terça-feira, 14 de setembro de 2010

Os bonecos de Estremoz

1. Galeria de bonecos de Estremoz de Mariano Augusto da Conceição (1902-1959), barrista da Olaria Alfacinha. Fotografia de Rogério de Carvalho (1915-1988), obtida cerca de 1930.

Desde os dez anos que transportamos na massa do sangue o espírito de coleccionador. Marca genética ou atávica, não sabemos, mas que veio ao de cima lá por essa idade, veio. E é um facto tão real como o odor da flor de esteva ou o castanho da terra de barro.
Coleccionar é reunir num todo, objectos que têm pelo menos uma característica ou funcionalidade comum. A motivação para o fazer pode ser diversa, como distintas podem ser as consequências de uma colecção. Pode ficar guardada numa caixa ou arrumada numa prateleira de estante ou mesmo numa vitrina, como também pode ser objecto de estudo numa procura de respostas, desde sempre procuradas pela alma humana.
Há objectos que pelos mais diferentes motivos somos levados a coleccionar. E nenhuma colecção é estática, mas antes bem pelo contrário, dinâmica, uma vez que com o porvir há que as reformular, pelo aumento do grau de exigência imposto e mesmo fruto de uma certa especialização, os quais diminuem o espectro daquilo que se colecciona.
Uma das coisas que coleccionamos, são os bonecos de Estremoz, os quais descobrimos há cerca de trinta anos. E dizemos que descobrimos, porque efectivamente, nados e medrados em Estremoz, tínhamos os olhos abertos, mas não víamos, como acontece a muito boa gente. Até que um dia, os nossos olhos foram para além da missão elementar de observar o óbvio. Então a nossa retina transmitiu às redes neuronais um impulso nervoso que se traduziu numa emoção com um misto de estético e de sociológico. Foi tiro e queda a nossa atracção pelos bonecos de Estremoz.
Bonecos que duplamente têm a ver com a nossa identidade cultural estremocense e alentejana, bonecos que antes de tudo são arte popular, naquilo que de mais nobre, profundo e ancestral, encerra este exigente conceito estético-etnológico.
Bonecos moldados pelas mãos do povo, a partir daquilo que a terra dá - o barro com que porventura Deus terá modelado o primeiro homem e as cores minerais já utilizadas pelos artistas rupestres de Lascaux e Altamira no Paleolítico, mas aqui garridas e alegres, como convém às claridades do Sul.
É vasta e diversificada a galeria dos bonecos de Estremoz. Reflexo afinal da riqueza do imaginário popular, que procura retratar a realidade local e regional, não só quando os bonecos se destinam a um uso específico (figuras de presépio, imagens religiosas, apitos, ganchos de meia, etc.), como e tão só a uma finalidade decorativa. Passemos então uma revista, ainda que breve, a esta galeria (fig.1), aproveitando para a sistematizar em doze grandes grupos de bonecos:
1. As figuras de presépio, de forte registo etnográfico e que ciclicamente permitem reconstituir e comemorar em nossas casas, o nascimento de Cristo Salvador.
2. As imagens religiosas que para além daquelas que noutros materiais e em ponto grande, existem nas nossas igrejas e conventos, são objecto de devoção popular (Senhor dos Passos, Senhora da Conceição, Santo António, São João Baptista, Santo Onofre, São Sebastião, procissão, etc.).
3. Figuras que têm a ver com a realidade local. Temos assim os militares (sargento a pé, sargento no jardim, lanceiro), o cavaleiro, a amazona, o frade a cavalo, a senhora dos pezinhos, a banda de música, o leiteiro, o aguadeiro, a mulher das castanhas, a mulher a vender chouriços, o oleiro, o canteiro, o brinholeiro, etc.
4. Figuras intimistas que têm a ver com o quotidiano doméstico (mulher a lavar o menino, mulher a lavar a roupa, mulher a fiar, mulher a regar as flores, mulher a passar a ferro, mulher a servir o chá, mulher a ver-se ao espelho, etc.).
5. Figuras que são personagens da faina agro-pastoril nas herdades alentejanas (pastor, ceifeira, ganhão, porqueiro, azeitoneira, coqueira, lavrador, mulher dos perus, mulher das galinhas, mulher dos carneiros, matança do porco, fabrico de chouriços, fabrico de queijos, etc.).
6. Figuras de negros, que a nosso ver, através da nossa permeabilização à cultura afro-brasileira, indiciam miscenização de raças e a fusão de culturas ocorrida ao longo da colonização do Alentejo. Para alguns são figuras inspiradas no Carnaval de outrora.
7. Figuras destinadas a assinalar períodos festivos (primaveras, bailadeiras, peraltas, músicos, etc.).
8. Figuras satíricas (o cirurgião e o doente, Napoleão, soldados franceses, etc.).
9. A infindável variedade de apitos para a miudagem brincar e atazanar os ouvidos aos mais velhos. Representam figuras humanas e animais. As figuras humanas são: senhora, amazona, peralta, peralta a cavalo, militares, militar a cavalo, camponês, camponês a cavalo. Por sua vez, as figuras animais são galos (no disco, no poleiro, na árvore, no pinheiro, no arco, etc.), galinha no choco e pomba. Existe também a cesta de ovos.
10. Os ganchos de meia para as mulheres ajeitarem ao peito a malha do tricot. Representam figuras humanas e animais. As figuras humanas são: mulher de chapéu, mulher em cabelo, freira de Malta, homem com chapéu, homem de carapuça, militar, padre, sacristão e palhaço. Quanto às figuras animais são: papagaios, pombos, galos e perus.
11. Paliteiros (homem a tocar viola, bobos, Lampião, Maria Bonita, etc).
12. Outros objectos decorativos ou funcionais: cantarinhas, pucarinhos, candelabros, suportes para velas, etc.
