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sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Bonecos de Estremoz: Mariano da Conceição (1.ª parte)


Fig. 1 - Mariano da Conceição na sua oficina em pose para o fotógrafo Rogério de
Carvalho (1915-1988).  À sua direita, o Presépio de trono ou altar projectado por
Sá  Lemos e por ele executado. Este vistoso presépio não esteve presente na
Exposição do Mundo Português em 1940, pelo que terá sido criado posteriormente,
mas em data anterior a Dezembro de 1947, já que nesta data, a fotografia aqui
apresentada aparece a ilustrar a capa da revista “Mensário das Casas do Povo”,
nº 18. Arquivo fotográfico do autor.


LER AINDA


Filho ilegítimo de Narciso Augusto da Conceição
No dia 24 de Setembro de 1912, na repartição do Registo Civil do concelho de Estremoz, sita no Rossio Marquês de Pombal da vila de Estremoz, perante António Luís da Cruz, ajudante de oficial do Registo Civil, no impedimento deste por motivo de saúde, compareceu Narciso Augusto da Conceição, solteiro, industrial, de 41 anos, natural da freguesia de Santo Antão de Évora e residente na freguesia de Santa Maria de Estremoz. Declarou que, no dia 26 de Janeiro de 1903, às 20 horas, nasceu na (nome da rua ilegível no Assento de Nascimento nº 305 de 1912 da Conservatória do Registo Civil de Estremoz), freguesia de Santa Maria de Estremoz, um indivíduo de sexo masculino, que as testemunhas disseram ser filho ilegítimo do declarante, que agora o reconhece como seu filho para todos os efeitos legais. Pelas testemunhas foi dito que o rejeitando se iria chamar Mariano Augusto da Conceição. Foram testemunhas José Joaquim Correia, seleiro, solteiro, maior e Joaquim Hilário Cardoso Amante, casado, sapateiro, ambos residentes na vila de Estremoz (8).
Mariano era filho de oleiro pelo que viria a ser oleiro. Todavia, como iremos ver, não ficaria por aqui. Iria muito mais longe.
Casamento
A 8 de Novembro de 1931, Mariano Augusto da Conceição, de 28 anos, oleiro (Fig. 1, Fig. 5 e Fig. 6), natural da freguesia de Santa Maria de Estremoz e residente na Calçada da Frandina, nº 15 da mesma localidade, casou na Repartição do Registo Civil de Estremoz com Liberdade da Conceição Banha, de 18 anos, doméstica, filha legítima de José Ricardo Banha, corticeiro natural da mesma freguesia e de Agripina da Conceição Banha, doméstica, natural da freguesia de São Bartolomeu, em Vila Viçosa (11).
Mestre da Oficina de Olaria na Escola Industrial António Augusto Gonçalves
A 3 de Dezembro de 1930, na secretaria da Escola Industrial de António Augusto Gonçalves de Estremoz, perante o Director Luís Fernandes de Carvalho e Reis, tomou posse como Mestre provisório da oficina de olaria, Mariano Augusto da Conceição, nomeado por alvará desse dia, que afirmou por sua honra que cumpriria fielmente as funções do seu cargo, entrando logo no exercício das suas funções (5).
De 25 a 27 de Março de 1931 faz concurso de provas (Fig. 2 a Fig. 7) para Mestre da oficina de olaria e é classificado com 15,6 valores, conforme consta do seu registo biográfico. A 29 de Abril de 1931 passa à condição de contratado (10). A 23 de Março de 1936, na secretaria da Escola, perante o Director José Maria de Sá Lemos, tomou posse como Mestre efectivo da oficina de olaria, nomeado por portaria de 22 de Fevereiro, publicada no Diário do Governo, n°65 - 2ª série, de 19 de Março de 1936. 0 empossado afirmou por sua honra que cumpriria fielmente as funções do seu cargo, entrando logo no exercício das suas funções (5).
A morte do pai de Mariano da Conceição
O pai de Mariano, Narciso Augusto da Conceição, suicidou-se por enforcamento na Olaria Alfacinha, a 10 de Junho de 1933, com a idade de 61 anos (14).
Com a morte do pai, Mariano da Conceição, o primogénito (eram 5 irmãos: Mariano, Jerónimo, Diocleciano, Caetano e Sabina) passou a dirigir a olaria que entretanto se tinha transformado em sociedade na qual participavam todos os irmãos. Mariano trabalhava como oleiro na oficina e simultaneamente dava aulas na Escola (13).
Depois da morte da matriarca Leonor das Neves Conceição em 1946 e de seu filho Jerónimo Augusto da Conceição, alguns anos depois, a mulher de Jerónimo e Mariano Augusto da Conceição, vendem a sua quota na Olaria Alfacinha aos irmãos. Mariano deixa então de trabalhar na Olaria, a qual passa a ser dirigida por seu irmão Caetano.
Mais tarde, em 11 de Abril de 1958, os irmãos Caetano Augusto da Conceição, Diocleciano Augusto da Conceição e Sabina Augusta da Conceição Santos, constituem a firma Leonor das Neves da Conceição Herdeiros. A família detém e trabalha na olaria até 1987, ano em que é vendida a Rui Barradas e sua mulher, Cristina. Em 1995 a Olaria Alfacinha encerra definitivamente.
De filho ilegítimo a filho legítimo
Por auto público de 14 de Junho de 1933, nos autos de inventário orfanológico, por óbito de Narciso Augusto da Conceição, que correu seus termos na Comarca de Estremoz, com sentença de 23 do mesmo ano, que transitou em julgado, Mariano Augusto da Conceição foi declarado filho legítimo de Narciso Augusto da Conceição e de sua mulher Leonor das Neves da Conceição, exposta. Ficaram arquivados uma certidão e um documento autêntico de consentimento do perfilhado.
Este averbamento, datado de 10 de Janeiro de 1957 e subscrito pelo Conservador, cuja assinatura é ilegível, integra o Assento de Nascimento nº 305 de 1912 da Conservatória do Registo Civil de Estremoz, relativo a Mariano Augusto da Conceição (8).
Mariano da Conceição oleiro e bonequeiro
O escultor José Maria Sá Lemos, director da Escola Industrial António Augusto Gonçalves conseguiu, entre 1933 e 1935, a recuperação da extinta tradição de manufactura dos Bonecos de Estremoz, com a colaboração de ti’ Ana das Peles, uma barrista de idade já avançada. Impunha-se que houvesse continuadores. Daí que tenha lançado um repto a Mariano da Conceição, que o aceitou de bom grado e teve êxito, passando a ter uma tripla actividade: Oleiro na Olaria Alfacinha, Mestre de Olaria na Escola Industrial António Augusto Gonçalves e bonequeiro.
A Exposição do Mundo Português
António Ferro (1895-1956), Secretário-Geral da Comissão Executiva da Exposição do Mundo Português era próximo de José Maria de Sá Lemos e esteve em Estremoz, onde convidou Mestre Mariano da Conceição a participar na Exposição. Este não o pôde fazer, devido às actividades lectivas na Escola Industrial António Augusto Gonçalves. Quem ali esteve presente durante todo o período da mesma, foi a sua mulher, Liberdade Banha da Conceição (1913-1990) (Fig. 8), que ali pintava os Bonecos por ele confeccionados em Estremoz e que depois eram transportados para Lisboa.
O êxito de vendas na Exposição do Mundo Português fez com que Mariano da Conceição a partir de 1942-43 se dedicasse à confecção [1] de Bonecos de Estremoz em oficina própria, actividade que acumulava com o seu magistério de Mestre de Olaria na Escola Industrial António Augusto Gonçalves. A sua oficina funcionou sucessivamente na Rua das Meiras nº1, na Rua da Frandina e na Rua Pedro Afonso nº 6 (13).
Mariano que não tinha forno próprio, cozia os seus Bonecos no forno de lenha da Olaria Alfacinha, a qual tinha dirigido. De resto, o barro utilizado por Mariano era preparado na Olaria e transportado numa carrinha pelo seu irmão Caetano, que levava os Bonecos para cozer arrumados em gaiolas de barro e os entregava a Mariano, depois de cozidos (13).
Em Estremoz, os Bonecos eram comercializados nos seguintes locais: Loja de Artigos Regionais da Olaria Alfacinha (Largo da República, 30), Papelaria Ruivo (Largo da República, 24), Lojas de Artesanato de Rafael dos Santos Grades (Rua Victor Cordon, 27 e 30) e Papelaria A Tabaqueira de Alves & Simões, Lda. (Rossio Marquês Pombal 11 e 12 [2] (13).
Mariano da Conceição visto pelos outros
A 23 de Junho de 1951 reuniu o Conselho Escolar da Escola Industrial e Comercial de Estremoz, sob a presidência do Director, Irondino de Aguillar, o qual, antes de se entrar na ordem do dia, quis dirigir algumas palavras a todos os presentes. “Lembrou-lhes que longe vai o tempo em que o professor entendia que a vida de professor se cumpre toda dentro das quatro paredes e dos cinquenta e cinco minutos de uma aula. 0 professor de hoje tem de não esquecer-se nunca de que é professor, de que é seu dever contribuir para o prestígio da sua classe e da sua escola e de que é seu dever maior que todos meditar na responsabilidade que tomou ao escolher tal profissão. Convidou os presentes a fazerem exame de consciência, que ele, Director, limitar-se-ia a fazer pública justiça ao Mestre de Olaria, Senhor Mariano Augusto da Conceição, que pelo seu zelo, pela sua honestidade no cumprimento do dever, confirmou largamente o que dele era de esperar pelo seu comportamento nos anos anteriores”(1).
