quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Sinos: Velhos Tempos e Tempo Novo


Igreja de Santo André com as suas duas torres sineiras (Foto de C. J. Walowski - 1891).
Situada na Rua 5 de Outubro, em Estremoz, no local onde hoje está o Palácio da Justiça.
Muito rica e imponente no seu estilo barroco, foi sede de Paróquia. A sua construção
iniciada em 1705, levou 20 anos, tendo sido inaugurada em 26 de Novembro de 1725.
Foi demolida em 1960, por ordem do regime de Salazar, o que foi sem sombra de dúvida,
o maior crime alguma vez perpetrado contra o património construído em Estremoz. 

Velhos Tempos
O som dos sinos é um dos sons mais antigos que povoam as memórias da minha infância. Quando frequentava a Escola Primária, tanto o início das aulas como da missa dominical eram anunciadas por toques de sinos.
Ao longo dos séculos os sinos têm sido utilizados como alfaias religiosas que assinalam os actos litúrgicos, dão as horas e funcionam como meio de comunicação, tocando a rebate a fogo e anunciando desastres como naufrágios, bem como reuniões de conselhos de anciãos ou de câmaras, assim como reunindo o povo para trabalhos agrícolas ou batidas a lobos.
Os sinos distinguem-se uns dos outros pelo modo como se exprimem: variando a altura, a intensidade e o timbre, assim como a duração, o ritmo e o compasso do som.
As técnicas de percussão sineira incluem: picar, repicar, badalar, bater, rebater, tanger, destanger, bambolear, bandear e dobrar. Através delas podem ser gerados códigos acústicos entendíveis pela comunidade: canto em ocasiões de festa e choro em momentos de dor.

Literatura Oral
O sino encontra-se abundantemente registado na nossa literatura de tradição oral. Assim, a nível de ADAGIÁRIO, diz-se: “Menino e sino só com pancada”, “O sino chama para a missa mas não vai a ela”, “Os sinos tangem-se pelos mortos e não pelos vivos”, “Quem toca o sino não acompanha a procissão”, “Sino forte, vento húmido”, “Sino pequeno berra muito”. No campo da GÍRIA POPULAR são conhecidas expressões como: Andar num sino (Andar contente), Sino (Copo de vinho), Sino da Sé (Copo de litro para vinho, usado nas tabernas do Porto), Sino de correr (Toque que marcava a hora de fechar as tabernas e recolherem a casa, judeus e mouros), Sino grande (Pena máxima aplicada ao réu). No âmbito das LENGALENGAS são conhecidas diversas, entre as quais esta: “Amanhã é Domingo / Toca o sino / O sino é de ouro / Mata-se o touro / O touro é bravo / Ataca o fidalgo / O fidalgo é valente / Defende a gente / A gente é fraquinha / Mata a galinha / Para a nossa barriguinha”. Quanto a ADIVINHAS, existem várias cuja solução óbvia é o sino. Eis uma: "Alto está, / alto mora, / todos o veem, / ninguém o adora./ O que é? ".

Literatura Portuguesa
Em prosa, a referência literária mais antiga relativa a sinos remonta a Portugaliae Monumenta Historica (870). Posteriormente surge em António Tenreiro – Itinerário (1560), Frei Pantaleão de Aveiro – Itinerário da Terra Santa (1593), Frei Gaspar de São Bernardino – Itinerário da Índia por Terra (1611), Fernão Mendes Pinto – Peregrinação (1614) e mais tarde ainda em Eça de Queirós - O Primo Basílio (1878), Camilo Castelo Branco - A Maria da Fonte (1885) e Ramalho Ortigão – As Farpas – I (1887). Na poesia, entre os inúmeros poetas que falam de sinos, destacamos: Luís de Camões - Os Lusíadas (1572), António Nobre – Os sinos (1892), António Correia de Oliveira – O sino (1899), Fernando Pessoa - Ó sino da minha aldeia (1913), Florbela Espanca - Noite trágica (1923) e António Lopes Ribeiro – Procissão (1956).

Tempo Novo
A Constituição da República Portuguesa consigna como direitos fundamentais, o direito à diferença e a igualdade de género. Daí que sob o ponto de vista social, não faça qualquer sentido existirem dois toques distintos, conforme o finado é homem ou mulher. Trata-se de uma questão que a Igreja deve rever, já que ela própria nos leva a crer que aos olhos de Deus todos são iguais. Quanto ao comum dos mortais não interessa saber se morreu homem ou mulher, mas apenas quem foi que partiu e isso os sinos não dizem. 

