sábado, 17 de janeiro de 2026

Crispim Serrano, Presente!

 

1 - Crispim Serrano, funcionário do Município de Estremoz, figura-chave na
recolha de peças utilizadas nas fainas agro-pastoris concelhias para o Museu
da  Alfaia Agrícola,  nos anos 80 do séc. XX.


“Todos tiveram pai, todos tiveram mãe”
José Régio in Cântico Negro


Sem querer chover no molhado

Muito se tem falado e escrito a propósito disto e daquilo, das instalações definitivas do chamado Museu da Alfaia Agrícola de Estremoz.
O debate perde-se na lonjura do tempo, é do domínio público e no decurso dele têm-se revelado opiniões críticas, de carácter piedoso em relação ao Museu e ao público alvo: a Comunidade e aqueles que nos visitam. Algumas delas tresandam a “gato escondido com o rabo de fora”, já que não conseguem disfarçar o fito de nos seus juízos, visarem zurzir o Executivo Municipal em exercício, o que já aconteceu sucessivamente com edilidades de diferentes colorações ideológicas.
Muitas das vezes as divergências não são mais que meros reflexos de caganifâncias resultantes de diferentes orientações metodológicas em termos de musealização ou necessidade de protagonismo dos seus fautores. Para além disso, são a assunção da ignorância flagrante duma verdade culinária clássica e de um provérbio tradicional português “Não se fazem omeletes sem ovos”. E no caso do Museu da Alfaia Agrícola, os ovos têm a ver com prioridades, oportunidades, projectos e financiamento.

Palavras do Presidente do Município
Em depoimento prestado ao jornal E e publicado no número anterior, o Presidente do Município, José Sadio deu conhecimento de dois factos relevantes: 1) Avançará em breve a aquisição do imóvel destinado às instalações definitivas do Museu da Alfaia Agrícola, uma vez que se encontram reunidas as condições necessárias para o fazer; 2) Está a ser desenvolvido internamente um novo Projecto de Musealização para o futuro espaço, o qual vai ser submetido a candidatura, visando o respectivo financiamento (*1).
Os meus parabéns ao Município na pessoa do seu Presidente, uma vez que a missão a que se propôs está em vias de ser concluída.

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe
Desconheço inteiramente a designação que vai ser atribuída ao chamado “Museu da Alfaia Agrícola” nas suas futuras instalações. Há muitas hipóteses, das quais respigo algumas: Museu da Alfaia Agrícola, Museu Rural, Museu da Lavoura, Museu da Agricultura, Centro Interpretativo do Mundo Rural, Centro Interpretativo da Ruralidade, etc.
Outras designações haverá certamente. Caberá ao Executivo Municipal escolher aquela que melhor se ajuste à filosofia do Projecto subjacente às instalações definitivas do Museu da Alfaia Agrícola.
Para além disso, atrevo-me a sugerir ao Executivo Municipal que vá mais além. Vejamos porquê. É sabido que o Museu Municipal de Estremoz criado em 1880, foi transferido para as actuais instalações em 1972. Desde os anos 70 do século passado que o Professor Joaquim Vermelho desenvolveu uma actividade cultural intensa na Biblioteca e no Museu Municipal, sobejamente reconhecida pela Comunidade e fora dela. Daí que em 1 de Março de 2003, o Município de Estremoz o tenha homenageado postumamente, atribuindo ao Museu Municipal de Estremoz a designação “Professor Joaquim Vermelho”. Tratou-se de uma iniciativa inteiramente justa, reconhecida e aplaudida pela Comunidade, que via nele o “Pai” do Museu Municipal de Estremoz. É que “Todos tiveram pai, todos tiveram mãe”, como no diz José Régio no “Cântico Negro” e no caso do Museu Municipal de Estremoz, o “Pai” foi o Professor Joaquim Vermelho.

2 - Exposição de Maquinaria e Alfaias Agrícolas no decurso da III Feira de Arte Popular
e Artesanato do Concelho de Estremoz, entre 25 e 28 de Julho de 1985.

