domingo, 8 de maio de 2016

Adivinhário português da chuva


Almanaque Bertrand, 1938.

Em tempos recuados, a transmissão de saberes processava-se através da tradição oral, nomeadamente em serões de convívio e partilha inter-geracional. A tradição oral tem uma literatura própria, na qual se inserem as adivinhas.
O presente adivinhário da chuva, é fruto de recolha pessoal e da consulta de fontes bibliográficas, cujos autores, em épocas distintas, as recolheram da tradição oral ou noutras fontes bibliográficas:

O que é que se deseja
que venha quando tarda,
e que se vê
logo que vem?
(1)

O que é, o que é, sempre cai, mas nunca se machuca? (2)

Pelo muito bem que faço não posso ser dispensado, se persisto aborreço, se falto sou desejado. (3)

Que é, que é,
Que cai de pé
E corre deitado? (4)

Mil cordéis,
Dez mil fios de seda,
Caindo no rio
Não podem já ver-se. (5)

Que é, que é, que aberto guarda tudo, e, fechado, não guarda nada. (6) 

Ando sempre com o meu dono,
Ora aberto ora fechado.
Como sou eu quem o protege,
Traz-me muito estimado.
(7)

 O que é o que é que sobe quando a chuva desce? (8)

Qual é a coisa que vem em pé e está deitada? (9)

Semeiam-se aos regos,
Nunca botam grelos. (10)

Um terreno bem lavrado,
Sem charrua nem telhado. (11)

São muitas meninas numa varanda,
Todas a chorar para a mesma banda. (12)

Vinte mil meninas
Numa varanda,
Todas a chorar
P’rá mesma banda. (13)

Muitas senhoras,
Muitas senhoras.
Quando mija uma
Mijam todas. (14)

O que é que o guarda-chuva disse para a bengala? (15)

Soluções

(1) - Chuva.
(2) - Chuva.
(3) - Chuva.
(4) - Chuva.
(5) - Chuva (Macau)
(6) - Guarda-chuva.
(7) - Guarda-chuva.
(8) - Guarda-chuva.
(9) - Telha.
(10) - Telhas.
(11) - Telhado (Ameixial, concelho de Loulé).
(12) - Telhas (Querença, concelho de Loulé).
(13) - Telhas do beiral em dia de chuva (Barcelos, Rochoso, Guarda).
(14) - Telhas quando chove.
(15) - Você não tem vergonha de andar nua?

BIBLIOGRAFIA
- MOUTINHO, José Viale. Adivinhas Populares Portuguesas. 6ª edição.Editorial Notícias. Lisboa, 2000.
– PIRES DE LIMA, Augusto Castro. O Livro das Adivinhas. Editorial Domingos Barreira. Porto, 1943.
- VIEGAS GUERREIRO, M. Adivinhas Portuguesas. Fundação Nacional Para A Alegria No Trabalho. Lisboa, 1957.
Hernâni Matos
Publicado inicialmente em 8 de Maio de 2016

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Auto dos caixotões falantes


Retrato de Hermann Hillebrandt Wedigh (1533).
Hans Holbein le Jeune (1497-1543)
Berlin, Gemäldegalerie.

