terça-feira, 14 de setembro de 2010

Os bonecos de Estremoz

1. Galeria de bonecos de Estremoz de Mariano Augusto da Conceição (1902-1959), barrista da Olaria Alfacinha. Fotografia de Rogério de Carvalho (1915-1988), obtida cerca de 1930.

Desde os dez anos que transportamos na massa do sangue o espírito de coleccionador. Marca genética ou atávica, não sabemos, mas que veio ao de cima lá por essa idade, veio. E é um facto tão real como o odor da flor de esteva ou o castanho da terra de barro.
Coleccionar é reunir num todo, objectos que têm pelo menos uma característica ou funcionalidade comum. A motivação para o fazer pode ser diversa, como distintas podem ser as consequências de uma colecção. Pode ficar guardada numa caixa ou arrumada numa prateleira de estante ou mesmo numa vitrina, como também pode ser objecto de estudo numa procura de respostas, desde sempre procuradas pela alma humana.
Há objectos que pelos mais diferentes motivos somos levados a coleccionar. E nenhuma colecção é estática, mas antes bem pelo contrário, dinâmica, uma vez que com o porvir há que as reformular, pelo aumento do grau de exigência imposto e mesmo fruto de uma certa especialização, os quais diminuem o espectro daquilo que se colecciona.
Uma das coisas que coleccionamos, são os bonecos de Estremoz, os quais descobrimos há cerca de trinta anos. E dizemos que descobrimos, porque efectivamente, nados e medrados em Estremoz, tínhamos os olhos abertos, mas não víamos, como acontece a muito boa gente. Até que um dia, os nossos olhos foram para além da missão elementar de observar o óbvio. Então a nossa retina transmitiu às redes neuronais um impulso nervoso que se traduziu numa emoção com um misto de estético e de sociológico. Foi tiro e queda a nossa atracção pelos bonecos de Estremoz.
Bonecos que duplamente têm a ver com a nossa identidade cultural estremocense e alentejana, bonecos que antes de tudo são arte popular, naquilo que de mais nobre, profundo e ancestral, encerra este exigente conceito estético-etnológico.
Bonecos moldados pelas mãos do povo, a partir daquilo que a terra dá - o barro com que porventura Deus terá modelado o primeiro homem e as cores minerais já utilizadas pelos artistas rupestres de Lascaux e Altamira no Paleolítico, mas aqui garridas e alegres, como convém às claridades do Sul.
É vasta e diversificada a galeria dos bonecos de Estremoz. Reflexo afinal da riqueza do imaginário popular, que procura retratar a realidade local e regional, não só quando os bonecos se destinam a um uso específico (figuras de presépio, imagens religiosas, apitos, ganchos de meia, etc.), como e tão só a uma finalidade decorativa. Passemos então uma revista, ainda que breve, a esta galeria (fig.1), aproveitando para a sistematizar em doze grandes grupos de bonecos:
1. As figuras de presépio, de forte registo etnográfico e que ciclicamente permitem reconstituir e comemorar em nossas casas, o nascimento de Cristo Salvador.
2. As imagens religiosas que para além daquelas que noutros materiais e em ponto grande, existem nas nossas igrejas e conventos, são objecto de devoção popular (Senhor dos Passos, Senhora da Conceição, Santo António, São João Baptista, Santo Onofre, São Sebastião, procissão, etc.).
3. Figuras que têm a ver com a realidade local. Temos assim os militares (sargento a pé, sargento no jardim, lanceiro), o cavaleiro, a amazona, o frade a cavalo, a senhora dos pezinhos, a banda de música, o leiteiro, o aguadeiro, a mulher das castanhas, a mulher a vender chouriços, o oleiro, o canteiro, o brinholeiro, etc.
4. Figuras intimistas que têm a ver com o quotidiano doméstico (mulher a lavar o menino, mulher a lavar a roupa, mulher a fiar, mulher a regar as flores, mulher a passar a ferro, mulher a servir o chá, mulher a ver-se ao espelho, etc.).