E no caso do “Museu da Alfaia Agrícola”?
No caso do Museu da Alfaia Agrícola ou outra designação que venha a ser adoptada pelo Município, atrevo-me a propor ao Executivo Municipal, que lhe seja adicionada a designação “Crispim Serrano” (Fig. 1), pois foi ele o “Pai” do Museu da Alfaia Agrícola. Vejamos porquê.
Crispim Serrano, foi um camponês de rija tempera, daqueles que “comeram o pão que o diabo amassou” e trabalharam de sol a sol, a troco de pouco mais de coisa nenhuma, nas múltiplas tarefas sazonais que constituíam o dia a dia das herdades alentejanas. Conhecia como poucos as alfaias agrícolas e o seu modo de utilização, por ter trabalhado com elas mais os seus companheiros. Conhecia as estórias de vida de abegões que as confeccionaram e estórias de vida de homens como ele, que a soldo dos donos das terras e em condições a maioria das vezes adversas, tinham a seu cargo a nobre missão de assegurar a produção de bens pela Terra-Mãe, os quais iriam garantir a prosperidade do patrão e simultaneamente assegurar o seu ganha-pão.
Crispim Serrano tinha consciência da importância das alfaias agrícolas como registo dum passado que se estava a esvair e da importância das mesmas na elaboração de uma memória colectiva, a qual nos ajuda a construir e manter a nossa identidade cultural e histórica, preservando tradições, valores e experiências comuns, a transmitir às novas gerações.
Na qualidade de encarregado de pessoal, liderou uma equipa de funcionários do Município que a partir de 1983 e sob sua orientação começou a recolher alfaias agrícolas por cedências, empréstimos ou depósitos postos à disposição do Município e recolhidas nas Casas Agrícolas do Concelho. Nalguns casos, as peças recolhidas encontravam-se já em condições limite, abandonadas em telheiros, ao ar livre e mesmo em lixeiras, ao sabor das intempéries, correndo o risco de as ferragens serem corroídas pela ferrugem e as madeiras apodrecerem com a chuva e a humidade ou serem recolhidas para serem utilizadas como material de combustão.
A importância da recolha liderada por Crispim Serrano é incomensurável. A sua origem e passado camponês permitiram-lhe acumular ao longo do tempo, um valioso acervo de saberes, talentos e competências que se revelaram inestimáveis na recolha que liderou. Ele conhecia como ninguém, a área geográfica de cada freguesia, bem como a localização das peças que era importante recolher, tendo em conta a sua singularidade e a valorização que davam ao conjunto recolhido.
Os frutos da recolha então efectuada viriam a ser objecto de recuperação, limpeza e conservação em armazéns do Município situados na Horta do Quiton, em Estremoz, o que foi feito por funcionários do Município liderados igualmente por Crispim Serrano (*2). Da Horta do Quiton saíram cerca de 4000 peças utilizadas nas fainas agro-pastoris do concelho, as quais vieram a incorporar o acervo do Museu da Alfaia Agrícola, primitivamente instalado em 1987 no edifício da Antiga Fábrica de Moagem e Electricidade na Rua Serpa Pinto, em Estremoz. Nos seus primórdios o Museu seria gerido pela chamada “Comissão da Alfaia Agrícola”, liderada pelo Professor Joaquim Vermelho e dependente da CME.
Antes da sua integração no Museu da Alfaia Agrícola, algumas dessas peças já tinham participado em exposições associadas aos seguintes eventos: Festas da Exaltação da Santa Cruz em 1983 e 1984, bem como na III, IV e V Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz, realizadas respectivamente em 1985 (Fig. 2), 1986 e 1987. Neste último ano, a V Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz integrou pela primeira vez a I FIAPE - Feira Internacional Agro-Pecuária e de Artesanato de Estremoz. Foi no decurso desta última que ocorreu a maior exposição de material agrícola que reuniu cerca de 4000 peças que posteriormente viriam a constituir o acervo do Museu da Alfaia Agrícola.

O “Pai” Crispim Serrano
Julgo ter ficado demonstrado duma forma insofismável a extraordinária importância que Crispim Serrano teve como recolector de peças das fainas agro-pastoris concelhias que viriam a integrar o acervo do Museu da Alfaia Agrícola. Ele está indubitavelmente na génese deste Museu, o qual não existiria sem ele. Creio sinceramente que Crispim Serrano pode muito legitimamente ser considerado o “Pai” do Museu da Alfaia Agrícola. Daí que eu proponha ao Executivo Municipal que em sua homenagem, ao nome do Museu seja adicionada a designação “Crispim Serrano”. Será um tributo póstumo da Comunidade, prestado como reconhecimento que lhe é devido pelo mérito demonstrado com o seu contributo para a elaboração de uma memória colectiva de âmbito concelhio. É, de resto, um jeito belo e elegante de a Comunidade proclamar que ele permanece vivo na memória colectiva que ajudou a construir:
- CRISPIM SERRANO, PRESENTE!