Todos os bonecos de Estremoz possuem um forte registo de uma dada época. As imagens religiosas, pelo detalhe e riqueza do traje reproduzem as esculturas sagradas barrocas, objecto de culto nas nossas igrejas e conventos. Por sua vez, as imagens profanas, possuem um rigoroso registo etnográfico do traje, sobre o qual nos diz, Luís Chaves [3]: “O traje surge-nos como produto natural do meio, isto é, de quanto dentro e à volta do homem existe; e tudo que influi no espírito e actua nele. Desde a escolha e adopção dos tecidos, até a côr e a forma, desde a ornamentação ao arranjo das partes componentes, tudo aí tem razão de ser como é, e tem de estar onde está”. O trajo alentejano, tal como é revelado pelos bonecos de Estremoz, é rico e diversificado, quer seja usado por homem ou mulher, estando em relação directa com a posição de cada um na escala social e com as tarefas diárias desempenhadas. As imagens profanas, no seu conjunto, traduzem também a diversidade e a hierarquia das relações de produção no contexto social da nossa região.
Na nossa condição de etnólogo amador e auto-didacta, o registo etnográfico das imagens profanas e em particular dos personagens da faina agro-pastoril, será porventura, o mais forte atractivo dos bonecos de Estremoz. À procura deles deambulamos nos sábados, pelo Mercado, na esperança permanentemente renovada de encontrar exemplares mais antigos, que por vezes aparecem à venda. E já temos tido a sorte de conseguir comprar por bom preço, um ou outro boneco que nos faltava, de afamados barristas já falecidos, como Mariano da Conceição, José Moreira ou Sabina Santos. Lá diz o rifão “Quem porfia sempre alcança”. E quando isso acontece é grande o nosso contentamento. E o sábado ainda é melhor. O sábado, é de resto, um dia singular, em Estremoz e é mesmo festejado por muita gente, entre elas escritores. Assim, numa carta de Estremoz, acerca do mercado, publicada no "Jornal do Barreiro" de Março de 1951, dizia Sebastião da Gama [7]: “Se me querem ver contente, é darem-me um sábado de Estremoz“. Perguntamos nós:- Porquê? Dizia ele que ao “Sábado, é o mercado. A praça enfeitada, a praça contente”. E concluía a carta dizendo: “O sábado de Estremoz é o meu domingo de Estremoz”.
Da venda de bonecos de Estremoz no mercado-feira (fig. 2), nos fala João Falcato [6]: “A feira alentejana é um mar de pitoresco. E de abastança também. Tem de tudo e para todos. Até para os artistas ou que, pelo menos, de artistas têm olhos e alma.
Sobre o largo passeio que separa o local da feira da estrada, há sempre multidão de figuras policrómicas e representativas duma originalidade que, sendo viva, é sui-generis: o pastor, o homem do leite, a ceifeira, o cavaleiro, o abegão, a mulher que enche os chouriços, o lavrador, a fiandeira, e até os reis magos, são as personagens estranhas que nos dias de feira povoam as bermas do passeio do Rossio. E tudo isto bonecos, que só não são rudes e primitivos por as mãos que moldaram o seu barro terem em si o jeito divino das criação”.
Os bonecos de Estremoz têm sido objecto de múltiplos estudos, os mais antigos dos quais serão de D. Sebastião Pessanha [9], de Virgílio Correia [5] e de Luís Chaves [4]. Quanto às abordagens publicadas mais recentemente, merecem especial destaque os trabalhos de Solange Parvaux [8] e de Joaquim Vermelho [10].
À criação e venda de bonecos de Estremoz se dedicam na actualidade, barristas como Maria Luísa da Conceição, Irmãos Ginga, Irmãs Flores, Fátima Estróia, Isabel Pires e Célia Freitas, cada um com o seu toque próprio.
As peças produzidas por estes barristas não chegam para as encomendas. O futuro dos bonecos de Estremoz parece, actualmente não estar em risco. Todavia, nem sempre foi assim. Segundo D. Sebastião Pessanha, os últimos presépios feitos em Estremoz, terão sido uma encomenda que fez para si e para o Museu Etnológico de Belém, em 1916. Por outras palavras, os bonecos de Estremoz foram dados como extintos. Como ressurgiram então? Graças à acção de José Maria de Sá Lemos (fig. 3), escultor, natural de Vila Nova de Gaia, discípulo de Mestre Teixeira Lopes e director nos anos 30 da Escola Industrial de António Augusto Gonçalves. Quando ele chegou a Estremoz, o artesanato em barro, estava na mais completa decadência, apenas se confeccionando peças de olaria para uso doméstico. Alimentou então o sonho do ressurgimento dos bonecos de Estremoz e conseguiu concretizar esse sonho. Como director da Escola deu forte incentivo aos Cursos de Olaria e de Cantaria e com o apoio de Ti Ana das Peles (fig. 5) primeiro e de Mariano da Conceição (fig. 6) depois, estimulou a recuperação dos bonecos dados como extintos. Espírito humanista, de rara sensibilidade artística, a ele se deve o facto de os bonecos serem ainda hoje um dos nossos ex-líbris, conhecidos aquém e além fronteiras.
Sá Lemos ao impulsionar o renascimento dos bonecos de Estremoz, pô-los na ordem do dia. Não é assim de admirar que a artista Laura Costa tenha escolhido os bonecos de Estremoz, como motivo de ilustração de bilhetes-postais de Boas Festas dos Correios, da emissão de 1942 (fig. 7 e fig. 8).
No seu livro “Barros de Estremoz” dado à estampa em 1964 diz-nos Azinhal Abelho [1]: “Que Estremoz pague um dia a José Sá Lemos pois voltaram os bonecos de barro à luz do dia” (fig. 9). Parafraseando Azinhal Abelho é caso para dizer que há muito tinha chegado a altura de Estremoz pagar a Sá Lemos os serviços relevantes prestados ao Município. Pois bem, a Assembleia Municipal de Estremoz na sua sessão de 19 de Setembro de 1997, recomendou à Câmara Municipal de Estremoz, que perpetuasse a memória deste estremocense pelo coração, numa futura atribuição de nomes a ruas da nossa cidade. A recomendação carece ainda de concretização.


