domingo, 7 de março de 2010

O pastor

Aguarela de ALBERTO DE SOUZA (1880-1961),
utilizada no cartaz e na capa do catálogo
da Feira-Exposição de Maio de 1927, em Estremoz.

 TRAJE

Mestre Alberto de Souza (1880-1961), notável aguarelista e ilustrador, calcorreou o país de lés a lés na primeira metade do século XX, funcionando como consciência plástica da Nação, pela oportunidade e rigor do registo etnográfico, efectuado através das suas exemplares aguarelas, como aquela que esteve na base da confecção de um cartaz para a afamada Feira-Exposição de Maio de 1927, em Estremoz.
Nesta aguarela, na parte superior, a parte antiga do burgo, confinada às muralhas do Castelo e, dominando tudo, altaneira e vigilante sobre a planície, a Torre de Menagem, ex-líbris de Estremoz. Em primeiro plano, o pastor de ovelhas, arrimado ao seu cajado, com o tarro com as comedorias do dia, envergando o seu traje regional constituído pelo pelico, pelos safões, pelo lenço em redor do pescoço e pelo chapéu de aba farta, como diz a cantiga da sua conversada:

“Debaixo das azinheiras
Encostado ao teu cajado,
Com o chapéu de abas largas
Vejo-te guardando o gado.” [1]

Sobre o traje, diz-nos Luís Chaves, etnólogo que na época também por aqui andava: "O traje surge-nos como produto natural do meio, isto é, de quanto dentro e à volta do homem existe, e tudo o que influi no espírito e actua nele. Desde a escolha e adopção de tecidos, até à cor e forma, desde a ornamentação ao arranjo das partes componentes, tudo aí tem razão de ser como é, e tem de estar onde está." [2]
Hoje, o pastor da região já não se veste assim e as encostas do monte onde se ergue o Castelo de Estremoz, são vinhas e não campos de semeadura de trigo. Daí a importância desta e de todas as outras aguarelas de Alberto de Souza e de outros pintores ou imagens fotográficas, no registo etnográfico de uma época, para memória futura e afirmação da identidade cultural.
Para alem do óbvio do traje revelado pela imagem do pastor alentejano de Alberto de Souza, há histórias que essa imagem suscita e que têm a ver com dois factos fundamentais: a vida ao ar livre e a grande solidão em que vive o pastor.

A VIDA AO AR LIVRE

Na sua peregrinação pelos montados e pelas abas da Serra, o pastor conhecia profundamente as ervas que podem ser utilizadas na alimentação: alabaças, cardinhos, espargos, saramagos. etc. Conhecia também as ervas medicinais, que utiliza para fazer mezinhas: a macela, a carqueija, a manjerona, o rosmaninho. Conhecia igualmente as ervas aromáticas que utiliza como condimentos: orégâos, poejos, salva, manjerona, etc.
Na sua solidão, o pastor estava coberto pelo céu, cuja observação era uma constante como nos diz o cancioneiro popular:

"Vai romper aurora,
Vai nascer o Sol,
Tinge-se o Nascente
De cores do arrebol." [3],[4]

Essa observação permitia-lhe prever o tempo. Na verdade, da observação empírica e continuada de gerações e gerações de camponeses, utilizando como indicadores a Lua, o Sol, as estrelas, o arco-íris, as trovoadas e o vento, resultaram sentenças muitas vezes condensadas em provérbios que eram axiomas práticos a seguir [5] :
- “Lua Nova trovejada, trinta dias é molhada.”
- “Chuva, ao pôr-do-sol dá ventos fortes no dia seguinte.”
- “ Nuvens vermelhas, ao Sol posto, dão vento; se andam para o Sul, chove;”
- "O arco-fris quando vem é sinal de chuva próxima;"
- "Trovões de manhã, fortes ventanias à tarde;"
- Em Estremoz, vento do Pego (Poente) trás chuva;
De resto, o pastor sabia que:
- "Há tempestade quando os carneiros e as ovelhas se marram uns aos outros e olham para o céu;"
- "Chove quando o couro se toma mais áspero;"
A vida do pastor, toda ela feita ao ar livre, embora dura, era rica de vivências e saberes. Ao longo dos tempos tem sido motivo de inspiração para poetas eruditos, como foi o caso do neo-realista alentejano Antunes da Silva (1921-1997).