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(*1) – De acordo com o que consegui apurar o financiamento será concretizado através do programa ARI (Autorização de Residência para Investimento), o qual financia projectos museológicos através da vertente de apoio ao património cultural, permitindo que investidores estrangeiros façam um donativo mínimo para a recuperação, restauro ou manutenção de museus e monumentos, com aprovação prévia do GEPAC (Gabinete de Estratégia, Planeamento e Avaliação Culturais), serviço integrado da administração directa do Estado português, que actua na área governativa da Cultura e que concede autorização de residência em troca do investimento cultural.
(*2) – Na época assisti de perto à recuperação de muitas dessas peças na Horta do Quiton, a qual frequentava desde a minha infância, já que nasci ali bem perto, no nº 14 do Largo do Espírito Santo. Envolvido em actividades culturais patrocinadas pelo Município de Estremoz, interactuei inúmeras vezes com Crispim Serrano, o qual me concedeu o privilégio da sua amizade.

Hernâni Matos
Publicado em 17 de Janeiro de 2026
Publicado no jornal E, nº 371 de 16-01-2026

CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS - Arquivo Fotográfico Municipal de Estremoz / BMETZ – Colecção Joaquim Vermelho.

domingo, 28 de dezembro de 2025

PEDRO VAZ PEREIRA / Vou-me Embora Vou Partir

 


Pedro Marçal Vaz Pereira


“Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.”
Luís de Camões (c.1524 – 1580)

 

Preâmbulo
Ao Vitorino Salomé agradeço a força do título da sua canção “Vou-me Embora Vou Partir”, a qual integra o álbum “Semear Salsa Ao Reguinho”, lançado em 1975 e que curiosamente termina com o verso “Eu hei-de ir, hei-de voltar com o tempo”.

Mudar de vida
Há uns tempos atrás e com alguma surpresa da minha parte, o Pedro deu-me conhecimento de que se ia retirar das lides filatélicas. Como tal, não voltaria a candidatar-se ao cargo de Presidente da Federação Portuguesa de Filatelia.
Disse cá para comigo “O Pedro está farto da rapaziada e das “guerras do alecrim e da manjerona e resolveu mudar de ares”. Lembrei-me de imediato do poema “Viver sempre também cansa”, do José Gomes Ferreira “O sol é sempre o mesmo e o céu azul / ora é azul, nitidamente azul, / ora é cinzento, negro, quase-verde.../ Mas nunca tem a cor inesperada.”. O cineasta Paulo Rocha se fosse vivo, dar-lhe-ia razão e diria que ”É preciso “Mudar de vida”.
O Pedro disse-me então que gostaria de dispor de um texto meu, o qual sinalizasse o nosso relacionamento e o modo como eu encaro o seu trabalho de 4 décadas, ao leme da Federação Portuguesa de Filatelia. A finalidade era publicá-lo conjuntamente com outros depoimentos no último número da Filatelia Lusitana, tendo-o como Director. De imediato acedi ao seu honroso convite.
Como não tenho vocação para Tedéus nem tão pouco jeito para epitáfios, fi-lo da única maneira que o sei fazer e como é meu timbre, sem formalismos e meio a sério, meio a brincar. Assim o exige a nossa amizade e o nosso gosto pela vida.