5. Figuras que são personagens da faina agro-pastoril nas herdades alentejanas (pastor, ceifeira, ganhão, porqueiro, azeitoneira, coqueira, lavrador, mulher dos perus, mulher das galinhas, mulher dos carneiros, matança do porco, fabrico de chouriços, fabrico de queijos, etc.).
6. Figuras de negros, que a nosso ver, através da nossa permeabilização à cultura afro-brasileira, indiciam miscenização de raças e a fusão de culturas ocorrida ao longo da colonização do Alentejo. Para alguns são figuras inspiradas no Carnaval de outrora.
7. Figuras destinadas a assinalar períodos festivos (primaveras, bailadeiras, peraltas, músicos, etc.).
8. Figuras satíricas (o cirurgião e o doente, Napoleão, soldados franceses, etc.).
9. A infindável variedade de apitos para a miudagem brincar e atazanar os ouvidos aos mais velhos. Representam figuras humanas e animais. As figuras humanas são: senhora, amazona, peralta, peralta a cavalo, militares, militar a cavalo, camponês, camponês a cavalo. Por sua vez, as figuras animais são galos (no disco, no poleiro, na árvore, no pinheiro, no arco, etc.), galinha no choco e pomba. Existe também a cesta de ovos.
10. Os ganchos de meia para as mulheres ajeitarem ao peito a malha do tricot. Representam figuras humanas e animais. As figuras humanas são: mulher de chapéu, mulher em cabelo, freira de Malta, homem com chapéu, homem de carapuça, militar, padre, sacristão e palhaço. Quanto às figuras animais são: papagaios, pombos, galos e perus.
11. Paliteiros (homem a tocar viola, bobos, Lampião, Maria Bonita, etc).
12. Outros objectos decorativos ou funcionais: cantarinhas, pucarinhos, candelabros, suportes para velas, etc.
Todos os bonecos de Estremoz possuem um forte registo de uma dada época. As imagens religiosas, pelo detalhe e riqueza do traje reproduzem as esculturas sagradas barrocas, objecto de culto nas nossas igrejas e conventos. Por sua vez, as imagens profanas, possuem um rigoroso registo etnográfico do traje, sobre o qual nos diz, Luís Chaves [3]: “O traje surge-nos como produto natural do meio, isto é, de quanto dentro e à volta do homem existe; e tudo que influi no espírito e actua nele. Desde a escolha e adopção dos tecidos, até a côr e a forma, desde a ornamentação ao arranjo das partes componentes, tudo aí tem razão de ser como é, e tem de estar onde está”. O trajo alentejano, tal como é revelado pelos bonecos de Estremoz, é rico e diversificado, quer seja usado por homem ou mulher, estando em relação directa com a posição de cada um na escala social e com as tarefas diárias desempenhadas. As imagens profanas, no seu conjunto, traduzem também a diversidade e a hierarquia das relações de produção no contexto social da nossa região.
Na nossa condição de etnólogo amador e auto-didacta, o registo etnográfico das imagens profanas e em particular dos personagens da faina agro-pastoril, será porventura, o mais forte atractivo dos bonecos de Estremoz. À procura deles deambulamos nos sábados, pelo Mercado, na esperança permanentemente renovada de encontrar exemplares mais antigos, que por vezes aparecem à venda. E já temos tido a sorte de conseguir comprar por bom preço, um ou outro boneco que nos faltava, de afamados barristas já falecidos, como Mariano da Conceição, José Moreira ou Sabina Santos. Lá diz o rifão “Quem porfia sempre alcança”. E quando isso acontece é grande o nosso contentamento. E o sábado ainda é melhor. O sábado, é de resto, um dia singular, em Estremoz e é mesmo festejado por muita gente, entre elas escritores. Assim, numa carta de Estremoz, acerca do mercado, publicada no "Jornal do Barreiro" de Março de 1951, dizia Sebastião da Gama [7]: “Se me querem ver contente, é darem-me um sábado de Estremoz“. Perguntamos nós:- Porquê? Dizia ele que ao “Sábado, é o mercado. A praça enfeitada, a praça contente”. E concluía a carta dizendo: “O sábado de Estremoz é o meu domingo de Estremoz”.
