quinta-feira, 11 de março de 2010

Forca de fazer cordão




5,2 x 0,5 x 15,8 cm. Em madeira. Fina e profusamente decorada com motivos florais em ambas as faces. Bordado simétrico em relação ao eixo vertical da forca.
Numa das faces, de cada um dos lados do eixo vertical, imediatamente acima do orifício central, são visíveis dois trevos de 4 folhas.
De acordo com lendas celtas, os druidas praticavam rituais de colheita de plantas e animais que traziam boa ou má sorte. Acreditavam assim, por exemplo, que quem possuísse um trevo de quatro folhas poderia incorporar os poderes da floresta e a sorte dos deuses, adquirindo então o dom da prosperidade. Daí que tradicionalmente o trevo de quatro folhas seja considerado como um poderoso amuleto e usado em iconografia diversa.
Oferecer a alguém um objecto (como esta forca de fazer cordão), a qual incorpora na sua decoração um trevo de quatro folhas, é formular-lhe votos de prosperidade, saúde e fortuna. Há quem considere ainda que cada folha do trevo tem um significado próprio: Esperança, Fé, Amor, Sorte, bem como o número de folhas (4) - representa um ciclo completo, como as 4 Estações, as 4 fases da Lua ou os 4 elementos da Natureza: Ar, Fogo, Terra e Água, conforme a “Teoria dos 4 Elementos” de Aristóteles (384-322 a.C.).
Para além do que já foi dito, a abundante decoração floral desta forca de fazer cordão, merece uma reflexão mais pormenorizada acerca do simbolismo das flores.
No século XVIII, um viajante inglês de visita á Turquia teve conhecimento do “código” ali utilizado para exprimir sentimentos através das flores. O original costume teria logo chegado à França, onde se inventou uma linguagem composta integralmente por símbolos florais. Os primeiros livros sobre linguagem das flores foram, assim, publicados em França:
- Abcedaire Flore ou Langage de Fleurs - B. Delachenaye (1810) .
- Le Langage de Fleurs - Charlotte de Latour (1819).
Por influência francesa apareceram depois livros ingleses e americanos, entre os quais:
- Floral Emblems - Henry Phillips (1820) .
- The Language of Flowers; With Illustrative Poetry - Frederic Shoberl (1834) .
- The Language of Flowers - Kate Greenaway (1884) .
A existência de múltiplos livros sobre o assunto em Inglaterra na época victoriana, originava, por vezes, a atribuição de diferentes significados simbólicos à mesma flor, por parte dos diferentes livros, levando a confusão na mensagem a ser transmitida. A comunicação através das flores exigia assim que os amantes da época victoriana utilizassem o mesmo dicionário floral. Na era vitoriana, a linguagem das flores foi algo de complexo, pois diferentes flores traduziam diferentes sentimentos, assim como a maneira como eram oferecidas e aceites tinha determinado significado
Estamos em crer que as flores bordadas na presente forca de fazer cordão, encerram um significado simbólico que esteve na mente do “bordador”, o qual eventualmente seria conhecido da mulher a quem este artefacto foi oferecido. Por outras palavras: mais que mera e ocasional decoração, a forca transmitiria uma mensagem simbólica conhecida por quem ofertou e por quem recebeu. Apesar duma forte convicção nesse sentido, mas dada a estilização dos elementos florais empregues, não nos atrevemos a procurar decifrar qualquer mensagem simbólica que a forca encerre.