No nosso burgo, nas traseiras da Casa das Leis, existe uma rua singular que nunca foi baptizada e que por isso não tem nome. É como que uma rua de pé descalço, um atalho Zé-ninguém, que liga a rua da Paróquia à rua Nova da Praça.
Na artéria anónima existe uma placa ajardinada que a atravessa duma ponta a outra. No topo virado para a rua da Paróquia e sob um portentoso cedro, foram colocados há muito, quatro caixotões para lixo, paralelepipédicos, com as cores da Regedoria. Frente a eles está disposto um caixotão maior e igualmente paralelipipédico, de igual cor, vocacionado para receber vasilhame de vidro devoluto. Os caixotões têm a particularidade de falar uns com os outros.
O enredo do auto desenrola-se há dois séculos atrás e envolve 6 personagens, assim caracterizados:
- JUSTO SEVERO: É o caixotão que fica mais próximo da Casa das Leis. Tem formação jurídica, uma vez que nele são depositados papéis provenientes daquela Casa. Para além disso, por ser o que fica mais a jeito, acolhe também restos de fruta provenientes da frutaria do Horta d’Água. É vegetariano e goza de um estatuto social superior ao dos outros caixotões.
- JOÃO CONTENTE: Disposto à direita de Justo Severo, recolhe não só materiais provenientes do Horta d´Água como da Estalagem do Jorge, que à excepção do vasilhame de vidro, ali faz desembocar tudo aquilo que para eles não tem préstimo. É muito senhor do seu paladar e aprecia desde restos de petingas com arroz a bifinhos com cogumelos. As dietas não são com ele.
- ZÉ DAS ISCAS: Colocado à direita de João Contente, recebe todo o género de desperdícios provenientes da Tapanisca, o que inclui moelas e iscas. Recebe também papel e embalagens de cartão, ali depositadas pela papelaria Duques e Chicas. Ali vai parar também algum vasilhame com restos de vinho, que em certas alturas o levam a arrotar e a ter soluços.
- MERDÉLIO: Caixotão à direita do Zé das Iscas. Além de ser pau para toda a obra, é o que está mais próximo da sentina pública, pelo que nele são depositados papéis dali provenientes, conspurcados com matérias fecais. 
- BORRACHÃO: Plantado em frente dos restantes caixotões, só recebe vasilhame de vidro e a coisa parece que funciona.
- FERNÃO: Cronista de serviço. Sempre ao lado do povo, que o reconhece como porta-voz da comunidade.
Pelo seu estatuto social, Justo Severo é que lidera os caixotões e a eles se dirige logo no início do entremez:
- Meus Senhores: Após séria reflexão, cheguei à triste conclusão de que a nossa presença aqui não faz sentido algum, desde que após a Abrilada, começaram a espalhar caixotões especializados aí pela urbe, tal como se pode constatar no largo General Graça e na rua Nova da Praça. Cada um só recebe aquilo para que está destinado: papel e cartão, material imperecível e metal, vasilhame de vidro e outro para receber tudo o que não seja nada disto. Nós estamos fora de tempo, estamos velhos e cansados, estamos a precisar de reforma. O Regedor que mande pôr aqui caixotões especializados, como há noutros locais. Concordam?
Todos a uma só voz respondem:
- Queremos a reforma já!
Justo Severo quer ouvi-los separadamente, pelo que diz:
Respondam-me lá, um por um.
E assim acontece. O primeiro a responder é Merdélio:
Eu concordo. Estou farto desta merda.
Segue-se João Contente:
Eu também. Já ando enjoado de fruta.
Por sua vez, Zé das Iscas confessa:
– E eu também. Já ando embuchado, que ultimamente não tem aparecido pinga.
Quanto ao Borrachão não dá sinal de si, etilizado como está pelos excessos vínicos do dia anterior. Daí que Justo Severo tenha concluído que havia que passar à acção. Como tal dirige-se aos caixotões que estão despertos, nos seguintes termos:
Pois bem. Temos que tomar uma atitude. Já que ninguém nos consegue ouvir, vou deixar no chão um memorandum dirigido ao Fernão, que costuma passar aqui próximo. Papel não me falta e pena também não, pois veio aqui parar uma ontem. O Fernão é bom homem e poderá tomar providências. Basta que lavre uma crónica que junto do Regedor, dê eco de todos estes brados, através dum jornal onde cronista é.
E conclui:
- Meus Senhores: Dou a reunião por terminada, pois agora tenho que escrever.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Auto das placas malfadadas