BIBLIOGRAFIA

[1] - ABELHO, Azinhal – Barros de Estremoz. Lisboa: Edições Panorama, 1964.
[2] - ALVES, Aníbal Falcato – Os Comeres dos Ganhões. Porto: Campo das Letras, 1994.
[3] - CHAVES, Luís – A Arte Popular – Aspectos do Problema. Porto: Portucalense Editora, 1943.
[4] - CHAVES, Luís – Arte popular do Alentejo. Os ganchos de meia de barro d’Estremoz, in Águia, 1917.
[5] - CORREIA, Virgílio – Brinquedos e Louça de Estremoz, in Terra Portuguesa, II, 1916.
[6] - Falcato, João – Elucidário do Alentejo. Coimbra: Coimbra Editora, 1953.
[7] - GAMA, Sebastião - Carta de Estremoz, in Jornal do Barreiro, Março de 1951.
[8] - PARVAUX, Solange – La Céramique Populaire du Haut-Alentejo. Paris: Presses Universitaires de France, 1968.
[9] - PESSANHA, Sebastião – Os Bonecos d’Estremoz, in Terra Portuguesa, I-II, 1911.
[10] - VERMELHO, Joaquim – Barros de Estremoz. Porto: Limiar, 1990.

2. Mercado-feira dos sábados, em Estremoz. Fotografia de Rogério de Carvalho, obtida cerca de 1930.

3. José Maria de Sá Lemos (1892-1971), escultor, natural de Vila Nova de Gaia, discípulo de Mestre Teixeira Lopes e director nos anos 30 da Escola Industrial de António Augusto Gonçalves, em Estremoz.


4. Dr. José Lourenço Marques Crespo (1872-1955), médico, escritor regionalista, fundador e director do jornal Brados do Alentejo (1931-1951). Administrador do Concelho de Estremoz (Fevereiro-Julho de 1910 e Fevereiro- Março de 1913) e Presidente da Câmara Municipal de Estremoz (1923-1926).

5. Ti Ana das Peles, velha bonequeira com aprendizagem efectuada na segunda metade do século XIX, que colaborou com José Maria de Sá Lemos no ressurgimento dos bonecos de Estremoz. Fotografia de Rogério de Carvalho, obtida cerca de 1930.

6. Mariano Augusto da Conceição (1902-1959), Mestre de Olaria na Escola Industrial de António Augusto Gonçalves, em Estremoz e que viria a ser barrista da Olaria Alfacinha, após ter aprendido a arte com Ti Ana das Peles, por incentivo do Director da Escola, José Maria de Sá Lemos. Fotografia de Rogério de Carvalho, obtida cerca de 1930.



7. Bilhete-postal de Boas Festas do tipo "Tudo Pela Nação" e que tem como motivo  "Bonecos de Estremoz". Expedido em 24 de Dezembro de 1942, por SÁ LEMOS, director nos anos 30 da Escola Industrial de António Augusto Gonçalves, em Estremoz, o qual pela sua acção fez ressurgir os "Bonecos de Estremoz", que estavam em vias de extinção. Bilhete-postal recebido pelo Dr. José Lourenço Marques Crespo (1872-1955), Presidente da Câmara Municipal de Estremoz no período 1923-1926 e pessoa de rara sensibilidade para as questões do Património, do Artesanato e da Cultura em geral.

