domingo, 17 de abril de 2022

Eu e a olaria de Estremoz


Garrafão


Pontos nos ii
A olaria de Estremoz, extinta com a morte de Mário Lagartinho em 2016, é há muito, objecto das minhas preocupações, as quais tenho partilhado com os leitores, desde a criação deste blogue em 2010. Em 2016, lancei o alarme mais forte de todos, mas não fizeram caso do que eu disse e redisse, alegando que havia outro projecto em carteira. Decorridos todos estes anos, está a decorrer finalmente e por módulos, um Curso de Olaria em Estremoz, numa parceria do Município com o CEARTE. É do conhecimento público que os resultados estão a superar as expectativas, o que muito me congratula. A minha expectativa agora é só uma: saber quem é que vai continuar a Arte, depois de ter terminado o Curso.
Entretanto, como estudioso e coleccionador de longa data de peças oláricas de Estremoz, entendo que é chegada a altura de tocar trombetas e motivar ainda mais as pessoas para a nossa olaria. Este texto deve assim ser encarado como um pontapé de saída nessa direcção.

Tipologia
É diversificada a tipologia das peças oláricas de Estremoz. As principais são: Assadores, Barris, Bilhas, Cafeteiras, Cântaros, Cantis, Cinzeiros, Copos, Fogareiros, Garrafas, Jarras, Mealheiros, Medalhas, Moringues, Palmatórias, Pratos, Púcaros, Reservatórios, Troncos, Vasos de flores, etc.

Morfologia
A uma dada tipologia podem corresponder várias morfologias. Assim um moringue pode ter um corpo ovóide, esferóide, cilindróide segundo a vertical ou a horizontal, bem como qualquer outra forma distinta das anteriores.

Dimensões
Em geral, uma peça olárica de determinada tipologia e com uma dada morfologia, existe em vários tamanhos, numerados a partir do 1, número que corresponde ao mais pequeno. Este número pode aparecer gravado na base da peça ou aí marcado a giz, depois da cozedura ou então nem sequer ter sido marcado.

Proporções
É óbvio que as proporções entre as 3 dimensões de qualquer peça olárica no seu todo ou entre os seus componentes, não é arbitrária. São proporções que os oleiros de várias gerações foram perpetuando no barro, após a magia das suas mãos as ter tornado harmoniosas.

Tipos de decoração
Os tipos de decoração utilizados nas peças oláricas de Estremoz são de seis tipos principais:
1 - O empedrado, no qual meniscos convexos de argila, decorados com minúsculos fragmentos de quartzo, são colados com barbutina à peça;
- 2 - O riscado, que recorre a sulcos gravados na superfície, com recurso a um teque, um arame, um prego ou uma sovela;
- 3 - O picado, que utiliza formas geométricas que são gravadas na superfície por percussão de objectos cuja secção tem uma determinada geometria, como é o caso dos invólucros de bala e dos cartuxos de caça;
- 4 - O polido, que utiliza o contraste entre a superfície baça e os motivos que foram polidos com recurso a um seixo ou a um teque;
- 5 - A fitomórfica e/ou zoomórfica, na qual folhas, bolotas, ramos de sobreiro e/ou animais, são moldados em barro e colados com barbutina à superfície;
- 6 - A relevada, na qual brasões de Estremoz ou outros, bem como inscrições como “RECORDAÇÃO DE” ou “LEMBRANÇA DE”, são moldadas em barro e colados com barbutina à superfície;
Para além disso são conhecido exemplares que ostentam uma decoração obtida pela utilização conjunta de alguns dos tipos referidos de 1. a 6. Assim:
- 7 - Empedrado e riscado;
- 8 - Empedrado e picado;
- 9 - Empedrado, riscado e picado;
- 10 - Empedrado, riscado e relevado;
- 11 - Empedrado, picado e relevado;
- 12 - Empedrado, riscado, picado e relevado;
- 13 - Fitomórfica e/ou zoomórfica e polido;
- 14 – Fitomórfica e/ou zoomórfica, relevado e polido;
Por aqui se vê a diversidade e logo a riqueza da decoração das peças oláricas de Estremoz. Essa diversidade verifica-se também ao nível da decoração fitomórfica/ e ou zoomórfica e da decoração relevada, já que esta não é igual em olarias distintas, bem como na mesma oficina pode ter sido obtida por moldes diferentes, além de que estes podem ter sido substituídos por outros no decurso do tempo, devido a desgaste ou por questões meramente estéticas.

