quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

40 – Fuga para o Egipto – 1

Fuga para o Egipto (1948).
Mariano da Conceição (1903-1959).
Museu Rural de Estremoz.

A “Fuga para o Egipto” é um evento relatado no Evangelho de São Mateus (Mateus 2:13-25), no qual após a Adoração dos Magos, José foge para o Egipto com Maria sua esposa e seu filho recém-nascido Jesus, após ter sido avisado por um Anjo do Senhor, do massacre de crianças com menos de dois anos, que ia ser perpetrado por ordem de Herodes I, o Grande, receoso que a criança que os Magos proclamavam como novo rei, lhe tomasse o trono e o poder.
Tradição católica
A intensa devoção dos católicos por Maria, levou-os a atribuir-lhe inúmeros títulos, entre os quais Nossa Senhora do Desterro, visto que após a fuga para o Egipto, aí permaneceu desterrada durante 4 anos.
Nossa Senhora do Desterro é Padroeira dos refugiados e dos emigrantes e é venerada na Igreja do mesmo nome, na Póvoa de Varzim, onde no 1º domingo de Junho se celebra a sua festa litúrgica. Nela sobressaem os tapetes de flores que ornamentam as ruas envolventes à Igreja, assim como uma grandiosa procissão bastante participada pela comunidade piscatória, muito devota da Santa. Na procissão figura uma alegoria à “Fuga para o Egipto”, na qual uma figurante trajando à época e com uma criança ao colo, monta uma burrinha que é conduzida por outro figurante, desempenhando o papel de São José.  
Também em Lamego na Igreja de Nossa Senhora do Desterro, existe igual veneração. Dela nos fala o cancioneiro popular da Beira Alta: “Dizeis que não tenho mãe, / Eu tenho-a em Lamego; / Dizei-me quem ella é? / A Senhora do Desterro.”
Em Braga, na Quarta-Feira Santa tem lugar o tradicional cortejo bíblico “Vós sereis o meu povo”, popularmente conhecido como “Procissão da Burrinha”. Trata-se de uma procissão nocturna que apresenta a pré-história do Mistério Pascal de Jesus, que a Igreja celebra nos dias seguintes. No decurso dela são apresentados em sucessão cronológica e em verdadeira catequese, 22 quadros da vida de Jesus. Num deles é recriada a fuga para o Egipto de São José e Nossa Senhora, com a imagem da Virgem com o Menino Jesus ao colo, transportada numa burrinha e conduzida por um figurante, fazendo de São José. A procissão, organizada desde 1998 pela Paróquia e pela Junta de Freguesia de São Victor, integra mais de 1000 figurantes com trajes bíblicos, assim como bandas filarmónicas e grupos corais. É uma referência incontornável da Semana Santa de Braga e a ela assistem vulgarmente mais de 60 mil pessoas, ao longo dos 3 km de percurso.
Arte cristã
Desde a Idade Média que a “Fuga para o Egipto” constitui um tema recorrente na arte cristã, frequentemente explorado pelos artistas plásticos, que representam Nossa Senhora com o Menino Jesus ao colo, montada numa burrinha e acompanhada por São José, que segue a pé.
A nível da pintura há inúmeras iluminuras dos códices de pergaminho medievais, bem como pinturas sobre os suportes mais diversos (tela, madeira, mármore, vidro, cobre, prata, fresco, etc.). No âmbito da escultura em pedra, a evocação bíblica figura em pias baptismais, túmulos, fachadas, capiteis, edículas, frisos de arquitraves, etc. A ela há a acrescentar ainda a escultura em madeira e barro policromados, bem como painéis de azulejos, vitrais, desenhos e gravuras (em madeira ou a água-forte).