8. Verso do anterior bilhete-postal de Boas Festas emitido pelos correios portugueses em 1942, em que um presépio de Estremoz é o motivo central da ilustração de Laura Costa.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Nós os subversivos do Facebook



Perfilho há muito a ideia de que é necessário estabelecer pontes de entendimento entre as pessoas. Cada um de nós não está atomizado na sua individualidade, uma vez que a própria vida se encarrega de nos integrar em múltiplos grupos com características diversas, nem sempre convergentes.
Alguns grupos são fechados, com códigos de conduta rígidos que a pretexto da pureza de princípios, os incapacitam de dialogar com os restantes. Entre grupos fechados só são possíveis conversas de surdos, já que como não se ouvem uns aos outros, não sabem o que os outros dizem.
Uma atitude distinta é cada um de nós e os grupos em que se insere, procurarem ouvir os outros para perceber o que eles dizem, pensam e querem. Como retribuição podem ser ouvidos e os outros ficarão a saber o que dizemos, pensamos e queremos. É possível então chegar à conclusão de que partilhamos algumas ideias comuns, o que torna possível construir algo em conjunto, facto que introduzirá laços de união entre nós. É a unidade na diversidade.
Com o tempo é possível que a área de partilha aumente, mas também é possível que não. Porém, ficámos a saber o que os outros pensam e a respeitá-los porque nos respeitam a nós. E uma coisa é certa, a partilha é só de coisas que nos unem, não de coisas que nos separam. Podemos com outros partilhar amigos, se não todos, alguns. O que não somos é obrigados a partilhar os adversários. Isso é terreno que não é partilhável.
Uma das muitas coisas que partilho com os outros é a escrita, instrumento de libertação do Homem. Filho de alfaiate, aprendi a alinhavar palavras, que permitem cerzir ideias com que se propagam doutrinas. Esse o sentido da minha intervenção na blogosfera.
Furiosamente independente, procuro ser sempre incisivo, cáustico quanto baste, mas sempre preciso.
Modéstia à parte, tenho formação dura de físico teórico e fui treinado para pensar.
Procuro levar tudo às últimas consequências e como atirador franco do pensamento e da acção, procuro fazer o varrimento da transversalidade dos saberes.
Depois disso, a síntese dialéctica é um ovo de Colombo nascido no cú da galinha da minha cabeça.
É isso o rigor?
Então que seja!
Que a minha galinha continue a pôr ovos, por muitos anos e bons.
E desses ovos faremos suculentas e perfumadas omeletas verbais, que regaladamente trincharemos, sentados à mesa DO TEMPO DA OUTRA SENHORA, do CLUBE ROBINSON, dos ALENTEJANOS NO FACEBOOK, dos AZULEJOS PORTUGUESES e noutras mesas mais, onde habitualmente abancamos, degustamos e partilhamos saberes.
Nós somos os subversivos assumidos do Facebook, que apostámos forte em mudar a cara deste livro, o que diariamente fazemos com determinação, audácia e comunhão.
Nós, operários da palavra, homens e mulheres deste país, velhos e novos, tradicionalistas e alternativos, crentes e descrentes, de direita ou de esquerda, monárquicos ou republicanos, somos um paradigma do que são as potencialidades de redes sociais como o Facebook.
Comunicamos uns com os outros e partilhamos ideias e pensamentos, feitos de palavras, imagens e sons.
Aprendemos a respeitar-nos uns aos outros e a ter em conta a opinião do interlocutor. E passamos a fazer caminhadas comuns até onde é possível fazê-lo, de livre vontade e sem constrangimentos.
Talvez estejamos as lançar os alicerces dum mundo novo, nós os subversivos do Facebook.

Publicado inicialmente em 11 de Setembro de 2010

Textos do Facebook

Imagem recolhida na pasta "A LEITURA É UNIVERSAL"
(Biblioteca Escolar de Marvão)