Funcionalidade
A funcionalidade das peças oláricas de Estremoz é predominantemente servirem de vasilhame para conter e transportar água, conter flores, dinheiro, velas, ou então servirem de elementos decorativos. Algumas funcionalidades deixaram de ser utilizadas, devido ao desenvolvimento tecnológico. É o caso dos tijolos, telhas, canos, sifões e manilhas.

Marcas
O levantamento das marcas de olaria de Estremoz é um trabalho que ainda está em curso. Até ao momento, eu já dei o contributo que me foi possível, inventariando três marcas da Olaria Alfacinha, em uso nos anos 30 do século passado, as quais foram caracterizadas pela primeira vez no meu artigo “Medalhas de barro de Estremoz”, publicado no meu blogue em 12 de Novembro de 2012. Também em 21 de Fevereiro de 2013, publiquei no meu blogue o artigo “Nova marca de olaria de Estremoz”, no qual inventariei e caracterizei uma marca de olaria, usada nos anos 30 do século passado, na Escola Industrial António Augusto Gonçalves. É um trabalho que precisa urgentemente de ser continuado, o que pela minha parte, farei assim que me for possível.

Estética
A meu ver, a estética das peças oláricas de Estremoz é determinada por quatro factores distintos, mas de igual importância: o cromatismo vermelho do barro, aliado à morfologia, às proporções e à decoração. É da conjugação desses factores, sabiamente combinados, que resulta a excelência da beleza das peças oláricas de Estremoz.

Património Cultural Imaterial
À semelhança dos Bonecos, também a olaria de Estremoz apresenta marcas identitárias locais, muito próprias e constitue Património Cultural Imaterial do Concelho de Estremoz, pelo que urge que seja classificada como sendo de interesse municipal. A partir daí, logo se vê.

Ponto final
Os meus votos sinceros são os de que este artigo tenha sido útil a todos aqueles que me lêem. Se assim for, congratulo-me com tal facto e prometo voltar ao assunto.

 Hernâni Matos

Assador de castanhas

Bilha

Bilha com tampa

Cafeteira

Cafeteira

Cafeteira

Cântaro

Cantil

Copo

Fogareiro

Garrafa

Garrafa

Garrafa


Ânfora

Jarra de flores

Jarra de flores

Jarro

Medalhas

Moringue

Moringue

Moringue

Prato

Prato

Púcaro 

Púcaro

Púcaro

Reservatório

Tronco

Vaso


Vaso de suspensão

quarta-feira, 13 de abril de 2022

Presépio de Carlos Alves


Presépio (2022). Carlos Alves (1958-  ).