O enredo desenrola-se no nosso burgo, mesmo em frente da Casa das Leis, na praça Luís de Gamões, que é contígua à rua da Paróquia. A acção decorre há dois séculos atrás, para onde foram projectados os personagens, devido a uma avaria da máquina do tempo, que os põe a falar de factos que irão decorrer duzentos anos depois. O perfil dos intervenientes pode ser descrito assim:
- ANTÓNIO LIMÕES: Trovador de todas as horas, dias e meses, mas com uma predilecção especial por Abril. Poeta do quotidiano do povo, o qual canta com o vigor de uma mãe que amassa o pão.
- CARMELO ALTURAS: Seco de carnes e voz de trovão que brota lá do alto. Tem cabelo grisalho e usa bigode à mongol. Farejador nato de coisas por descobrir, é uma espécie de cão pisteiro que não descansa enquanto não abocanha a presa. Faz concorrência à traça na sua apetência pelos papéis velhos que povoam bibliotecas e arquivos. O resultado das suas descobertas é como uma candeia que alumia as trevas.
- FRANCISCO TRÁS: Sargento-Mor aposentado, reconhecido como herói pela sua participação capital no levantamento militar que nos restituiu a Liberdade. Estudioso da História Militar a nível local, é uma pessoa muito respeitada e estimada no burgo.
- MARIA MACHADÃO: Mulher robusta, peituda e vigorosa. Com frequência brada e gesticula contra a injustiça. Coitados daqueles que forem alvos da sua ira. Estão sujeitos a levar um par de tabefes.
- FERNÃO: Cronista de serviço. Sempre ao serviço do povo, que o reconhece como mensageiro da comunidade.
A cena única do auto, é fácil de resumir. Fernão encontra o poeta António Limões numa das suas raras saídas de casa, local preferido para poetar. Resolvem pôr as conversas em dia, até que frente à Casa das Leis, se cruzam com Maria Machadão que vocifera e gesticula com Carmelo Alturas. Nesse preciso momento chega também Francisco Trás, que logo pergunta:
- O que é que se passou Maria Machadão? A senhora está fora de si!
A resposta de Maria Machadão é célere:
– Não é caso para menos. Estava aqui a contar ao Carmelo Alturas que estando eu na praça Luís de Gamões, mais uma vez me vieram perguntar onde é que ficava a rua da Paróquia. É que a rua não tem placa nenhuma à entrada. Só lá tem o sítio onde devia estar. Quem me perguntou foi um carroceiro de fora que queria descarregar mercadoria na Estalagem do Jorge. Raro é o dia em que isto não acontece. E o Regedor que não toma providências. Já me estou a passar dos azeites. Qualquer dia dá asneira.
A uma só voz, todos lhe dizem:
- Calma é que é preciso!
Francisco Traz intervém seguidamente dizendo:
- O que a Maria Machadão referiu é a falta de uma placa toponímica numa rua. Todavia há outro tipo de placas, que são as placas evocativas das quais eu conheço um exemplo singular. Já o Dr. Marques Fresco na monografia que publicou sobre a nossa terra transtagana, chamava a atenção para a placa que está na Ermida de Santo Disto, ter ali sido posta por engano, uma vez que D. Nuno Álvares Macieira, antes de ter partido para a batalha dos Atasqueiros, ter orado com as suas tropas, não no Rossio Rustiquês Tribal, onde foi construída aquela Ermida, mas sim no Rossio de São Trás, onde veio a ser erigida uma Igreja votada ao Santo. Era aqui que devia estar aquela placa e até agora ninguém teve a coragem de ordenar a sua mudança.
Carmelo Alturas também não se contém e diz:
– A placa que o Francisco Traz relatou é uma placa evocativa mal localizada. Porém, eu conheço uma que está bem situada, mas tem um erro de inscrição. Ao investigar o Arquivo da Escola Industrial António Magusto Ressalves, fiz uma descoberta importante. O afamado escultor Chá Remos, ligado à recuperação dos nossos bonecos de barro, foi Director daquela Escola entre 1932 e 1945, como pude confirmar na imprensa local. Pois, na rua D. Tasco da Fama, existe um prédio azulejado em cuja fachada foi descerrada uma placa, assinalando que ele morou ali até deixar de ser Director da Escola, em 1944. É uma falta de rigor, que não lembra ao Diabo.
Intervém então António Limões, dizendo:
Pois eu conheço um caso diferente dos anteriores. Trata-se de uma placa evocativa, bem localizada e sem erros de inscrição, mas que está completamente ilegível. No largo do Espírito Tanto existe uma placa no frontispício do nº2-2º, evocativa de ali ter morado de 1951 a 1952, o poeta Sebastião da Fama, que pela sua prática pedagógica estabeleceu uma forte ligação afectiva com o nosso burgo, perceptível nos seus Poemas e no seu Diário. Com o rigor do tempo, a tinta das letras sumiu-se e não voltaram a pintá-la. Será que o poeta caiu no esquecimento de quem se devia lembrar destas coisas? É mesmo muito triste. Dói-me a alma só de pensar nisto. Mas há uma pessoa que podia dar um forte contributo para a resolução destas situações.
Perguntam todos simultaneamente:
- Quem?
Responde António Limões:
- O Fernão podia redigir uma crónica sobre isto tudo, num dos jornais onde cronista é. Se o Regedor não tem conhecimento, passa a ter. Mesmo que não leia os jornais, alguém que os leia por ele, vai-lhe dar conhecimento. 
Fernão aceita o encargo, dizendo:
– Contem comigo. Para tal, vou fazer uso da minha pena, que é firme e não tem pena de escrever. Isto é tudo uma questão de penas. Faz pena a situação das placas, que parecem estar a sofrer cada uma delas a sua pena. Mas basta de penas. Não há que ter pena. Pelo contrário, vale a pena procurar libertá-las daquilo que não pode ser uma pena eterna.
Respondem todos em uníssono:
- E não tenha pena.
Ao que Fernão replica:
- Certamente que não.
E porventura estimulado pela presença do poeta António Limões e parafraseando o cantor Daniel Cheire, é levado a versejar: Se cronista sou, / ao Povo o devo. / Aqui onde estou, / Para ele escrevo. E dito isto, retira-se, a fim de lavrar uma crónica que junto do Regedor, dê eco de todos estes brados, através dum jornal onde cronista é.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