LÁ VAI UM
À Manuela Mendes:
Nós somos recicladores, reutilizadores, reintegradores no presente das memórias do passado.
Nas nossas veias corre, provavelmente, sangue do Jurássico, aí pelo menos com uns 150 milhões de anos, o que é uma bagatela para a idade estimada para a Terra, que amavelmente nos serve de habitáculo.
Somos pois dinossauros, resquícios e memórias vivas de ecosócioetnosistemas, que o tempo, esse maganão, caldeou. É caso para perguntar:
- O que é o tempo?
- O que é a idade?
Não sei, apesar de nos circuitos neuronais intuir a percepção de que o tempo não perdoa. E é cruel, também. Todavia, eu não me rendo nunca. Nem nú, nem de fato e de gravata!
Talvez um dia destes, fale sobre o tempo na Literatura Oral. Mas hoje não, Manuela, que tenho falta de tempo. Hoje falarei sobre o tempo geológico, dos fósseis como eu, oriundos da proto-Pré-História, nascidos no funil do tempo, mercê dum salto quântico no espaço-tempo-energia.
Carnívoros uns, herbívoros alguns e omníveros outros, partilhamos desde os tempos ancestrais, quando a variável tempo foi imediatamente superior a zero segundos, a consciência de em nome da sobrevivência, haver necessidade de reciclar, de reutilizar, de reintegrar, como quem mapeia o passado, para poder construir o futuro com solidez.
Por isso, Manuela, eu, fóssil vivo, não reconhecido nem por Spielberg, nem pela Sociedade Geológica de Portugal, recuso-me a deixar de ter rugas, cabelos brancos. Para longe vá o reumático e outras formas de caruncho animal!
Eu gosto do que tem a patine do tempo.
O meu lugar é aí.
Hernâni
LÁ VÃO DOIS
À Teresa Bailão (vítima dum resfriado):
A gente tem sempre aquilo que não quer...
Quantos ricaços em Portugal, com os bofes de fora por causa do calor, não gostariam de ter a possibilidade de apanhar um resfriado?
É uma prova de que o dinheiro não compra tudo…
Um abraço:
Hernâni
LÁ VÃO TRÊS
Ao Feliciano Cupido (Um amigo pintor):
Quando releio ou mentalmente revejo poemas e prosa do Manuel da Fonseca, por vezes sinto arrepios de espinha. Imagens sociológicas dum Alentejo que já não existe, que a gente não quer que se repita, porque era opressivo e repressivo, mas que a gente não quer olvidar, para transmitir às gerações mais novas, a memória dos que sofreram e resistiram.
Feliciano:
Você tem o Alentejo na massa do sangue e através dele faz o registo conjugado dos volumes, das formas, das cores e das texturas, em tudo aquilo que nos toca a alma.
Partilhe connosco no Facebook, esse Alentejo que lhe vai na sua e na nossa alma.
Um abraço do amigo:
Hernâni
LÁ VÃO QUATRO
Ao Josué Carronha:
Desânimo, nem pensar!
Eu tenho um metro e noventa de altura e deixei de me pesar certo dia, já longínquo, em que uma balança me comunicou que a minha massa corporal era excessiva, porque ultrapassa os cem quilogramas. Ora eu, que não sou dado a depressões e gosto de respirar nos poros, o prazer da vida, dei-me ao trabalho, por questões meramente metodológicas, de mandar fazer uma série de exames ao esqueleto e àquilo que o reveste.
Quais os resultados?
As rugas, as olheiras e os cabelos brancos escondem um corpo de Fórmula 1, rodado em provas de fundo.
É caso para dizer:
- PORRA PARA AS BALANÇAS!
LÁ VÃO CINCO
À Maria Reis (Que esteve na origem deste texto):
Caros amigos e leitores:
O meu irmão gémeo, dado a pirraças e que me anda sempre a atazanar o juízo, no outro dia disse-me uma coisa que me ficou no sentido:
- “Pois! Agora deu-te para essa do blogue… Quando fores crescido hás-de ter muitos leitores. Hás-de, hás-de…Ouve lá, oh pá! Faz algum sentido, falares em coisas de que tu falas? Ministros? Burros? Penicos? Colheres de Pau? Morcelas e chouriços? Arte conventual? Cornos trabalhados? Tu estás doido! Mas mais doidos que tu, são esses do tal Grupo de Fãs…Valha-me, Santo António, aos pulos! As Marias e os Maneis que tu não arranjaste, para dizer ámen às tuas missas…”
No seu olímpico desprezo, o outro filho parelho de minha mãe, à sua maneira enviesada e tortuosa, encontrou uma maneira singular de realçar o papel dos fãs.
Às Marias e aos Maneis de que ele fala, independentemente do nome que tenham, só uma coisa é possível dizer pela minha parte:
- “Obrigado amigos, por confiarem em mim! Tenho motivos para estar feliz! Para vocês todos, o meu reconhecimento pela amizade desinteressada, acompanhado dum abraço do tamanho do mundo…"
Até sempre!
O Vosso Hernâni DO TEMPO DA OUTRA SENHORA

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O humor é uma arma

                                         CONVERSA DE TIRADORES DE CORTIÇA:
                                        - Atão a escada, camarada?
                                        - Na é precisa, que o camarada de baixo tem bom lombo!

