quarta-feira, 12 de novembro de 2014

12 - Baptizar é preciso!


Xexé.
Oficinas de Estremoz do séc. XVIII.
Museu Municipal de Elvas.

No figurado de Estremoz há peças cuja designação exacta se perdeu na poeira dos tempos e que é imperativo recuperar. É o caso da figura de Entrudo aqui mostrada e que Joaquim Vermelho (1990) designou por “Soldado francês de espadalhão e grandes óculos”. Discordo desta designação por vários motivos: - O chapéu bicorne não era exclusivo dos militares napoleónicos, que nos invadiram por três vezes entre 1807 e 1811; - O chapéu bicorne era já usado nos finais do séc. XVIII (cerca de 1790), em substituição do chapéu tricorne, pois era mais fácil de usar com fartas cabeleiras; - O resto do traje é todo ele característico do séc. XVIII: casaca de mangas estreitas, justa ao tronco, completamente abotoada e com a gola cingida ao pescoço. Os calções são até ao joelho, as meias são claras e os sapatos pretos, lisos e com fivela. O traje está enfeitado por bordados, como era corrente nas classes superiores; - Não é credível que numa representação ainda que burlesca dum personagem, as boniqueiras fossem ao ponto de descaracterizar irreversivelmente o personagem. Faria sentido “vestir” os soldados do Império Napoleónico com casacas e meias bordadas? Não faria sentido algum, nem mesmo que estes fossem oficiais superiores. As boniqueiras não os poderiam ter visto assim, uma vez que tal traje era próprio do Antigo Regime, derrubado pela Revolução Francesa de 1789.
A meu ver, o exemplar do figurado de Estremoz aqui apresentado, deve ser conhecido por “Xexé”, personagem carnavalesco criado pelo povo lisboeta, como sátira política às medidas repressivas do Intendente Geral da Polícia, Pina Manique (1733-1805). A figura chega até ao séc. XX, a ela se referindo Rocha Martins (1904) e Humberto de Luna (1911). O Xexé foi retratado entre outros por Leal da Câmara (1890), José Malhoa (1895), Rafael Bordalo Pinheiro (1903) e Leal da Câmara (1921). Como traço praticamente comum fica a seguinte representação: o xexé trajava uma casaca de seda colorida, calção e meia branca, sapatos de fivela, cabeleira de estopa, punhos de renda e um enorme chapéu bicorne, à moda do séc. XVIII. Usava muitas vezes lunetas, andava armado com um grande facalhão de madeira e um cacete adornado com um chavelho.
É caso para dizer:
- Baptizar é preciso!

sábado, 8 de novembro de 2014

Município de Estremoz galardoado com o Prémio Município do Ano 2014



Palácio dos Marqueses da Praia e Monfote
(Foto do Município de Estremoz)

O Município de Estremoz foi ontem agraciado com o Prémio Município do Ano 2014, na categoria Alentejo (menos de 20.000 habitantes), pela execução da obra de reabilitação do Palácio dos Marqueses da Praia e Monforte.
A atribuição do prémio ocorreu em cerimónia ocorrida no Centro Cultural de Vila Flor, em Guimarães. Tratou-se de uma iniciativa da Universidade do Minho que desafiou os municípios portugueses a concorrer com um monumento histórico que represente o respectivo concelho. O prémio visa reconhecer as boas práticas, em projectos implementados e/ou mantidos pelos municípios portugueses nos dois anos transactos.
Parabéns ao Município de Estremoz pela distinção outorgada.  

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Armando Alves homenageado no Porto


Armando Alves

“Escrito na cal & outros lugares poéticos” vai ser apresentado hoje, a partir das 18 horas, no auditório da Fundação Engº Eugénio de Almeida, no Porto, Trata-se de uma colectânea de depoimentos em prosa e em verso, sobre o artista plástico Armando Alves, figura cimeira da Cultura Portuguesa.
O livro, publicado pela editora “Modo de Ler”, tem prefácio de Isabel Pires de Lima e reúne textos de 53 autores, entre os quais Albano Martins, Eduardo Lourenço, Eugénio de Andrade, Herberto Helder, José Saramago, Luís Veiga Leitão, Mário Cláudio, Urbano Tavares Rodrigues e Vasco Graça Moura.
A apresentação da obra estará a cargo de José de Faria Costa e o evento incluirá um momento musical pela pianista Sofia Lourenço, bem como a leitura de textos pelo actor António Durães.
José Saramago, um dos autores incluídos na antologia, considera Armando Alves um “Inventor de Céus e Planícies”, a cuja obra presta tributo. 
Armando Alves nasceu em Estremoz em 1935. Estudou na Escola de Artes Decorativas António Arroio, em Lisboa, e na Escola Superior de Belas-Artes do Porto. Aqui concluiu o curso de Pintura com vinte valores, o que originou, em 1968, a formação do grupo “Os Quatro Vintes” com Ângelo de Sousa, José Rodrigues e Jorge Pinheiro, com o qual se apresenta em exposições no final da década de 60.
Com projecção internacional, o artista está representado nas principais colecções nacionais e estrangeiras.
Entre outras distinções foi agraciado em 2006 pelo Presidente da República com o Grau de Grande Oficial da Ordem de Mérito e pelo Município de Estremoz com a Medalha de Mérito Municipal – Ouro. 