Publicado inicialmente em 27 de Janeiro de 2016

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

41 - Fuga para o Egipto - 2


Fuga para o Egipto (1983-1985).
Liberdade da Conceição (1913-1990).
Colecção particular.

Arte portuguesa
Em Portugal há um certo número de obras de arte incluídas na temática da “Fuga para o Egipto” que sobressaem e merecem especial destaque. Passo de seguida a enumerá-las. ESCULTURA EM PEDRA: - Um dos seis quadros de um dos frontais do túmulo de D. Inês de Castro, escultura gótica em pedra, de autor desconhecido (1358-1367); - Mosteiro de Alcobaça: Painel dum tríptico de dois andares, em médio e baixo-relevo, em pedra de João de Ruão (1577). Museu Machado de Castro, Coimbra.
ESCULTURA EM MADEIRA POLICROMADA: - Ambrósio Coelho e Manuel Gomes de Andrade (1ª metade do séc. XVIII). Museu de Alberto Sampaio, Guimarães. ESCULTURA EM BARRO POLICROMADO: - António e Dionísio Ferreira (1700-1730). Presépio da Igreja da Madre de Deus, Lisboa; - Joaquim Machado de Castro (1766). Presépio da Sé de Lisboa; - Autor anónimo (séc. XVIII). Presépio do Palácio das Necessidades. Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa; - Autor anónimo (séc. XVIII-XIX). Museu dos Biscainhos, Braga. PINTURA: - Francisco Henriques e Grão Vasco (1501-1506). Um de catorze quadros do retábulo da Capela-mor da Sé de Viseu; - Gregório Lopes (c. 1527). Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa; - Discípulo de Grão Vasco (1520-1535). Um de dezasseis quadros de retábulo quinhentista.  Igreja de São Miguel, Freixo de Espada à Cinta; - Círculo de Gerard David (1495-1510). Museu de Évora. PAINÉIS DE AZULEJOS: - Gabriel del Barco (1695-1700). Capela de Nossa Senhora do Rosário, Sé Catedral de Faro; - Gabriel del Barco (1698). Capela de Nossa Senhora dos Prazeres, Beja; - Gabriel del Barco (c. 1700). Igreja do Convento de Nossa Senhora do Espinheiro, Évora; - Policarpo de Oliveira Bernardes (1730). Museu Nacional do Azulejo, Lisboa; - Autor desconhecido (1750 - 1760). Museu Nacional do Azulejo, Lisboa; VITRAIS: - Autor desconhecido (séc. XVII). Palácio da Pena, Sintra.
Publicado inicialmente a 20 de Janeiro de 2016

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Janeiro e o Tempo Novo

Os primeiros passos (c. 1880).
Egisto Sarri (1837-1901).
Óleo sobre tela (55 x 66 cm).
Colecção privada.