O humor faz parte integrante do nosso dia a dia e é uma constante quer na nossa literatura oral, quer na escrita.
Gil Vicente (1465?-1536?) retratou com humor a sociedade portuguesa do século XVI, criticando os costumes que achava errados. É sem sombra de dúvida um dos maiores percursores do humor português.
E o povo? Nas condições mais duras de trabalho, os servos da gleba nunca perderam o sentido lusitano do humor, que na maioria das vezes encerrava profunda crítica social. Isso mesmo nos é revelado pela seguintes quadras do rico cancioneiro popular alentejano:

“Na cidade de Lisboa,
Quem é rico, passa bem;
Assim é na minha terra
Ou noutra qualquer tambem.” [1]

“Eu vi o filho do rico
Em lindo berço embalado;
Eu vi o filho do pobre
Em tristes palhas deitado.” [2]

“Sobe o rei no alto trono,
Desce o pastor ao val’ fundo;
Uns p’ra baixo, outros p’ra cima
Vai-se assim movendo o mundo." [3]


“Se o rico comprasse a vida,
ai do pobre, o que seria!?
O rico seria eterno,
só o pobre é que morria.” [4]


Mesteirais da palavra como eu, fiéis às origens da sua natureza ancestral, ainda hoje sentem na alma, o que era o sofrer de quem estava na base da pirâmide social.
Como artífices da palavra é para nós gratificante, quando temos leitores que partilham as nossas emoções, muitas das vezes porque tiveram vivências semelhantes às nossas ou porque viveram em contextos que abordamos. Deste modo, para além de instrumento de libertação, a escrita é também uma ponte de união entre os homens, bem como um reconhecimento dos seus traços comuns de identidade.
Artesões da palavra, procuramos agradar ao leitor. O humor, esse é fundamental, sempre que tal é possível num texto. A questão está em encontrar no contexto, o lugar certo para ele.
O humor atrai o leitor para o resto do texto, é como um digestivo das palavras. Mas o humor também ajuda a descarregar tensões e pode ser corrosivo, derrubante, desintérico, petrificante e mesmo mortífero. Nesse sentido, o humor é uma arma de palavras, a que um franco-atirador verbal, muitas vezes recorre. E como arma, é uma arma de precisão.
Um humorista pode derrubar um Governo com Honra. Mas também pode ser um haraquiri, para quem não sendo humorista, o utilize desajeitadamente. Veja-se o recente caso do Ministro Manuel Pinho, forçado a demitir-se na sequência da triste figura que em Julho do ano passado, fez na Assembleia da República. A graça dele foi a sua desgraça.


[1] – PIRES, A. Thomaz. Cantos Populares Portugueses. Vol. IV. Typographia e Stereotypia Progresso. Elvas, 1910.
[2] – VASCONCELLOS, J. Leite de. Cancioneiro Popular Português. Vol. II. Acta Universitatis Conimbrigensis. Coimbra, 1979.
[3] – DELGADO, Manuel Joaquim Delgado. Subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo. Vol. I. Instituto Nacional de Investigação Científica.Lisboa, 1980.
[4 ] – SANTOS, Victor. Cancioneiro Alentejano. Livraria Portugal. Lisboa, 1959.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

O prazer da gastronomia alentejana


Cozinha dos ganhões. Irmãs Flores. Fotografia de José Cartaxo.