Eu e o Pedro
Oitentão, conheci o Pedro há cerca de quatro décadas atrás, era eu ainda um rapaz, com a particularidade de ser dirigente dum clube filatélico de província. O Pedro, então com menos uns centímetros de barriga, era já um Deus Nosso Senhor, lá nos píncaros da Avenida Almirante Reis. De vez em quando eu tinha a ousadia de metralhar a Direcção da Federação com alguns ofícios batidos numa velha “Olímpia”, cuja fita padecia de excesso de tinta. Se não os pus vesgos, andou lá perto disso.
Entre mim e o Pedro, tudo apontava para que o nosso relacionamento interpessoal não funcionasse, já que o nosso horóscopo nos sinaliza a ambos como pertencentes ao signo do Leão com ascendente de Touro. Tudo indicava que o nosso relacionamento viesse a “fazer faísca”. Tal não aconteceu, quem sabe se por termos consciência desse risco. Cada um no seu galho, lá nos fomos respeitando e aturando um ao outro, às vezes sabe-se lá como. O que é certo é que resultou e que cimentámos uma amizade que tem resistido ao tempo e se tem fortalecido apesar das nossas diferenças. É que o direito à diferença é um direito constitucional que legitima que os amigos não tenham que ser o clone um do outro. Para além disso, a amizade não goza da propriedade transitiva. A pode ser amigo de B e B pode ser amigo de C e estas condições não implicam que A tenha que ser necessariamente amigo de C. No nosso caso, somos ambos laicos e republicanos. Todavia ele ufana-se com o verde, é leão e chuta à direita. Pelo contrário, eu sou águia, assumidamente vermelho e chuto à esquerda.
A convite do Pedro, algures no século passado, integrei uma Direcção da Federação Portuguesa de Filatelia, sufragada pelos votos dos clubes federados. Creio que ele terá identificado em mim, qualidades que poderiam fazer a diferença na sua equipa. Julgo que não o desiludi, apesar de na primeira reunião de Direcção ter apanhado um “cagaço” quando avistei junto a ele, uma monumental pilha de papéis e papeletas, dos quais havia que tomar conhecimento e relativamente a alguns tomar decisões. Para tal, era tudo visto, tintim por tintim e branco no preto. Formatado aos processos regimentais federativos, lá fui andando e crescendo como dirigente filatélico, numa caminhada comum, no decurso da qual aprendi muito.

As reuniões da Direcção
As reuniões da Direcção eram matinais e por vezes maiores que a légua da Póvoa, apenas interrompidas quando algumas barrigas como a minha, começavam a dar horas. Chegados a este ponto, as intervenções eram mais curtas, a ver se o Pedro dava ordem de “soltura”. Quando esta acontecia, lá íamos nós a caminho do restaurante Chilgamba, ali mesmo na Avenida Almirante Reis. O almoço era um dos pontos altos desse dia. Púnhamos as conversas em dia, falava-se de colecções, das últimas peças adquiridas e das exposições que aí vinham. Findo o repasto, lá retornávamos à casa mãe, a sede da Federação, a ver se a pilha de papéis e de papeletas, organizadas pelo Pedro, chegava ao fim. Alcançado este, lá nos despedíamos uns dos outros, regressando cada um ao seu porto de abrigo, até à próxima reunião de Direcção, para desempenharmos a missão que assumíramos cumprir, tendo o Pedro como timoneiro.

Contactável até na casa de banho
Certa vez, o Pedro pregou-me uma “rabecada”. Tinha um assunto urgente a tratar comigo e eu não lhe atendia o telefone. Quando conseguiu que eu o atendesse, perguntou-me de rompante “Só agora é que me atende o telefone?”, ao que eu respondi “Só agora é que pude. Estava na casa de banho e não tinha o telefone comigo.”. A resposta não se fez esperar e foi fulminante “Hernâni, desculpe, mas um dirigente filatélico tem que estar sempre contactável, mesmo na casa de banho”. Apeteceu-me dizer-lhe “Deixe estar chefe, que vou deixar de ter dores de barriga”. Todavia não fui por aí. Disse-lhe simplesmente “Tem razão, Pedro”. E o que é um facto, é que a partir daí, o meu telemóvel passou a ser meu companheiro de estrada, quer a caminhada fosse timbrológica ou não.

A minha entrada para Jurado
Como expositor filatélico tive sempre o saudável hábito de questionar os Jurados sobre as classificações que me eram atribuídas, ousadia que me saiu cara. Candidatei-me a Jurado nacional e fui chumbado com perguntas de algibeira. Duas vezes a Inteiros Postais e uma vez a Maximafilia. É claro que fiquei “piurso”, mas as coisas ficaram por ali ou melhor não ficaram mesmo por ali. Presumo que o Pedro não tenha gostado da coisa e lá terá dito com os seus botões ”Porra! Vou acabar com esta tourada. Este gajo tem currículo filatélico e “percebe da poda”. Há que convidá-lo para o corpo de Jurados.”. E assim foi. Passei a integrar o corpo de Jurados nacionais da Federação Portuguesa de Filatelia nas classes de Inteiros Postais, Maximafilia e Literatura Filatélica. Mais tarde, o Pedro subscreveu a minha candidatura a Jurado FIP de Inteiros Postais, tendo sido certificado como tal na Exposição FIP de Valência, em Espanha. Cumulativamente, Steve Washburn, team leader da Comissão FIP de Inteiros Postais, cooptou-me como membro não eleito para integrar o Bureau da Comissão. Fui até hoje o único Jurado português que integrou um Bureau da FIP. Vejam lá em que deram os meus chumbos. Julgo ser oportuno e legítimo citar aqui dois provérbios populares portugueses "Não há fome que não dê em fartura" e "Quem ri por último, ri melhor".

