domingo, 12 de abril de 2026

Armando Alves, um amigo que partiu

 

1 – Armando Alves (1935-2026).

Falar de amigo
O artista plástico e designer gráfico Armando Alves (Fig. 1), natural de Estremoz e figura incontornável da arte contemporânea portuguesa, faleceu no passado dia 31 de Março, em Matosinhos.
Radicado naquela região desde a sua juventude, manteve desde sempre uma forte ligação ao Alentejo e à cidade que o viu nascer. Aqui regressava amiúde ou não fosse o Alentejo o tema central da sua obra.
O Armando, assim o tratava, concedera-me há muito o privilégio da sua amizade e franqueara-me igualmente as portas da sua casa em Estremoz. Sempre que o entendia e sobretudo quando não nos encontrávamos no Café Alentejano, o Armando telefonava-me para aparecer lá por casa (Fig. 2), geralmente para me dar conta de um projecto ou de uma exposição que aí vinha. Era enriquecedor falar com ele. Para além disso, creio que o Armando gostava de falar comigo e tinha apreço pela minha opinião, o que eu naturalmente retribuía.
Num momento que é de dor e de profundo pesar para a Família e para os amigos, entendi ser desajustado falar aqui da sua vida e da sua obra, repetindo o que tem sido publicado nos jornais nos últimos dias, a partir de catálogos das suas muitas exposições e com referências a opiniões de críticos de arte. Seria desconfortável fazê-lo e eu não quero ir por aí. Prefiro dar conta do que foi a minha interacção com o Armando. Essa a forma encontrada de partilhar com a Família e os amigos tudo aquilo que me vai na alma, bem como honrar a sua Memória.

Companheiros de estrada

2 – Hernâni Matos e Armando Alves no atelier deste último em Estremoz, Março de 2013. 

O Armando é da “colheita de 1935” e eu sou da “colheita de 1946”, o que levou o Armando a dizer-me uma certa vez: - “Tu és um rapaz comparado comigo” e tinha razão. O Armando acabou o Curso de Pintura da Escola de Belas Artes do Porto com média de 20 valores em 1962 e entrou logo para Assistente da mesma. Por essa altura eu tinha 16 anos e ainda andava a cabular no Colégio do Mota, em Estremoz. De qualquer modo, já o conhecia da livraria do Aníbal, onde ele tertuliava sempre que vinha do Porto. Eu era um puto do Cine Clube de Estremoz e por ali cirandava, para ouvir os mais velhos falarem de coisas que eu gostava de ouvir.
Um dia deixei der ser puto e tive de ir para a Universidade. A minha escola de vida deixou de ser a livraria do Aníbal e passou a ser a Associação de Estudantes da minha Faculdade. Então passei a encontrar o Armando ainda menos.
Regressado a Estremoz em 1972, passei a intervir activamente nas actividades culturais a nível local, sobretudo a partir dos anos 80 do século passado. É uma altura em que se vai consolidando em mim a imagem do Armando enquanto artista plástico e gráfico, o que me conduz a um elevado apreço pela sua Obra. Apesar disso, os encontros entre nós são casuais, quase sempre no Café Alentejano, local historicamente ligado à sua Família. A partir do novo milénio, os nossos encontros passam a ser mais frequentes e por vezes com grande gáudio meu, o Armando tem a gentileza de me oferecer um catálogo da sua mais recente exposição. Com a criação em 2009 do meu blogue “Memórias do Tempo da Outra Senhora”, passo a fazer a divulgação das mesmas, o que por vezes também faço na imprensa local. Foi assim que eu, guardador de memórias e contador de estórias, me tornei companheiro de estrada do Armando.

O Armando, Bonequeiro de Estremoz

3 - Armando Alves com a idade de 14 anos.
 Fotografia de Rogério de Carvalho (1915-1988).

Após me aposentar em 2008, tive acesso ao Arquivo da Escola Industrial António Augusto Gonçalves. Foi então que descobri que o Armando (Fig. 3), nascido em 1935, entre 1942 a 1945 frequentara a Escola Primária do Castelo, situada no actual edifício do Museu Municipal de Estremoz. De 1946 a 1949, frequentou o Colégio do capitão Grincho e, de 1949 a 1952, frequentou a Escola Industrial e Comercial de Estremoz, onde teve aulas de oficinas de olaria com Mestre Mariano da Conceição.
Foi no ano lectivo de 1951-52, já com a Escola Industrial e Comercial de Estremoz instalada no Castelo, no local onde hoje funciona a Pousada da Rainha Santa Isabel, que o Armando começou a confeccionar os seus Bonecos de Estremoz.
O trabalho de modelação, cozedura, pintura e envernizamento era feito na própria Escola. O Armando não terá feito mais que 10 modelos de Bonecos: - Figuras que têm a ver com a realidade local: Amazona, Leiteiro, Mulher a vender chouriços e Homem do harmónio; - Figuras intimistas que têm a ver com o quotidiano doméstico: Mulher a lavar; - Figuras que são personagens da faina agro-pastoril nas herdades alentejanas: Ceifeira, Mulher da azeitona, Pastor de tarro e manta, Pastor com um borrego e Pastor do harmónio (Fig. 4).