47 - Mulher a passar a ferro - 3


Mulher a passar a ferro (1958).
Mariano da Conceição (1903-1959).
Colecção particular.

Pintura Universal
Desde o séc. XVIII que a “Mulher a passar a ferro” constitui um tema apelante na Pintura Universal, o qual foi frequentemente interpretado por artistas de diferentes épocas e correntes estéticas das mais diversas. Destacamos as obras: - Henry Robert Morland: Engomadeira (1750); - Jean-Baptiste Greuze: As lavadeiras (1761); - Louis Léopold Boilly: Jovem engomadeira (c. 1800); - François Bonvin: Engomadeira (1858); - Edgar Degas: Engomadeira (c. 1869); - Louis Joseph Anthonissen: As engomadeiras em Trouville (1888); - Ivana Kobilca: Engomadeiras (1891); - Albert Edelfelt: Lavadeiras (1893); - Konstantin Makovsky: Engomadeira (c. 1900); - Picasso: Engomadeira (1904); - Rik Wouters: Engomadeira (1912); - Gotthardt Kuehl: Pequena aflição (1915); - David McCosh: Engomadeira (1931); - Jean Dubuffet: Mulher a passar a ferro uma camisa (1951);
Arte Portuguesa
Em Portugal apenas conhecemos 3 obras de arte incluídas na temática da “Mulher a passar a ferro”. São elas: - Almada Negreiros: A engomadeira (1915) – Desenho; - Carlos Reis: Engomadeiras (1915) – Pintura a óleo; - Paula Rego: Menina a passar a ferro (1989) – Azulejo.
Figurado de Estremoz
 A “Mulher a passar a ferro” é uma imagem pertencente ao núcleo base do figurado de Estremoz. O exemplar que reproduzimos representa uma mulher trajando à moda do séc. XIX, com a mão esquerda apoiada na anca e com a mão direita segurando a pega de um ferro de engomar maciço, de forma triangular e cor negra, cuja pega é figurada por uma pedaço de arame em forma de U invertido, pintado de preto. A mulher passa a ferro uma peça de roupa de cor branca, assente numa mesa de quatro pernas paralelepipédicas, de cor castanho claro e tampo rectangular de cor creme.
Na cabeça, dois pontos negros representam os olhos, encimados por dois traços castanhos que figuram as pestanas e as sobrancelhas. O nariz em relevo, tem a forma de prisma triangular e a boca é interpretada por uma linha vermelha. Em cada uma das faces é visível uma roseta alaranjada. O cabelo é castanho-escuro com troço atrás, no qual está espetada uma canoa amarela, com pintas verdes e vermelhas. O cabelo encobre as orelhas, das quais pendem dois brincos de forma ovóide e cor amarela. 
 O vestido é cor-de-rosa com pintas azuis, orlado de azul nos punhos, com fita azul à cintura, com pontas pendentes para trás e gola azul em relevo, pintalgada de branco e ostentando à frente um broche semi-esférico cor de zarcão. Os sapatos são negros. 
O conjunto assenta numa base trapezoidal de cor verde, pintalgada de branco, amarelo e zarcão e pintada lateralmente desta mesma cor.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Palácio Tocha vai acolher Museu do Azulejo