Breve perfil biográfico do Pedro
Como filatelista, o Pedro viu as suas colecções obterem no decurso dos anos, as mas elevadas recompensas nas classes de Filatelia Tradicional, História Postal, Inteiros Postais, Classe Aberta e Literatura Filatélica. Por decisão do Congresso Federativo, foi-lhe outorgado em 2010, o Galardão de Filatelista Eminente, a mais elevada distinção da Filatelia de Portugal.
Escritor e jornalista filatélico, subscreve vasta colaboração em revistas e catálogos de exposições filatélicas, tanto em Portugal como no estrangeiro. É autor de várias obras nos domínios da História Postal, da História da 1ª República e da História de Cernache de Bonjardim, localidade que o viu nascer.
É Presidente da Federação Portuguesa de Filatelia (FPF) desde 1987 e foi Presidente da Federação Europeia de Sociedades Filatélicas (FEPA) no período (2001-2009), assim como Director das respectivas revistas “Filatelia Lusitana” e “FEPA News”.
Entre as inúmeros prémios e distinções que lhe foram atribuídas, é de salientar a outorga em 2019 da Medalha da FEPA “FOR EXCEPTIONAL SERVICE TO ORGANISING PHILATELY”, a mais alta distinção concedida a filatelistas europeus e atribuída uma vez por ano a um único filatelista. É igualmente de destacar a atribuição em 2022 da Medalha da FEPA “FOR EXCEPTIONAL PHILATELIC STUDY AND RESEARCH 2022”, pela publicação da obra OS CORREIOS PORTUGUESES 1853-1900 NOS 500 ANOS DO CORREIO EM PORTUGAL, considerado o melhor livro de 2022. Finalmente é ainda de realçar que a revista FILATELIA LUSITANA de qual é director, foi distinguida pela Academia Europeia de Filatelia com a Medalha de Imprensa para a melhor revista europeia de 2022.
É um gestor nato, trabalha por objectivos, tem uma visão estratégica das coisas, capacidade de liderança e de trabalho em equipa, espírito de missão e grande capacidade de resiliência.
Liderou a filatelia portuguesa durante quatro décadas, estruturando-a, disciplinando-a e estabelecendo parcerias eficazes com os Correios de Portugal, os quais asseguraram desde sempre o patrocínio dos eventos filatélicos nacionais, independentemente de serem simples mostras ou exposições do mais alto nível, como foi o caso da Exposição Filatélica PORTUGAL 98, comemorativa do 500º Aniversário da Chegada de Vasco da Gama à Índia, que foi igualmente o tema central da EXPO 98. Foi ainda o caso da Exposição Filatélica PORTUGAL 2010 - Exposição Mundial de Filatelia, integrada nas comemorações do 1º Centenário da República Portuguesa. Da PORTUGAL 98 e da PORTUGAL 2010, foi o Pedro o grande e principal obreiro.
Nos areópagos filatélicos internacionais e na condição de Presidente da FPF e da FEPA, o Pedro tem sido uma figura considerada e atentamente escutada, como tive oportunidade de constatar no Congresso FIP de Valência e no Congresso FEPA de Antuérpia.
Quer queiram ou não os seus detractores - que os tem - o Pedro é um grande Senhor da Filatelia a nível mundial e o seu prestígio como dirigente, transvasa o mero âmbito da Filatelia Nacional.
São profundas as marcas que deixa no terreno filatélico e enorme o seu legado. A sua memória como dirigente filatélico de excelência, perdurará no tempo e pairará nos ares, muito para além dos céus da Avenida Almirante Reis e da Rua Cidade de Cardiff. Nesta última se situa a actual sede da Federação Portuguesa de Filatelia, a qual integra o legado patrimonial que nos deixa.