4 - O Pastor do harmónio criado pelo jovem Armando
no ano lectivo de 1951-52.

Ao todo, não terá manufacturado mais de cinquenta Bonecos, os quais eram comercializados na Papelaria Ruivo, situada no Largo da República, 24, em Estremoz, exactamente um dos locais em que também eram comercializados os Bonecos de Mestre Mariano da Conceição. Fê-lo a pedido da proprietária, a sua tia Joana Ruivo. Cada figura era vendida ao preço de vinte e cinco tostões, enquanto os de Mestre Mariano custavam 12$50.

5 - A marca "Armando" manuscrita, pintada a verde na base do “Pastor do harmónio”.

Mestre Mariano marcava os seus Bonecos, estampando na base a marca ESTREMOZ/PORTUGAL em maiúsculas, distribuídas por duas linhas. Porém, o jovem Armando vai além do Mestre e assina simplesmente “Armando” (Fig. 5), em caracteres manuscritos. Fá-lo a verde, o verde da esperança e das searas que, já doiradas, ondularão mais tarde as suas telas de artista consagrado. Tratou-se então de uma aposta forte, visando o futuro, uma espécie de premonição da Obra que iria construir. Daí a razão de assinar simplesmente “Armando”. Sabem porquê? É simples. Toda a gente sabe quem é o Armando. Pois claro! É um consagrado artista plástico a quem José Saramago prestou tributo, chamando-lhe “Inventor de Céus e Planícies”.
O Armando não fazia ideia de quem eram as pessoas que compravam os seus Bonecos. Todavia, lembra-se da tia uma vez lhe ter dito que uma dessas pessoas era o coleccionador e médico calipolense, Dr. Couto Jardim (1879-1961).

Eu, o Armando e a Colecção Pinto Tavares
Em data que não consigo precisar, comprei ao Alfarrabista António Oliveira, de Évora, o catálogo da Exposição de Barristas Alentejanos realizada em Évora em 1962, onde participou a afamada ex-colecção de Bonecos de Estremoz do Tenente-coronel Pinto Tavares (1869-1945), em nome das suas filhas Maria Filipina Avelar e Guilhermina Avelar. Ora eu sabia quem é que tinha sido a herdeira desta última senhora e seria na posse dela que deveria estar a famosa colecção do Tenente-coronel. Todavia, não ousei fazer nenhuma proposta de compra e deixei andar.
Por necessidade, a herdeira vendeu a colecção em 2011 a um comerciante do Mercado das Velharias, que por sua vez a vendeu ao Armando. Trata-se de uma extraordinária colecção de Bonecos de Estremoz de finais do séc. XIX, que me escapou das mãos porque eu cheguei ao Mercado às 8 da manhã e ele tinha chegado mais cedo. Acreditem ou não, fiquei abalado psicologicamente por causa dessa perda e andei doente durante uma semana ou mais. Valeu-me a abertura do Armando que me permitiu fotografar os bonecos, visando o seu estudo posterior.

Comemorações do IV Aniversário do Falecimento de António Telmo

6 – Cartaz do II TORNEIO DE BILHAR “ANTÓNIO TELMO” (2014),
da autoria de Armando Alves.

