solene e como quem vai em procissão.
- FRANCISCO TRÁS: Sargento-Mor aposentado, herói da Abrilada e estudioso da História Militar local.
- VASCÃO: Meirinho abatido ao activo e que foi cocheiro às ordens de Sande-ao-cão. A sua frequência assídua da Tapanisca e da estalagem do Jorge, estiveram na origem da respeitável barriga e da vermelhidão do rosto.
- LELO: Descansador nato que se assenta no poial de entrada da Casa das Leis, onde apanha banhos de sol e tira umas fumaças.
Fim da manhã de um dia como os outros. Fernão tem a barriga a dar horas, pelo que em passo apressado se dirige para a estalagem do Jorge, onde vai dar ao dente e saber as últimas. Já na rua da Paróquia e junto aos caixotões falantes, encontra uma folha de papel com o memorandum elaborado por Justo Grave. A leitura do mesmo não o surpreende, pois encontra-se a par do problema ali tratado. Decide então arrepiar caminho, dirigindo-se para a praça Luís de Gamões, para ver quem é que anda por ali. Frente à Casa das Leis encontra-se um grupo, no qual se podem ver: Vasco, Libertária, Cariz e Lelo, aos quais se acaba de juntar Vascão, atraído pela voz tonitruante de Libertária. Esta, gesticula e simultaneamente proclama:
- Isto não anda, nem desanda. Continua tudo na mesma, como a lesma. O Regedor não atende as nossas justas reclamações, das quais o Fernão tem sido mensageiro. Não está certo. A resolução dos nossos problemas, fica sempre para o dia de São Nunca à Tarde.
Fernão sente necessidade de intervir, dizendo:
- E há ainda o problema dos caixotões falantes, dos quais Justo Grave é porta-voz.
Vasco entra também na conversa, observando:
- A situação é conhecida de todos e exige resolução. O problema é não só dos caixotões, mas também nosso. Daí que a gente esteja solidária com eles.
Vascão também não fica calado, pronunciando-se:
- Quanto ao trânsito mal parado, o problema não é só nosso, é também dos meirinhos meus colegas. Tenho que dizer ao Patilhas que apareça mais vezes. Por estas e por outras, é que se vê a falta que o Sande-ao-cão faz cá.
Lelo também não fica calado, desabafando:
- E não se esqueçam dos pombos, que eu estou farto de me cagarem em cima!
Cariz interrompe-o, advertindo-o:
- Não precisa de falar mal, Lelo! Diga: cocó.
Lelo responde:
- Sim senhor doutor cocó!
Libertária põe água na fervura, quando diz:
- Não faz mal dizer cagar, que é uma coisa que toda a gente faz. O que interessa é que o Lelo tem razão.
Francisco Trás, cordato e aprumado, como é timbre dum militar, pronuncia-se:
- Meus amigos: Não nos podemos igualmente demitir da resolução da situação chocante das placas, a qual fere as nossas sensibilidades.
Depois de toda a gente ter falado, Fernão conclui:
- Isto está a precisar de um Auto de Fé!
Libertária, maliciosa, pergunta:
- E quem é que vamos lançar na fogueira?
Fernão responde:
- Ninguém. Nada de violência, que nós somos pacíficos e a razão está do nosso lado. Temos é que voltar à carga. Eu encarrego-me de lavrar um Auto de Fé, um auto da nossa fé em lutarmos pela resolução dos nossos problemas. Um auto a apresentar ao Regedor. Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.
Respondem todos em uníssono:
-  A arraia unida, jamais será vencida!
Terminado o desabafo, Fernão retira-se, a fim de lavrar o Auto de Fé, que junto do Regedor, dê eco de todos estes brados, através do jornal onde cronista é.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

49 - Mulher a passar a ferro - 4

Mulher a passar a ferro (2016).
Ricardo Fonseca (1986 - ).
Colecção particular.

