domingo, 2 de junho de 2013

Os bonecos de Estremoz na Exposição do Mundo Português

Fig. 1 - O tocador de harmónio (Boneco de Estremoz
de Mariano da Conceição. Museu Rural de Estremoz.
Fotografia de Luís Mariano Guimarães).

AS COMEMORAÇÕES DOS CENTENÁRIOS DA FUNDAÇÃO E DA RESTAURAÇÃO DA NACIONALIDADE
A 2 de Junho de 1940, teve lugar em Lisboa, a abertura oficial das Comemorações dos Centenários da Fundação e da Restauração da Nacionalidade, anunciada pelo presidente da Comissão Executiva dos Centenários, Júlio Dantas.
As Comemorações tiveram âmbito nacional, mas o seu maior esplendor foi a Exposição do Mundo Português.

A EXPOSIÇÃO DO MUNDO PORTUGUÊS
A "Exposição do Mundo Português" (Fig. 2), que se realizou de 23 de Junho a 2 de Dezembro de 1940, foi um evento realizado em Lisboa durante o regime do Estado Novo. Com o propósito de comemorar simultaneamente as datas da Fundação do Estado Português (1140) e da Restauração da Independência (1640), constituiu-se na maior de seu género realizada no país até à data. Para a época foi uma grandiosa obra só comparável, com as devidas proporções, com a "Exposição Universal de Lisboa" de 1998.Incluía pavilhões temáticos relacionados com a História de Portugal, suas actividades económicas, cultura, regiões e territórios ultramarinos. Incluía ainda um pavilhão do Brasil.

Fig. 2.

O evento levou a uma completa renovação urbana da zona ocidental de Lisboa. A sua praça central deu origem à Praça do Império, uma das maiores da Europa. A maioria das edificações da exposição foi demolida ao seu término, restando apenas algumas como o actual Museu de Arte Popular e o Monumento aos Descobrimentos (reconstrução com base no original de madeira).
Situada entre a margem direita do rio Tejo e o Mosteiro dos Jerónimos, ocupava cerca de 560 mil metros quadrados e recebeu cerca de três milhões de visitantes, constituindo o mais importante facto cultural do Estado Novo.


OS BONECOS DE ESTREMOZ NA EXPOSIÇÃO DO MUNDO PORTUGUÊS
António Ferro, Director do Secretariado Nacional de Propaganda, estrutura que controlava todas as formas de comunicação do país, era o Secretário-Geral da Comissão Executiva, presidida por Júlio Dantas.
António Ferro era próximo de José Maria de Sá Lemos (1) e esteve em Estremoz, onde convidou Mestre Mariano da Conceição (1903-1959) a participar na Exposição. Este não o pôde fazer, pela sua condição de funcionário público, Mestre Olaria da Escola Industrial António Augusto Gonçalves. Os bonecos (Fig. 1) eram feitos em Estremoz por Mestre Mariano (Fig. 3) e transportados para Lisboa, onde na Exposição eram pintados por sua esposa, Liberdade Banha da Conceição, que ali esteve presente durante todo o período da mesma. Há provas documentais da presença dos bonecos de Estremoz na Exposição.

Fig. 3 - Mestre Mariano da Conceição a trabalhar na sala de olaria da Escola Industrial António
Augusto Gonçalves. Fotografia de Rogério de Carvalho (1915-1988). Arquivo de Hernâni Matos.

 Comecemos pelo “MUNDO PORTUGUÊS/IMAGENS DE UMA EXPOSIÇÃO HISTÓRICA/1940”. Trata-se de um álbum evocativo da “Exposição do Mundo Português”, editado pelo Secretariado Nacional de Informação, em 1956. Foi dedicado “Aos filhos dos que viram a Exposição do Mundo Português – Para que também a vejam”. Através dele se sabe que os bonecos de Estremoz marcaram presença no “Pavilhão da Vida Popular “, na “Sala de Artes e Ofícios”, onde estiveram presentes numa bancada exposicional e numa vitrina expositora (Fig. 4 e Fig. 5).

Fig. 4. 
Fig. 5.

O filme "A Grande Exposição do Mundo Português (1940)", de António Lopes Ribeiro, com a duração de 59 min 52 s, mostra entre os 44 min 25 s e 44 min 39 s, 14 preciosos segundos de filme, onde se vê Liberdade da Conceição, vestida de camponesa, a pintar bonecos de Estremoz (Fig. 6, Fig. 7 e Fig. 8).

Fig. 6. 
Fig. 7. 
Fig. 8.

