sábado, 25 de julho de 2020

Museu Berardo Estremoz


Museu Berardo Estremoz. Fotografia da Câmara Municipal de Estremoz. 


A inauguração do Museu Berardo Estremoz na presente data, culmina um longo processo que envolve Berardo e Companhia, do qual fui dando conta na imprensa local e neste blogue. Continuo a pensar que o sujeito deu um chouriço a quem lhe deu um porco. Para que conste aqui fica compilado tudo o que disse sobre aquela dupla:

- COLECÇÕES BERARDO: Cama, mesa e roupa lavada (15-05-2019)
Berardo e Companhia (13-07-2017)
O Palácio Tocha na Belle Époque (07-07-2014)

À margem da dupla e porque eu andei por ali:

 Eu e o Palácio Tocha (13-07-2014)

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Bonecos de Estremoz: Tintas de pintura e pigmentos


 Mulher das castanhas – Oficinas de Estremoz de finais do séc. XIX. Colecção do autor.
Tintas de pintura
Após a cozedura, e depois de terem arrefecido, os Bonecos estão em condições de serem coloridos. A cor de cada um dos seus componentes pode ser conseguida através da aplicação de tintas de pintura, constituídas basicamente por um pigmento mineral, um aglutinante (veículo de cor neutra ou sem cor que suspende o pigmento e confere à tinta a sua aderência) e um diluente. Têm sido utilizadas no decurso do tempo, vários tipos de tintas de pintura: - TINTAS DE ÓLEO – Os pigmentos minerais são adicionados a ligantes que são óleos secativos como o óleo de linhaça, o qual por oxidação do ar origina uma película elástica que adere ao suporte e fixa as partículas do pigmento. O diluente usado é a aguarrás. - TINTAS DE COLA OU GOMA – Os pigmentos são juntados a ligantes como a cola ou goma e como diluente utiliza-se a gema de ovo. Eram as tintas usadas por Gertrudes Rosa Marques (1840-1921), de acordo com Luís Chaves (*) - TINTAS DE GRUDE – Ti Ana das Peles e Mariano da Conceição terão sido os primeiros a usá-las. Nelas o ligante era a grude, hoje caído em desuso, e que era uma cola de origem animal usada em carpintaria para ligar peças de madeira. Apresentava-se comercialmente no estado sólido, sob a forma de barras, que visando a sua utilização tinham de ser fracturadas e imersas em água fria durante cerca de seis horas para amolecer. A grude era depois aquecida em banho-maria até derreter completamente e poder ser utilizada. Para além da sua utilização como cola, a grude foi ainda utilizada como ligante de pigmentos minerais. Sabina da Conceição, Liberdade da Conceição e José Moreira foram os últimos barristas a utilizar a grude como ligante, de acordo com os cânones tradicionais seguidos por Ana das Peles e Mariano da Conceição. Fizeram-no até à década de 70 do séc. XX e deixaram de a usar, já que a sua utilização não era prática. Esta exigia que uma pequena porção de cada pigmento fosse vertida numa tigelinha de barro, à qual era igualmente adicionada grude derretida, sendo depois a mistura homogeneizada, mexendo-a com uma pequena bola de barro cozido que tinha cravado como cabo, um pedaço de arame. Com o arrefecimento, a grude solidificava, pelo que havia necessidade de com frequência aquecer as tigelinhas num fogareiro a carvão e homogeneizar a mistura, a fim de poder ser utilizada na pintura do barro. Para além disso, a grude apresentava outro inconveniente que era apodrecer e começar a cheirar mal. - TINTAS DE ÁGUA DE COLA - Com o abandono da grude, houve barristas que começaram a utilizar água de cola branca de madeira como ligante dos pigmentos, por permitir uma utilização mais cómoda. - TINTAS DE ÁGUA – Alguns barristas usam actualmente tintas de água, caracterizadas pela presença de um ligante solúvel na água. Inicialmente estas tintas usavam como aglutinantes, substâncias como amido, caseinatos, dextrinas, gelatina, gomas, etc. Tratavam-se de tintas inferiores sob um ponto de vista de protecção do suporte. Actualmente, este tipo de tintas utiliza como ligante uma dispersão de resinas, que as torna mais resistentes aos agentes atmosféricos.
Pigmentos:
Os pigmentos são corantes, que no caso dos Bonecos são, em geral, pigmentos inorgânicos obtidos a partir da trituração e pulverização de minerais, seguida de purificação ou tratamento industrial. Os pigmentos absorvem selectivamente a luz que neles incide, pelo que a luz reflectida é que determina a cor do objecto. Os pigmentos têm que reunir determinadas características: - Insolubilidade na água; - Facilidade de mistura com os líquidos que lhes servem de veículo; - Opacidade, ou seja capacidade de revestir as superfícies com a menor quantidade possível de pigmento; - Inalterabilidade à acção da luz, do ar, do calor e da humidade; - Secagem rápida. Como exemplos de pigmentos de utilização mais corrente, destaco: - CASTANHO: Terra de Siena crua (mistura de óxido de ferro hidratado, sílica, alumina e dióxido de manganês), terra de Siena queimada (resultante da calcinação da Terra de Siena crua); - VERMELHO: Almagre (ocre vermelho - argila corada pelo sesquióxido de ferro anidro), vermelhão (sulfureto de mercúrio II), zarcão (tetróxido de chumbo); - AMARELO: Litargírio (óxido de zinco), ocre amarelo (argila corada pelo sesquióxido de ferro hidratado), amarelo de crómio (cromato de chumbo), cromato de zinco; - VERDE: Verde de crómio (sesquióxido de crómio), verde de cobre (hidróxicarbonato de cobre), verde de zinco, verde inglês (mistura de cromato de chumbo e ferrocianeto ferroso), verde de cobalto (mistura de óxido de zinco e de óxido de cobalto); - AZUL: Azul do Ultramar (obtido da rocha lápis-lázuli), azul da Prússia (ferrocianeto férrico), azul de cobalto (aluminato de cobalto II); - BRANCO: Alvaiade (Óxido de zinco), dióxido de titânio, carbonato de chumbo, sulfato de bário, sulfato de chumbo; - PRETO: Preto de Marte (óxido de ferro II), preto de manganês (dióxido de manganês), pó de sapato (pigmento resultante da combustão de resinas queimadas). Os locais onde se podiam comprar pigmentos minerais em Estremoz, nos anos 80 do séc. XX, eram os seguintes: Mendes, Meira & Niza, Lda (Largo dos Combatentes da Grande Guerra, 13 e 14), Drogaria Loução (Largo General Graça, 49) e Drogaria Lélé (Largo da República, 38). Esta era, sem dúvida, a casa que tinha maior variedade de pigmentos, opinião partilhada pelo pintor Armando Alves. Actualmente, a aquisição de tais pigmentos pode ainda ser feita na firma Merino e Sadio (Rua 1º de Dezembro, 27).