O pintor Armando Alves (1935- ) foi aluno de Mariano da Conceição nos anos lectivos de 1949-1950 e 1950-1951. Na sua condição de ex-aluno, prestou-me, em 2012, o seguinte depoimento escrito (3): “Foi na década de quarenta do século passado que conheci o Mestre Mariano Alfacinha. Era eu por essa altura aluno na Escola Industrial e Comercial de Estremoz e o Mestre Mariano, professor de Olaria nessa escola.
Frequentar as suas aulas não era para a maioria de nós, alunos, apenas uma obrigação, antes pelo contrário, era um prazer. Para mim era mesmo uma espécie de necessidade, pois não só frequentava as aulas, como muitíssimas vezes aparecia para ajudar o Mestre Mariano nas tarefas mais fáceis – fazer bases, fazer pernas, fazer (nas pequenas formas de barro cozido), as cabeças dos bonecos. Com ele aprendi muitos dos segredos do barro e aprendi também a fazer os Bonecos de Estremoz.
O Mestre Mariano fazia invariavelmente os seus bonecos em grupos de seis, isto é: seis pastores, seis amazonas, seis cavaleiros, etc., E isto não era por acaso pois os bonecos são feitos por partes – as bases, as pernas, os troncos, os braços e as cabeças. À medida que se iam fazendo cada uma destas partes, (começando sempre pelas bases), o barro ia ganhando a dureza necessária para receber a colagem das pernas e dos troncos até à conclusão do boneco. A colagem das partes era feita com a lambugem, (lama do barro) e uns pequenos risquinhos que se faziam nas partes a colar, tendo sempre o cuidado de não deixar bolhas de ar, o que poderia causar dissabores na cozedura... O calor das mãos e um certo vento que de vez enquanto soprava e rachava o barro, eram também elementos a ter em conta.
Para tudo isto me chamava a atenção o Mestre Mariano com aquela presença muito forte e ao mesmo tempo muito doce que o caracterizavam.
Tive a sorte de ter privado com este Homem a quem agradeço o muito que me ensinou e a quem Estremoz continua a dever tudo o que ele fez pela nossa terra.”
Por sua vez, Leonor da Conceição Santos (1943-2014), filha de Sabina Santos, sobrinha de Mariano e Professora de Educação Especial aposentada, prestou-me, igualmente em 2012, o seguinte depoimento escrito (6): “Tenho uma ideia vaga do meu tio Mariano que era o mais velho e lembro-me de um homem muito alto, claro que eu também era muito pequena… Sabia que ele era professor na Escola Industrial e que a minha mãe tinha sido lá aluna. Lembro-me também, talvez com os meus 10 anos, e vivendo já na rua do Reguengo, de ter ido frequentar a Escola Comercial e Industrial, onde hoje é a Pousada. Via por lá o tio Mariano, que era professor de Olaria, e quando o via ia dar-lhe um beijo, e ele perguntava com aquele vozeirão:” Então como vai a Escola?” Eu fugia à resposta porque, na realidade, a escola ia muito mal. Gostava da disciplina de desenho e…pouco mais. Fui aluna da D. Joana, que era uma artista naquilo para que eu nunca tive jeito: bordados, tapetes e afins. Só frequentei o ano preparatório e depois, com grande sacrifício os meus pais mandaram-me para o Colégio do Mota, (a que chamavam o colégio dos ricos – não era uma verdade absoluta, mas isso são outras histórias…) onde realmente me senti ambientada. Era uma miúda pequena e um tanto frágil e aquela Escola Industrial fazia-me medo. Passei a ver o tio Mariano quando ia à Olaria e ele estava a fazer peças enormes, à roda, pois só uma pessoa alta, pujante e habilidosa como ele, conseguia “puxar” o barro na roda de oleiro para fazer essas peças (ânforas e outras). Também o visitava, em casa dele e tenho ideia, mas a minha prima Maria Luísa poderá confirmar, que ele tinha uma sala cheia de pássaros das mais diversas raças. Sempre achei interessante. Ele era caçador, e dos bons, matava perdizes, faisões e outra passarada e ao mesmo tempo gostava de aves canoras e sustentava-as. Será que a memória me está a atraiçoar? Penso que não.
Também estive muitas vezes, ao lado dele a vê-lo fazer os Bonecos de Estremoz. A tia Liberdade, sua mulher, que gostava muito de mim, arranjava-me um lanche e eu ficava sentada, numa daquelas cadeiras baixinhas, a ver o meu tio a trabalhar. Naquela altura fazia-me impressão como é que ele que tinha umas mãos enormes e uns dedos cheios também conseguia trabalhar minuciosamente cada figurinha e fazer as cabecinhas dos bonecos. Era isso que eu admirava nele: ora fazia coisas minúsculas, ora puxava, na roda ânforas gigantescas. Extraordinário!...”
A morte prematura de Mariano da Conceição
O Boletim da Escola Industrial e Comercial de Estremoz de 29 de Setembro de 1959 (17), sob a epígrafe “Um estúpido acidente atirou para a morte o Sr. Mestre Mariano”, relata o que se passou: “O caso deu-se no passado domingo, em pleno Rossio, quando da chegada dos cavaleiros que disputavam o raid hípico de Estremoz.
A anteceder os dois primeiros cavaleiros, que surgiram a par, a galope desenfreado, vinham um jeep e uma moto, mas tão devagar que, num instante, os cavalos estavam sobre eles. 0s cavaleiros gritavam, os veículos não tomavam velocidade e não houve outra solução senão guinar cada cavaleiro para seu lado.
Foi nesta altura que à frente de um dos cavalos surgiu o Sr. Mestre Mariano da Conceição, muito para lá da meta. O choque foi inevitável e o Sr. Mariano rolou pelo chão.
Imediatamente levado ao hospital, cheio de sangue, ali foi observado, recolhendo depois a um dos quartos particulares em estado de coma, com suposta fractura craniana e uma clavícula e várias costelas partidas. Quem diria que naquele luminoso domingo um estúpido acidente atiraria para o hospital o nosso Mestre Mariano?
Na madrugada de terça-feira 45, o Sr. Mestre Mariano expirou (9), por não ter podido resistir à gravidade dos ferimentos, tendo a Escola perdido assim, estupidamente, um dos seus agentes de ensino mais dedicados e a quem ela muito ficou a dever.
No funeral incorporaram-se muitos antigos e actuais alunos e todo o pessoal da Escola em exercício.” (7), (12), (17).
Reacções à morte de Mariano da Conceição
No dia 30 de Setembro de 1959, pelas 15 horas reuniu no gabinete do Director da EICE, o Conselho Escolar presidido pelo Director Rogério Peres Claro com a presença de todos os membros efectivos, Mestres Joana Simões e Eduardo Silva. No último ponto da ordem de trabalhos, por falecimento de Mestre Mariano da Conceição, deliberou o Conselho convidar o Mestre provisório José Alexandre Rosa para sua substituição. Antes de encerrar a sessão, o Director propôs com o fim de ser exarado em acta, um voto de pesar pelo falecimento do Mestre efectivo da Escola, Mariano Augusto da Conceição (2).
Sobre Mestre Mariano da Conceição recolhi um depoimento (15) daquele que era director à data da sua morte, Rogério Peres Claro (1921-2015), redigido a 11 de Novembro de 2012, aos 91 anos de idade: “Conheci o Sr. Mariano da Conceição como Mestre de Trabalhos Manuais na Escola Comercial de Estremoz, entre 1951 e 1961, período da minha presença lá como Director. Era conhecido como especialmente hábil na confecção de bonecos de barro com características locais, como aliás os outros membros da sua família. Trabalhava em oficina montada no pátio de entrada do castelo, onde trabalhava também o Sr. Joaquim Prudêncio Oliveira, hábil Mestre no trabalhar do mármore da região, para o qual formou muitos artistas. A maioria dos brasões que sustém a fonte luminosa que embeleza Setúbal frente ao mercado da Avenida Luísa Todi, foram trabalho seu e dos seus alunos.
Mestre Mariano ficou lembrado não apenas pelos seus bonecos, mas infelizmente também por ter falecido ao coice de um dos cavalos que em corrida festiva atravessavam o Rossio e que presenciei. Ficou o dito de que “só ao coice o Mestre Mariano poderia ser abatido”, tão forte que ele era “
No já referido depoimento escrito (6) de Leonor da Conceição Santos sobre o tio Mariano, datado de 2012, referindo-se à sua morte diz: “O Tio Mariano foi um artista e um grande Mestre de olaria. A sua arte poderia ter-se prolongado para enriquecimento da cultura e do artesanato estremocense … mas infelizmente um acontecimento inesperado ceifou-lhe a vida aos cinquenta e poucos anos. Podemos dizer que ele estava no sítio errado, à hora errada… Um cavalo que fazia parte do raid hípico que terminava no Rossio Marquês de Pombal, espantou-se e, ou por pouca sorte, ou por ineficácia do cavaleiro, atingiu o meu tio que assistia ao evento entre muitas pessoas, ferindo-o de morte. Ainda foi para o antigo hospital, mas viria a falecer pouco tempo depois.
Foi pena Tio Mariano. Ainda guardo essa memória, como se fosse hoje. Eu tinha 16 anos. Estremoz perdeu tragicamente um Alfacinha.
Recordo-o e recordá-lo-ei sempre. Foi com ele que a arte bonequeira renasceu. Todos lhe devemos isso.”
Mariano da Conceição morreu, mas os Bonecos não
O Mestre partiu mas legou-nos os seus Bonecos. A recuperação da manufactura dos Bonecos de Estremoz não podia ficar por aqui. Surgiram continuadores e a primeira foi a sua irmã, Sabina da Conceição Santos.