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Estremoz - Defesa do Património - 6

Baluarte da Frandina nos primórdios do séc. XX. Desde tempos recuados que no local têm sido
cometidos atentados ao património construído:mutilações nas Portas da Frandina para
facilitar o trânsito rodoviário, construção duma casa particular em pleno baluarte e
construção dum depósito de água. Na imagem é visível uma guarita cuja reconstrução,
ao contrário de outras, foi ignorada nos anos 60 do século passado, quando das obras de
adaptação do Castelo a Pousada. Bilhete-postal ilustrado do arquivo do autor (Ex-colecção
de Joaquim Vicente Durão).
  
Após passar em revista a acção das estruturas associativas de defesa do património cultural concelhio, impõe-se uma reflexão.
A lei 107/2001, de 8 de Setembro, estabelece as bases da política e do regime de protecção e valorização do património cultural. Através dela é reconhecido que “Todos têm direito à fruição dos valores e bens que integram o património cultural, como modo de desenvolvimento da personalidade através da realização cultural.” (art.º 7º-1). Este direito é conjugado com o dever de preservar, defender, conservar e valorizar o património cultural (art.º 11º). Aquela lei reconhece ainda o papel das estruturas associativas de defesa do património cultural e natural, nomeadamente o gozo do direito de participação, informação e acção popular, em particular no domínio da informação e formação dos cidadãos (art.º 10º).
Uma Associação de Defesa do Património congrega cidadãos que nela participam cívica e voluntariamente. Como associação cultural especializada, deve ter credibilidade e respeitabilidade pela massa crítica dos seus membros. Para tal, deve congregar, não só o cidadão comum mobilizado por causas cívicas, mas sobretudo “gente que percebe da poda”, isto é, cidadãos e cidadãs que percebam de Legislação, de Arquitectura, de Engenharia, de História, de Etnologia, de Arte, de Ambiente, de Sociologia e de muitas outras valências relacionadas com Património. São eles que poderão marcar a diferença, que darão, de certo, um contributo válido, em situações em que são insuficientes os palpites ou as emoções e são precisos argumentos com a força da razão, visando repor as coisas afastadas do seu devido curso.
A uma Associação de Defesa do Património como órgão autónomo e independente da Administração, compete despertar, mobilizar e unificar consciências para que na diversidade democrática, não se continue na paz podre do deixa andar, da insensibilidade perante aquilo que alguns nos querem fazer acreditar como inevitável. Não existem fatalidades quando estamos armados com mais valias como a consciência cívica, a mobilização, a informação, o conhecimento e a determinação. Então, será possível a Defesa do Património.
Uma Associação de Defesa do Património pode ser incómoda para a Administração, que preferirá a existência de um Conselho Consultivo por si nomeado, constituído por alguns notáveis e por técnicos da Administração, os quais emitirão pareceres que não são vinculativos. Julgo que esse não seja um caminho saudável para a Defesa do Património. 
 (CONTINUA) 

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Evocação de António Telmo na Escola Secundária de Estremoz


Maria Antónia Vitorino, António Telmo e Agostinho da Silva em Brasília,
na segunda metade da década de 60.
 
A vida e obra de António Telmo (927-2010) serão evocadas numa sessão a ter lugar em Estremoz, no próximo dia 14 de Novembro. O evento decorrerá a partir das 10 h e 20 min no Auditório da Escola Secundária da Rainha Santa Isabel. É uma iniciativa conjunta da Biblioteca Escolar Almeida Garrett e do Projecto António Telmo. Vida e Obra”. Serão oradores: Pedro Martins (Evocação de António Telmo), Rui Lopo (Evocação de Agostinho da Silva) e Elísio Gala (Apresentação do livro “Cartas de Agostinho da Silva para António Telmo”).
No final será descerrado, na Biblioteca da Escola um retrato de António Telmo, o qual ficará a assinalar a sua passagem por ali. No local estará também patente ao público uma exposição bibliográfica de António Telmo, filósofo, escritor e professor, figura cimeira da Cultura e da Filosofia Portuguesa. 

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

11 – O preço dos bonecos



 Aguadeiro.
José Moreira (1926-1991).
Colecção particular.