A SOLIDÃO

Para além da vida ao ar livro, a vida do pastor tinha outra constante que era a grande solidão em que vivia. Por isso, o pastor alentejano ocupava o tempo que lhe sobrava da guarda do rebanho, em gravar desenhos sobre madeira, cortiça ou chifre.
Como principal instrumento de trabalho, servia-se da navalha, mas utilizava também o ponteiro e a legra.
Dentre os trabalhos executados podem citar-se os seguintes: cáguedas, colheres, cassos, garfos, copeiras, garfeiras, molduras, tinteiros, pontões de arca, sovinos, agulheiros, chavões, côxos, tarros, caixas de costura, saleiros, tropeços, polvorinhos, cornas, azeiteiros, copos, o que levou o etnólogo Virgílio Correia a afirmar em 1916 que "A Província do Alentejo é a lareira onde arde mais vivo, mais claro e mais alto, o fogo tradicional da arte popular portuguesa.”[6] Também o escritor João Falcato disse em 1953, que “Não sabe uma letra o pastor destas terras, em erudição nunca ouviu falar, e é poesia pura a linguagem da sua alma, e é poesia pura o que sai das suas mãos.
E além de tudo mais uma qualidade tem a sua poesia. Não precisa dos livros para se imortalizar. Um raminho de buxo, um nada de cortiça, e, da inspiração fugidia, ficou alguma coisa nas nossas mãos.
Perdão! nas mãos da sua conversada que cada Domingo as estende para receber a colher rendada com que se promete casamento ou o tarro com que se deseja abastança, e se acha ao fim e ao cabo com um poema em que se fala de amor.” [7]
Mas apesar de a arte pastoril ser poesia e poesia pura, na solidão da sua vida de nómada, o pastor era um poeta popular no sentido literal do termo, criando sobretudo décimas e quadras que registava no livro vivo da sua memória:

" Àlém ò pé do redil
Uma pedra me espera
Sentado ali sem dormir,
Górdando o gado da fera." [8]


Sim, por que lá diz o rifonário popular. “É ao mau pastor que o lobo dá louvor” e “Pastor descuidado, ao sol posto junta o gado” e ainda “A ovelha que não tem dono, come-a o lobo”.
A quadra podia ser brejeira:

"Assente-se aqui, menina,
À sombra do meu chapéu,
O Alentejo não tem sombra,
Senão a que vem do céu." [9]

Podia ser também o reflexo do grande isolamento em que vivia o pastor, que lhe permitia conhecer a natureza que o rodeava, muito em particular, o céu:

"As árves que o mundo tem
Cubro-as c’o meu chapéu.
Diga-me cá por cantigas
Quantas ‘strelas há no céu? [10]

Por vezes a poesia encerrava uma profunda crítica social:

"Sobe o rei no alto trono,
Desce o pastor ao val’ fundo;
Uns p’ra baixo, outros p’ra cima
Vai-se assim movendo o mundo." [11]

Felizmente que através dos tempos tem havido estudiosos que têm procedido à recolha do rico Cancioneiro Popular. Registo entre outros os nomes de Tomás Pires, Luís Chaves, Azinhal Abelho, Manuel Joaquim Delgado, Augusto Pires de Lima, Vítor Santos, Fernando Lopes Graça, Michel Giacometti, a quem presto o tributo do meu reconhecimento por terem tido a clarividência da importância que constitui o registo escrito do Cancioneiro Popular, como forma de assegurar a perpetuidade do que tem de mais rico e genuíno a nossa memória colectiva.
Termino aqui a incursão - necessariamente esquemática e incompleta que ousei fazer a alguns aspectos etnográficos e sociológicos da vida do pastor alentejano. Vida dura e heróica, mas também de partilha com a Natureza com a qual aprendeu a viver harmonicamente. Vida também de equilíbrio com o Universo cujas mensagens mais profundas, como poucos soube decifrar. Vida ainda de poesia pura, mas também de fraternidade solidária com os seus iguais. Razões suficientes para a meu ver constituir um ex-líbris de peso na divulgação da nossa alma regionalista.

[1] - Beja - Recolha de Manuel Joaquim Delgado in Subsidio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo - 2° ed. (2 vol.). Instituto Nacional de Investigação Científica. Lisboa, 1980.
[2] - Luís Chaves in A Arte Popular - Aspectos do Problema, Portucalense Editora, Porto, 1943.
[3] - Cor avermelhada do horizonte, nos pontos em que se rompe ou põe o Sol.
[4] - Mértola - Recolha de Manuel Joaquim Delgado in ob. cit.
[5] - Luís Chaves in Páginas Folclóricas, Portucalense Editora, Porto, 1942.
[6] - Virgílio Correia in Etnografia Artística, Renascença Portuguesa, Porto, 1916.
[7] - João Falcato in Elucidário do Alentejo, Coimbra Editora, Coimbra, 1953.
[8] - Beja - Recolha de Manuel Joaquim Delgado in ob. cit.
[9] - Beja - Recolha de Manuel Joaquim Delgado in ob. cit.
[10] - Beja - Recolha de Manuel Joaquim Delgado in ob. cit.
[11] – Ferreira do Alentejo - Recolha de Manuel Joaquim Delgado in ob. cit.