(*) - CHAVES, Luis. Arte popular do Alentejo - Etnografia Artística - Os barristas de Estremoz, a oficina e a técnica in Portucale – Revista Ilustrada de Cultura Literária, Scientífica e Artística, VI. Porto, 1933 (pág. 186 a 189). 

BIBLIOGRAFIA
MATOS, Hernâni. Bonecos de Estremoz. Edições Afrontamento. Estremoz / Póvoa de Varzim, Outubro de 2018 (pág. 51 a 53).

terça-feira, 21 de julho de 2020

Acerca de Senhoras de pezinhos


Oficinas de Estremoz (Finais do séc. XIX-Princípios do séc. XX). Colecção Armando Alves.

Dedicatória
O presente texto é dedicado a todos os barristas que frequentaram o Curso de Formação sobre Técnicas de Produção de Bonecos de Estremoz, que em 2019 teve lugar nesta cidade, no Palácio dos Marqueses de Praia e Monforte. Tem por finalidade dar-lhes uma visão polifacetada duma figura que modelaram durante o Curso.
A sua publicação foi antecedida duma consulta ao barrista Jorge Conceição, Professor do Curso, visando a emissão de um parecer sobre o mesmo, não se desse o caso de inadvertidamente estar a defender pontos de vista contrários ao que foram ensinados no Curso.
O Professor Jorge Conceição emitiu um parecer, no qual após várias considerações, termina dizendo: Em resumo, acho o seu texto muito completo e uma mais-valia para todos os barristas terem como referência, quer os novos quer os antigos e não vai em nada contra o que ensinámos no curso. Acho igualmente que mesmo que alguma das características que refere não tenha sido aplicada em peças antigas, tudo o que descreve é parte dessa época e poderá perfeitamente ser usado na recriação de peças que se façam agora. 
Uma figura da tradição
Existe na barrística popular de Estremoz, uma figura singular conhecida por “Senhora de pezinhos” que tem como atributos, prescindir de base (ser assente nos pezinhos e no vestido/saia) e ter ambas as mãos assentes frontalmente nas pernas e abaixo da anca. Tais factos condicionam fortemente a modelação da figura, mas não impediram que desde há mais de 100 anos, os nossos barristas interpretassem esta figura das maneiras mais diversas. Vejamos como.
O vestuário tanto pode ser um vestido como uma saia-casaco. Em qualquer dos casos, os pormenores do vestuário foram sendo tratados de diferentes maneiras, cada vez mais elaboradas. A abertura do peito do vestido e a respectiva abotoadura, os punhos, as abotoaduras das mangas e a orla inferior, começaram por ser pintados numa cor marcadamente contrastante com a cor do vestido. Porém, os barristas começaram em dado momento a conferir volumetria a esses componentes do vestido, que passam de pintados a modelados, ainda que tal não se tenha verificado simultaneamente com todos os componentes, nem todos os barristas o tenham feito ao mesmo tempo.
É possível recuperar a figura da Senhora de pezinhos, reinterpretando-a através dos seus componentes, o que é possível concretizar de inúmeras maneiras.
Forma do vestido
A forma tronco-cónica da parte inferior do vestido, poderá ter maior ou menor inclinação em relação à horizontal. Em alternativa, poderá ser armada em forma de balão.
Fecho do vestido
O vestido poderá ser fechado à frente e abrir atrás, apresentando aqui uma abotoadura vertical.
Poderá igualmente abrir à frente e apresentar aqui a abotoadura vertical.
O vestido pode ser fechado até acima e poderá ter ou não gola ou coloarinho, os quais apresentarão abotoadura.
Poderá alternativamente apresentar decote de tamanho variável e de forma variável (circular ou quadrada).
Os ombros poderão ou não estar a descoberto.
Manga
O vestido poderá ter manga comprida com punhos, com ou sem abotoadura. Poderá ter manga curta, a qual poderá ser em balão. Poderá não ter manga por ter alças ou ser um cai cai.
Superfície do vestido
A superfície do vestido poderá ser lisa, plissada, apresentar folhos ou pode ser decorada com aquilo que configure renda ou aplicações em feltro.
Cor do vestido