Publicado inicialmente em 11 de Março de 2010

quarta-feira, 10 de março de 2010

A ronca



A ronca é um instrumento musical tradicional do Alentejo, bastante rudimentar, pertencente à classe dos membranofones de fricção. É composto essencialmente por um reservatório, geralmente um cântaro de barro [1], que serve de caixa de ressonância e cuja boca é cerrada com uma pele esticada, a qual vibra quando se fricciona uma pequena e fina cana presa por uma das extremidades no seu centro. O som resultante, grave e fundo, é transformado pela caixa de ressonância no ronco característico do instrumento.
A espessura e a qualidade da pele, é importante por causa do som. Por isso, usa-se pele de ovelha, borrego, carneiro, cabra, cabrito ou chibo, bem como bexiga de porco ou de carneiro.
É um instrumento usado no acompanhamento de canções de Natal ou das Janeiras, podendo ainda pode ser encontrado na zona raiana (região de Portalegre, Elvas, Terrugem e Campo Maior), onde grupos de homens agasalhados nos seus capotes para arrostar o frio, percorrem as ruas em compasso lento e solene, entoando cantares, parando aqui e ali, para dedicar os seus cantos aos moradores de determinadas casas.
Durante a sua utilização, a ronca é levada debaixo de um dos braços, enquanto o outro fricciona a cana longitudinalmente, com força. A eficácia do funcionamento da ronca exige que, de vez em quando, os tocadores cuspam para a mão que empunha a cana, a fim de lubrificar a pele da ronca. Os cânticos entoados podem ser dos mais diversos. Por exemplo:

“Qualquer filho de homem pobre
Nasce num céu de cortinas.
Só tu, Menino Jesus,
Nasceste numas palhinhas.” [2]

“Ó mê Menino Jasus
Da Lapa do coração,
Dai-me da vossa merenda,
Que a minha mãe não tem pão.” [3]

Sobre a ronca, diz-nos António Thomaz Pires [4] "Das nove horas até à meia-noite de Natal percorrem as ruas da cidade diferentes grupos de homens do povo, cantando em altas vozes, em coro, e núm rhytmo e entoação especial, trovas ao Menino Jesus, acompanhadas pelo som àspero da ronca: alcatruz de nora, ou panella de barro, a cujo bocal se adapta uma membrana, ou pelle de bexiga, atravessada por um pau encerado, pelo qual se corre a mão com força para produzir um som rouco. Somente pelo Natal é este instrumento ouvido."

[1] - Mas pode ser também uma panela de barro ou um cântaro de lata ou outro recipiente qualquer.
[2] – Recolhida em Elvas: PESTANA, M. Inácio. Etnologia do Natal Alentejano, Edição da Assembleia Distrital, Portalegre, 1978.
[3] – Recolhida no Alandroal: VASCONCELLOS, J. Leite de. Cancioneiro Popular Português, vol. III, Acta Universitatis Conimbrigensis, Coimbra, 1983.
[4] - PIRES, António Thomaz . "A noite de Natal, o Ano Bom e os Santos Reis” in Estudos e notas elvenses. António Torres de Carvalho. Elvas, 1923 ( 2ª ed.).

Publicado inicialmente a 10 de Março de 2010

terça-feira, 9 de março de 2010

Brincadeiras d'outrora



Nos meus tempos de miúdo, jogava aos amalhões, à mosca, à pateira, à roda, ao botão, ao berlinde e ao soco quando era preciso. E levava também no focinho, porque lá diz o rifão: “Quem vai à guerra, dá e leva.” Nas brincadeiras o que contava era a imaginação sem limites e a arte do desenrasca, em que o português ainda hoje é mestre.
Havia também a ida aos grilos e partidas que se pregavam aos tansos como a “ida aos gambosinos” ou fazer de estribo na “brincadeira do rei coxo”.
As meninas, salvo alguma Maria Rapaz, que as havia e algumas delas encantadoras, brincavam às donas de casa, passando a ferro, fazendo jantarinhos e dando banho e biberon aos bonecos.
Hoje, reconheço que o sistema estava montado para gerar diferença de género e havia coisas que, apesar de puto, eu tinha a noção que não deveriam ser assim.
Hoje o sistema travestiu-se e foi montado de maneira diferente. Porém, deu para o torto.
Além das brincadeiras de rapazes e tanto quanto me lembra a memória dos tempos idos, sempre tive gosto por colecções, entre elas, botões, cromos, moedas, selos, postais, panfletos publicitários e mais tarde, aí pelos 12 anos, livros.
A estas colecções vieram-se juntar outras, mas as colecções primitivas ainda hoje perduram. Entre elas, as colecções de cromos montadas nas respectivas cadernetas, como é o caso das RAÇAS HUMANAS, da HISTÓRIA DE PORTUGAL, da HISTÓRIA NATURAL e dos TRAJES TÍPICOS DE TODO O MUNDO, entre eles os de Portugal.
Decerto que foi com esta última que eu fiquei fascinado pela Etnografia, antes de saber que Garrett tinha sido o percursor, Leite de Vasconcellos o fundador e Luís Chaves e outros mais, os continuadores.
As cadernetas de cromos, foram as minhas pastilhas de Cultura. Foram o meu software, antes de terem inventado as consolas electrónicas que programam e condicionam o divertimento, assim como a raça maldita dos Magalhães, que põem os putos convencidos que fazer um trabalho de pesquisa, não é mais que uma mera operação de corte e colagem.
Não trocava uma caderneta de cromos por 10 Magalhães, nem sequer o meu talego de botões (com mirôlas e chapéuzinhos de chumbo) por consolas.
O registo das memórias passadas é o melhor investimento cultural que podemos deixar aos nossos netos....