Em 23 e 24 de Agosto de 2014 tiveram lugar em Estremoz, as “Comemorações do IV Aniversário do Falecimento de António Telmo”. Tratou-se duma iniciativa do Círculo António Telmo, associação cultural cuja missão é preservar a memória e o legado daquele pensador. As comemorações incluíram o “II Torneio de Bilhar António Telmo” e um almoço, ambos realizados na Sociedade Recreativa Popular Estremocense (Porta Nova), da qual o Armando e o António Telmo eram sócios e onde jogavam ao bilhar, do qual eram praticantes exímios.
Cerca de um mês antes, o Armando encontrou-me, mostrou-me o magnífico cartaz (Fig. 6) que tinha criado para o torneio de bilhar e procurou envolver-me na organização do evento. Disse-lhe que nem era do Círculo António Telmo, nem sócio da Porta Nova e nem sequer sabia jogar bilhar. Não serviu de nada, porque me deu a volta quando meteu os Bonecos de Estremoz à baila, dizendo:
- “Que dizes a mandarmos fazer um Boneco de Estremoz para servir de troféu a disputar no torneio?’’
Caí que nem um patinho ao responder:
- “A ser criado um Boneco para esse efeito, deveria configurar o António Telmo a jogar o bilhar, de chapéu na cabeça e tudo!
Era o que ele queria ouvir, pelo que me disse mais ou menos isto:
- “Boa ideia! Encarregas-te de o mandar fazer?”
- “Naturalmente que sim e é às Irmãs Flores” – disse eu, acrescentando:
- “Um desenho teu ajudava muito”.
O desenho surgiu ali de imediato, feito enquanto “O diabo esfrega um olho”. Passado 15 dias, o Boneco estava pronto (Fig. 7), feito a 4 mãos, pelas consagradas barristas Irmãs Flores (o jogador de bilhar), pelo seu também consagrado sobrinho Ricardo Fonseca (mesa de bilhar) e pelo próprio Armando (o taco de bilhar em madeira).

7 - Jogador de bilhar (2014). Irmãs Flores (1957, 1958- ) e Ricardo Fonseca (1986- ). 
Composição projectada pelo pintor Armando Alves para servir de troféu em disputa
no II Torneio de Bilhar "António Telmo". Colecção da Sociedade Recreativa Popular
Estremocense (Porta Nova), Estremoz.

O tempo foi passando e cerca de uma semana antes do evento, eu não sabia nada, a não ser que havia um cartaz distribuído e um troféu a atribuir. Como sou dado a minudências, perguntei-lhe:
- “Ouve lá Armando, quem é que vai falar no início da cerimónia?”
Mais valia ter ficado calado, já que a resposta veio de imediato:
- “Conversas é contigo, que eu já fiz o cartaz”.
Estava tudo a correr tão bem, que não seria eu que iria estragar a festa, borrando a escrita. Foi assim que não sendo do Círculo António Telmo, nem sócio da Porta Nova, nem jogador de bilhar, me coube a incumbência de “botar faladura” no início da cerimónia. Para complicar a coisa e pese embora o respeito e consideração que nutro pela figura do António Telmo, eu era um desconhecedor do pensamento télmico. Que fazer então? Só tinha uma saída: falar de bilhar. Foi o que fiz, assumindo a pele de contador de estórias. Lá gizei um texto a que dei o título “António Telmo e o bilhar”. No dia e à hora aprazada lá estava eu a “soltar o verbo”, acabando por ser aplaudido no final, tanto por télmicos como por bilharistas e ainda por aqueles que não eram nem uma coisa nem outra. Senti-me aliviado, porque tinha conseguido “descalçar a bota” que o Armando me “enfiara no pé”.

Apresentação do livro “Escrito na cal & outros lugares poéticos”

8 - Mesa da apresentação do livro “Escrito na cal & outros lugares poéticos”, em Dezembro
de 2014. Da esquerda para a direita, Hernâni Matos, Armando Alves e Luís Mourinha.

Em 6 de Dezembro de 2014 fiz a apresentação do livro “Escrito na cal & outros lugares poéticos”, no auditório da Casa de Estremoz (Fig. 8).
A obra, uma colectânea de depoimentos em prosa e em verso, constitui um tributo ao Armando. O livro, publicado pela editora “Modo de Ler”, foi prefaciado por Isabel Pires de Lima e congrega textos de 53 autores, entre os quais Albano Martins, António Simões, Eduardo Lourenço, Eugénio de Andrade, Herberto Helder, Hernâni Matos, José Saramago, Luís Veiga Leitão, Mário Cláudio, Urbano Tavares Rodrigues e Vasco Graça Moura.
A apresentação da obra esteve a meu cargo e contou com a presença de Armando Alves e de Luís Mourinha, Presidente do Município, o qual presidiu ao evento. Foi depois visionado o vídeo “Armando Alves, 60 anos de Pintura”, seguindo-se a leitura de poemas e de textos por Adelaide Glória, Francisca Matos, Odete Ramalho e Zulmira Baleiro.
Na apresentação que fiz do livro, tive a oportunidade de afirmar: “”Escrito na cal e outros lugares poéticos” é um tributo à Obra ímpar de Armando Alves. Não um tributo de medieva vassalagem ao poder de um senhor da terra, mas o reconhecimento e a exaltação da dimensão intelectual daquele a quem outorgamos os títulos de “senhor da luz” e de “príncipe das cores”, e que, com os seus pincéis mágicos, povoa as telas que nos embriagam os sentidos.
Imagens que têm forma, volume, medida, profundidade, cor, textura, contraste, luminosidade e brilho. Telas que têm vida e respiram como nós. Cores que bailam porque ecoa na planície o som ritmado do tocador de harmónio do jovem Armando.
O Armando é um seareiro que desbrava as telas para nelas fazer as suas searas, que de verde se transmutam em oiro. Searas cujo ondular se pressente e se sente com o Suão. Mas o Armando é também o semeador que, com o seu gesto augusto, lança a cor à tela para que dela desponte vida que é pão de espírito para todos nós.”

