quarta-feira, 30 de março de 2016

Os patos


Aves diversas. Adriaen Van Utrecht (1599-1652). Óleo sobre tela (117 x 166 cm).
Colecção particular.
À Catarina, minha filha.

Quando a minha filha era criança, criei o hábito de brincar com ela, fazendo-lhe perguntas, visando desenvolver a imaginação, a argúcia e o cálculo mental.
A brincadeira desenvolvia-se sob a forma de diálogo entre nós dois, o qual era interrompido sempre que ela se atrapalhava com a resposta, o que me levava a repetir novamente a pergunta. Ela ficava exasperada e se porventura não acertava na resposta, o que era raro, eu dava-lhe uma dica e voltávamos ao princípio, repetindo a brincadeira. Ela conseguia já atingir o patamar seguinte e lá prosseguíamos até nos fartarmos da brincadeira ou serem horas de ir lanchar.
De início, eu começava por perguntar:
- Quantas patas tem o pato?
Ela perguntava então:
- Qual pato?
E eu respondia:
- O pato solteiro.
A resposta era:
- Duas patas.
Eu continuava:
- E se for casado?
A resposta era:
- Cinco patas.
Eu prosseguia:
- E se for viúvo?
Ela respondia:
- Duas patas.
E eu insistia:
- E se for uma pata solteira?
Ela lá respondia:
- Três patas.
Eu seguia perguntando:
- E se for uma pata casada?
A resposta era quase imediata:
- Cinco patas.
Eu insistia:
- E se for uma pata viúva?
Recebia então a resposta:
- Três patas.
Perguntava logo:
- E se for um patinho.
A resposta justificada era:
- Duas como o pato solteiro, porque não há patinhos casados nem viúvos.
Eu perseverava:
- E se for uma patinha?
E lá vinha a resposta também fundamentada:
- Três como a pata solteira, porque não há patinhas casadas nem viúvas.
Eu não desarmava:
- E se for um patudo?
Ela aguentava:
- É como o pato. Duas se for solteiro, cinco se for casado e duas se for viúvo.
Mas eu não desengatilhava:
- E se for uma patuda?
Ela resistia:
- É como a pata. Três se for solteira, cinco se for casada e três se for viúva.
Chegados aqui a brincadeira terminava, para dar origem a outra.
Hoje volvidos mais de vinte anos sobre tais brincadeiras e porventura com saudades desse tempo ou da minha própria infância, tornei-me um apaixonado pela oralidade da língua portuguesa. Daí que tenha criado uma lengalenga que dedico gostosamente a todas as crianças portuguesas e aos pais e aos educadores de infância que os despertam para a vida. Como não podia deixar de ser, é uma lengalenga sobre patos:
  
Pé de pato

De pé, pato!
De pé, pato Pépé!
Pato de pé de pato,
de pato pé.
Pato de pé,
de pé de pato.
Pé de pato
de pato Pépé.

Por hoje, chega de patos!
PIM! A estória chegou ao fim.
Hernâni Matos
Publicado inicialmente a 30 de Março de 2016

quinta-feira, 24 de março de 2016

Candidatura da "Produção de figurado em barro de Estremoz" a Património Cultural Imaterial da Humanidade foi entregue na Comissão Nacional da UNESCO


Transcrevo com regozijo e com a devida vénia, 
a Notícia do Município de Estremoz, nº 2528,
de 23 de Março de 2016.