Publicado inicialmente em 9 de Março de 2010
O presente texto integra o meu livro "Memórias do Tempo da Outra Senhora"

segunda-feira, 8 de março de 2010

Cancioneiro do Natal Alentejano


Grupo de cantadores (anos 90 do séc. XX). Ana Bossa (1978- ), que nos anos 90
do séc. XX, frequentou o atelier das irmãs Flores.

A identidade cultural alentejana reflecte-se em tudo, inclusive no cancioneiro popular de Natal, onde apesar da religiosidade um pouco peculiar, é notório o respeito pela Sagrada Família, a qual apesar disso é tratada terra a terra e mesmo com uma certa ironia. Assim, Jesus é identificado como mais pobre que os pobres:

"Qualquer filho de homem pobre
Nasce num céu de cortinas.
Só tu, Menino Jesus,
Nasceste numas palhinhas." [1]

Jesus é também recriminado por ter nascido numa época de frialdade:

"Ó meu Menino Jesus
Ó meu menino tão belo,
Logo Vós foste nascer
Na noite do caramelo!" [2]

Fazendo fé no cancioneiro, ou das duas uma, tal como a minha filha, o Menino era crescido para a idade, ou S. José era um carpinteiro de obra grossa, que fazia as obras a olho, não ligando às possíveis medidas:

"O Menino chora, chora,
Chora com muita rezão:
Fizeram-le a cama curta,
‘Tá c'os pézinhos no chão." [3]

De resto, S. José poderia não ser mesmo dado a grandes trabalheiras:

"José, embana o Menino,
Com a mão e não com o pé;
Esse Menino que embanas
É Jesus de Nazaré!" [4]

Quem parece que sabia embalar o Menino era a mãe:

"Esta noite, à meia noite,
Ouvi cantar ao Divino;
Era a virgem Maria
Que embalava o seu Menino." [5]

O Menino parece que era um bébé - chorão e tanto chorava por cima como por baixo:

"O Menino chora, chora,
Chora pelos calçõezinhos.
Calai-vos, ó mê Menino
Faltam-le os botõezinhos." [6]

Como todos os bébés, o Menino era um bébé – mijão. Por isso, tinha de mudar de roupa de baixo com frequência, dando muito trabalho à mãe:

"Cantai, anjos, ao Menino
Que a senhora logo vem:
Foi lavá-los cueirinhos
À ribeira de Belém." [7]

Era cada encharcadela! Molhava não só ao cuerinhos como também a camisinha:

"Ó mê Menino Jasus,
Qu'é da tua camisinha?
Tá lá fora na ribeira
Em cima duma pedrinha." [8]

Não havia sítio que chegasse para estender a roupa, a ponto de os pastores terem de ser avisados para não arrancar vegetação, não fosse dar-se o caso, de não haver onde estender a roupa:

"Pastor do gado branco,
Não arranques o rosmaninho,
Pois é onde a Virgem Pura
Estende os cueirinhos." [9]

De resto, parece que o menino não era muito esquisito em relação à roupa:

"- Ó meu amado Menino
Quem Vos deu o fato verde?
- Foi uma moça donzela
Duma doença que teve." [10]

Mariolicices também o Menino as faria, a ponto de ter que levar o seu tabefe:

"- Ó meu menino Jesus
Quem vos deu? Porque chorais?
- Deram-me as moças da fonte;
Não hei-de tornar lá mais." [11]