Da venda de bonecos de Estremoz no mercado-feira (fig. 2), nos fala João Falcato [6]: “A feira alentejana é um mar de pitoresco. E de abastança também. Tem de tudo e para todos. Até para os artistas ou que, pelo menos, de artistas têm olhos e alma.
Sobre o largo passeio que separa o local da feira da estrada, há sempre multidão de figuras policrómicas e representativas duma originalidade que, sendo viva, é sui-generis: o pastor, o homem do leite, a ceifeira, o cavaleiro, o abegão, a mulher que enche os chouriços, o lavrador, a fiandeira, e até os reis magos, são as personagens estranhas que nos dias de feira povoam as bermas do passeio do Rossio. E tudo isto bonecos, que só não são rudes e primitivos por as mãos que moldaram o seu barro terem em si o jeito divino das criação”.
Os bonecos de Estremoz têm sido objecto de múltiplos estudos, os mais antigos dos quais serão de D. Sebastião Pessanha [9], de Virgílio Correia [5] e de Luís Chaves [4]. Quanto às abordagens publicadas mais recentemente, merecem especial destaque os trabalhos de Solange Parvaux [8] e de Joaquim Vermelho [10].
À criação e venda de bonecos de Estremoz se dedicam na actualidade, barristas como Maria Luísa da Conceição, Irmãos Ginga, Irmãs Flores, Fátima Estróia, Isabel Pires e Célia Freitas, cada um com o seu toque próprio.
As peças produzidas por estes barristas não chegam para as encomendas. O futuro dos bonecos de Estremoz parece, actualmente não estar em risco. Todavia, nem sempre foi assim. Segundo D. Sebastião Pessanha, os últimos presépios feitos em Estremoz, terão sido uma encomenda que fez para si e para o Museu Etnológico de Belém, em 1916. Por outras palavras, os bonecos de Estremoz foram dados como extintos. Como ressurgiram então? Graças à acção de José Maria de Sá Lemos (fig. 3), escultor, natural de Vila Nova de Gaia, discípulo de Mestre Teixeira Lopes e director nos anos 30 da Escola Industrial de António Augusto Gonçalves. Quando ele chegou a Estremoz, o artesanato em barro, estava na mais completa decadência, apenas se confeccionando peças de olaria para uso doméstico. Alimentou então o sonho do ressurgimento dos bonecos de Estremoz e conseguiu concretizar esse sonho. Como director da Escola deu forte incentivo aos Cursos de Olaria e de Cantaria e com o apoio de Ti Ana das Peles (fig. 5) primeiro e de Mariano da Conceição (fig. 6) depois, estimulou a recuperação dos bonecos dados como extintos. Espírito humanista, de rara sensibilidade artística, a ele se deve o facto de os bonecos serem ainda hoje um dos nossos ex-líbris, conhecidos aquém e além fronteiras.
Sá Lemos ao impulsionar o renascimento dos bonecos de Estremoz, pô-los na ordem do dia. Não é assim de admirar que a artista Laura Costa tenha escolhido os bonecos de Estremoz, como motivo de ilustração de bilhetes-postais de Boas Festas dos Correios, da emissão de 1942 (fig. 7 e fig. 8).
No seu livro “Barros de Estremoz” dado à estampa em 1964 diz-nos Azinhal Abelho [1]: “Que Estremoz pague um dia a José Sá Lemos pois voltaram os bonecos de barro à luz do dia” (fig. 9). Parafraseando Azinhal Abelho é caso para dizer que há muito tinha chegado a altura de Estremoz pagar a Sá Lemos os serviços relevantes prestados ao Município. Pois bem, a Assembleia Municipal de Estremoz na sua sessão de 19 de Setembro de 1997, recomendou à Câmara Municipal de Estremoz, que perpetuasse a memória deste estremocense pelo coração, numa futura atribuição de nomes a ruas da nossa cidade. A recomendação carece ainda de concretização.