Capa do meu livro “FRANCO-ATIRADOR”

9 - Capa do livro FRANCO ATIRADOR, de Hernâni Matos, editado em 2012 pela Colibri, com capa da
autoria de Armando Alves.

Em 2017 publiquei através das Edições Colibri, o livro FRANCO-ATIRADOR (Fig. 9), cujo tema central é o exercício da cidadania nos seus múltiplos aspectos por um alentejano de Estremoz, que por sinal sou eu.
O livro tinha que ter uma capa, pelo que eu, zeloso do conteúdo do livro, não queria uma capa qualquer. Ora, é sabido que uma capa do Armando é uma obra de arte. Daí que lhe tenha ido “bater à porta” e pedido para criar a capa, ao que ele acedeu sem hesitação alguma. O resultado é bem conhecido e nela está magistralmente expresso o Alentejo vermelho das terras de barro de Estremoz, gravado não só na sua como na nossa alma e que sob a direcção atenta e calorosa do seu olhar de visionário, as suas mãos sabiam transmitir com mestria a tudo aquilo que fazia. A capa do Armando elevou o livro a uma dimensão superior àquela que já tinha. Fiquei-lhe infinitamente grato por isso.

Grafismo do meu livro “Bonecos de Estremoz”

10 – Livro BONECOS DE ESTREMOZ, de Hernâni Matos, editado em 2018
pela Afrontamento, com grafismo de Armando Alves.

Independentemente do conteúdo textual de uma obra, a sua impressão graças aquilo que em tempos remotos foi adjectivado como “Divina Arte Negra”, não passa de uma floresta mais ou menos densa de caracteres que traduzem aquilo que se passou na alma do autor. É certo que a inserção de imagens quebra a monotonia da floresta textual. Todavia a sua distribuição ao longo do texto não pode ser arbitrária. É preciso um arquitecto paisagista que reestruture a paisagem, que a organize e valorize cromaticamente para deleite visual dos futuros leitores. A gestão do espaço-tempo do livro passa assim pela sua reformulação topológica, conferindo-lhe cor, ritmo, harmonia, beleza, vida e alma. É esse o papel do designer gráfico, que no caso do meu livro “Bonecos de Estremoz” (Fig. 10), editado em 2018 pela Afrontamento, foi o maior de todos eles desde sempre, o Armando. A sua Mestria valorizou muito o livro, o que muito me congratula e honra.
O livro há muito esgotado, é hoje uma preciosidade bibliográfica e uma raridade alfarrabística. Aguarda que alguém com responsabilidades na salvaguarda do Boneco de Estremoz, esteja disponível para patrocinar uma reedição, a qual é do interesse público.

Para ti, Armando
Sei da tua preocupação e mesmo tristeza em teres visto passar o tempo e não veres edificado “in loco” o teu Monumento ao Boneco de Estremoz. Sei mesmo da tua dor, sobretudo pela premência da transmissão do sentido simbólico do Monumento - a celebração e homenagem aos barristas do passado e do presente, aliada à valorização dos barristas do presente, enquanto elemento vivo de Estremoz.
Lamento dizer-te que a concretização da edificação do teu Monumento ao Boneco de Estremoz, tal como diz o povo, “Ficou em águas de bacalhau”, que é o mesmo que dizer “Tudo como dantes, quartel-general em Abrantes!”. Que fazer então? “Ficar à espera do amanhã que há de vir”? E mais não digo, por receio de errar.
Para ti, Armando, um fraternal abraço do Hernâni. Até sempre, amigo!

Publicado em 12 de abril de 2026



Publicado no jornal E, nº 377 de 10 de Abril de 2024


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