O cancioneiro popular alentejano é um cancioneiro de homens sujeitos ao trabalho sazonal e ao consequente desemprego cíclico. Por isso, é um cancioneiro de homens, muitas vezes com uma barriga vazia que dá horas, não podendo, por isso mesmo, deixar de reflectir naquilo que as poderia confortar. Para alguns, haveria mesmo que dar de comer ao Menino, sem a própria mãe saber:

"Ó mê Menino Jasus,
Quem vos pudera valer,
com sopinhas da panela
Sem a vossa Mãe saber!" [12]

Alguns deviam ter tanta fome, que chegaram a pôr a hipótese de comer a boca do Menino:

"Ó mê Menino Jasus,
Boquinha de requêjão:
Quem vo-la comera toda
C'um bocadinho de pão." [13]

Outros mais comedidos, limitaram-se a pedir ao Menino para repartir com eles a comida, porque não têm pão:

"Ó mê Menino Jasus
Da Lapa do coração,
Dai-me da vossa merenda,
Que a minha mãe não tem pão." [14]

Ou até porque não têm mesmo nada para comer:

"Ó meu amado Menino,
Boquinha de marmelada,
Dai-me da vossa merenda,
Que a minha mãe não tem nada." [15]

Chegam mesmo ao ponto de querer saber, onde é que o menino arranjou a comida que tem naquele momento

"Ó mê Menino Jasus,
Quem te deu essa boleta?
Foi a minha avó Sant'Ana
Qu'a tinha lá na gaveta." [16]

Outros, mais imaginativos, talvez pensando naquilo que não têm, pintam um menino empanturrado com aquilo que o porco e a terra dão:

"Olha o Deus Menino,
Nas palhinhas deitado,
A comer pão e toicinho
Todo besuntado!" [17]

Este o cancioneiro popular que temos e de que nos devemos orgulhar, por ser parte integrante da nossa memória colectiva e da nossa identidade cultural, que urge preservar e transmitir às gerações mais novas.
[1] - Elvas. Recolha de M. Inácio Pestana in Etnologia do Natal Alentejano, Edição da Assembleia Distrital, Portalegre, 1978.
[2] - Recolha de J. Leite de Vasconcellos in Cancioneiro Popular Português, vol. III, Acta Universitatis Conimbrigensis, Coimbra, 1983.
[3] - Elvas. Recolha de M. Inácio Pestana in Etnologia do Natal Alentejano, Edição da Assembleia Distrital, Portalegre, 1978.
[4] - Alandroal. Recolha de J. Leite de Vasconcellos in ob. cit.
[5] - Alentejo. Recolha de J. Leite de Vasconcellos in ob. cit.
[6] - Elvas. Recolha de M. Inácio Pestana in ob. cit.
[7] - Alentejo. Recolha de J. Leite de Vasconcellos in ob. cit.
[8] - Elvas. Recolha de M. Inácio Pestana in Etnologia do Natal Alentejano, Edição da Assembleia Distrital, Portalegre, 1978.
[9] - Elvas. Recolha de M. Inácio Pestana in ob. cit.
[10] - Alentejo. Recolha de J. Leite de Vasconcellos in ob. cit.
[11] - Alentejo. Recolha de J. Leite de Vasconcellos in ob. cit.
[12] - Alandroal. Recolha de J. Leite de Vasconcellos in ob. cit.
[13] - Elvas. Recolha de M. Inácio Pestana in ob. cit.
[14] - Alandroal. Recolha de J. Leite de Vasconcellos in ob. cit.
[15] - Alentejo. Recolha de J. Leite de Vasconcellos in ob. cit.
[16] - Elvas. Recolha de M. Inácio Pestana in ob. cit.
[17] - Estremoz. Recolha de H. Matos. Anos 60.

Publicado inicialmente em 8 de Março de 2010

domingo, 7 de março de 2010

O pastor


Aguarela de ALBERTO DE SOUZA (1880-1961),
utilizada no cartaz e na capa do catálogo
da Feira-Exposição de Maio de 1927, em Estremoz.