Na Exposição do Mundo Português marcaram forte presença os bonecos de Estremoz, afeiçoados pelas mãos sábias e mágicas de Mestre Mariano da Conceição e decorados pelas mãos pacientes e laboriosas de sua terna esposa, Liberdade da Conceição, que lhes comunicava, não só as cores garridas, como a luz própria e muito característica das claridades do Sul.
Os bonecos de Estremoz, de Mariano da Conceição, foram na Exposição do Mundo Português, o ex-líbris de excelência da nossa bem amada cidade branca. Eles foram os melhores embaixadores da nossa Arte Popular e da nossa identidade cultural local e regional. Eles foram simultaneamente, a primeira declaração e a primeira prova insofismável de que nesta terra que nos pariu e é nossa, existem criadores populares de elevado gabarito, com grande qualidade de desempenho, que estão bem e se recomendam.
A mensagem transmitiu-se através do feedback de visitantes, originários dos mais distintos locais, não só de Norte a Sul do país, como também das Ilhas e mesmo das Sete Partidas do Mundo.
Os bonecos de Estremoz de Mariano da Conceição, até então relativamente pouco conhecidos, adquiriram por mérito próprio e muito justamente, grande notoriedade pública. Foram eles que desalojaram a nossa Arte Popular do estatuto comezinho em que se encontrava acantonada e lhe conferiram dimensão humana à escala planetária.
Mestre Mariano da Conceição é um ícone da cidade de Estremoz que o gerou e que dele muito justamente se orgulha. Exactamente como Tomaz Alcaide, meu parente do costado dos Carmelos, tenor lírico de projecção internacional, que com o vigor cristalino da sua apreciada voz, levou igualmente o nome da nossa urbe, por esse mundo fora, sempre que como artista de excepção, pisava os palcos dos grandes e famosos teatros líricos. Tanto Tomaz Alcaide como Mariano da Conceição foram actores que desempenharam e bem, o seu papel no palco da vida. Por isso, a comunidade estremocense lhes está grata e os admira. Todavia, para além do reconhecimento, há uma homenagem que tarda em relação a Mariano da Conceição.
Com a Exposição do Mundo Português houve uma mudança de paradigma na produção de bonecos de Estremoz. Mariano da Conceição resolveu dar uma inflexão à sua actividade bonequeira. Até aí Mestre Mariano só confeccionava bonecos na Escola Industrial António Augusto Gonçalves, os quais conjuntamente com exemplares executados pelos seus alunos, assim como peças de olaria eram vendidos, funcionando o produto da venda como fonte de receita para a Escola. Os alunos recebiam por isso salário, conforme notícia do jornal “Brados do Alentejo” nº 239 (25 de Agosto de 1935). A partir da Exposição do Mundo Português, que se saldou num êxito para Mestre Mariano, ele passa também a fazer bonecos na sua casa, os quais são comercializados em Estremoz, em diversos locais: Loja de Artigos Regionais da Olaria Alfacinha (Largo da República, 30), Papelaria Ruivo (Largo da República, 24), Loja de Artesanato de Rafael dos Santos Grades (Rua Victor Cordon, 27 e 30), Papelaria A Tabaqueira de Alves & Simões, Lda (Rossio Marquês Pombal 11 e 12).
Com o seu exemplo, Mestre Mariano demonstrou que a produção de bonecos de Estremoz era uma actividade viável e abriu caminho para aqueles que se lhe seguiram, após a sua morte prematura em 1959.

PARA QUANDO UMA HOMENAGEM A MESTRE MARIANO DA CONCEIÇÃO?
Mestre Mariano da Conceição cuja Memória permanece viva na comunidade, era um homem do povo, do clã dos Alfacinhas, com mãos mágicas para modelar o barro desta terra de Além Tejo do termo de Estremoz. Exactamente o mesmo barro que de acordo com o Génesis, Deus terá modelado o primeiro homem. Em Mariano pensou o poeta António Simões, compadre de Maria Luísa da Conceição, filha de Mariano, quando a meu pedido criou em 1983 a quadra que diz:


Barro incerto do presente,
Vai moldar-te a mão do povo
Vai dar-te forma diferente,
Para que sejas barro novo.

Mestre Mariano é um ícone desta terra transtagana, ao qual a comunidade muito deve e cujo reconhecimento público tarda, porque alguns pensam que se deve cumprir o adágio “Ninguém é rei na sua terra”, o que não é minimamente aceitável.
No Canto I dos Lusíadas, diz Luís Vaz de Camões:


(…)
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando
(…)

É o que se passou com Mestre Mariano da Conceição, que ganhou fama que lhe sobreviveu e será lembrado pelas gerações futuras.
Falta agora o nosso Município homenagear Mestre Mariano postumamente, através da atribuição duma medalha de grau adequado, o que aqui se sugere, bem como a atribuição do seu nome a uma rua da cidade. Em 19 de Setembro de 1997, na qualidade de deputado municipal, fiz uma proposta de recomendação à Câmara nesse sentido, a qual foi aprovada. Como sou uma pessoa paciente, ainda estou à espera da resposta.
Estou crente que a Câmara Municipal de Estremoz não ficará indiferente a estas sugestões, que reúnem condições para serem consensuais. A Memória de Mestre Mariano da Conceição e o seu legado merecem isso.
Assim seja!

Excertos do livro em preparação:
"MESTRE MARIANO DA CONCEIÇÃO (O Alfacinha)"

(1) -  José Maria de Sá Lemos (1892-1971), escultor, discípulo de Mestre António Teixeira Lopes (1866-1942) foi Director da Escola Industrial António Augusto Gonçalves, entre 21 de Abril de 1932 e 30 de Setembro de 1945.