Cronologia filatélica portuguesa
A civilização ocidental e cristã utiliza a era cristã, de acordo com a qual a contagem do tempo se faz tomando como referência a data do nascimento de Cristo. Daí que em termos cronológicos se utilizem as designações A.C. (antes de Cristo) e D.C. (depois de Cristo). Com a saída do Pedro do cargo que vem desempenhando há largos anos, a filatelia portuguesa na sua narrativa, usará inescusavelmente as designações A.P. (antes de Pedro) e D.P. (depois de Pedro).
O sucessor de D. Pedro
Apesar de “nuestros hermanos” o tratarem por D. Pedro, a ética laica e republicana que professa e integra a sua matriz identitária, indicia que não deixará sucessor ao cargo. Todavia, tal não impede que haja quem se perfile no horizonte filatélico como seu sucessor. Da outra margem da filatelia não sei nada e não tenho notícias há muito tempo. Todavia, eles saberão de si. O Pedro também. Sai, mas andará por aí.
Até sempre, Pedro!
Na antecâmara da sua retirada da cena filatélica, quero-lhe agradecer o privilégio da sua amizade e desejar-lhe as maiores felicidades na sua vida futura, votos que são igualmente extensivos à Ana, a sua adorável esposa, que igualmente me concedeu e à Fátima minha companheira, o privilégio da sua amizade. Bem hajam por isso.
Até sempre, Pedro!

Publicado a 28 de Dezembro de 2025
in Filatelia Lusitana, Série III, nº 50, Lisboa, Dezembro de 2025.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

8.º Aniversário dos Bonecos de Estremoz enquanto Património da UNESCO



Transcrito com a devida vénia de
newsletter do Município de Estremoz,
de 28 de Novembro de 2025

No domingo, dia 7 de dezembro de 2025, comemora-se o 8.º aniversário da Inscrição da Produção de Figurado em Barro de Estremoz, na Lista Representativa de Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO.

Para celebrar a data, o Município de Estremoz organizou as seguintes atividades:

Centro Interpretativo do Boneco de Estremoz

- 16:00 horas - Discursos institucionais

- 16:15 horas - Entrega da Certificação à barrista Ana Godinho

- 16:20 horas - Apresentação da Rota do Boneco de Estremoz, Hugo Guerreiro Chefe da Divisão de Cultura, Desporto e Juventude

- 16:40 horas - A Confraria do Boneco de Estremoz: 2025 e 2026, Alexandre Correia, Grão-Mestre da Confraria

Estremoz Hotel

- 17:30 horas - Inauguração da exposição "Figurado em Barro de Estremoz", fotografia de Francisco Matias

 Venha celebrar conosco!

Entrada gratuita.

Hernâni Matos

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

XIX Exposição de Presépios de Artesãos de Estremoz



Transcrito com a devida vénia de
newsletter do Município de Estremoz,
de 25 de Novembro de 2025

A Galeria Municipal D. Dinis irá receber, a partir do dia 29 de novembro, a XIX Exposição de Presépios de Artesãos de Estremoz.

Esta mostra contará com cerca de 30 Presépios, produzidos com diversos materiais, dos artesãos: Afonso Ginja, Ana Catarina Grilo, Ana Godinho, António Moreira, Carlos Alberto Alves, Conceição Perdigão, Fátima Lopes, Francisca Carreiras, Henrique Painho, Inocência Lopes, Irmãs Flores, Isabel Pires, Jorge Carrapiço, Jorge da Conceição, Luísa Batalha, Madalena Bilro, Manuel Broa, Maria José Camões, Perfeito Neves, Ricardo Fonseca, Sara Sapateiro, Sandra Cavaco e Vera Magalhães.

A exposição poderá ser visitada até dia 6 de janeiro de 2026, com entrada gratuita, numa organização da Câmara Municipal de Estremoz.

Não perca!

Hernâni Matos

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Os canudos de lume, artefactos de arte pastoril

 

 Fig.1 – Autor desconhecido. Incisões em baixo relevo sobre madeira. Decorado
com motivos geométricos e florais, distribuídos por faixas no  sentido do
comprimento. Tricromia verde – vermelho – preto.  60,5 cm x 3 cm.