Palácio Tocha na actualidade.


O histórico Palácio Tocha, no Largo D. José I, 100, junto ao Jardim Municipal de Estremoz, vai ser transformado pela Fundação Berardo em Museu do Azulejo. Trata-se dum imponente solar setecentista também conhecido por Palácio dos Henriques de Trastâmara, construído no início do século XVIII para residência do capitão Barnabé Henriques e sua família. Era ali que na novela Belmonte, supostamente residia a família Milheiro e em cujo rés-do-chão funcionava a clínica veterinária da Dr.ª Julieta Milheiro.
A revelação das futuras funções do Palácio foi feita à rádio local, pelo Presidente da edilidade Luís Mourinha, que deu conhecimento que no passado dia 7 de Abril, a Direcção Geral da Cultura deu parecer favorável a obras de conservação, restauro e adaptação, as quais deverão ter início em Julho ou Agosto próximo.
História recente do Palácio
Desde que foi erigido e até aos dias de hoje, o Palácio Tocha conheceu diversos proprietários, um dos quais a família Sepúlveda da Fonseca, que visando efectuar partilhas, decide vender o imóvel. Para tal dá preferência à Câmara Municipal de Estremoz, tendo o seu representante Dr. José Filipe Sepúlveda Rosado da Fonseca, contactado o Presidente da Câmara, Luís Mourinha. O Município revela-se interessado na aquisição, mas propõe o pagamento faseado em tal número de parcelas, que aquela família não pode aceitar. O edifício é então vendido no ano de 2000, à Imobiliária Magnólia da Madeira, Lda. A 4 de Junho desse mesmo ano, a CME entrega nas instâncias competentes uma proposta visando a classificação do imóvel como monumento de interesse público.
Em 2008, a Imobiliária Magnólia da Madeira, Lda., faz uma permuta de edifícios com a Associação de Colecções, de cujo Conselho de Administração é Presidente, o Comendador José Manuel Rodrigues Berardo (Joe Berardo). Na prática o proprietário do Palácio Tocha passa a ser o conhecido empresário e coleccionador de Arte, Joe Berardo.
Na sequência da proposta da Câmara, o Palácio Tocha veio a ser classificado como monumento de interesse público, através da Portaria 40/2014 do Secretário de Estado da Cultura, publicada no Diário da Republica - 2.ª Série, Nº 14, de 21-01-2014. O diploma define ainda a zona especial de protecção do monumento.
Face àquela classificação, pessoalmente chocado pelo estado de degradação do edifício e a necessidade urgente de promover o seu restauro e conservação, redigi 3 artigos sob a epígrafe PALÁCIO TOCHA - QUEM LHE ACODE?, publicados no  jornal Brados do Alentejo, a 10  de Julho, 11 de Setembro e 2 de Outubro de 2014. Nesses artigos e conhecedor da legislação em vigor relativa a Defesa do Património, chamei a atenção para as responsabilidades que face a ela, tanto têm o proprietário como a administração pública, responsabilidades que a partir do momento da classificação se impunha que fossem assumidas. É que o edifício é uma jóia arquitectónica da cidade e um tesouro em património azulejar, no qual ressalta o envolvimento de Estremoz e do seu termo, na luta pela independência nacional contra o jugo filipino. São páginas de História Regional e Nacional que estão ali contadas.
Na sua edição de 11 de Setembro de 2014, o jornal Brados do Alentejo, inquiriu sobre a situação do Palácio Tocha, o Presidente do Município, Luís Mourinha. Este declarou que está “preocupado com a situação” e acrescentou ter sido “recentemente contactado verbalmente pelos interessados no sentido de o imóvel ser adaptado a hotel, situação a que a Câmara não se opõe”.
Alguns comentários
Que me sejam permitidos alguns comentários finais:
- Como o edifício ainda se encontra registado em nome da Associação de Colecções, tudo leva a crer que venha a ser registado em nome da Fundação Berardo, o que não deverá constituir problema;
- O projecto de classificação do edifício apresentado oportunamente pela Câmara Municipal de Estremoz, teve que aguardar 14 anos até ser aprovado nas instâncias competentes;
- O tempo não se compadeceu, pelo que o edifício e respectiva zona de protecção se foram degradando duma forma acelerada;
- A meu ver é mais adequada a utilização do imóvel como museu privado, que aquela que teria como hotel, já que assim é mais fácil ao proprietário assegurar o regime legal instituído sobre acesso e visita pública.