 TRAJE

Mestre Alberto de Souza (1880-1961), notável aguarelista e ilustrador, calcorreou o país de lés a lés na primeira metade do século XX, funcionando como consciência plástica da Nação, pela oportunidade e rigor do registo etnográfico, efectuado através das suas exemplares aguarelas, como aquela que esteve na base da confecção de um cartaz para a afamada Feira-Exposição de Maio de 1927, em Estremoz.
Nesta aguarela, na parte superior, a parte antiga do burgo, confinada às muralhas do Castelo e, dominando tudo, altaneira e vigilante sobre a planície, a Torre de Menagem, ex-líbris de Estremoz. Em primeiro plano, o pastor de ovelhas, arrimado ao seu cajado, com o tarro com as comedorias do dia, envergando o seu traje regional constituído pelo pelico, pelos safões, pelo lenço em redor do pescoço e pelo chapéu de aba farta, como diz a cantiga da sua conversada:

“Debaixo das azinheiras
Encostado ao teu cajado,
Com o chapéu de abas largas
Vejo-te guardando o gado.” [1]

Sobre o traje, diz-nos Luís Chaves, etnólogo que na época também por aqui andava: "O traje surge-nos como produto natural do meio, isto é, de quanto dentro e à volta do homem existe, e tudo o que influi no espírito e actua nele. Desde a escolha e adopção de tecidos, até à cor e forma, desde a ornamentação ao arranjo das partes componentes, tudo aí tem razão de ser como é, e tem de estar onde está." [2]
Hoje, o pastor da região já não se veste assim e as encostas do monte onde se ergue o Castelo de Estremoz, são vinhas e não campos de semeadura de trigo. Daí a importância desta e de todas as outras aguarelas de Alberto de Souza e de outros pintores ou imagens fotográficas, no registo etnográfico de uma época, para memória futura e afirmação da identidade cultural.
Para alem do óbvio do traje revelado pela imagem do pastor alentejano de Alberto de Souza, há histórias que essa imagem suscita e que têm a ver com dois factos fundamentais: a vida ao ar livre e a grande solidão em que vive o pastor.

A VIDA AO AR LIVRE

Na sua peregrinação pelos montados e pelas abas da Serra, o pastor conhecia profundamente as ervas que podem ser utilizadas na alimentação: alabaças, cardinhos, espargos, saramagos. etc. Conhecia também as ervas medicinais, que utiliza para fazer mezinhas: a macela, a carqueija, a manjerona, o rosmaninho. Conhecia igualmente as ervas aromáticas que utiliza como condimentos: orégâos, poejos, salva, manjerona, etc.
Na sua solidão, o pastor estava coberto pelo céu, cuja observação era uma constante como nos diz o cancioneiro popular:

"Vai romper aurora,
Vai nascer o Sol,
Tinge-se o Nascente
De cores do arrebol." [3],[4]

Essa observação permitia-lhe prever o tempo. Na verdade, da observação empírica e continuada de gerações e gerações de camponeses, utilizando como indicadores a Lua, o Sol, as estrelas, o arco-íris, as trovoadas e o vento, resultaram sentenças muitas vezes condensadas em provérbios que eram axiomas práticos a seguir [5] :
- “Lua Nova trovejada, trinta dias é molhada.”
- “Chuva, ao pôr-do-sol dá ventos fortes no dia seguinte.”
- “ Nuvens vermelhas, ao Sol posto, dão vento; se andam para o Sul, chove;”
- "O arco-fris quando vem é sinal de chuva próxima;"
- "Trovões de manhã, fortes ventanias à tarde;"
- Em Estremoz, vento do Pego (Poente) trás chuva;
De resto, o pastor sabia que:
- "Há tempestade quando os carneiros e as ovelhas se marram uns aos outros e olham para o céu;"
- "Chove quando o couro se toma mais áspero;"
A vida do pastor, toda ela feita ao ar livre, embora dura, era rica de vivências e saberes. Ao longo dos tempos tem sido motivo de inspiração para poetas eruditos, como foi o caso do neo-realista alentejano Antunes da Silva (1921-1997).

