quinta-feira, 19 de maio de 2016

Auto de Fé


O Quarto Estado (1901).
Giuseppe Pellizza da Volpedo (1868-1907).
Óleo sobre tela (293 x 545 cm).
Civica Galleria d'Arte Moderna, Milano.

A acção decorre há dois séculos atrás na nossa urbe transtagana. Os personagens do auto, em número de oito, podem ser assim descritos:
- JUSTO SEVERO: Caixotão da rua da Paróquia e vizinho da Casa das Leis, que ao depor nele papéis devolutos, contribui para a sua formação jurídica.
- VASCO: Ávido de justiça social e permanentemente mobilizado para a intervenção cívica, é o arauto dos novos tempos.
- FERNÃO: Cronista do burgo e mensageiro da comunidade que nele confia.
- LIBERTÁRIA: Mulher peituda, de pelo na venta e sem papas na língua. Permanentemente em luta contra a injustiça social e sempre pronta a distribuir tabefes por aqueles que se atravessam no seu caminho.
- CARIZ: Jurisconsulto local, bigodudo, de porte imponente, que se desloca na rua com ar solene e como quem vai em procissão.
- FRANCISCO TRÁS: Sargento-Mor aposentado, herói da Abrilada e estudioso da História Militar local.
- VASCÃO: Meirinho abatido ao activo e que foi cocheiro às ordens de Sande-ao-cão. A sua frequência assídua da Tapanisca e da estalagem do Jorge, estiveram na origem da respeitável barriga e da vermelhidão do rosto.
- LELO: Descansador nato que se assenta no poial de entrada da Casa das Leis, onde apanha banhos de sol e tira umas fumaças.
Fim da manhã de um dia como os outros. Fernão tem a barriga a dar horas, pelo que em passo apressado se dirige para a estalagem do Jorge, onde vai dar ao dente e saber as últimas. Já na rua da Paróquia e junto aos caixotões falantes, encontra uma folha de papel com o memorandum elaborado por Justo Grave. A leitura do mesmo não o surpreende, pois encontra-se a par do problema ali tratado. Decide então arrepiar caminho, dirigindo-se para a praça Luís de Gamões, para ver quem é que anda por ali. Frente à Casa das Leis encontra-se um grupo, no qual se podem ver: Vasco, Libertária, Cariz e Lelo, aos quais se acaba de juntar Vascão, atraído pela voz tonitruante de Libertária. Esta, gesticula e simultaneamente proclama:
- Isto não anda, nem desanda. Continua tudo na mesma, como a lesma. O Regedor não atende as nossas justas reclamações, das quais o Fernão tem sido mensageiro. Não está certo. A resolução dos nossos problemas, fica sempre para o dia de São Nunca à Tarde.
Fernão sente necessidade de intervir, dizendo:
- E há ainda o problema dos caixotões falantes, dos quais Justo Grave é porta-voz.
Vasco entra também na conversa, observando:
- A situação é conhecida de todos e exige resolução. O problema é não só dos caixotões, mas também nosso. Daí que a gente esteja solidária com eles.
Vascão também não fica calado, pronunciando-se:
- Quanto ao trânsito mal parado, o problema não é só nosso, é também dos meirinhos meus colegas. Tenho que dizer ao Patilhas que apareça mais vezes. Por estas e por outras, é que se vê a falta que o Sande-ao-cão faz cá.
Lelo também não fica calado, desabafando:
- E não se esqueçam dos pombos, que eu estou farto de me cagarem em cima!
Cariz interrompe-o, advertindo-o:
- Não precisa de falar mal, Lelo! Diga: cocó.
Lelo responde:
- Sim senhor doutor cocó!
Libertária põe água na fervura, quando diz:
- Não faz mal dizer cagar, que é uma coisa que toda a gente faz. O que interessa é que o Lelo tem razão.
Francisco Trás, cordato e aprumado, como é timbre dum militar, pronuncia-se:
- Meus amigos: Não nos podemos igualmente demitir da resolução da situação chocante das placas, a qual fere as nossas sensibilidades.
Depois de toda a gente ter falado, Fernão conclui:
- Isto está a precisar de um Auto de Fé!
Libertária, maliciosa, pergunta:
- E quem é que vamos lançar na fogueira?
Fernão responde:
- Ninguém. Nada de violência, que nós somos pacíficos e a razão está do nosso lado. Temos é que voltar à carga. Eu encarrego-me de lavrar um Auto de Fé, um auto da nossa fé em lutarmos pela resolução dos nossos problemas. Um auto a apresentar ao Regedor. Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.
Respondem todos em uníssono:
-  A arraia unida, jamais será vencida!
Terminado o desabafo, Fernão retira-se, a fim de lavrar o Auto de Fé, que junto do Regedor, dê eco de todos estes brados, através do jornal onde cronista é.