Janeiro é o primeiro mês do ano no actual calendário, dito gregoriano. O nome provém do latim “Ianuarius”, décimo-primeiro mês do calendário de Numa Pompilius (753 a.C. - 673 a.C.), dedicado a Janus, deus romano das mudanças e transições, associado a entrada e saída de portas, cuja face dupla também simboliza o passado e o futuro. Janus é assim o deus dos inícios, das decisões e escolhas.
Efemérides de Janeiro
As efemérides de Janeiro incluem acontecimentos que foram marcos importantes na luta do povo português contra a opressão salazarista e na defesa das liberdades, os quais aqui salientamos.
A 3 DE JANEIRO DE 1960 teve lugar a célebre fuga do Forte de Peniche, protagonizada por Álvaro Cunhal, Carlos Costa, Francisco Martins Rodrigues, Francisco Miguel, Guilherme Carvalho, Jaime Serra, Joaquim Gomes, José Carlos, Pedro Soares e Rogério de Carvalho, heróicos resistentes que se recusaram a responder quando torturados pela PIDE. Como diz Manuel Alegre, na “Trova do Vento que passa”: “Mesmo na noite mais triste / em tempo de servidão / há sempre alguém que resiste / há sempre alguém que diz não.”.
A 17 DE JANEIRO DE 1937 ocorreu em Sacavém, a famosa “greve dos rapazes”, em que os aprendizes da Fábrica de Loiça acabaram por ser detidos pela G. N. R., seguindo-se uma vigília das suas mães e esposas, bem como uma feroz repressão por parte da PIDE.
A 18 DE JANEIRO DE 1934 eclodiu uma insurreição armada na Marinha Grande, suscitada pelo proletariado vidreiro. Tratou-se de uma jornada de luta contra a fascização dos sindicatos, pela defesa da livre organização dos trabalhadores, contra a ofensiva patronal e do Estado salazarista contra os salários, o horário de trabalho de 8 horas, contra a repressão e em defesa das liberdades cívicas e políticas, contra a privação de todas as liberdades, perseguições, prisões, torturas, assassinatos, intensificação da exploração, desemprego e miséria. Durante algumas horas, a vila esteve ocupada pelos revolucionários, até que foi cercada por forças militares e, na madrugada de 19, as posições ocupadas pelos trabalhadores foram tomadas e a rebelião derrotada. Seguiram-se prisões em massa, interrogatórios acompanhados de tortura, arremedos de julgamentos, deportações para as colónias. O campo de concentração do Tarrafal foi criado para acolher presos do 18 de Janeiro. Na primeira leva de 152 presos que o foram inaugurar, 37 tinham participado no 18 de Janeiro.
As eleições primárias das esquerdas
Com as eleições legislativas de 4 de Outubro de 2015, ocorreu em Portugal uma mudança de paradigma, que consistiu no entendimento político entre as esquerdas. Em cumprimento dos preceitos constitucionais, o Presidente da República indigitou António Costa como Primeiro-Ministro do XXI Governo Constitucional, o qual tomou posse e viu o seu Programa aprovado no Parlamento. Entrámos assim num novo ciclo e com ele estamos a viver um tempo novo em Portugal, o que exige um Presidente independente e imparcial. As eleições presidenciais do próximo dia 24 de Janeiro vão ser como que eleições primárias das esquerdas, que tudo leva a crer serão favoráveis a Sampaio da Nóvoa. Será então este que na sequência de uma segunda volta, levará o tempo novo para Belém. Aí será a pessoa certa para promover os entendimentos e compromissos que se esperam de um Presidente da República.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

40 – Fuga para o Egipto – 1


Fuga para o Egipto (1948). Mariano da Conceição (1903-1959).
Museu Rural de Estremoz.

A “Fuga para o Egipto” é um evento relatado no Evangelho de São Mateus (Mateus 2:13-25), no qual após a Adoração dos Magos, José foge para o Egipto com Maria sua esposa e seu filho recém-nascido Jesus, após ter sido avisado por um Anjo do Senhor, do massacre de crianças com menos de dois anos, que ia ser perpetrado por ordem de Herodes I, o Grande, receoso que a criança que os Magos proclamavam como novo rei, lhe tomasse o trono e o poder.
Tradição católica
A intensa devoção dos católicos por Maria, levou-os a atribuir-lhe inúmeros títulos, entre os quais Nossa Senhora do Desterro, visto que após a fuga para o Egipto, aí permaneceu desterrada durante 4 anos.
Nossa Senhora do Desterro é Padroeira dos refugiados e dos emigrantes e é venerada na Igreja do mesmo nome, na Póvoa de Varzim, onde no 1º domingo de Junho se celebra a sua festa litúrgica. Nela sobressaem os tapetes de flores que ornamentam as ruas envolventes à Igreja, assim como uma grandiosa procissão bastante participada pela comunidade piscatória, muito devota da Santa. Na procissão figura uma alegoria à “Fuga para o Egipto”, na qual uma figurante trajando à época e com uma criança ao colo, monta uma burrinha que é conduzida por outro figurante, desempenhando o papel de São José.  
Também em Lamego na Igreja de Nossa Senhora do Desterro, existe igual veneração. Dela nos fala o cancioneiro popular da Beira Alta: “Dizeis que não tenho mãe, / Eu tenho-a em Lamego; / Dizei-me quem ella é? / A Senhora do Desterro.”
Em Braga, na Quarta-Feira Santa tem lugar o tradicional cortejo bíblico “Vós sereis o meu povo”, popularmente conhecido como “Procissão da Burrinha”. Trata-se de uma procissão nocturna que apresenta a pré-história do Mistério Pascal de Jesus, que a Igreja celebra nos dias seguintes. No decurso dela são apresentados em sucessão cronológica e em verdadeira catequese, 22 quadros da vida de Jesus. Num deles é recriada a fuga para o Egipto de São José e Nossa Senhora, com a imagem da Virgem com o Menino Jesus ao colo, transportada numa burrinha e conduzida por um figurante, fazendo de São José. A procissão, organizada desde 1998 pela Paróquia e pela Junta de Freguesia de São Victor, integra mais de 1000 figurantes com trajes bíblicos, assim como bandas filarmónicas e grupos corais. É uma referência incontornável da Semana Santa de Braga e a ela assistem vulgarmente mais de 60 mil pessoas, ao longo dos 3 km de percurso.
Arte cristã
Desde a Idade Média que a “Fuga para o Egipto” constitui um tema recorrente na arte cristã, frequentemente explorado pelos artistas plásticos, que representam Nossa Senhora com o Menino Jesus ao colo, montada numa burrinha e acompanhada por São José, que segue a pé.
A nível da pintura há inúmeras iluminuras dos códices de pergaminho medievais, bem como pinturas sobre os suportes mais diversos (tela, madeira, mármore, vidro, cobre, prata, fresco, etc.). No âmbito da escultura em pedra, a evocação bíblica figura em pias baptismais, túmulos, fachadas, capiteis, edículas, frisos de arquitraves, etc. A ela há a acrescentar ainda a escultura em madeira e barro policromados, bem como painéis de azulejos, vitrais, desenhos e gravuras (em madeira ou a água-forte).