COZINHA DOS GANHÕES
Há muito que foi sobejamente demonstrado que o Alentejo é uma região com uma identidade cultural própria. Assim o atesta a sua paisagem singular, o carácter do seu povo, o trajo popular, a arte popular, o cancioneiro popular, o cante, a casa tradicional e é claro a gastronomia, que anualmente está em grande destaque em Estremoz, na Cozinha dos Ganhões, que em Novembro de 2010 vai ter a sua XVIII edição.
Na Cozinha dos Ganhões é possível partilhar com os outros, o prazer da gastronomia alentejana.
GASTRONOMIA ALENTEJANA
É sabido que o Alentejo é a região do borrego e do porco e estes são recursos com elevada cotação na bolsa de valores gastronómicos. Daí que na Cozinha dos Ganhões, o borrego e o porco imperem como reis e senhores. Ensopado de borrego, cozido de borrego com grão, borrego assado no forno, segredos de porco, lombo de porco assado, migas com carne de porco e carne de porco à alentejana são pratos definidores da nossa identidade cultural, como o são a açorda, o gaspacho, a sopa de cação, a sopa de beldroegas ou a nossa doçaria conventual.
A gastronomia alentejana é património culinário legado pelos nossos ancestrais: pré-históricos, fenícios, celtas, romanos, visigodos, mouros e ganhões. É património para mastigar, para saborear e para lamber os beiços, a comer e a chorar por mais, pois barriga vazia não conhece alegrias... Por isso, apetece gritar bem alto: - Viva o património mastigável! - Viva!
A gastronomia alentejana envolve as matérias-primas usadas na preparação dos pratos de culinária alentejana, a culinária alentejana propriamente dita e os vinhos alentejanos.
No que respeita às matérias-primas usadas na preparação dos pratos de culinária alentejana, podem-se classificar em cinco tipos:
1 – Vegetais [1]: batatas, túberas, cogumelos, alabaças (labaças ou catacuzes), arrabaças, cardinhos (tengarrinhas) acelgas (celgas), saramagos, cunetas, pimpalhos, beldroegas, espinafres, nabiças, espargos, couve, repolho, tomate, abóbora, mogango, pepino, pimento, feijão, feijão-frade, grão, favas, ervilhas e azeitonas.
2 – Carne e ovos - carne, bofe, fígado, gordura, coração e pés de porco, chispe, entrecosto, chouriço, farinheira, morcela, toucinho, mioleira, carne de borrego, caça e ovos.
3 – Pescado - bacalhau, cação e pexelim.
4 – Temperos [2] - sal, massa de pimento, alho, cebola, azeite, vinagre, poejo, coentros, salsa, hortelã, salva, manjerona, orégãos, murta, tomilho, hortelã da ribeira, louro, colorau, cominhos, cravinho e pimenta.
5 - Pão – O alentejano é pãozeiro, gosta de comer tudo com pão. Come-se pão quando se tira uma bucha com queijo ou chouriço, para enganar a fome a meio da manhã ou a meio da tarde. O pão é de resto acompanhamento obrigatório de qualquer refeição e matéria-prima essencial à confecção de alguns pratos da nossa gastronomia (migas com carne de porco, açorda, sopa de cação, sopa da panela, etc.). E o melhor pão alentejano é naturalmente o do tipo conhecido por pão caseiro, como aquele que antigamente era cozido nos fornos dos montes, alimentados por labaredas de esteva.
No que concerne à culinária alentejana, o fogo permite criar sabores, por detrás dos quais estão sábias operações de alquimia doméstica como o cozer, o grelhar, o assar, o alourar, o refogar, o fritar e o gratinar. Através delas se busca atingir o sabor criado pelo fogo e nelas, mais que magia iniciática de pedra filosofal demandada, o sabor encontrado constitui um prazer simultaneamente onírico e telúrico.
No que se refere aos vinhos alentejanos, estes fazem parte integrante da gastronomia, para acompanhar aquilo que se come. A paisagem e o solo alentejano e em particular, os de Estremoz, são dádivas que a natureza se encarregou de conceder em termos de condições perfeitas para a plantação e exploração da vinha. Os solos são argilosos, argilo-calcários ou de origem xistosa.
Os vinhos tintos, em maioria, nascem de castas nacionais como Aragonês, Trincadeira Preta, Castelão, Tinta Caiada, Touriga Nacional e Alicante, mas são ainda utilizadas castas internacionais como Syrah, Cabernet Sauvignon, Alicante Bouschet, Petit Verdot e Merlot.
Os vinhos brancos, em minoria, nascem de castas como: Antão Vaz, Arinto, Roupeiro e Rabo de Ovelha.
A vindima é manual, com rigorosa selecção de cachos, de modo a originar vinhos de excepção. A pisa é feita a pé, em lagares. A fermentação realiza-se em cubas inox, seguida de transfega para pipas de carvalho francês, onde os melhores lotes vão estagiar.
As adegas alentejanas utilizam tecnologia moderna baseada em métodos tradicionais antigos. São várias gerações de sabedoria, ao serviço da arte da vinicultura, produzindo vinhos de alta qualidade.
A variedade de vinhos alentejanos torna o seu consumo adequado a quase todos os tipos de pratos da nossa gastronomia, fazendo ponte com eles, constituindo como que uma espécie de binómio prato-vinho. 
[1] - “…os alentejanos, motivados pelas fomes periódicas, foram obrigados a aprender a comer a ervas que os campos lhes oferecem. Poejos, alabaças, espargos, beldroegas, arrabaças, acelgas, saramagos, cardinhos, orégãos, etc” – ALVES, Aníbal Falcato – Os Comeres dos Ganhões. Porto: Campo das Letras, 1994.
[2] - Para “…compensar a magreza do caldo com ouropéis mágicos de ervas, cheiros e misturas que dão sabores disfarceiros das pobrezas.” – Helder Pacheco in prefácio a ALVES, Aníbal Falcato – Os Comeres dos Ganhões. Porto: Campo das Letras, 1994.

Publicado inicialmente em 7 de Setembro de 2010

Pastor debaixo da árvore. Irmãs Flores. Fotografia de José Cartaxo.

Coqueira. Irmãs Flores. Fotografia de José Cartaxo.

Mulher a cozinhar. Irmãs Flores. Fotografia de José Cartaxo.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

A ânsia de toda a beleza do mundo



O cancioneiro popular encarregou-se de "arranjar um par de botas" aos sapateiros, que geralmente nele são mal vistos. Talvez porque haja repentistas que são autênticas "linguinhas de prata":

“Sapateiros e alfaiates
São uma súcia de ladrões:
Sapateiro furta a sola,
Alfaiate, os botões.” [1]

Já a nível da arte pastoril, parece existir maior apreço pelos sapateiros, uma vez que na solidão eremítica da charneca alentejana, o rabadão que já fora zagal e já andara descalço, sabia o que era andar a pé limpo por sobre a terra escaldante, as rochas angulosas ou a vegetação parente do saramago.
Quem anda a pé limpo, tem um pé blindado, que só encontra parente próximo nas mãos do cortiçeiro envolvido em tórrida e recente despela.
Quantos não foram os camponeses alentejanos que usaram calçado pela primeira vez, quando foram à tropa?
Por isso, o camponês alentejano era capaz de exaltar e mitificar coisas aparentemente comezinhas, como o calçado.
É o caso deste sapato (9, 5 x 2 x 3 cm), talhado e bordado em madeira, por quem se identificou com a obra e resolveu deixar na sola, a sua marca de criador: JMV.
Comprado no Mercado das Velharias em Estremoz, mercado de memórias, onde eu faço parte da “mobília”, na qualidade de comprador.
Não é um sapato frívolo de quem anda envolvido em danças de salão. É um sapato sóbrio e austero, nascido da alma de quem conhece a dureza do que é andar a pé limpo num solo que corta como lancetas. Mas é um sapato bordado, porque o camponês, servo da gleba, tinha na sua alma, a ânsia de toda a beleza do mundo.

