quarta-feira, 15 de junho de 2016

Auto das esplanadas andantes


Casal na rua (1887).
Charles Angrand  (1854-1926)
Óleo sobre cartão (39 x 33 cm).
Musée d'Orsay, Paris.

A acção decorre há dois séculos atrás na Igreja Matriz de Santa Maria do Castelo, para onde se dirigem em romagem de profundo fervor religioso, as donas esplanadas, ilustres senhoras que têm andado nas bocas do nosso burgo transtagano.
Na nave central do vetusto Templo e sobressaindo dos demais fiéis, chama a atenção pelo ineditismo da situação e pelo espaço que ocupam, a presença de Dona Formosa, Dona Aliança, Dona Susana, Dona Russa, Dona Alentejana, Dona Águias, Dona Alecrim, Dona Mercearia, Dona Verde, Dona Dinis e Dona Buxa. A sua presença ali deve-se ao facto de terem mandado celebrar uma Missa de Acção de Graças, não só pelas graças já recebidas como a receber, o que as leva a desejar ao Regedor do burgo, uma longa vida, repleta de infindos sucessos pessoais.
É celebrante, o honorável Cónego Túlio, bem conhecido do rebanho de Deus, por numa altura de grave seca que a todos afligia, ter organizado uma Procissão para que chovesse. Infelizmente e apesar dos auspícios da Padroeira local, a chuva não estava nos desígnios do Senhor, pela que a seca continuou.
O vetusto Cónego enverga a sua mais vistosa casula e no início da Liturgia proclama com douta solenidade:
- Irmãos: Estamos aqui nesta Santa Casa para dar graças ao Senhor, por tudo o que de bom nos tem dado, o que inclui as esplanadas do nosso burgo. Que o Senhor com o seu infinito Poder e Sabedoria, dê longa vida ao Regedor que nos governa, para que este possa prosseguir sem interrupções, a obra meritória que incansavelmente vem desenvolvendo. Demos graças a Deus e oremos ao Senhor.
Depois da Comunhão, na qual participaram piamente todas as senhoras donas esplanadas, estas sentiram-se mais confortadas espiritualmente, pelo que depois do Clérigo se ter retirado para a Sacristia e após alguns momentos de reflexão interior, saíram do Templo, permanecendo todavia no adro. Ali deram vazão a uma alegria sem limites, osculando-se repenicadamente, em sinal de mútua, sonora e incomensurável afeição. Depois, cada uma desfiou o rosário das suas reclamações e do direito que lhe assiste ao terrado. Excluindo algumas particularidades, a razão de peso invocada e que é uma causa comum que as une, constitui um esperado corolário daquele conclave:
- A gente tem que se governar. A iniciativa privada é que sabe! Graças a Deus que o Regedor nos apoia. Há quem diga que violamos o Código da Estrada. Qual Código da Estrada, qual carapuça? Isso é invenção da firma Jerónimo Martins e Costa, Lda., que por ter posição maioritária, se julga dona disto tudo e entende que a razão está do seu lado. Só pensa no sector público, em detrimento da iniciativa privada. Mas está enganada. Aqui quem manda é o Regedor. Ponto final, parágrafo.
O sol já ia alto, pelo que alguém foi de opinião, que deviam regressar aos respectivos terrados, a fim de fazer pela vida e recuperar as despesas da Missa.
Como Fernão é frequentador da estalagem do Jorge, a senhora Dona Alentejana foi mandatada para lhe dar conhecimento de todos estes factos, a fim de que junto do Regedor, dê eco de todos estes brados, através do jornal onde cronista é.
Só então as donas esplanadas, senhoras ilustres do nosso burgo, dali saíram pelo seu pé e em boa ordem, em direcção ao terrado, o qual já não é público, mas é delas. A partir de agora, nada vai ser igual. Aquela Missa de Acção de Graças, funcionou como Congresso Constitutivo da UBER – União Benfazeja das Esplanadas Regedorais. Na sequência dele, as esplanadas irão ficar de pedra e cal, para gáudio de uns e desespero de outros.