quarta-feira, 11 de maio de 2016

49 - Mulher a passar a ferro - 4

Mulher a passar a ferro (2016).
Ricardo Fonseca (1986 - ).
Colecção particular.

Comparação de exemplares
Efectuei um estudo comparativo da “Mulher a passar a ferro”, confeccionada por diferentes bonequeiros, os quais foram identificados pelas seguintes siglas: AP (Ana das Peles), EIAAG (Escola Industrial António Augusto Gonçalves), MC (Mariano da Conceição), SC (Sabina da Conceição), LC (Liberdade da Conceição), MLC (Maria Luísa da Conceição), IF (Irmãs Flores), JC (Jorge da Conceição), RF (Ricardo Fonseca) e DC (Duarte Catela).
A análise dos diferentes exemplares do figurado, permitiu-me tirar as seguintes conclusões: - BASE: Pode ser rectangular ou trapezoidal com os cantos de trás (IF) ou todos (JC) cortados em bisel. A base é maioritariamente verde, pintalgada de branco, amarelo e zarcão, orlada verticalmente com esta última cor. Mas há excepções: - Base toda em zarcão, pintalgada superiormente com aquelas três cores (AP); - Base bicolor cinzenta com orla castanha (JC) ou verde com orla zarcão (DC); - Base monocolor em castanho claro (pré-AP). - MESA: Tem maioritariamente pés paralelepipédicos, ainda que DC a represente com pés cilíndricos. Os pés podem ter decoração (AP e EIAAG) ou não (restantes). O tampo da mesa é quase sempre rectangular, ainda que possa aparecer quadrado (JC e RF), podendo ser da mesma cor dos pés (AP, EIAAG e JC), o que sugere o mesmo material. Nos restantes barristas, o tampo tem cor diferente e mais clara, o que sugere um material diferente, nomeadamente pedra. A mesa não tem travessas a unir os pés, excepto no espécime de JC, o qual é o único que num toque de realismo, representa volumetricamente o cobertor que é usado para proteger o tampo da mesa. - VESTUÁRIO: Consiste num vestido até aos pés, de cor, decoração e abotoadura variável, à excepção das figuras da EIAAG e de JC, que não apresentam decoração nem abotoadura. Só o vestido da imagem da EIAAG não exibe gola. Todos os outros apresentam, de início pintada e que com AP passa a ter volume, forma, dimensões e decoração variáveis, ostentando à frente um broche semiesférico de cor também variável. Só a peça da  EIAAG usa avental simples pintado com cor amarela, que apenas protege o vestido da cintura para baixo. Já no modelo de JC, o avental com volumetria e rendas, tem peitilho e alças. - CABELO: Todos representam a mulher com o cabelo apanhado atrás, excepto JC que a representa com o cabelo solto. - ORNAMENTAÇÃO DO CABELO: Até MC a mulher não tem canoa na cabeça. Ele começa por representá-la sem canoa e depois com canoa, no que é seguido por todos, excepto LC, DC e JC. Este último passa a representá-la com uma touca característica de empregada doméstica. - MÃO ESQUERDA: Anteriormente a MC, a mulher apoia a mão esquerda na mesa, a fim de poder manusear a peça de roupa. Todavia aquele autor, não se sabe porquê, transfere a mão para a anca, no que é seguido pelos demais, à excepção de JC, RF e DC. - BRINCOS: Antes de AP, a mulher não usa brincos, os quais só passa a ostentar a partir daí, com forma ovóide e cor amarela, como se fossem de ouro e o artefacto representasse a dona da casa. A prática apenas é interrompida por JC, que interpreta o boneco como sendo uma empregada doméstica, à qual atribui brincos castanhos, de aspecto modesto e com a forma de botão circular. - FERRO DE ENGOMAR: É maciço e em forma de cunha até SC, que introduz o ferro oco e com chaminé. A partir daí e à excepção de LC que continua a representar o ferro de cunha, o utensílio passa a ser sempre oco e sem chaminé, com excepção para RF, que a reintroduz. - PEÇA DE ROUPA: Maioritariamente é representado um corpete de cor e decoração variáveis, que RF substitui por um guardanapo branco de barras azuis. 
As diferenças observadas são consequência de cada artífice ter o seu próprio modo de observar o mundo que o cerca e de o interpretar, legando traços de identidade pessoal nas peças que manufactura e que são marcas indeléveis que permitem identificar o seu autor.