BIBLIOGRAFIA
(1) - Acta da sessão de 23 de Junho de 1951 in Livro de Actas do Conselho Escolar da Escola industrial e Comercial de Estremoz (1948-1951) (acta nº 12).
(2) - Acta da sessão de 30 de Setembro de 1959 in Livro de Actas nº 2 do Conselho Escolar da Escola industrial e Comercial de Estremoz (1959-1981) (acta nº 1).
(3) - ALVES, Armando José Ruivo. Depoimento sobre Mariano Augusto da Conceição. Porto, 2012. sp.
(4) - Auto de posse conferido a Mariano Augusto da Conceição no cargo de mestre provisório da oficina de olaria da Escola Industrial de António Augusto Gonçalves. Estremoz, 3 de Dezembro de 1930 in Livro de Posses 1930-59 (folha 1v).
(5) - Auto de posse conferido a Mariano Augusto da Conceição no cargo de mestre efectivo da oficina de olaria da Escola Industrial de António Augusto Gonçalves. Estremoz, 23 de Março de 1936 in Livro de Posses 1930-59 (folha 7v).
(6) - CONCEIÇÃO SANTOS, Maria Leonor da. Depoimento sobre Mariano Augusto da Conceição. Ribamar, 2012. sp.
(7) - Falecimento (Mariano da Conceição) in Brados do Alentejo nº 1475, 04/10/1959. Estremoz, 1959 (pág. 2).
(8) – Mariano Augusto da Conceição - Assento de Nascimento nº 305 de 1912 da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
(9) – Mariano Augusto da Conceição - Assento de Óbito nº 193 de 1959 da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
(10) - Mariano Augusto da Conceição – Processo Individual de professor nº 707, no Arquivo da Escola Industrial António Augusto Gonçalves e sucessoras.
(11) - Mariano Augusto da Conceição - Registo de Casamento nº 68 de 1931 da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
(12) - Mariano Augusto da Conceição in O Eco de Estremoz nº 2951, 04/10/1959. Estremoz, 1959 (pág. 3).
(13) – MATOS, Hernâni. Entrevista a Maria Luísa da Conceição. Estremoz, 7 de Fevereiro de 2013. Arquivo de Hernâni Matos.
(14) – Narciso Augusto da Conceição – Registo de Óbito nº 71 e 1933 da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
(15) - PERES CLARO, Rogério. Depoimento sobre Mariano Augusto da Conceição. Setúbal, 2012. sp.
(16) - Terminou o I RAID HIPICO ALENTEJANO in Brados do Alentejo nº 1475, 04/10/1959. Estremoz, 1959. (pág. 3).
(17) - Um estúpido acidente atirou para a morte o sr. mestre Mariano in Boletim da Escola Industrial e Comercial de Estremoz, 29/09/1959. Estremoz, 1959 (pág. 1).