O Município de Estremoz entregou ontem, dia 22 de março, à Comissão Nacional da UNESCO (CNU), o dossier de candidatura à inscrição da Produção de Figurado em Barro de Estremoz na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade.
A Câmara Municipal de Estremoz iniciou em outubro de 2012 um processo de promoção, investigação e produção de conhecimento, que teve por objetivo a inscrição dos vulgarmente chamados "Bonecos de Estremoz", arte emblemática desta cidade alentejana, na Lista Representativa de Património Cultural Imaterial da Humanidade.
Como primeiro passo para a conclusão deste objetivo, a 26 de março de 2014, a Assembleia Municipal de Estremoz declarou a Produção de Figurado em Barro de Estremoz, como Património de Interesse Municipal.
Os estudos continuaram e o Plano de Valorização e Salvaguarda do Boneco de Estremoz começa a ser colocado em prática, nomeadamente no âmbito da investigação da produção bonequeira atual e das matérias-primas dos séculos XVIII e XIX da coleção Reis Pereira, realização de conferências, renovação da exposição permanente do Museu Municipal, exposições temporárias, atividades educativas, entre outras.
Já em 20 de abril de 2015, com a publicação do Anúncio n.º 83/2015 da Direção-Geral do Património Cultural, concretizou-se a inscrição da Produção no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, estando todo o processo disponível na página Internet daquele Inventário, em www.matrizpci.dgpc.pt.
A 26 de junho desse mesmo ano, fundou-se no Museu Municipal o Centro UNESCO para a Valorização e Salvaguarda do Boneco de Estremoz.
Faltava então o passo final, depois de todo um trabalho de estudo, promoção e criação dos meios necessários para bom acolhimento da candidatura final. Após conclusão da componente burocrática e na apresentação de estudos, na qual o Municipio de Estremoz teve como parceiros a Direção Regional da Cultura do Alentejo e o Centro UNESCO para a Valorização e Salvaguarda do Boneco de Estremoz, o processo de candidatura foi entregue ontem, dia 22 de março, ao Embaixador da Comissão Nacional da UNESCO, Ministro Plenipotenciário Jorge Lobo de Mesquita.
De salientar que todo este processo de candidatura foi desenvolvido recorrendo apenas a recursos técnicos e humanos do Município de Estremoz, em estreita colaboração com o Grupo de Trabalho da Comissão Nacional da UNESCO, através do seu Comité para o Património Cultural Imaterial, colaboração que o Município de Estremoz reconhece e agradece, pelas mais valias que acrescentou à candidatura.
O Boneco modelado ao modo de Estremoz é uma produção artística de carácter popular, com mais de 300 anos de história, a qual era maioritariamente executada por mulheres nos primeiros séculos de existência da arte (daí não ser considerado um Ofício, mas uma simples curiosidade), que consiste na modelação de uma figura em barro cozido, policromado e realizado manualmente, segundo uma técnica com origem pelo menos no século XVII, assente na montagem dos elementos bola, placa e rolo. Depois de efetuado o corpo da peça (cabeça, tronco e membros), e a cabeça colocada em molde para moldar a face, o boneco é vestido por intermédio de placas recortadas na forma de roupas. Seca e vai a cozer. É pintado, envernizado e novamente deixado a secar. Como acontece desde as suas origens, o seu destino é comercial. Funcionalmente, nos primórdios, o destino era religioso (imaginária). Hoje assume características decorativas e simbólicas.
Atualmente trabalham na arte Afonso Ginja, Célia Freitas, Duarte Catela, Fátima Estróia, Irmãs Flores, Isabel Pires, Jorge da Conceição, Miguel Gomes e Ricardo Fonseca.

Auto da calçada reposta


Place d'Anvers, Paris (1880).
Federico Zandomeneghi (1841-1917).
Óleo sobre tela (100 x 135 cm).
Galleria d'Arte Moderna Ricci Oddi, Piacenza.