Eis uma Sagrada Família, representada de um modo formal em termos da iconografia habitual dos presépios de Estremoz. Todavia, o pai terreno de Jesus não empunha a costumada acuçena, símbolo da pureza, preferindo ter a mão direita sobre o peito, enquanto na mão esquerda empunha um pequeno bordão, como para proteger o filho. Para além disso, a Sagrada Família está representada num contexto alentejano, sugerido pelo cromatismo azul-vermelho dos ornatos da parede que se encontra em segundo plano. A cruz templária ostentada na parte superior da parede, entre os ornatos azuis e vermelhos, parece querer simbolizar a fé em Deus e a protecção divina. No centro da parede, encontra-se uma Capela, onde um anjinho anda de baloiço, como se festejasse o nascimento do Menino, ideia que é reforçada pela alegria sugerida pelos vasos floridos que ornamentam a parede, de cada um dos lados da Capela. Tudo parece dizer:
- É DIA DE FESTA. NASCEU JESUS!
A meu ver, o barrista soube combinar na sua representação, o sagrado e o profano de uma forma harmoniosa, que tornam a sua criação num hino à alegria.
Poderá haver outras interpretações. Lá diz o rifão: "Cada cabeça, sua sua sentença", o que significa que a percepção das coisas, nem sempre é coincidente. Daí, que algumas pessoas, entre as quais eu me situo, visando minimizar o erro, procurem ter e transmitir aos outros, uma visão multifacetada das coisas. Assim, não se arregimenta ninguém. O leitor fica sempre com liberdade de escolha entre uma visão mono-focal ou mutifacetada do mundo e da vida.

Hernâni Matos
Publicado inicialmente em 13 de Abril de 2022

sábado, 9 de abril de 2022

Mestre Álvaro Chalana e os amores-perfeitos

 



Os amores-perfeitos como motivo decorativo
Os amores-perfeitos são flores usadas com frequência por Mestre Álvaro Chalana na decoração das suas peças oláricas, em particular no fundo dos pratos e por vezes nas abas. Uma tal decoração é esgrafitada e pintada com base em tricromia verde-amarelo-ocre castanho, usada tradicionalmente na cerâmica redondense.

O cromatismo dos amores-perfeitos
A escolha daquelas flores como motivo decorativo, terá sido, porventura, resultado de elas serem flores que dão alegria e cor onde quer que estejam: na natureza ou em casa.
As flores são grandes e achatadas, formadas por cinco pétalas aveludadas e arredondadas, quatro superiores, distribuídas par a par e uma inferior, sustentadas por um pedúnculo carnudo e ligeiramente comprido que se insere na planta ao nível das axilas foliares.
Existe um grande número de variedades de amores-perfeitos, com flores de muitas cores e que variam entre amarelo, azul, roxo, branco, rosa e bordeaux. As combinações são muitas e dão origem a um grande número de padrões, geralmente tricolores, mas também bicolores e monocolores ou até mesmo tetracolores.

O simbolismo do amor-perfeito
O simbolismo do amor-perfeito resulta basicamente de as suas pétalas serem em número de 5. Vejamos porquê. Por um lado, o 5=2+3 é a soma do primeiro número par (2) e do primeiro número ímpar (3). Por outro, está no meio dos nove primeiros números. Segundo os pitagóricos é um número nupcial, resultado do casamento do princípio masculino “céu” (3) e do princípio feminino “terra” (2). O 5 é assim símbolo de união, de harmonia e de equilíbrio. Por outro lado, o 5 é também o símbolo do homem, o qual de braços abertos, parece disposto em 5 partes em forma de cruz: os dois braços abertos, o busto (o centro, abrigo do coração), a cabeça e as duas pernas. O 5 é ainda o símbolo do Universo: dois eixos, um vertical, outro horizontal, passando por um mesmo centro. O 5 é assim símbolo da ordem e da perfeição.
Em suma: o amor-perfeito é símbolo de união, de harmonia, de equilíbrio, de ordem e de perfeição. Representa também o homem pelo que lhe é próprio: pensar. O amor-perfeito é assim a flor escolhida para simbolizar a meditação e a reflexão.

Cancioneiro popular
A perfeição do amor-perfeito não inibe o cancioneiro popular alentejano de lhe apontar defeitos. Assim: “Amor-perfeito não dura, / É impossível durar. / Eu tenho um amor perfeito / Que dura até se acabar.“ e ainda: “Amor-perfeito não cheira, / É mais a vista que faz. / Meu amor não é bonito.”, / Mas é muito bom rapaz.”