Publicado pela 1ª vez em 13 de Setembro de 2019
Editado no meu livro BONECOS DE ESTREMOZ

Fig. 2 - Desenho duma forma cerâmica. Prova de Concurso de Mariano Augusto da
Conceição para Mestre da oficina de olaria da Escola Industrial de António Augusto
Gonçalves, realizada a 25 de Março de 1931. Fotografia de autor desconhecido.
Arquivo fotográfico do autor.

Fig. 3 - Cópia dum motivo floral. Prova de Concurso de Mariano Augusto da
Conceição para Mestre da oficina de olaria da Escola Industrial de António
Augusto Gonçalves, realizada a 26 de Março de 1931. Fotografia de autor
desconhecido. Arquivo fotográfico do autor.

Fig. 4 - Decoração. Prova de Concurso de Mariano Augusto da Conceição para
Mestre da oficina de olaria da Escola Industrial de António Augusto Gonçalves,
realizada a 27 de Março de 1931. Fotografia de autor desconhecido.
Arquivo fotográfico do autor.

Fig. 5 - Mariano Augusto da Conceição a modelar a peça projectada na oficina de
olaria da Escola Industrial de António Augusto  Gonçalves. Arquivo fotográfico do autor.

 Fig. 6 - Mariano Augusto da Conceição a desenfornar uma das peças projectadas
 na oficina de olaria da Escola Industrial de António Augusto Gonçalves.
Arquivo fotográfico do autor.

Fig. 7 - As peças projectadas e executadas por Mariano Augusto da Conceição
já cozidas. Arquivo fotográfico do autor.

  Fig. 8 - Liberdade da Conceição, mulher de Mariano da Conceição a pintar
Bonecos de Estremoz na Exposição do Mundo Português. Fotografia do
documentário “A Grande Exposição do Mundo Português” (1940),
de António Lopes Ribeiro.


Fig. 9 - Carimbos usados sucessivamente por Mariano da Conceição para marcar os
seus bonecos: MADE IN PORTUGAL (3,4 cm x 0,3 cm), ESTREMOZ / PORTUGAL
(2 cm x 0,8 cm), ESTREMOZ (2 cm x 0,8 cm). Arquivo fotográfico do autor.



[1] Mariano modelava os bonecos que eram pintados por sua mulher, Liberdade da Conceição. Mariano só pintava em último caso, sempre que havia uma encomenda grande de Bonecos. Todavia, era ele que aplicava sempre o verniz, visto a sua mulher ser uma pessoa bastante doente (13).
[2] De salientar que só a partir do momento em que se estabeleceu como bonequeiro por conta própria é que Mariano passou a auferir proventos dessa actividade. Anteriormente só fazia Bonecos na Escola, os quais conjuntamente com os Bonecos manufacturados pelos alunos, eram comercializados e as receitas resultantes da sua venda destinavam-se a custear as despesas de funcionamento da própria Escola (13).

domingo, 2 de junho de 2013

Os bonecos de Estremoz na Exposição do Mundo Português


Fig. 1 - Homem do harmónio (Boneco de Estremoz
de Mariano da Conceição. Museu Rural de Estremoz.
Fotografia de Luís Mariano Guimarães).

AS COMEMORAÇÕES DOS CENTENÁRIOS DA FUNDAÇÃO E DA RESTAURAÇÃO DA NACIONALIDADE
A 2 de Junho de 1940, teve lugar em Lisboa, a abertura oficial das Comemorações dos Centenários da Fundação e da Restauração da Nacionalidade, anunciada pelo presidente da Comissão Executiva dos Centenários, Júlio Dantas.
As Comemorações tiveram âmbito nacional, mas o seu maior esplendor foi a Exposição do Mundo Português.