Na nossa urbe transtagana, a rua da Paróquia continua a dar que falar. Desta feita, pelos melhores motivos, já que por ali apareceram os calceteiros da Regedoria, acompanhados do seu ferramental, bem como de uma carrada de pedra e outra de areão. Apareceram logo de manhã e a notícia espalhou-se como um rastilho. Disso se encarregou Mofina, que não escondendo a sua satisfação, sempre aproveitou para mais um remoque ao Regedor:
- Já não era sem tempo. Há mais de um ano que a calçada estava despedrada e com covas de meter respeito. Eu que o diga.
 Ao fim de algum tempo, formou-se uma pequena multidão a ver trabalhar os calceteiros, que sentindo-se protagonistas daquele momento, desancavam a pedra com redobrado ímpeto.
Fernão aproveita a ocasião para dizer:
- Tudo leva a crer que se não fosse a petição entregue ao Regedor e que todos nós assinámos, ainda não era desta.
E acrescenta:
- A resolução do problema que nos atormentava, deve-se muito ao vizinho Vasco, que foi quem teve a ideia da petição e tratou de recolher as assinaturas.
É a altura de Mofina intervir, bradando:
- Viva o vizinho Vasco. Viva!
Pilérias acha que é uma boa altura para colher louros para o regedor, pelo que sem ter seguidores, clama:
- Regedor amigo, a gente está contigo!
Mofina dá-lhe então um safanão e diz-lhe que lhe prega um tabefe, se ele não se calar. Depois e com o apoio geral, grita:
- A arraia unida, jamais será vencida!
À excepção de Pilérias, todos aplaudem e bramam:
- Vasco! Vasco! Vasco!
Este é levantado em ombros e por proposta do Sargento Patacão, que mereceu a aprovação geral, como era hora de molhar o bico, foram todos comemorar à do Jorge Estalajadeiro. Para tal, o Tiras carniceiro teve que fechar o talho e os do Milenas foram à vez. Quando lá chegaram já tinham à espera o Zé Tretas e o marido da Júlia florista, os quais andam sempre por ali. Os calceteiros, coitados, é que ficaram a seco, para não serem apanhados pelos olhos e ouvidos do Regedor. Vale mais prevenir que remediar.
EPÍLOGO
Qualquer semelhança com a realidade local é mera coincidência, visto que o auto reflecte uma realidade de há duzentos anos atrás.


quinta-feira, 17 de março de 2016

45 - Mulher a passar a ferro - 1

Mulher a passar a ferro (Anos 30 do séc. XX).
Ana das Peles [Ana Rita da Silva (1870-1945)].
Colecção particular.

Uma tarefa doméstica
Fruto da sua utilização ou de lavagem, os tecidos de peças de roupa de vestuário, cama, cozinha, banho ou decoração, ficam enxovalhados e criam rugas, vincos ou pregas, o que é inestético. Daí que haja necessidade de os pôr macios e de os alisar. É a chamada operação de “passar a ferro”, a qual utiliza um utensílio chamado “ferro”, também conhecido por “ferro de passar” ou “ferro de engomar”. Na Europa, é no séc. XIV que surge a passagem a quente com ferros maciços, forjados artesanalmente por ferreiros. No séc. XV popularizam-se os ferros maciços fundidos, que são aquecidos em estufas a carvão ou nas placas de aquecimento de fogões a lenha. No séc. XVIII são correntes os ferros ocos a carvão e os ferros ocos com cunha de aquecimento interno, cujo uso se prolonga até ao séc. XX ou seja até à vulgarização dos chamados “ferros eléctricos”.
A passagem a ferro é feita sobre uma superfície horizontal dura e adequada que pode ser dum suporte não especializado como uma mesa ou uma camilha, ou um suporte especializado como a chamada “tábua de passar a ferro”.
Em meados do séc. XX existia ainda o hábito de determinadas peças de roupa, tais como punhos, colarinhos e peitilhos de camisas, após lavagem serem metidos em água com goma e depois de secarem, serem alisados por passagem a ferro. O termo “engomar” passou então a designar a operação que consistia em meter em goma, peças de roupa, que posteriormente eram alisadas com um ferro quente. A mulher que engomava a roupa era conhecida por “engomadeira” e à acção de engomar chamava-se “engomadura”. Aquilo que se engomava dizia-se “engomado”. Por extensão de linguagem, passou a designar-se por “engomado”, qualquer tecido ou peça de roupa que tenha sido passada a ferro.
Nas casas mais ricas havia uma divisão própria para engomar, a qual era conhecida por “quarto dos engomados”.
Literatura portuguesa
A nível de prosa, a referência literária mais antiga que conheço relativa a “passar a ferro” e termos relacionados, é de 1862 e aparece no romance “Coisas Espantosas”, de Camilo Castelo Branco: - ENGOMMAR: Francico Valdez dirigindo-se ao duque, diz: “Minha filha Mathilde é a providencia da casa. Como foi educada no collegio inglez, aprendeu a cozinhar, e tomou a si o encargo da magra panella; as outras meninas cuidam do mais serviço, que pouco é; umas lavam em alguidares, e outras engommam. Graças ao céo, nenhuma se queixa.”; - ENGOMMADEIRA: No livro, relativamente à personagem Carolina, é referido que: “(…) outras, menos generosas em promettimentos, deram-lhe que fazer trabalhos de costura grossa, e obra de engommadeira. Carolina aprimorou-se n'este trabalho, e conseguiu alcançar fama de excellente engommadeira.”.