[1] – ALCÁÇOVAS – Recolha de VASCONCELLOS, J. Leite de. Cancioneiro Popular Português. Volume I. Acta Universitatis Conimbrigensis. Coimbra,1975.

Publicado em 6 de Setembro de 2010

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

António Telmo (1927-2010)

ANTÓNIO TELMO (1927-2010)
Fotografia de João Albardeiro

O filósofo, escritor e professor António Telmo faleceu no passado sábado, dia 21 de Agosto, ao princípio da manhã, no Hospital de Évora. O seu funeral realizou-se no domingo, dia 22, em Estremoz. Com o seu óbito, a Cultura e a Filosofia Portuguesas ficaram mais pobres. Estremoz perdeu um filho adoptivo, intelectual de prestígio, com obra e nome firmados a nível planetário.
António Telmo era um filólogo e um hermeneuta, envolvido no esoterismo e no hermetismo, na procura daquilo que está oculto e que pode ser revelado e desvendado. E fê-lo, sobretudo, através do estudo da kabbalah, do sufismo e da filosofia. Era visto como o maior representante vivo do grupo do movimento da “Filosofia Portuguesa” fundado por Álvaro Ribeiro.
Para António Telmo, a reflexão filosófica deve ser exercida informalmente, livre dos grilhões da Academia, pelo que acreditava que aprendeu muito mais nas tertúlias de café do que nas salas de aula da Universidade.
A obra de António Telmo é caracterizada pela importância conferida à palavra e à linguagem, através das quais, segundo o autor, se pode aceder a regiões mais profundas do conhecimento e da espiritualidade.
António Telmo defendia, igualmente, a originalidade do pensamento português, ligado ao conceito de portugalidade, a um patriotismo de raiz mística, à tradição cultural e à poesia.
António Telmo Carvalho Vitorino nasceu a 2 de Maio de 1927, em Almeida, de onde saiu com dois anos de idade, a caminho de Angola. Regressou a Portugal com seis anos, para Alter do Chão. Daqui vai para Arruda dos Vinhos, onde permaneceu até aos dezasseis. Da Arruda mudou-se para Sesimbra, onde ficou até ir para Lisboa, frequentar a Universidade. Na sua infância e juventude, foi um autodidacta, pois estudava em casa e fazia os exames em Lisboa.
Aos vinte e três anos, entrou para o grupo da Filosofia Portuguesa, depois de ter travado conhecimento com José Marinho (1904-1975), Álvaro Ribeiro (1905-1981), Agostinho da Silva (1906-1994) e Eudoro de Sousa (1911-1987).
Por convite destes dois últimos, no início dos anos 60 foi professor de Literatura Portuguesa, durante três anos, na Universidade de Brasília. De lá foi para Granada e, só depois, é que regressou a Portugal. Foi director da Biblioteca de Sesimbra e posteriormente fixou-se em Estremoz onde leccionou Português na Escola Preparatória Sebastião da Gama, continuando a publicar livros com regularidade.
Discípulo de Agostinho da Silva, António Telmo lega-nos uma extensa obra:
- Arte Poética, Lisboa, Guimarães, 1963.
- História Secreta de Portugal, Lisboa, Vega, 1977.
- Gramática secreta da língua portuguesa, Lisboa, Guimarães, 1981.
- Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões, Lisboa, Guimarães, 1982.
- Filosofia e Kabbalah, Lisboa, Guimarães, 1989.
- O Bateleur, Lisboa, Átrio, 1992.
- Horóscopo de Portugal, Lisboa, Guimarães, 1997.
- Contos, Lisboa, Aríon, 1999.
- O Mistério de Portugal na História e n’ Os Lusíadas, Lisboa, Ésquilo, 2004.
- Viagem a Granada, Lisboa, Fundação Lusíada, 2005.
- Contos Secretos, Chaves, Tartaruga, 2007.
- A Verdade do Amor, seguido de Adoração: Cânticos de amor, de Leonardo Coimbra, Lisboa, Zéfiro, 2008.
- Congeminações de um neopitagórico, Vale de Lázaro, Al-Barzakh, 2006/ Lisboa, Zéfiro, 2009.
- A Aventura Maçónica, Lisboa, Zéfiro, 2010.
- Luís de Camões, Estremoz, Al-Barzakh, 2010.
- O Portugal de António Telmo, Lisboa, Guimarães, 2010.
À família enlutada apresentamos as nossas mais sentidas condolências.

Publicado também no nº 91 (3-9-2010) do Jornal ECOS
e em Estremoz Net