A EXPOSIÇÃO DO MUNDO PORTUGUÊS
A "Exposição do Mundo Português" (Fig. 2), que se realizou de 23 de Junho a 2 de Dezembro de 1940, foi um evento realizado em Lisboa durante o regime do Estado Novo. Com o propósito de comemorar simultaneamente as datas da Fundação do Estado Português (1140) e da Restauração da Independência (1640), constituiu-se na maior de seu género realizada no país até à data. Para a época foi uma grandiosa obra só comparável, com as devidas proporções, com a "Exposição Universal de Lisboa" de 1998.Incluía pavilhões temáticos relacionados com a História de Portugal, suas actividades económicas, cultura, regiões e territórios ultramarinos. Incluía ainda um pavilhão do Brasil.

Fig. 2.

O evento levou a uma completa renovação urbana da zona ocidental de Lisboa. A sua praça central deu origem à Praça do Império, uma das maiores da Europa. A maioria das edificações da exposição foi demolida ao seu término, restando apenas algumas como o actual Museu de Arte Popular e o Monumento aos Descobrimentos (reconstrução com base no original de madeira).
Situada entre a margem direita do rio Tejo e o Mosteiro dos Jerónimos, ocupava cerca de 560 mil metros quadrados e recebeu cerca de três milhões de visitantes, constituindo o mais importante facto cultural do Estado Novo.

OS BONECOS DE ESTREMOZ NA EXPOSIÇÃO DO MUNDO PORTUGUÊS
António Ferro, Director do Secretariado Nacional de Propaganda, estrutura que controlava todas as formas de comunicação do país, era o Secretário-Geral da Comissão Executiva, presidida por Júlio Dantas.
António Ferro era próximo de José Maria de Sá Lemos (1) e esteve em Estremoz, onde convidou Mestre Mariano da Conceição (1903-1959) a participar na Exposição. Este não o pôde fazer, pela sua condição de funcionário público, Mestre Olaria da Escola Industrial António Augusto Gonçalves. Os bonecos (Fig. 1) eram feitos em Estremoz por Mestre Mariano (Fig. 3) e transportados para Lisboa, onde na Exposição eram pintados por sua esposa, Liberdade Banha da Conceição, que ali esteve presente durante todo o período da mesma. Há provas documentais da presença dos bonecos de Estremoz na Exposição.

Fig. 3 - Mestre Mariano da Conceição a trabalhar na sua oficina. Fotografia de Rogério
de Carvalho (1915-1988). Arquivo de Hernâni Matos.

 Comecemos pelo “MUNDO PORTUGUÊS/IMAGENS DE UMA EXPOSIÇÃO HISTÓRICA/1940”. Trata-se de um álbum evocativo da “Exposição do Mundo Português”, editado pelo Secretariado Nacional de Informação, em 1956. Foi dedicado “Aos filhos dos que viram a Exposição do Mundo Português – Para que também a vejam”. Através dele se sabe que os bonecos de Estremoz marcaram presença no “Pavilhão da Vida Popular “, na “Sala de Artes e Ofícios”, onde estiveram presentes numa bancada exposicional e numa vitrina expositora (Fig. 4 e Fig. 5).

Fig. 4. 

Fig. 5.

O filme "A Grande Exposição do Mundo Português (1940)", de António Lopes Ribeiro, com a duração de 59 min 52 s, mostra entre os 44 min 25 s e 44 min 39 s, 14 preciosos segundos de filme, onde se vê Liberdade da Conceição, vestida de camponesa, a pintar bonecos de Estremoz (Fig. 6, Fig. 7 e Fig. 8).

Fig. 6. 

Fig. 7. 

Fig. 8.

Na Exposição do Mundo Português marcaram forte presença os bonecos de Estremoz, afeiçoados pelas mãos sábias e mágicas de Mestre Mariano da Conceição e decorados pelas mãos pacientes e laboriosas de sua terna esposa, Liberdade da Conceição, que lhes comunicava, não só as cores garridas, como a luz própria e muito característica das claridades do Sul.
Os bonecos de Estremoz, de Mariano da Conceição, foram na Exposição do Mundo Português, o ex-líbris de excelência da nossa bem amada cidade branca. Eles foram os melhores embaixadores da nossa Arte Popular e da nossa identidade cultural local e regional. Eles foram simultaneamente, a primeira declaração e a primeira prova insofismável de que nesta terra que nos pariu e é nossa, existem criadores populares de elevado gabarito, com grande qualidade de desempenho, que estão bem e se recomendam.
A mensagem transmitiu-se através do feedback de visitantes, originários dos mais distintos locais, não só de Norte a Sul do país, como também das Ilhas e mesmo das Sete Partidas do Mundo.
Os bonecos de Estremoz de Mariano da Conceição, até então relativamente pouco conhecidos, adquiriram por mérito próprio e muito justamente, grande notoriedade pública. Foram eles que desalojaram a nossa Arte Popular do estatuto comezinho em que se encontrava acantonada e lhe conferiram dimensão humana à escala planetária.
Mestre Mariano da Conceição é um ícone da cidade de Estremoz que o gerou e que dele muito justamente se orgulha. Exactamente como Tomaz Alcaide, meu parente do costado dos Carmelos, tenor lírico de projecção internacional, que com o vigor cristalino da sua apreciada voz, levou igualmente o nome da nossa urbe, por esse mundo fora, sempre que como artista de excepção, pisava os palcos dos grandes e famosos teatros líricos. Tanto Tomaz Alcaide como Mariano da Conceição foram actores que desempenharam e bem, o seu papel no palco da vida. Por isso, a comunidade estremocense lhes está grata e os admira. Todavia, para além do reconhecimento, há uma homenagem que tarda em relação a Mariano da Conceição.
Com a Exposição do Mundo Português houve uma mudança de paradigma na produção de bonecos de Estremoz. Mariano da Conceição resolveu dar uma inflexão à sua actividade bonequeira. Até aí Mestre Mariano só confeccionava bonecos na Escola Industrial António Augusto Gonçalves, os quais conjuntamente com exemplares executados pelos seus alunos, assim como peças de olaria eram vendidos, funcionando o produto da venda como fonte de receita para a Escola. Os alunos recebiam por isso salário, conforme notícia do jornal “Brados do Alentejo” nº 239 (25 de Agosto de 1935). A partir da Exposição do Mundo Português, que se saldou num êxito para Mestre Mariano, ele passa também a fazer bonecos na sua casa, os quais são comercializados em Estremoz, em diversos locais: Loja de Artigos Regionais da Olaria Alfacinha (Largo da República, 30), Papelaria Ruivo (Largo da República, 24), Loja de Artesanato de Rafael dos Santos Grades (Rua Victor Cordon, 27 e 30), Papelaria A Tabaqueira de Alves & Simões, Lda (Rossio Marquês Pombal 11 e 12).
Com o seu exemplo, Mestre Mariano demonstrou que a produção de bonecos de Estremoz era uma actividade viável e abriu caminho para aqueles que se lhe seguiram, após a sua morte prematura em 1959.