quarta-feira, 9 de março de 2016

Auto dos pombos promíscuos


Rapariga com pombos (1728).
Antoine Pesne (1683-1757).
Óleo sobre tela (76 x 61 cm).
Gemäldegalerie, Dresden.

Tudo indica que o teatro de cordel se tenha instalado com armas e bagagens na nossa urbe transtagana. Desta feita, é o “Auto dos pombos promíscuos” que está a constituir um autêntico êxito popular. A acção decorre há dois séculos atrás, na praça defronte à Casa das Leis. Aí se divisam os personagens do auto, em número de quatro e que passamos de imediato a descrever:
- CARIZ: Jurisconsulto local. De porte imponente, bigodudo e sempre impecavelmente vestido. Tem ar solene e desloca-se na rua, em passo cadenciado, como quem vai em procissão. Por motivos de natureza profissional, vê-se obrigado a deslocar entre zonas da malha urbana, massacradas pelos indesejáveis pombos aí aquartelados. Mora junto ao Palácio Rocha, tem escritório junto do Convento dos Desregrados e frequenta a Casa das Leis, contígua à rua da Paróquia.
- MISÉRIAS: Septuagenário reformado, antigo assalariado rural que já foi pau para toda a obra. Joga ao chinquilho com os companheiros no Rossio Rustiquês Tribal. De vez em quando, descansa num banco. Aí recebe a visita dos pombos, que lhe fazem companhia e aos quais distribui miolos de pão.
- LELO: Descansador nato, cansado das maçadas da vida, é frequentador da Casa das Leis, onde tem lugar certo no poial da entrada. Ali passa o tempo, sentado, apanhando banhos de sol e tirando umas fumaças.
- VALENTINA: Mulher robusta, de pelo na venta, habituada a lutar pelos seus direitos e por tudo aquilo em que acredita. Pragueja contra aqueles que considera serem responsáveis pelos problemas que a atormentam.
O auto consta de uma cena única, fácil de ser resumida. Cariz sai do seu escritório e surpreende Misérias a dar de comer aos pombos. Desde logo o adverte de que está a violar a legislação vigente, relativa a animais vadios. Acrescenta ainda que, apesar de o Regedor e os meirinhos fazerem vista grossa da lei, esta é para cumprir, doa a quem doer. Após ter deixado Misérias a sentir-se ainda mais pequenino, despede-se com um proverbial “Fique com Deus”. Dirige-se então para a Casa das Leis. À porta desta, Valentina dialoga com Lelo, o qual mostra um ar bastante aborrecido. Este, após ser questionado pelo causídico, confessa que um pombo daqueles avantajados, lhe acaba de fazer um monumental presente nas costas. Nessa altura, Valentina intervém, dizendo que está solidária com Lelo. Também ela vive com o coração nas mãos, sempre que tem roupa a corar ou a secar. Daí que declare a Cariz, que a sorte dos pombos, é ela não voar, senão já os tinha feito em fanicos. Segundo ela, o Regedor não quer saber. Acha que ele e os pombos se tratam por tu e que são unha com carne. Cariz diz estar solidário com ambos, pois no Verão passado viu um belo casaco de linho de primeira, ser bombardeado pelos malditos columbídeos. Desde então que aquela veste só tem serventia para limpar as botas de caça. Daí que Cariz tenha assumido, desde logo, o compromisso de ir falar com o Regedor, alegando que ele tem de aprender a torcer o bigode. Segundo ele, os pombos vivem à tripa forra, a gozar com as pessoas de bem e isso não pode continuar. Despede-se seguidamente dos seus comparsas de infortúnio, com o habitual “Fiquem com Deus”. Estes respondem em uníssono, com um sentido “Obrigado, Senhor Doutor. Deus lhe pague, que a gente anda em crise”.
EPÍLOGO
Qualquer semelhança com a realidade local é mera coincidência, visto que o auto reflecte uma realidade de há duzentos anos atrás.