A SOLIDÃO

Para além da vida ao ar livro, a vida do pastor tinha outra constante que era a grande solidão em que vivia. Por isso, o pastor alentejano ocupava o tempo que lhe sobrava da guarda do rebanho, em gravar desenhos sobre madeira, cortiça ou chifre.
Como principal instrumento de trabalho, servia-se da navalha, mas utilizava também o ponteiro e a legra.
Dentre os trabalhos executados podem citar-se os seguintes: cáguedas, colheres, cassos, garfos, copeiras, garfeiras, molduras, tinteiros, pontões de arca, sovinos, agulheiros, chavões, côxos, tarros, caixas de costura, saleiros, tropeços, polvorinhos, cornas, azeiteiros, copos, o que levou o etnólogo Virgílio Correia a afirmar em 1916 que "A Província do Alentejo é a lareira onde arde mais vivo, mais claro e mais alto, o fogo tradicional da arte popular portuguesa.”[6] Também o escritor João Falcato disse em 1953, que “Não sabe uma letra o pastor destas terras, em erudição nunca ouviu falar, e é poesia pura a linguagem da sua alma, e é poesia pura o que sai das suas mãos.
E além de tudo mais uma qualidade tem a sua poesia. Não precisa dos livros para se imortalizar. Um raminho de buxo, um nada de cortiça, e, da inspiração fugidia, ficou alguma coisa nas nossas mãos.
Perdão! nas mãos da sua conversada que cada Domingo as estende para receber a colher rendada com que se promete casamento ou o tarro com que se deseja abastança, e se acha ao fim e ao cabo com um poema em que se fala de amor.” [7]
Mas apesar de a arte pastoril ser poesia e poesia pura, na solidão da sua vida de nómada, o pastor era um poeta popular no sentido literal do termo, criando sobretudo décimas e quadras que registava no livro vivo da sua memória:

" Àlém ò pé do redil
Uma pedra me espera
Sentado ali sem dormir,
Górdando o gado da fera." [8]


Sim, por que lá diz o rifonário popular. “É ao mau pastor que o lobo dá louvor” e “Pastor descuidado, ao sol posto junta o gado” e ainda “A ovelha que não tem dono, come-a o lobo”.
A quadra podia ser brejeira:

"Assente-se aqui, menina,
À sombra do meu chapéu,
O Alentejo não tem sombra,
Senão a que vem do céu." [9]

Podia ser também o reflexo do grande isolamento em que vivia o pastor, que lhe permitia conhecer a natureza que o rodeava, muito em particular, o céu:

"As árves que o mundo tem
Cubro-as c’o meu chapéu.
Diga-me cá por cantigas
Quantas ‘strelas há no céu? [10]

Por vezes a poesia encerrava uma profunda crítica social:

"Sobe o rei no alto trono,
Desce o pastor ao val’ fundo;
Uns p’ra baixo, outros p’ra cima
Vai-se assim movendo o mundo." [11]

Felizmente que através dos tempos tem havido estudiosos que têm procedido à recolha do rico Cancioneiro Popular. Registo entre outros os nomes de Tomás Pires, Luís Chaves, Azinhal Abelho, Manuel Joaquim Delgado, Augusto Pires de Lima, Vítor Santos, Fernando Lopes Graça, Michel Giacometti, a quem presto o tributo do meu reconhecimento por terem tido a clarividência da importância que constitui o registo escrito do Cancioneiro Popular, como forma de assegurar a perpetuidade do que tem de mais rico e genuíno a nossa memória colectiva.
Termino aqui a incursão - necessariamente esquemática e incompleta que ousei fazer a alguns aspectos etnográficos e sociológicos da vida do pastor alentejano. Vida dura e heróica, mas também de partilha com a Natureza com a qual aprendeu a viver harmonicamente. Vida também de equilíbrio com o Universo cujas mensagens mais profundas, como poucos soube decifrar. Vida ainda de poesia pura, mas também de fraternidade solidária com os seus iguais. Razões suficientes para a meu ver constituir um ex-líbris de peso na divulgação da nossa alma regionalista.