No figurado de Estremoz, o preço de cada peça é muito variável, o que exige uma análise multifacetada do assunto: 1 – O preço de cada imagem tem a ver com o tempo de manufactura de cada barrista, o qual por sua vez está relacionado com a complexidade da figura ou do grupo de figuras. Daí que uma “Primavera” custe mais que um “apito”, bem como um “Rancho do acabamento” seja mais caro que um “Pastor de tarro e manta”. Por outro lado, a mesma figura ou grupo de figuras pode ser executada em vários tamanhos, vulgarmente designados por “pequeno”, “médio” e “grande”. É o que se passa com “O amor é cego” e o “Presépio de Trono ou Altar”, em que o preço aumenta com as dimensões; 2 – O preço de cada figura ou grupo de figuras, varia também com o artesão, fruto da auto-avaliação que cada um faz do seu trabalho; 3 – O valor dos exemplares mais antigos pode ser estimado a partir do conhecimento do seu custo actual, ao qual há que acrescer o grau de antiguidade, o grau de raridade e o estado de conservação; 4 – Numa situação de crise económica como a actual, há quem tenha necessidade de vender bonecos, os quais são comprados por coleccionadores, feirantes de velharias ou antiquários ou que então são vendidas através de Casas de Leilões ou de Leilões “on line”. Na óptica do coleccionador, uma compra é sempre optimizada através da compra directa ao vendedor. No feirante de velharias ou no antiquário, a compra é menos má, já que na maioria das vezes é possível negociar e chegar a um acordo. Já nos Leilões, o resultado é mais incerto. Se para além de nós, há outro comprador interessado ou está presente o feirante ou o antiquário de quem somos clientes, podemos mesmo arrematar uma peça antiga a um valor mais baixo que o custo da peça actual. Todavia, a situação altera-se desde que na Casa de Leilões esteja presente um feirante ou um antiquário que já têm cliente para uma dada peça ou se encontrem mandatados por um cliente para a adquirir. O mesmo se passa se entrarmos em competição com um ou mais coleccionadores que estejam a licitar, já que por vezes a auto-estima de cada um, o leva a cometer verdadeiras loucuras. Finalmente, as vendas “on line” são desaconselhadas, visto que em certas ocasiões, mesmo peças comuns e recentes, têm preços de partida elevados, reflectindo a necessidade de dinheiro de quem vende e não tendências de mercado.




terça-feira, 21 de outubro de 2014

Estremoz - Defesa do Património - 5

CAPELA DA RAINHA SANTA ISABEL, ESTREMOZ - Fotografia de
Rogério de Carvalho (1915-1988), de finais dos anos 30 do séc. XX.

Outra estrutura associativa de defesa do património cultural no concelho de Estremoz é: 
LINCEMOZ -  Liga dos Naturais e Amigos do Concelho de Estremoz 
Constituída em 2003, é liderada por António Lopes e foi-o anteriormente por Rodrigo André e Domingos Xarepe. Tem como objecto: promover, organizar e divulgar os aspectos da cultura, do património, da solidariedade e do desenvolvimento do concelho. Edita desde 2003 o boletim Gadanha, onde se tem dado ênfase a questões de defesa do património: Igreja de Santo André e Largo do Espírito Santo (Estremoz), Ruínas Romanas de Santa Vitória do Ameixial, Castelo de Évora Monte e Castelo de Veiros. São de destacar as seguintes actividades ligadas à defesa do património: 2004 - Colaboração com a CME na divulgação na Casa do Alentejo da iniciativa "A Cultura do Barroco, o Imaginário e o Quotidiano”, através do qual a autarquia divulgou inúmeras manifestações e sinais da cultura barroca, bem como o património arquitectónico local desse período: Armaria Real de D. João V (Pousada da Rainha Santa Isabel), o interior da Igreja de São Francisco e o Lago do Gadanha; 2010 – Organização do concurso “As sete maravilhas do concelho de Estremoz”, em parceria com a CME, a imprensa local (Brados do Alentejo, Ecos e Rádio Despertar), o Agrupamento Escolar e a EPRAL. No concurso sairia vencedora a Capela da Rainha Santa Isabel, mandada construir por Dona Luísa de Gusmão (1613-1666). Na Capela, propriedade estatal, gerida pela Igreja, destacam-se três painéis de azulejo e seis telas a óleo, joaninos, atribuíveis respectivamente a Teotónio dos Santos (c/1725) e a André Gonçalves (c/1730), os quais representam episódios lendários da vida da Rainha Santa Isabel. A Capela está integrada no Castelo de Estremoz e foi classificada como Monumento Nacional pelo Decreto de 16-06-1910, DG n.º 136, de 23 Junho de 1910. É triste dizê-lo, mas por insensibilidade das autoridades, entra água na Capela pelo telhado, pelas portas e janelas, nas quais por falta de portadas, as telas estão expostas à luz solar.
(CONTINUA)

 Hernâni Matos