PARA QUANDO UMA HOMENAGEM A MESTRE MARIANO DA CONCEIÇÃO?
Mestre Mariano da Conceição cuja Memória permanece viva na comunidade, era um homem do povo, do clã dos Alfacinhas, com mãos mágicas para modelar o barro desta terra de Além Tejo do termo de Estremoz. Exactamente o mesmo barro que de acordo com o Génesis, Deus terá modelado o primeiro homem. Em Mariano pensou o poeta António Simões, compadre de Maria Luísa da Conceição, filha de Mariano, quando a meu pedido criou em 1983 a quadra que diz:

Barro incerto do presente,
Vai moldar-te a mão do povo
Vai dar-te forma diferente,
Para que sejas barro novo.

Mestre Mariano é um ícone desta terra transtagana, ao qual a comunidade muito deve e cujo reconhecimento público tarda, porque alguns pensam que se deve cumprir o adágio “Ninguém é rei na sua terra”, o que não é minimamente aceitável.
No Canto I dos Lusíadas, diz Luís Vaz de Camões:

(…)
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando
(…)

É o que se passou com Mestre Mariano da Conceição, que ganhou fama que lhe sobreviveu e será lembrado pelas gerações futuras.
Falta agora o nosso Município homenagear Mestre Mariano postumamente, através da atribuição duma medalha de grau adequado, o que aqui se sugere, bem como a atribuição do seu nome a uma rua da cidade. Em 19 de Setembro de 1997, na qualidade de deputado municipal, fiz uma proposta de recomendação à Câmara nesse sentido, a qual foi aprovada. Como sou uma pessoa paciente, ainda estou à espera da resposta.
Estou crente que a Câmara Municipal de Estremoz não ficará indiferente a estas sugestões, que reúnem condições para serem consensuais. A Memória de Mestre Mariano da Conceição e o seu legado merecem isso.
Assim seja!


(1) -  José Maria de Sá Lemos (1892-1971), escultor, discípulo de Mestre António Teixeira Lopes (1866-1942) foi Director da Escola Industrial António Augusto Gonçalves, entre 21 de Abril de 1932 e 30 de Setembro de 1945.

Excertos do livro em preparação:
"MESTRE MARIANO DA CONCEIÇÃO (O Alfacinha)"
(Texto publicado inicialmente em 2 de Junho de 2013)

domingo, 23 de junho de 2019

Bonecos de Estremoz: Liberdade da Conceição


 Fig. 1 - Liberdade da Conceição (1913-1990), mulher de Mariano da Conceição
(1903-1959) a pintar bonecos de Estremoz na Exposição do Mundo Português.
Fotografia do documentário "A Grande Exposição do Mundo Português" (1940),
de António Lopes Ribeiro.

Nasceu às 3 horas de 11 de Agosto de 1913 na freguesia de Santo André, em Estremoz. Filha legítima de José Ricardo Banha, de 33 anos, corticeiro natural da mesma freguesia e de Agripina da Conceição Banha, de 36 anos, doméstica, natural da freguesia de São Bartolomeu, em Vila Viçosa (2).
A 8 de Novembro de 1931, morando na Rua de São Pedro, nº 40, em Estremoz, com 18 anos de idade e na condição de doméstica, casou na Repartição do Registo Civil de Estremoz com Mariano Augusto da Conceição, de 28 anos, oleiro, natural da freguesia de Santa Maria, em Estremoz e residente na Calçada da Frandina, nº 15 da mesma localidade, filho ilegítimo de Narciso Augusto da Conceição, industrial, natural da freguesia de Santo Antão, em Évora. O casamento foi celebrado no regime de comunhão de bens e a noiva adoptou o apelido Conceição do marido (4).
Quando Mariano da Conceição se tornou bonequeiro, Liberdade passou a pintar os Bonecos manufacturados pelo marido. Esteve presente na "Exposição do Mundo Português", que decorreu em Lisboa, de 23 de Junho a 2 de Dezembro de 1940.
O filme "A Exposição do Mundo Português (9), de António Lopes Ribeiro (1908-1995), com a duração de 59 min 52 s, mostra entre os 44 min 25 s e 44 min 39 s, 14 preciosos segundos de filme, onde se vê Liberdade da Conceição (1913-1990), vestida de camponesa, a pintar bonecos de Estremoz (Fig. 1).
Em vida do marido, Liberdade limitava-se a pintar. Todavia, as coisas iriam mudar. Com a idade de 56 anos, Mariano seria atingido por um coice de cavalo no final do I Raid Hípico Alentejano que terminou a 27 de Setembro de 1959 no Rossio Marquês de Pombal, em Estremoz. Vítima de uma fractura da base do crânio, Mariano viria a falecer no dia 29 de Setembro, na sua casa, situada na Rua Pedro Afonso, nº 6, em Estremoz (6), (1), (8), (10), (11).
“A necessidade é mestra de engenhos” sentencia o rifão. Foi assim que, por motivos de natureza económica, Liberdade (Fig. 2) se iniciou em 1962 na modelação de Bonecos, que vira seu marido confeccionar. Continuou a residir na Rua Pedro Afonso, nº 6, onde todavia só ia dormir. Passava o dia na casa da filha, Maria Luísa da Conceição, na Rua Brito Capelo, nº 33, onde na cozinha manufacturava e pintava os seus Bonecos, porque a mesma tinha espaço suficiente para ter a sua mesa de trabalho e porque era ela que cozinhava, sendo assim mais fácil conciliar as duas actividades.
A confecção e pintura dos Bonecos eram feitas na cozinha, uma vez que o nº35 situado no rés-do-chão da moradia, era oficina de Sabina Santos, sua cunhada, que se iniciara na actividade dois anos antes e em ligação à Olaria Alfacinha, o que não veio a acontecer com Liberdade. A sua filha Maria Luísa colaborava com a mãe na pintura dos Bonecos, só se tendo iniciado na modelação em 1981.
Inicialmente, Liberdade cozia os Bonecos na Olaria Alfacinha por deferência dos cunhados, na linha de continuidade do que acontecera com Mariano que também não tinha forno próprio. À medida que ia fazendo os Bonecos e estes secavam, eram metidos em “gaiolas”, recipientes cilíndricos de barro grosso nos quais iam a cozer no forno de lenha da Olaria Alfacinha, para onde eram transportados. Só a partir de 1981, quando Maria Luísa da Conceição começou a confeccionar os seus próprios Bonecos é que esta e o filho Jorge da Conceição construíram um forno a lenha no quintal, o qual passou também a ser usado por Liberdade. Só depois da aposentação de Sabina Santos, em 1988, e depois de Maria Luísa ter ocupado a oficina do nº 35, é que foi abandonado o forno de lenha e comprada uma mufla eléctrica.
A nível de feiras, Liberdade participou na Feira Internacional de Artesanato do Estoril, na Feira da Agricultura em Santarém e posteriormente na Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz.
Os Bonecos de Liberdade além de serem vendidos nas feiras, eram comercializados em Estremoz, na sua residência e nas Lojas de Artesanato de Rafael dos Santos Grades, situadas na Rua Victor Cordon, n.ºs 27 e 30, em Estremoz. De resto, havia lojas de Évora e de Lisboa que lhe adquiriam regularmente Bonecos.
Liberdade viria a falecer no dia 22 de Agosto de 1990, com 77 anos de idade (3). Foi um rude golpe na barrística popular estremocense e a cultura popular local ficou mais pobre. Liberdade partiu, mas deixou-nos os seus Bonecos, bem como a sua filha, Maria Luísa da Conceição e seu neto, Jorge da Conceição para darem continuidade à arte bonequeira.