quarta-feira, 2 de março de 2016

44 – Fuga para o Egipto - 5


Fuga para o Egipto. Oficinas de Estremoz. Finais do séc. XIX –
- princípios do séc. XX. Museu Municipal de Estremoz.

LER AINDA:

Foi Camões que proclamou: “Todo o mundo é composto de mudança, / Tomando sempre novas qualidades. (…)”. A esta máxima acrescento a firme convicção de que “Nada acaba no fim”, tema que animou a última sessão do “Correntes d'Escritas”, um encontro anual de escritores de expressão ibérica que em Fevereiro passado, decorreu na Póvoa de Varzim, minha cidade adoptiva. Vem isto a propósito de, em crónica antecedente, ter dito não ter conhecimento de nenhum exemplar do figurado de Estremoz, de produção local, anterior aos começados a executar por Ana das Peles e Mariano da Conceição, nos anos 30 do séc. XX, na Escola Industrial António Augusto Gonçalves, sob a orientação do Director, o escultor José Maria de Sá Lemos. Acontece que não é assim, já que o Museu Municipal de Estremoz tem no seu acervo e presentemente em exposição, um exemplar cuja presença ali, revoga aquilo que disse então. Trata-se de uma peça das oficinas de Estremoz dos finais do séc. XIX – princípios do séc. XX, a qual reúne, montadas numa única base, as figuras do episódio bíblico de que venho falando. Para além do que já foi dito em crónica precedente, a propósito da interpretação de Mariano da Conceição e pondo de parte, pormenores de decoração, há que referir certas particularidades. A base, sensivelmente rectangular e com os vértices adoçados, não ostenta qualquer marca de autor. São José enverga um manto que lhe protege também a cabeça, à maneira de capuz. A mutilação do braço direito não deixa antever se originariamente empunharia ou não, um bordão encimado por um lírio branco, um dos atributos de São José. Quanto a Nossa Senhora, monta uma burrinha que marcha para o lado esquerdo do observador, à semelhança do que viria a fazer Mariano da Conceição e ao contrário do que faria Ana das Peles e mais tarde, o seu discípulo José Moreira.
A imagem de que venho falando, foi doada ao Museu Municipal de Estremoz em 2002, por Isabel Maria Osório de Sande Taborda Nunes de Oliveira, ex-Vereadora do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Estremoz. Pertencia à Casa da Horta Primeira, onde vivia sua tia, Maria Palmira Osório de Castro Sande Meneses e Vasconcellos Alcaide (1910-1992), grande poetisa estremocense, conhecida por Maria de Santa Isabel, casada com Roberto Augusto Carmelo Alcaide (1903-1979), comerciante, dramaturgo e caricaturista, irmão de Tomaz de Aquino Carmelo Alcaide (1901-1967), tenor lírico de projecção internacional.
A imagem era utilizada por Maria Palmira na montagem do Presépio, através do qual, ciclicamente era evocado naquela Casa, o nascimento de Jesus. A Poetisa sentia na alma a magia irradiada pelos bonecos de Estremoz e deles fala no seu livro “Flor de Esteva” (1948), no poema “Bonecos de Estremoz”: “Bonequinhos de barro de Estremoz! / Floridas cantarinhas! Primaveras! / Figuras dum presépio de quimeras! / Quem foi que lhes deu vida no meu sonho? / Eterna fantasia cor de luz, / Milagre suavíssimo, risonho, / Do Menino Jesus…/(…)”
A nível local, existem também representações eruditas da “Fuga para o Egipto”, que não podem deixar de ser aqui referidas. Uma delas está pintada na porta direita da maquineta do Presépio da Misericórdia de Estremoz. A maquineta, de pau-santo, acomoda um presépio em barro policromado, atribuído às oficinas de Machado de Castro e de António Ferreira. A outra, figura num painel de azulejos, fabrico de Lisboa, do segundo terço do século XVIII, que se encontra na parede da Igreja dos Mártires, do lado da epístola.