Comparação de exemplares
Efectuei um estudo comparativo da “Mulher a passar a ferro”, confeccionada por diferentes bonequeiros, os quais foram identificados pelas seguintes siglas: AP (Ana das Peles), EIAAG (Escola Industrial António Augusto Gonçalves), MC (Mariano da Conceição), SC (Sabina da Conceição), LC (Liberdade da Conceição), MLC (Maria Luísa da Conceição), IF (Irmãs Flores), JC (Jorge da Conceição), RF (Ricardo Fonseca) e DC (Duarte Catela).
A análise dos diferentes exemplares do figurado, permitiu-me tirar as seguintes conclusões: - BASE: Pode ser rectangular ou trapezoidal com os cantos de trás (IF) ou todos (JC) cortados em bisel. A base é maioritariamente verde, pintalgada de branco, amarelo e zarcão, orlada verticalmente com esta última cor. Mas há excepções: - Base toda em zarcão, pintalgada superiormente com aquelas três cores (AP); - Base bicolor cinzenta com orla castanha (JC) ou verde com orla zarcão (DC); - Base monocolor em castanho claro (pré-AP). - MESA: Tem maioritariamente pés paralelepipédicos, ainda que DC a represente com pés cilíndricos. Os pés podem ter decoração (AP e EIAAG) ou não (restantes). O tampo da mesa é quase sempre rectangular, ainda que possa aparecer quadrado (JC e RF), podendo ser da mesma cor dos pés (AP, EIAAG e JC), o que sugere o mesmo material. Nos restantes barristas, o tampo tem cor diferente e mais clara, o que sugere um material diferente, nomeadamente pedra. A mesa não tem travessas a unir os pés, excepto no espécime de JC, o qual é o único que num toque de realismo, representa volumetricamente o cobertor que é usado para proteger o tampo da mesa. - VESTUÁRIO: Consiste num vestido até aos pés, de cor, decoração e abotoadura variável, à excepção das figuras da EIAAG e de JC, que não apresentam decoração nem abotoadura. Só o vestido da imagem da EIAAG não exibe gola. Todos os outros apresentam, de início pintada e que com AP passa a ter volume, forma, dimensões e decoração variáveis, ostentando à frente um broche semiesférico de cor também variável. Só a peça da  EIAAG usa avental simples pintado com cor amarela, que apenas protege o vestido da cintura para baixo. Já no modelo de JC, o avental com volumetria e rendas, tem peitilho e alças. - CABELO: Todos representam a mulher com o cabelo apanhado atrás, excepto JC que a representa com o cabelo solto. - ORNAMENTAÇÃO DO CABELO: Até MC a mulher não tem canoa na cabeça. Ele começa por representá-la sem canoa e depois com canoa, no que é seguido por todos, excepto LC, DC e JC. Este último passa a representá-la com uma touca característica de empregada doméstica. - MÃO ESQUERDA: Anteriormente a MC, a mulher apoia a mão esquerda na mesa, a fim de poder manusear a peça de roupa. Todavia aquele autor, não se sabe porquê, transfere a mão para a anca, no que é seguido pelos demais, à excepção de JC, RF e DC. - BRINCOS: Antes de AP, a mulher não usa brincos, os quais só passa a ostentar a partir daí, com forma ovóide e cor amarela, como se fossem de ouro e o artefacto representasse a dona da casa. A prática apenas é interrompida por JC, que interpreta o boneco como sendo uma empregada doméstica, à qual atribui brincos castanhos, de aspecto modesto e com a forma de botão circular. - FERRO DE ENGOMAR: É maciço e em forma de cunha até SC, que introduz o ferro oco e com chaminé. A partir daí e à excepção de LC que continua a representar o ferro de cunha, o utensílio passa a ser sempre oco e sem chaminé, com excepção para RF, que a reintroduz. - PEÇA DE ROUPA: Maioritariamente é representado um corpete de cor e decoração variáveis, que RF substitui por um guardanapo branco de barras azuis. 
As diferenças observadas são consequência de cada artífice ter o seu próprio modo de observar o mundo que o cerca e de o interpretar, legando traços de identidade pessoal nas peças que manufactura e que são marcas indeléveis que permitem identificar o seu autor.