[1] - Beja - Recolha de Manuel Joaquim Delgado in Subsidio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo - 2° ed. (2 vol.). Instituto Nacional de Investigação Científica. Lisboa, 1980.
[2] - Luís Chaves in A Arte Popular - Aspectos do Problema, Portucalense Editora, Porto, 1943.
[3] - Cor avermelhada do horizonte, nos pontos em que se rompe ou põe o Sol.
[4] - Mértola - Recolha de Manuel Joaquim Delgado in ob. cit.
[5] - Luís Chaves in Páginas Folclóricas, Portucalense Editora, Porto, 1942.
[6] - Virgílio Correia in Etnografia Artística, Renascença Portuguesa, Porto, 1916.
[7] - João Falcato in Elucidário do Alentejo, Coimbra Editora, Coimbra, 1953.
[8] - Beja - Recolha de Manuel Joaquim Delgado in ob. cit.
[9] - Beja - Recolha de Manuel Joaquim Delgado in ob. cit.
[10] - Beja - Recolha de Manuel Joaquim Delgado in ob. cit.
[11] – Ferreira do Alentejo - Recolha de Manuel Joaquim Delgado in ob. cit.

Publicado inicialmente a 7 de Março de 2010

sábado, 6 de março de 2010

O dia da espiga

Bilhete postal ilustrado dos anos 20 do século XX,
reproduzindo ilustração de A. Rey Colaço.

De acordo com o calendário litúrgico cristão, na Quinta-Feira da Ascensão comemora-se a ascensão de Cristo Salvador ao Céu, após ter sido crucificado e ter ressuscitado. Esta data móvel encerra um ciclo de quarenta dias após a Páscoa. Lá diz o rifão: "Da Páscoa à Ascensão, 40 dias vão."
Na Quinta-Feira da Ascensão celebra-se igualmente o Dia da Espiga. Era tradição, as pessoas irem para o campo neste dia, para apanhar a espiga de trigo e outras plantas e flores silvestres. Faziam um ramo que incluía pés de trigo e/ou centeio, cevada, aveia, um ramo de oliveira, papoilas e margaridas. O ramo tinha um valor simbólico. Simbolizava a fecundidade da terra e a alegria de viver. As espigas simbolizavam o pão e a abundância, as papoilas o amor e a vida, o ramo de oliveira a paz e as margaridas o ouro, a prata e o dinheiro. De acordo com a tradição, o ramo devia ser pendurado dentro de casa, na parede da cozinha ou da sala, aí se conservando durante um ano, até ser substituído pelo ramo do ano seguinte. Havia a crença que o ramo funcionava como um poderoso amuleto que trazia a abundância, a alegria, a saúde e a sorte. Lá dizia o rifão: "Quem tem trigo da Ascensão, todo o ano terá pão." E porquê? Porque se acredita naquilo que diz o cancioneiro popular alentejano:

"Tudo vai colher ao campo
Quinta-feira d'Ascensão,
trigo, papoila, oliveira.
p'ra que Deus dê paz e pão." [1]

"Quinta-feira de Ascensão
As flores têm virtudes,
Quis amar teu coração,
Fiz empenho mas não pude." [2]

A origem festiva do Dia da Espiga, coincidente com a Quinta-Feira da Ascensão, é muito anterior à era cristã. Na verdade, este dia é um sucessor claro de rituais pagãos, praticados durante séculos, por todo o mundo mediterrâneo, em que grandiosos festivais de cantares e danças, celebravam a Primavera e consagravam a natureza. Neles se exortava o eclodir da vida vegetal e animal, após a letargia dos meses frios, bem como a esperança nas novas colheitas. O Dia da Espiga era assim como que uma bênção aos primeiros frutos e marcava o início da época das colheitas.
A Igreja, à semelhança do que fez com outras ancestrais festas pagãs, cristianizou o Dia da Espiga. A data atravessa assim os tempos com uma dupla significação:
- como Quinta-feira de Ascensão, para os cristãos, assinalando, a ascensão de Jesus ao Céu, ao fim de 40 dias;
- como Dia da Espiga, traduzindo aspectos e crenças não religiosos, mas exclusivos da esfera agrícola e familiar.

              Bilhete postal ilustrado do 2º quartel do século XIX, edição A.V.L. (Lisboa),
               reproduzindo aguarela de Alfredo Moraes  (1872-1971).