Hernâni Matos
Publicado inicialmente em 2 de Março de 2016 
 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Auto da Calçada Proscrita


Estremoz (1928).
Paulino Montês (1897-1988).
Pintura a pastel sobre papel (32,2 x 24,8 cm).
Museu de José Malhoa, Caldas da Rainha.


Este é o título de uma peça de teatro de cordel que está a constituir um autêntico êxito popular na nossa urbe transtagana. O enredo desenrola-se há dois séculos atrás, no largo fronteiro à Casa das Leis. Aí se encontram os 4 personagens do auto, assim caracterizados:
- Vasco: Seco de carnes, enérgico, voluntarioso, permanentemente mobilizado para a intervenção cívica. Ávido de justiça social, procura despertar consciências. É o arauto dos novos tempos.
- lérias: Balofo, avesso à mudança, senhor das suas conveniências, procura não levantar cabelo, para levar a água ao seu moinho e poder chegar a brasa à sua sardinha.
- Mofina: Avantajada, sem papas na língua. Quando fala até a terra treme. Predisposta a praguejar contra a injustiça social. É aquilo a que se chama uma mulher de armas.
- FERNÃo: Não pára em ramo verde e está quase sempre em movimento de um lado para o outro. Gosta de ouvir o povo, que vê nele o mensageiro da comunidade e o cronista de serviço.
Vejamos um resumo da cena única do auto. Fernão junta-se a Vasco, Lérias e Mofina, que se encontram em animada conversa, frente à Casa das Leis. Ao chegar, toma conhecimento que Vasco organizou uma Petição a entregar ao Regedor, visando a regularização da calçada da Rua da Paróquia, que apresenta covas acentuadas e se encontra parcialmente descalcetada há mais de um ano. A Petição tem o assentimento de Mofina e o desacordo de Lérias, que não ligam tal como o azeite com o vinagre.
Graças ao esforço de Vasco, a Petição já foi subscrita por muitos moradores e frequentadores da Rua da Paróquia. Deles destacamos: Júlia florista, Jorge estalajadeiro, Milenas que empresta dinheiro a juros, Tiras carniceiro, Faladeira das roupas, todo o pessoal da Tapanisca, Baltazar do Crédito Agrário, Pipeta boticário e Tagarela Ourives, bem como pelo Zé Tretas e pelo sargento Patacão e ainda, reparem bem, pelo cónego Ribeiro.
Entusiasmado pela defesa da causa nobre em que se empenhou, Vasco proclama:
- A luta continua, até o Regedor arranjar a rua!
 Mofina, fora de si, porque já torceu o pé numa cova paroquial, grita amotinada:
- O Regedor não pode continuar a fazer ouvidos de mercador! Basta! Basta! Pim!
Fernão, consciente dos seus deveres como cronista independente, promete dar eco daqueles brados, no jornal onde cronista é.
O auto termina sem se antever o desfecho do enredo.
EPÍLOGO
Qualquer semelhança com a realidade local é mera coincidência, visto que o auto reflecte uma realidade de há duzentos anos atrás.