Palácio Tocha no início do séc. XX


RECHEIO AZULEJAR DO PALÁCIO TOCHA









































sexta-feira, 8 de abril de 2016

Auto do trânsito mal parado


Carruagens nos Champs-Élysées.
Jean Béraud (1849-1935).
Óleo sobre tela (49 x 44 cm).
Colecção privada.

O entrecho desenvolve-se há dois séculos atrás, na nossa urbe transtagana, mais exactamente na conhecida rua da Paróquia. Por ali desfilam os 6 personagens do auto, assim descritos:
- SANDE-AO-CÃO: Lendário comandante dos meirinhos locais, disciplinador nato e com uma actividade notável na repressão de cocheiros que abusivamente estacionavam charretes, breques e carrioles, deixando os outros entalados. Respeitado e temido, dava gosto vê-lo impecavelmente fardado e de pingalim na mão, a coordenar a acção dos meirinhos seus subordinados. Embora ausente da acção, é uma figura que perdura na memória colectiva.
- VASCÃO: Meirinho abatido ao activo. De aspecto relativamente franzino, embigodado, de respeitável barriga e vermelhusco de cores. Foi cocheiro às ordens de Sande-ao-cão, a quem recorda com saudade. Frequentador assíduo da Tapanisca e da estalagem do Jorge, transita pela rua da Paróquia, sempre que vai desinfectar a goela.
- DONA MAGNIFICÊNCIA: Dama peituda, bem maquilhada, ornada de gargantilha, pulseiras e anéis. Tanto se cobre de peles como de sedas. Depende da estação. Sempre que vai ao Milenas que empresta dinheiro a juros, deixa o carriole no meio da rua.
 - CHICO PINGUINHAS: De pequena estatura, bem nutrido de carnes, petisqueiro, usa chapéu à marialva e costuma ir molhar o bico à Tapanisca e à estalagem do Jorge.
- PATILHAS: Meirinho destacado para desenvencilhar o trânsito na rua da Paróquia.
- HOMEM COMUM: Transeunte ocasional da rua da Paróquia.
O auto resume-se a uma cena única, fácil de ser condensada. A meio da manhã de um dia vulgar, Patilhas aparece inesperadamente na rua da Paróquia, em cumprimento da missão que lhe fora atribuída. Aí depara com uma fila de carroças, à espera que Dona Magnificência se digne sair do Milenas e tire o carriole do meio da rua. O que não será fácil, já que a dama fala pelos cotovelos. Toca então a corneta repetidamente e a dama lá aparece, quando o castigo já está aplicado. Dona Magnificência ainda empina os peitos, mas Patilhas com a cara de pau que lhe é habitual, não se deixa intimidar, proclamando:
- A Senhora está coimada, por violação flagrante da lei e desrespeito pelas regras de convivência social. E faz favor de tirar o carriole donde está, senão ainda agrava a pena.
Contrafeita, a bufar e sempre com os peitos empinados, Dona Magnificência sobe para o carriole, falando para o cavalo:
- Vamos embora Barão, que isto não é rua que se recomende!
Com todo este reboliço, Chico Pinguinhas, que tinha a charrete em cima do passeio, aparece à porta da Tapanisca, já com o chapéu às 3 pancadas e com um pastel de bacalhau numa das mãos. A língua solta-se-lhe, quando pergunta a Patilhas:
- Então há azar, senhor meirinho?
Ouve então uma resposta pronta:
- Há azar e não é meu. Acaba de ser coimado. Isto hoje vai tudo a eito. Faz favor de tirar a charrete donde está.
Chico Pinguinhas começa por ficar embatucado, mas acaba por desabafar:
- Não há direito. Já nem um homem pode beber um copo descansado.
Patilhas afirma então:
- Pode. Só tem é que deixar a charrete no Rossio Rustiquês Tribal, que é o maior Rossio do País.
Nisto, surge o Homem Comum, que concorda:
- É assim mesmo, senhor meirinho. O que é pena, é o senhor ir-se embora e daqui a bocado voltar tudo ao mesmo.
Surge então Vascão, que cumprimenta Patilhas, a quem observa:
- Sabes uma coisa? Ainda hão de dizer: VOLTA SANDE-AO-CÃO QUE ESTÁS PERDOADO!
EPÍLOGO
Qualquer semelhança com a realidade local é mera coincidência, visto que o auto reflecte uma realidade de há duzentos anos atrás.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