Culinária
Desde a antiguidade que as chamadas flores comestíveis são utilizadas como ingrediente culinário, disponibilizando uma vasta diversidade de formas, texturas, cores, sabores e fragrâncias, que comunicam alegria e distinção aos pratos. Os amores-perfeitos são um exemplo de flores comestíveis, usadas para enfeitar saladas de vegetais ou de frutas, bem como outras sobremesas e pratos.

Coloração
As flores de amores-perfeitos têm ainda sido usados no fabrico de corantes amarelo, verde e azul-esverdeado, enquanto as folhas são usadas para fazer um indicador químico.

Uma mensagem oculta
Os amores-perfeitos são comestíveis e enquanto flores transmitem colorido, factos que parecem subjacentes à sua utilização por Mestre Chalana na decoração dos pratos redondenses.

BIBLIOGRAFIA
CHEVALIER; Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. 6ª ed. José Olímpio. Rio de Janeiro, 1992.
DELGADO, Manuel Joaquim Delgado. Subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo. Vol. I. Instituto Nacional de Investigação Científica. Lisboa, 1980.

Hernâni Matos




segunda-feira, 4 de abril de 2022

Até que enfim, arranjei um tacho!


Tacho com tampa em louça vidrada de Redondo. Olaria desconhecida. 1ª metade do séc. XX.

Lá na vila do Redondo
Fazem-se pratos e tijelas:
Fazem-se telhas e adobinhos,
Alguidares e Panelas
(Cancioneiro Popular)

Apontado por não ter tacho
A minha vida é bem conhecida de todos, muito em especial pelo círculo próximo de amigos. Sabem por onde ando, sabem o que faço e sabem o que tenho ou não tenho. De tal modo que, de vez em quando, há alguém que se lembra de me dizer coisas do género:
- Oh, Hernâni! Tens quase tudo. Só te falta arranjar um tacho.
A minha resposta tem sido, desde sempre, invariavelmente a mesma:
- Dêem tempo ao tempo, que lá chegará a minha vez.
São trocas de palavras que remontam ao “Tempo da outra Senhora” e que não foram amordaçadas pelo 25 de Abril.

A aparição do tacho
Enquanto estive no activo, nunca fui capaz de arranjar um tacho, situação que não se modificou com a minha aposentação. Todavia, muito recentemente vi aquela condição alterada. Na verdade, com grande surpresa minha e quando não estava à espera, acabei por arranjar um tacho. Pensei imediatamente nos amigos que de há muitos anos a esta parte, me vêm massacrando com a sacramental pergunta:
- Hernâni! Quando é que arranjas um tacho? Olha que o tempo está a passar.
De imediato, disse para comigo mesmo:
- Hernâni! Tu que és acusado de ser parco em palavras, tens que te mostrar pródigo nelas e dizeres-lhes das boas.
Foi tiro e queda, que é como quem diz, dito e feito. Quando a minha tertúlia de amigos se voltou a juntar, alguém disparou:
- Então, Hernâni, já conseguiste arranjar um tacho ou não?
Como devem calcular, ficaram varados quando eu atroei os ares com um estrondoso e sonoro:
- Já cá canta!
Fui, de imediato, aclamado pelos meus amigos, o que me levou a agradecer-lhes com a mão direita no coração. Simultaneamente, todos quiseram saber qual era o meu tacho, pelo que tive de os acalmar, dizendo-lhes:
- Antes de vos dizer qual é o meu tacho, têm de ouvir um pequeno discurso que preparei para esta memorável ocasião, o qual intitulei “Discurso do tacho”. Passo de imediato a proferi-lo.