BIBLIOGRAFIA

[1] - ABELHO, Azinhal – Barros de Estremoz. Lisboa: Edições Panorama, 1964.
[2] - ALVES, Aníbal Falcato – Os Comeres dos Ganhões. Porto: Campo das Letras, 1994.
[3] - CHAVES, Luís – A Arte Popular – Aspectos do Problema. Porto: Portucalense Editora, 1943.
[4] - CHAVES, Luís – Arte popular do Alentejo. Os ganchos de meia de barro d’Estremoz, in Águia, 1917.
[5] - CORREIA, Virgílio – Brinquedos e Louça de Estremoz, in Terra Portuguesa, II, 1916.
[6] - Falcato, João – Elucidário do Alentejo. Coimbra: Coimbra Editora, 1953.
[7] - GAMA, Sebastião - Carta de Estremoz, in Jornal do Barreiro, Março de 1951.
[8] - PARVAUX, Solange – La Céramique Populaire du Haut-Alentejo. Paris: Presses Universitaires de France, 1968.
[9] - PESSANHA, Sebastião – Os Bonecos d’Estremoz, in Terra Portuguesa, I-II, 1911.
[10] - VERMELHO, Joaquim – Barros de Estremoz. Porto: Limiar, 1990.

2. Mercado-feira dos sábados, em Estremoz. Fotografia de Rogério de Carvalho, obtida cerca de 1930.

3. José Maria de Sá Lemos (1892-1971), escultor, natural de Vila Nova de Gaia, discípulo de Mestre Teixeira Lopes e director nos anos 30 da Escola Industrial de António Augusto Gonçalves, em Estremoz.


4. Dr. José Lourenço Marques Crespo (1872-1955), médico, escritor regionalista, fundador e director do jornal Brados do Alentejo (1931-1951). Administrador do Concelho de Estremoz (Fevereiro-Julho de 1910 e Fevereiro- Março de 1913) e Presidente da Câmara Municipal de Estremoz (1923-1926).

5. Ti Ana das Peles, velha bonequeira com aprendizagem efectuada na segunda metade do século XIX, que colaborou com José Maria de Sá Lemos no ressurgimento dos bonecos de Estremoz. Fotografia de Rogério de Carvalho, obtida cerca de 1930.

6. Mariano Augusto da Conceição (1902-1959), Mestre de Olaria na Escola Industrial de António Augusto Gonçalves, em Estremoz e que viria a ser barrista da Olaria Alfacinha, após ter aprendido a arte com Ti Ana das Peles, por incentivo do Director da Escola, José Maria de Sá Lemos. Fotografia de Rogério de Carvalho, obtida cerca de 1930.



7. Bilhete-postal de Boas Festas do tipo "Tudo Pela Nação" e que tem como motivo  "Bonecos de Estremoz". Expedido em 24 de Dezembro de 1942, por SÁ LEMOS, director nos anos 30 da Escola Industrial de António Augusto Gonçalves, em Estremoz, o qual pela sua acção fez ressurgir os "Bonecos de Estremoz", que estavam em vias de extinção. Bilhete-postal recebido pelo Dr. José Lourenço Marques Crespo (1872-1955), Presidente da Câmara Municipal de Estremoz no período 1923-1926 e pessoa de rara sensibilidade para as questões do Património, do Artesanato e da Cultura em geral.

8. Verso do anterior bilhete-postal de Boas Festas emitido pelos correios portugueses em 1942, em que um presépio de Estremoz é o motivo central da ilustração de Laura Costa.