Actualmente poucas são as pessoas que ainda se deslocam ao campo na Quinta-Feira da Ascensão para apanhar o ramo da espiga. Mas aquelas que vão, têm dificuldade em constituir o ramo, sobretudo pela dificuldade em recolher pés de cereal, raros a partir do momento em que os nossos agricultores receberam dinheiro de Bruxelas para deixar de cultivar. Apesar de tudo, há quem consiga cumprir a tradição. E há também quem faça negócio com a tradição, colhendo e vendendo ramos de espiga na cidade. Apesar do mercantilismo deste biscate em tempo de crise, é um contributo para a preservação da tradição. Actualmente, também são poucas as pessoas que se deslocam à Igreja para participar nos deveres religiosos inerentes à data. Todavia, houve tempos em que a data, das mais festivas do ano, era repleta de cerimónias sagradas e profanas, que chegavam a implicar a paralisação laboral. Daí o rifão: “No Dia da Ascensão nem os passarinhos bolem nos ninhos”.

[1] - Recolha de  Vítor Santos in Cancioneiro Alentejano - Poesia Popular. Livraria Portugal. Lisboa, 1959.
[2] - Évora - Recolha de J. Leite de Vasconcellos in Cancioneiro Popular Português, vol. III. Acta Universitatis Conimbrigensis. Coimbra, 1983

quinta-feira, 4 de março de 2010

Alguns aspectos da olaria


Mário Lagartinho, o último oleiro de Estremoz.

A olaria é a arte de trabalhar o barro – rocha metamórfica resultante da decomposição das rochas feldspáticas, por acção de fenómenos de desnudação e erosão, devidos aos agentes atmosféricos (água e vento), bem como devido à acção química do dióxido de carbono dissolvido na água.
Quimicamente, o barro é um silicato duplo de alumínio, mais ou menos hidratado, contendo por vezes impurezas provenientes das rochas primitivas (mica, quartzo, carbonato de cálcio, silicato de ferro ou magnésio) que o colore.
O barro possui um certo número de propriedades características, a mais importante das quais é a plasticidade que lhe é comunicada pela água com a qual é misturado. Em segundo lugar, a coesão e o endurecimento provocado pela secagem. Finalmente, a perda de plasticidade obtida através da cozedura.
Estas propriedades terão sido acidentalmente descobertas pelo homem primitivo, o qual começou a manufacturar peças de olaria, visando a obtenção de recipientes para o transporte de água e a cozedura de alimentos.
O Alto Alentejo tem inúmeros centros oleiros dos quais os mais importantes são: Redondo, S. Pedro do Corval, Reguengos de Monsaraz, Estremoz, Flor da Rosa, Nisa e Portalegre.
Por aqui viveram durante largas centenas de anos, romanos, visigodos e árabes, que nos legaram valores de que ainda hoje nos servimos, como é o caso das peças de olaria, que reproduzem fielmente peças mais antigas, as quais são na sua maioria de origem romana (talha, infusa, cangirão, tina, copo, etc.), grega (cântara, bilha, panela, etc.), árabe (alguidar, alcatruz, fogareiro, etc.). Já o cantil é originário da Ásia Menor e o moringue da América.
No caso que mais nos interessa – Estremoz – a referência mais antiga aos barros de Estremoz remonta ao foral de D. Afonso III, datado de 1258, seguindo-se-lhe o foral de D. Manuel I, de 1512. Daqui para diante as referências histórico - literárias aos barros de Estremoz são múltiplas: António Caetano de Sousa (1543), Giovanni Battista Venturini (1571), Francisco de Morais (1572), Inventário de D. Joana (irmã de Filipe II), correspondência de Filipe II, Padre Carvalho (1708), Francisco da Fonseca Henriques (1726), João Baptista de Castro (1745), Duarte Nunes de Leão (1785), D. Francisco Manuel de Melo, Alexandre Brongniart (1854), Carolina Michaëlis de Vasconcellos (1925).
Os barros de Estremoz têm sido cantados pelos nossos poetas: Camões, Gil Vicente, António de Vilas Boas e Sampaio, António Sardinha, Celestino David, Maria de Santa Isabel, Guilhermina Avelar e António Simões. Mas não só os poetas eruditos têm tomado a olaria como tema de composições. Também ao longo dos anos, os nossos poetas populares têm feito quadras e décimas que integram o valioso cancioneiro popular alentejano.
A olaria é uma das mais antigas, se não a mais antiga das artes populares. A olaria alentejana é uma das mais ricas do mundo, como igualmente ricos são os seus aspectos etnográficos (preparação do barro, fabrico, cozedura, venda e utilização das peças de olaria).