quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O humor é uma arma

                                         CONVERSA DE TIRADORES DE CORTIÇA:
                                        - Atão a escada, camarada?
                                        - Na é precisa, que o camarada de baixo tem bom lombo!

O humor faz parte integrante do nosso dia a dia e é uma constante quer na nossa literatura oral, quer na escrita.
Gil Vicente (1465?-1536?) retratou com humor a sociedade portuguesa do século XVI, criticando os costumes que achava errados. É sem sombra de dúvida um dos maiores percursores do humor português.
E o povo? Nas condições mais duras de trabalho, os servos da gleba nunca perderam o sentido lusitano do humor, que na maioria das vezes encerrava profunda crítica social. Isso mesmo nos é revelado pela seguintes quadras do rico cancioneiro popular alentejano:

“Na cidade de Lisboa,
Quem é rico, passa bem;
Assim é na minha terra
Ou noutra qualquer tambem.” [1]

“Eu vi o filho do rico
Em lindo berço embalado;
Eu vi o filho do pobre
Em tristes palhas deitado.” [2]

“Sobe o rei no alto trono,
Desce o pastor ao val’ fundo;
Uns p’ra baixo, outros p’ra cima
Vai-se assim movendo o mundo." [3]


“Se o rico comprasse a vida,
ai do pobre, o que seria!?
O rico seria eterno,
só o pobre é que morria.” [4]


Mesteirais da palavra como eu, fiéis às origens da sua natureza ancestral, ainda hoje sentem na alma, o que era o sofrer de quem estava na base da pirâmide social.
Como artífices da palavra é para nós gratificante, quando temos leitores que partilham as nossas emoções, muitas das vezes porque tiveram vivências semelhantes às nossas ou porque viveram em contextos que abordamos. Deste modo, para além de instrumento de libertação, a escrita é também uma ponte de união entre os homens, bem como um reconhecimento dos seus traços comuns de identidade.
Artesões da palavra, procuramos agradar ao leitor. O humor, esse é fundamental, sempre que tal é possível num texto. A questão está em encontrar no contexto, o lugar certo para ele.
O humor atrai o leitor para o resto do texto, é como um digestivo das palavras. Mas o humor também ajuda a descarregar tensões e pode ser corrosivo, derrubante, desintérico, petrificante e mesmo mortífero. Nesse sentido, o humor é uma arma de palavras, a que um franco-atirador verbal, muitas vezes recorre. E como arma, é uma arma de precisão.
Um humorista pode derrubar um Governo com Honra. Mas também pode ser um haraquiri, para quem não sendo humorista, o utilize desajeitadamente. Veja-se o recente caso do Ministro Manuel Pinho, forçado a demitir-se na sequência da triste figura que em Julho do ano passado, fez na Assembleia da República. A graça dele foi a sua desgraça.


[1] – PIRES, A. Thomaz. Cantos Populares Portugueses. Vol. IV. Typographia e Stereotypia Progresso. Elvas, 1910.
[2] – VASCONCELLOS, J. Leite de. Cancioneiro Popular Português. Vol. II. Acta Universitatis Conimbrigensis. Coimbra, 1979.
[3] – DELGADO, Manuel Joaquim Delgado. Subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo. Vol. I. Instituto Nacional de Investigação Científica.Lisboa, 1980.
[4 ] – SANTOS, Victor. Cancioneiro Alentejano. Livraria Portugal. Lisboa, 1959.