BIBLIOGRAFIA
1 - Falecimento (Mariano da Conceição) in Brados do Alentejo nº 1475, 04/10/1959. Estremoz, 1959 (pág. 2).
2 - Liberdade da Conceição Banha - Assento de Nascimento nº 446 de 1913, da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
3 - Liberdade da Conceição Banha - Assento de Óbito Informatizado nº 372 de 2016, da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
4 - Liberdade da Conceição Banha - Registo de Casamento nº 68 de 1931 da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
5 - Mariano Augusto da Conceição - Assento de Nascimento nº 305 de 1912 da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
6 - Mariano Augusto da Conceição - Assento de Óbito nº 193 de 1959 da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
7 - Mariano Augusto da Conceição - Registo de Casamento nº 68 de 1931 da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
8 - Mariano Augusto da Conceição in O Eco de Estremoz nº 2951, 04/10/1959. Estremoz, 1959 (pág. 3).
9 - RIBEIRO, António Lopes. A Exposição do Mundo Português. Lisboa, 1940.
10 - Terminou o I RAID HIPICO ALENTEJANO in Brados do Alentejo nº 1475, 04/10/1959. Estremoz, 1959. (pág. 3).
11 - Um estúpido acidente atirou para a morte o sr. mestre Mariano in Boletim da Escola Industrial e Comercial de Estremoz, 29/09/1959. Estremoz, 1959 (pág. 1).
Hernâni Matos

Fig. 2 - Liberdade da Conceição (1913-1990). Fotografia do Arquivo Fotográfico
Municipal de Estremoz / BMETZ – Colecção Joaquim Vermelho.

domingo, 14 de julho de 2019

Jorge da Conceição: Bonecos de Estremoz


Jorge da Conceição (1963- ). Fotografia de 2014.

CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS
Jorge da Conceição 

Nasceu a 24 de Outubro de 1963 na Rua Brito Capelo, nº 33, freguesia de Santo André, em Estremoz. Filho legítimo de Octávio Varela Dias Palmela, comerciante, e de Maria Luísa Banha da Conceição Palmela, doméstica, que se viria a tornar barrista. É, pois, filho da barrista Maria Luísa da Conceição (1934-2015), neto dos barristas Mariano da Conceição (1903-1959) e Liberdade da Conceição (1913-1990) e sobrinho de Sabina da Conceição Santos (1921-2005), irmã de Mariano (3). Filho e neto de peixes sabe nadar, pelo que Jorge da Conceição estava condenado a ser barrista, tomando contacto com o barro desde criança e criando apetência pela manufactura de Bonecos como via fazer à avó e à mãe. Foi assim que aprendeu as técnicas e a arte de modelar o barro, manufacturando Bonecos enquanto estudava, até à idade de 21 anos. Na juventude, participou em várias exposições colectivas em Portugal e vendeu peças a coleccionadores particulares e ao Museu Municipal de Estremoz.
Frequentou a Escola Secundária de Estremoz desde 1975, tendo concluído em 1981 o 12º ano de Escolaridade do 1º Curso – Via ensino, com a média de 19,3 valores (4). Ingressou então no Instituto Superior Técnico onde se viria a licenciar em Engenharia Electrónica e de Computadores – Variante de Electrónica e Telecomunicações. Terminada esta, iniciou uma carreira profissional na área de consultoria que durou 25 anos e o manteve afastado da modelação do barro. Porém, a chamada do barro, que transporta na massa do sangue, levou-o em 2013 a dedicar-se exclusivamente à barrística. Tem ateliê em Estremoz na Rua Brito Capelo nº35, bem como no Largo do Andaluz nº 2, em Lisboa.
Tive o privilégio de ser Professor de Física de 12º ano de Jorge da Conceição e desde essa época que o vejo como um perfeccionista que procura dar o melhor de si próprio em tudo aquilo que faz, o que se reflecte não só na concepção como nos acabamentos das figuras que modela. Bem ilustrativo do seu pensamento e da sua prática barrística é o depoimento concedido ao jornal E de Estremoz, nº117, de 4 de Dezembro de 2014 (1). Referindo-se aos Bonecos de Estremoz, Jorge da Conceição considera que: “As peças são todas elas diferentes porque têm a ver com o estilo artístico de cada um. Uns têm mais habilidade que outros, uns arriscam mais e outros são mais tradicionais e mais comerciais e tentam repetir
as peças que fizeram. Existe a barrística naquilo que é a sua forma de fazer e nos materiais usados e existe o resultado final que é aquilo que cada artesão põe de si”. Lançou ainda o desafio de “entender o que é o Boneco de Estremoz”, acrescentando: “Existe muita tendência de pensar que o boneco de Estremoz é um conjunto de figuras dos anos quarenta que sistematizaram e que a partir daí foram feitas réplicas de uma forma inesgotável. Hoje em dia há muito mais figuras, mas às vezes, quando se fazem figuras um bocadinho diferentes, as pessoas dizem que já não é boneco de Estremoz porque já não é o pastor nem a ceifeira”. Concluiu, dizendo que “não se pode rejeitar estas figuras só porque não têm essas formas mais naif de fazer os Bonecos de Estremoz. Nós estamos no século XXI, o boneco está vivo, vai evoluindo e evolui com aquilo que cada artista acrescenta”. Estou inteiramente de acordo com ele. Sem se afastar da produção ao modo de Estremoz, o perfeccionismo de Jorge da Conceição e a que ele tem direito como marca das sua identidade, implica uma confecção mais complexa e morosa do que os espécimens doutros barristas. Para além disso, e já não é pouco, corresponde, em termos de imaginário do seu criador, a uma ruptura com aquilo que vinha sendo feito, elevando assim a nossa barrística a um novo patamar. É caso para dizer que com este barrista ocorrem frequentemente mudanças de paradigma,
que apraz registar e valorizar.
Não será despropositado recorrer aqui ao sociólogo Álvaro Borralho, que, no artigo “Bonecos de Estremoz: não há identidades puras”, publicado no Jornal E nº 199, de 3 de Maio de 2018 (2), conclui a determinado passo: “E os Bonecos de Estremoz não escapam a esta lógica: não há uma identidade dos bonecos, há identidades (no plural), quer dizer, tendências diversas, várias visões, concepções e estratégias para as quais concorrem diversos agentes que não só os barristas”.
Jorge da Conceição participou até ao presente nas seguintes exposições e eventos: - Julho de 1983 - 1ª Feira de Arte Popular e Artesanato Artesanato do Concelho de Estremoz; - Dezembro 2013 - VII Exposição de Presépios de Artesãos do Concelho de – Estremoz; - Janeiro 2014 - Exposição de Barrística de Jorge da Conceição (Estremoz); - Junho 2014 - FIA 2014 (Lisboa); Julho 2014 - 1º Prémio do Concurso de Artesanato
Tradicional - FIA 2014 (Lisboa) com a peça “Fado”; - Julho 2014 - Exposição temática sobre a Rainha Santa Isabel (Estremoz); - Novembro 2014 - VIII Exposição de Presépios de Artesãos do Concelho de Estremoz; - Junho 2015 – FIA 2015 (Lisboa); Julho de 2015 - Exposição “Os Artesãos de Estremoz e o Apóstolo Santiago” (Estremoz); - Dezembro 2015 - IX Exposição de Presépios de Artesãos do Concelho de Estremoz; - Abril de 2016 - Exposição “500 Anos da Beatificação da Rainha Santa Isabel” (Estremoz); - Junho 2016 - FIA 2016 (Lisboa); - Junho 2016 - Menção Honrosa - FIA 2016 (Lisboa) com a peça “Presépio - Adoração dos Reis Magos”; - Julho 2016 - RAÍZES - Jorge da Conceição (Fátima); - Novembro 2016 - X Exposição de Presépios de Artesãos do Concelho de Estremoz; - Dezembro 2016 - A Arte dos Presépios (Montijo); Março 2017 - Figurado de Estremoz por Jorge da Conceição (Museu de Arte Sacra da Covilhã); - Novembro de 2017- XI Exposição de Presépios de Artesãos de Estremoz (Estremoz); - Abril de 2018 - Exposição “Figurado de Estremoz” (Estremoz); - Maio de 2018 - Exposição “Figurado de Estremoz de Jorge da Conceição” - Museu de Ovar (Ovar); - Junho de 2018 - FIA 2018 (Lisboa).

BIBLIOGRAFIA
1 - Bonecos de Estremoz / Proposta nas mãos da “Cultura” in jornal E, nº117, 04/12/2014. Estremoz, 2014 (pág. 5).
2 - BORRALHO, Álvaro. Bonecos de Estremoz: não há identidades puras in Jornal E nº 199, 03/05/2018. Estremoz, 2018 (pág. 15).
3 - Jorge Manuel da Conceição Palmela – Assento de Nascimento Informatizado nº 5493 de 2008, da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
4 - Jorge Manuel da Conceição Palmela – Processo Individual de aluno nº 4280, no Arquivo da Escola Industrial António Augusto Gonçalves e sucessoras.


 Presépio de trono ou altar. Jorge da Conceição.

  Nossa Senhora do Ó. Jorge da Conceição.

  Santo António. Jorge da Conceição.

  Rainha Santa Isabel. Jorge da Conceição.

Senhor dos Passos. Jorge da Conceição.

 Primavera de arco. Jorge da Conceição.

 Bailadeira. Jorge da Conceição.

 Amor é cego. Jorge da Conceição.

Vitória de Estremoz. Jorge da Conceição.
  
 Pastor de tarro e manta. Jorge da Conceição.

Ceifeiro. Jorge da Conceição.
  
Aguadeiro. Jorge da Conceição.
  
 Leiteiro. Jorge da Conceição.

 Mulher das castanhas. Jorge da Conceição.

Barrista a modelar Bonecos de Estremoz. Jorge da Conceição. Figura modelada
em homenagem ao avô Mariano da Conceição (1903-1959), que nos anos 30 do
séc. XX e na peugada de Ana das Peles [Ana Rita da Silva (1870-1945)], ficou
indissociavelmente ligado à  recuperação dos Bonecos de Estremoz na Escola
Industrial António Augusto Gonçalves, graças à iniciativa do seu director, José
Maria de Sá Lemos (1892-1971). Trabalho inspirado em fotografia de Rogério de
Carvalho (1915-1988), datada dos anos 40 do séc. XX.

Barrista a pintar Bonecos de Estremoz. Jorge da Conceição. Figura confeccionada em
homenagem à avó Liberdade da Conceição (1913-1990), barrista que participou na
Exposição do Mundo Português, em 1940. Trabalho inspirado em imagens do filme
“A Grande Exposição do Mundo Português (1940)”, de António Lopes Ribeiro. 

 Mulher a lavar a roupa. Jorge da Conceição.

Mulher a passar a ferro. Jorge da Conceição.

 Senhora a servir o chá. Jorge da Conceição.

 Senhora ao toucador. Jorge da Conceição.

Galo no poleiro (apito). Jorge da Conceição.
  
Cesta de ovos (apito). Jorge da Conceição.

 Galinha no choco (apito). Jorge da Conceição.

Fado. Jorge da Conceição. Figura composta a que foi atribuído o 1º Prémio do
Concurso de Artesanato Tradicional na Feira Internacional de Lisboa (FIA), em 2014.