Publicado inicialmente em 6 de Janeiro de 2016

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Mensagem de Ano Novo


A 24 de Janeiro têm lugar as eleições para a Presidência da República, que são decisivas para o futuro de Portugal. Todas as candidaturas são legítimas. Todavia há algumas, imbuídas dum certo folclore e que contam à partida com resultados residuais. Essas não são para aqui chamadas. Daí só me referir às apresentadas pelos candidatos com maior peso político. São de diversos tipos: - CANDIDATOS APOIADOS POR COLIGAÇÕES: Marcelo Rebelo de Sousa (PSD-CDS) e Edgar Silva (PCP-PEV); - CANDIDATOS APOIADOS POR PARTIDOS POLÍTICOS: Marisa Matias (BE); - CANDIDATOS APOIADOS POR FACÇÕES PARTIDÁRIAS: Maria de Belém (algum PS); CANDIDATURAS APOIADAS POR CIDADÃOS: Sampaio da Nóvoa.
Marcelo Rebelo de Sousa é o candidato do “Ó tempo volta para trás, dá-me tudo o que eu perdi”, por isso é apoiado pelo PSD e pelo CDS, que recentemente “perderam no campo” e agora “querem ganhar na secretaria”.               
Apesar de no actual contexto, o país votar politicamente à esquerda, não foi possível apresentar às eleições um candidato único das esquerdas. Uns não quiseram e outros acharam conveniente apresentar o seu próprio candidato, visando segurar o respectivo eleitorado, a fim de combater a abstenção. Na sua óptica era a maneira eficaz de assegurar que haveria uma segunda volta das eleições, na qual haveria que apoiar o candidato de esquerda mais votado na primeira volta. O futuro dirá se tiveram ou não razão. A meu ver, trata-se de um risco muito grande, que talvez não tenha sido devidamente avaliado.
Pessoalmente, apoio sem hesitações a candidatura de Sampaio da Nóvoa a Presidente da República Portuguesa, como candidatura independente, livre, nacional, patriótica e de causas sociais. Faço­-o na convicção plena de que as linhas de força da sua Carta de Princípios são consentâneas com o sistema de valores pelo qual me pauto, nomeadamente a defesa do Portugal de Abril, da Constituição da República Portuguesa, da Liberdade, da Democracia, do Estado de Direito, da dignidade da pessoa humana, do pluralismo, da diversidade, da igualdade de género, do Estado Social e da solidariedade nacional e inter-geracional.
Esta a minha Mensagem de Ano Novo.

sábado, 26 de dezembro de 2015

39 – Pastor das migas – 3

Pastor das migas.
Isabel Carona.
Colecção particular.