Depois há a questão da cor do vestido, que pode ser liso ou configurar tecido estampado com padrões diversos. Também há diferentes opções de escolha de cor para os componentes do vestido.
As cores são sempre muito importantes. O simbolismo das cores e dos elementos usados no padrão da roupa, são de ter em conta. As cores devem ligar umas com as outras e ser contrastantes para diferenciar os diferentes componentes da figura. A partir delas pode-se caracterizar a figura e dar-lhe alma. Só vida é que não.
Cintura
A cintura do vestido pode ser na posição normal ou situar-se logo abaixo do busto (Período Império: 1804-1813). Com a cintura na posição normal é possível cingir a cintura com uma fita atada atrás em forma de laço. A cintura pode igualmente ser cingida por um cinto com uma vistosa abotoadura ou fivela à frente ou atrás.
Cabeça da figura
A cabeça da Senhora pode surgir com o cabelo a descoberto, ornamentado ou não por uma canoa ou por uma ou mais flores. Mas a cabeça também pode figurar coberta com um chapéu de configuração e cor variáveis, ornamentado por flores, folhas secas, plumas ou laços, em número, cor e disposição variável.
Mãos
Apesar das mãos da figura estarem sempre na mesma posição, é possível associar-lhe adereços tais como: luvas, leque, malinha de mão, lenço, bouquet de flores e sombrinha.
As luvas compridas ficam bem se o vestido tiver manga curta ou for um vestido cai cai. Penso que no caso da modelação incluir uma sombrinha, esta deverá ter o cabo apoiado num dos pulsos e a sombrinha parcialmente embutida no vestido e apoiada no sapato ou no ar, mas nunca tocando no chão. Só assim não se violará o "dogma" do assentamento da Senhora se verificar apenas nos pezinhos e na parte de trás da saia.
Jóias
Se o vestido for decotado, fica bem uma jóia ao pescoço. Se o vestido não tiver mangas, fica bem uma pulseira no pulso.
A terminar
O presente texto corresponde a uma reflexão profunda da minha parte e simultaneamente procura rasgar horizontes aos novos barristas, dando-lhes conta que todos os que os antecederam procuraram sempre inovar e o fizeram. Lá diz o rifão “Quem conta um conto, aumenta um ponto”. Por isso é legítimo que os novos barristas também o façam. Se assim não fosse, se cada barrista não introduzisse marcas identitárias muito próprias, a barrística de Estremoz estaria morta. Tal não acontecerá se os barristas no seu todo continuarem a recusar-se integrar como que uma linha de montagem que se limita a reproduzir figuras que lhes são pré-existentes. É necessário que as reinterpretem a seu modo e simultaneamente modelem novas figuras. Alguns dirão que “Não é ao modo de Estremoz”. Não se preocupem, a barrística de Estremoz sempre teve os seus “velhos do Restelo” e decerto continuará a ter. Se Vasco da Gama se tivesse deixado atemorizar pelas profecias do velho do Restelo, nunca teria descoberto o Caminho Marítimo para a Índia. Em caso de dúvidas, consultem quem vos ensinou. Esse é o melhor caminho.  
Termino, formulando sinceros votos de que o presente texto seja da máxima utilidade aos novos barristas. Se assim for, isso será para mim bastante gratificante.

Oficinas de Estremoz (Finais do séc. XIX-Princípios do séc. XX). Colecção Armando Alves. 

Oficinas de Estremoz (Finais do séc. XIX-Princípios do séc. XX). Colecção Armando Alves. 

Ana das Peles (1869-1945). Colecção do autor. 

 Mariano da Conceição (1903-1959). Museu Rural de Estremoz.

Liberdade da Conceição (1913-1990). Colecção Jorge da Conceição. 

 Sabina da Conceição (1921-2005). Colecção do autor. 

José Moreira (1926-1991). Colecção do autor. 

Maria Luísa da Conceição (1934-2015). Colecção Jorge da Conceição.


Irmãs Flores (1957, 1958 -  ). Cortesia das autoras.

Irmãs Flores (1957, 1958 -  ). Cortesia das autoras.

Irmãs Flores (1957, 1958 -  ). Colecção do autor.

Ana Grilo (1974, -  ). Colecção do autor.

Luísa Batalha (1959, -  ). Colecção do autor.

Madalena Bilro (1959, -  ). Colecção do autor.