ESTREMOZ / Casa do Alcaide-Mor


Fachada da Casa do Alcaide-Mor na actualidade
Fotografia de Pedro Soeiro

De bordel a Hotel de Charme

A Câmara Municipal de Estremoz vai vender em hasta pública a Antiga Casa da Câmara / Casa do Alcaide-Mor, situada na Rua do Arco de Santarém, nºs 13 e 15, junto da porta medieval denominada Arco ou Porta de Santarém. A decisão foi tomada em reunião camarária realizada no passado dia 23 de Março, tendo a proposta nesse sentido, sido aprovada por maioria, com 3 votos a favor do Presidente da Câmara e dos Vereadores Francisco Ramos e José Trindade e com 2 votos contra dos Vereadores José Fateixa e José Sadio.
Trata-se de um prédio urbano composto por rés-do-chão, 1.º e 2.º andares, afecto a habitação, com 423 m2 de superfície coberta e logradouro com a área de 556 m2, situado em pleno centro histórico quatrocentista. Edifício modesto, valorizado pela composição da frontaria, nomeadamente as janelas manuelino - mudéjares e elementos setecentistas como a janela ao lado do pórtico e a varanda com balaustrada joanina. O interior da casa encontra-se em ruínas, não restando qualquer cobertura ou estrutura e há muito que a fachada ameaça abater.
O edifício foi classificado como Monumento Nacional pelo Decreto n.º 9.842, DG, 1.ª série, n.º 137 de 20 de Junho de 1924. A classificação foi fruto de um equívoco resultante da suposição de ali ter sido a primitiva Casa da Câmara de Estremoz, tese que carece de provas que a sustentem. A Zona Especial de Protecção do edifício foi definida pela Portaria, DG, 2.ª série, n.º 52, de 2 de Março de 1972.  A casa, ao que tudo indica, residência particular do Alcaide-Mor, terá pertencido em finais do século XVI, a uma filha de Febo Moniz, fidalgo da corte de D. Sebastião.
A primitiva Casa da Câmara terá funcionado no edifício que é conhecido por Sala de Audiências de D. Diniz e que segundo Túlio Espanca, tem uma antiguidade que remonta ao 1º terço do séc. XIV. Nunca foi objecto de classificação e ali funciona a Galeria Municipal D. Diniz.
A hasta pública terá lugar no Salão Nobre dos Paços do Concelho, no próximo dia 14 de Abril, com início previsto para as 10 horas e 30 minutos. O valor base de licitação do imóvel é de 50.000 euros e apenas será permitida a sua utilização para fins turísticos. Tudo indica que o edifício, que no século passado albergou um bordel, se venha a transformar num Hotel de Charme.