As migas à alentejana são confeccionadas com toucinho, entrecosto de porco, dentes de alho, sal, massa de pimentão, pão e água. Vejamos como são preparadas: Metem-se tiras finas de toucinho num tacho de barro, que é levado ao lume, até o toucinho derreter. Na gordura resultante frita-se entrecosto previamente temperado com massa de pimentão e alhos pisados em sal. Terminada a fritura do entrecosto, este é retirado do recipiente e aí são alourados alguns dentes de alho esmagados. Seguidamente juntam-se fatias de pão muito finas, que se deixam fritar ligeiramente. Junta-se então água a ferver e sal e esmaga-se o pão com uma colher de pau. Depois deste estar esmigalhado, vai-se mexendo com a colher, para a gordura se incorporar no pão. Com a continuação do aquecimento, o pão começa a secar e quando a consistência é a adequada, estão prontas as migas, que se comem acompanhadas do entrecosto frito.
As migas, tal como as açordas têm origem na “Tharid” ou “Tárida”, étimo proveniente do árabe “Târada”, que significa “migar pão”. A Tharid era e é cozinhada com pão cozido ou sauteado num meio mais ou menos húmido, adicionado de gordura e até de carne. Segundo os antigos, aquela receita era muito apreciada por Maomé (572-630), o Profeta e integrou a gastronomia da Península Ibérica (Al-Andaluz) durante o período da ocupação árabe (711-1492). Esta deixaria marcas muito positivas nos mais diversos domínios, entre eles a gastronomia.
As migas à alentejana são uma das jóias gastronómicas da ancestral cozinha transtagana, criada por mãos sábias a partir dos ingredientes que a terra dá e que alquimicamente são transmutados em odores e sabores por magia de saberes remotos. Daí que as migas, tal como a açorda ou o gaspacho constituam património gastronómico do Alentejo e estejam indissociavelmente ligadas à identidade regional. Na obra “Para uma História da Alimentação no Alentejo", Alfredo Saramago (1997) diz-nos: “O Alentejo não conheceu uma cozinha de rico e uma cozinha de pobre, quer dizer, um conjunto de práticas alimentares seguidas por uma classe e ausente dos hábitos da outra. O que separava as pessoas e as distinguia na alimentação era a quantidade e a frequência. A açorda do rico tinha mais azeite e as migas mais carne. Uns comiam mais chouriço e paio, outros mais toucinho e farinheira. As receitas eram as mesmas.”
Em Lisboa e noutras regiões do país, chamam açorda às migas. Daí que na revista Musical “Palhas e Moinhas”, de João Vasconcelllos e Sá, estreada em Évora em 1936 e que retrata os usos e costumes alentejanos, fosse cantado a certa altura, em referência ao Alentejo: “Terra de grandes barrigas / onde há tanta gente gorda. / Às sopas chamam açorda / e à açorda chamam-lhe migas;”
As migas estão presentes na nossa literatura de tradição oral. A nível de ADAGIÁRIO registo: “As migas como as formigas”, “Não estou para dar migas a um gato”, “Não é por falta de alho que se não fazem as migas”. Na GÍRIA POPULAR é conhecida a expressão: Pote das migas (Barriga). Quanto a ALCUNHAS ALENTEJANAS, assinalo: MIGAS – Alcunha outorgada a indivíduo que gosta muito de comer migas (Aljustrel, Monforte, Portel e Santiago de Cacém); - Epíteto atribuído a sujeito que questionado no trabalho acerca daquilo que levava para o almoço, respondia invariavelmente: umas migas (Évora); - Denominação herdada do pai (Moura). Por sua vez, o CANCIONEIRO POPULAR ALENTEJANO inclui a quadra: “Para lavrar, abegões, / P’ra poupar bois, os boeiros, / P’ra comer migas, ganhões, / P´ra laurear, carreteiros.”.

sábado, 19 de dezembro de 2015

Poesia Portuguesa - 085




Meados de Maio
Irene Lisboa (1892-1958)

Chuvoso maio!

Deste lado oiço gotejar
sobre as pedras.
Som da cidade ...
Do outro via a chuva no ar.
Perpendicular, fina,
Tomava cor,
distinguia-se
contra o fundo das trepadeiras
do jardim.
No chão, quando caía,
abria círculos
nas pocinhas brilhantes,
já formadas?
Há lá coisa mais linda

que este bater de água
na outra água?
Um pingo cai
E forma uma rosa...
um movimento circular,
que se espraia.
Vem outro pingo
E nasce outra rosa...
e sempre assim!

Os nossos olhos desconsolados,
sem alegria nem tristeza,
tranquilamente
vão vendo formar-se as rosas,
brilhar
e mover-se a água...    

Irene Lisboa (1892-1958)