Canudos de lume
da Colecção Hernâni Matos

À lareira, no Alentejo de outros tempos
No Alentejo de antanho, quando chegava o Inverno seroava-se à lareira, o que era prática corrente, tanto na casa dos camponeses como dos senhores da terra. As noites eram longas e o frio era de rachar, sobretudo nas casas dos pobres, menos confortáveis, muitas vezes com telhados de telha-vã [i] e pavimentos que eram de tijoleira e muitas vezes de laje de xisto.
O lume que crepitava frente às “bonecas”[ii] aquecia os membros da família sentados num “mocho”[iii] ou num “burro”[iv]. Simultaneamente, o fumo ascendente da lareira ia curar os enchidos do fumeiro suspensos de traves no interior da chaminé. Isto, é claro, se a família era daquelas que tinham posses para fazer a “matança do porco”, o que não constituía regra geral, nem lá perto.
Era à volta da lareira que a família fazia o balanço desse dia, se falavam dos planos para o dia seguinte, se evocavam aqueles que já tinham partido e os mais velhos davam conselhos aos mais novos. Era também à lareira que para “passar o tempo”, era transmitida de pais para filhos, a rica tradição oral que integra a matriz da nossa identidade cultural: estórias, cancioneiro popular, adivinhas, provérbios, lengalengas, rezas, etc.

Os canudos de lume
À medida que o tempo passava, a lenha ia sendo consumida e o lume ficava mais fraco. Tornava-se necessário reavivá-lo, acrescentando mais lenha ou/e atiçando o fogo, o que se conseguia utilizando o “canudo de lume”.
Este é um utensílio tradicional de forma tubular, utilizado como soprador de lume, o qual permite direccionar o ar para as brasas ou para a lenha, visando avivar o fogo. Para tal, o utilizador sopra na extremidade do orifício mais largo, saindo o ar pela extremidade oposta com o orifício mais estreito, em direcção ao lume.
O canudo de lume pode ser de metal, de madeira ou de cana, perfuradas. Nestes dois últimos casos, a superfície dos canudos de lume pode se encontrar finamente trabalhada e decorada, o que torna os canudos de lume, artefactos de arte pastoril.


Hernâni Matos


[i] O telhado de telha-vã era um tipo de cobertura em que as telhas de canudo (telhas mouriscas) de barro eram aplicadas directamente sobre a estrutura de suporte (barrotes e ripas de madeira), sem a instalação de qualquer forro por baixo.
Este tipo de cobertura favorecia a ventilação natural do espaço situado abaixo, o que era benéfico no Verão mas péssimo no Inverno, além de que oferecia fraco isolamento acústico, o que constituía um enorme inconveniente em períodos de ventania.
[ii] Ornamento interior das chaminés.
[iii] Banco baixo, confeccionado em madeira e com travessas para fortalecer os pés, empalhado em buinho.
[iv] Também designado por “tripeça”, já que é um assento de três pés e sem encosto, confeccionado toscamente, a partir de tronco de sobreiro ou de azinho.


Fig. 2 – Autor desconhecido. Incisões em baixo relevo sobre madeira. Decorado
com motivos geométricos e florais, distribuídos por faixas no sentido do comprimento.
Pentacromia verde – vermelho – azul – amarelo – laranja. 60,5 cm x 3 cm.

Fig. 3 – João Catarino (Orada). Incisões em baixo relevo sobre madeira. Decorado
com motivos geométricos, distribuídos por faixas no sentido do comprimento.
81 cm x 2,5 cm.

Fig. 4 – João Catarino (Orada - Borba). Incisões em baixo relevo sobre cana.
Decorado com motivos geométricos distribuídos por faixas no sentido do
comprimento. 87 cm x 2,5 cm.

Fig. 5 – Carlos Damas (Alandroal). Incisões em baixo relevo sobre madeira.
Decorado com motivos geométricos, distribuídos por faixas no sentido do
comprimento. Heptacromia verde – vermelho – azul – amarelo – rosa - lilás – preto. 
69 cm x 2 cm. Mais estreito numa das extremidades que na outra.

Fig. 6 – Carlos Damas (Alandroal). Incisões em baixo relevo sobre madeira.
Decorado com motivos geométricos, distribuídos por faixas no sentido do
comprimento. 53,5 cm x 2.5 cm.

Fig. 7 – Teresa Serol Gomes (Estremoz). Incisões em baixo relevo sobre madeira.
Decorado com motivos florais que se distribuem no sentido do comprimento.
66,5 cm x 2 cm.

Fig. 8 – Teresa Serol Gomes (Estremoz). Incisões em baixo relevo sobre madeira.
Decorado com motivos fitomórficos, zoomórficos e antropomórficos que se distribuem
no sentido do comprimento. Madeira escurecida com aguada de viochene.
69 cm x 1,9 cm. Mais estreito numa das extremidades que na outra.

