quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Auto da Calçada Proscrita


Estremoz (1928).
Paulino Montês (1897-1988).
Pintura a pastel sobre papel (32,2 x 24,8 cm).
Museu de José Malhoa, Caldas da Rainha.


Este é o título de uma peça de teatro de cordel que está a constituir um autêntico êxito popular na nossa urbe transtagana. O enredo desenrola-se há dois séculos atrás, no largo fronteiro à Casa das Leis. Aí se encontram os 4 personagens do auto, assim caracterizados:
- Vasco: Seco de carnes, enérgico, voluntarioso, permanentemente mobilizado para a intervenção cívica. Ávido de justiça social, procura despertar consciências. É o arauto dos novos tempos.
- lérias: Balofo, avesso à mudança, senhor das suas conveniências, procura não levantar cabelo, para levar a água ao seu moinho e poder chegar a brasa à sua sardinha.
- Mofina: Avantajada, sem papas na língua. Quando fala até a terra treme. Predisposta a praguejar contra a injustiça social. É aquilo a que se chama uma mulher de armas.
- FERNÃo: Não pára em ramo verde e está quase sempre em movimento de um lado para o outro. Gosta de ouvir o povo, que vê nele o mensageiro da comunidade e o cronista de serviço.
Vejamos um resumo da cena única do auto. Fernão junta-se a Vasco, Lérias e Mofina, que se encontram em animada conversa, frente à Casa das Leis. Ao chegar, toma conhecimento que Vasco organizou uma Petição a entregar ao Regedor, visando a regularização da calçada da Rua da Paróquia, que apresenta covas acentuadas e se encontra parcialmente descalcetada há mais de um ano. A Petição tem o assentimento de Mofina e o desacordo de Lérias, que não ligam tal como o azeite com o vinagre.
Graças ao esforço de Vasco, a Petição já foi subscrita por muitos moradores e frequentadores da Rua da Paróquia. Deles destacamos: Júlia florista, Jorge estalajadeiro, Milenas que empresta dinheiro a juros, Tiras carniceiro, Faladeira das roupas, todo o pessoal da Tapanisca, Baltazar do Crédito Agrário, Pipeta boticário e Tagarela Ourives, bem como pelo Zé Tretas e pelo sargento Patacão e ainda, reparem bem, pelo cónego Ribeiro.
Entusiasmado pela defesa da causa nobre em que se empenhou, Vasco proclama:
- A luta continua, até o Regedor arranjar a rua!
 Mofina, fora de si, porque já torceu o pé numa cova paroquial, grita amotinada:
- O Regedor não pode continuar a fazer ouvidos de mercador! Basta! Basta! Pim!
Fernão, consciente dos seus deveres como cronista independente, promete dar eco daqueles brados, no jornal onde cronista é.
O auto termina sem se antever o desfecho do enredo.
EPÍLOGO
Qualquer semelhança com a realidade local é mera coincidência, visto que o auto reflecte uma realidade de há duzentos anos atrás.