Fig. 9 – Joaquim Rolo (Glória – Estremoz). Incisões em baixo relevo sobre madeira.
Decorado com motivos geométricos e florais distribuídos por faixas no sentido do
comprimento. Madeira escurecida com aguada de viochene. 65,5 cm x 2,2 cm.
A extremidade da saída do ar termina em bisel.

Fig. 10 – Joaquim Rolo (Glória – Estremoz). Incisões em baixo relevo sobre madeira
Decorado com motivos geométricos, florais, zoomórficos e antropomórficos distribuídos
por faixas no sentido do comprimento. A decoração com motivos zoomórficos e
antropomórficas recorre a excrescências da madeira. 74 cm x 3 cm.
Mais estreito numa das extremidades que na outra.

domingo, 23 de novembro de 2025

Tenores de Redondo



Na vila de Redondo existem diversos grupos corais activos, tanto masculinos como femininos e mistos. São eles: Grupo de Cantadores do Redondo, Cantadeiras do Redondo, Grupo Coral e Instrumental Academia de Afectos, Grupo Coral Polifónico da Sociedade Filarmónica Municipal Redondense e Trovadores de Redondo.

O número e a diversidade destes grupos corais, pode levar os leitores a pensarem que o objecto da presente crónica é falar dos coralistas redondenses que integrem o naipe dos tenores ou seja as vozes masculinas com a voz mais aguda. Mas tal não é o caso, pois o termo “tenor” pode também designar um “aparador de aguardente”, isto é um recipiente outrora utilizado nas adegas para recolher a aguardente obtida por destilação do vinho nos alambiques.

Redondo é simultaneamente terra de vinho e terra de oleiros, pelo que é natural que o vasilhame usado tradicionalmente nas adegas fosse de barro, recurso local disponível. Assim se evitava comprar vasilhame confeccionado com materiais que não constituíssem recursos locais disponíveis (vidro ou metal) o qual seria mais caro.

Daí que as olarias locais manufacturassem aparadores de aguardente (tenores) em barro vidrado (pelo menos no interior), de base circular e plana, com morfologia variável com ou sem asas. Eram os chamados “tenores de Redondo”, objectos oláricos actualmente caídos em desuso.

A opção dos adegueiros pelo uso de vasilhame de barro ecoou na cultura popular, a qual regista adágios aqui aplicáveis: “No poupar é que está o ganho",A necessidade é mestra de engenho” e “Quem não tem cão, caça com gato."

A terminar e como está frio, brindo-vos com alguns adágios sobre a aguardente. Dois deles, recomendam a sua ingestão: "Aguardente, para o frio é quente”, "Uma pinga de aguardente, faz bem a toda a gente". Pelo contrário, dois outros consideram o seu consumo contra-indicado: "Pela manhã, a aguardente afugenta a gente” "Aguardente não mata, mas ajuda a morrer".

Digam lá se a cultura popular é ou não é uma cultura democrática? É claro que é. Há adágios que advogam uma coisa e outros que apregoam exactamente o contrário, o que sugere que a opção fica ao livre arbítrio de cada um. Há até um adágio que proclama: "Cada um sabe as linhas com que se cose". Permito-me aqui opinar sobre o assunto, propondo como que uma correcção: “sabe ou não”. Acho mais prudente fazer passar esta ideia. 

Hernâni Matos

domingo, 9 de novembro de 2025

Os pisadores, artefactos de arte pastoril

 

1. Pisador. Colecção Hernâni Matos.


Um pisador é um utensílio em madeira usado em culinária com recurso a gral ou não e que permite triturar, moer e misturar substâncias sólidas. É recorrendo a um pisador que se prepara o piso utilizado na confecção da açorda alentejana, usando sal grosso, alho, coentros ou poejos.

Os pisadores, artisticamente trabalhados à navalha numa peça única, esculpidos e/ou com incisões superficiais na madeira (Fig. 1 a Fig. 6), constituem graciosos exemplares de arte pastoril.

 Hernâni Matos


2. Pisador. Colecção Hernâni Matos.

3. Pisador. Colecção Hernâni Matos.

4. Pisador. Colecção Hernâni Matos.

5. Pisador. Colecção Hernâni Matos.

6. Pisador. Colecção Hernâni Matos.