Discurso do tacho
Caros amigos:
Vocês sabem que a palavra “tacho” pode ser encarada sob vários prismas? Segundo determinada óptica, “tacho” corresponde a “lugar rendoso”, associado a uma “posição social privilegiada com benesses". Para além disso, “ter um bom tacho” é sinónimo de “ter um emprego bem remunerado”. Todavia, “tacho” pode ser a designação atribuída, quer à “cara”, quer à “cabeça“. Paralelamente, “tacho” é uma denominação outorgada, tanto à “cozinheira” como à “refeição”. Por isso, “dar para o tacho” equivale a “dar para a comida”. “Tacho” era ainda, antes do 25 de Abril, o epíteto atribuído à famigerada “Polícia de Vigilância e Defesa do Estado”. Já “tacho areado” é alcunha concedida a “pessoa de pele avermelhada e cabelo ruivo”. Por outro lado, o diminutivo “tachinho” designa “barrete pequeno e redondo, usado pelos alunos do Colégio Militar e pelos Pupilos do Exército”. Quanto a “tachola” designa indistintamente “dente incisivo muito grande” ou “prego de tamanco”.
Já que falei em “tacho”, por uma questão de igualdade de género, tenho de falar em “tacha”, denominação aplicável a qualquer “dente”. Daí que o plural “tachas” designe “dentadura”, pelo que “mostrar a tacha” é “mostrar os dentes” e “arreganhar a tacha” é rir”.
Concomitantemente “tacha” é a designação atribuída a “prego pequeno de cabeça chata” ou a qualquer “nódoa”. Daí que “pôr tacha em…” seja “apontar defeitos a…”. Finalmente “tachada” é “bebedeira” e “tachar” é “embebedar”.
Caros amigos:
Se calhar já estão fartos de me ouvir falar de: “tachos”, “tachinhos”, “tacholas”, “tachas, “tachadas” e “tachar”. Não vos serve de nada, já que estou a ser maçador de uma forma propositada. E sabem porquê? Para me fazer pagar de todo o tempo que me tomaram, quando me andaram a atazanar os ouvidos, perguntando continuamente quando é que arranjava um tacho. Todavia, podem ficar descansados que eu não abalo daqui sem vos revelar qual é o meu tacho. E mais: vou mostrar-vos já o tacho!

A revelação do tacho
Não dei tempo a que ninguém dissesse nada e de rompante abri uma pequena mala de mão, donde retirei e exibi o tacho que esteve na origem de todo este imbróglio, o qual passei de imediato a descrever:
- Pequeno tacho, rodado, com tampa, em barro de Redondo, de tonalidade vermelha e vidrado. A base é circular e plana. O corpo é cilíndrico, mais largo que alto e o bordo é arredondado. Abaixo do bordo estão dispostas duas pegas, de secção rectangular, em forma de U com grande abertura e pequena altura, colocadas em posições diametralmente opostas. A superfície interior do tacho, o bordo e a metade superior da superfície exterior, receberam engobe amarelo palha, o mesmo se passando com o interior e o bordo da tampa. O engobe amarelo recebeu alguns salpicos verdes, distribuídos irregularmente.
E prossegui:
- Ficam deste modo a saber qual foi o tacho que arranjei como coleccionador de cerâmica redondense. Se estavam à espera de outra coisa, enganaram-se redondamente. Todavia, já tenho um tacho que dá para vocês me deixarem de estar a atormentar continuamente com o mesmo assunto. E sabem uma coisa? Apesar de o tacho ser pequeno, vocês acabam de comer pela medida grande!
Dito isto, todos os meus amigos ficaram mansos, sem, todavia, deixarem de me aclamar. Dentre eles, houve um que interpretando o sentimento dos outros, proclamou:
- A partir de hoje, ninguém mete o nariz no tacho dos outros. Cada um fica com o seu. Tacho, é claro.
E a tertúlia foi dada por encerrada.

Pergunta aos leitores
- Digam-me lá se mereceu a pena ou não, esperar pelo meu tacho estes anos todos? É claro que mereceu. É que eu sou paciente e “quem procura sempre alcança”.

BIBLIOGRAFIA
LAPA. Albino. Dicionário de Calão. Edição do Autor. Lisboa, 1959.
POMBINHO JÚNIOR, J.A. – Achegas para o Cancioneiro Popular Corográfico do Alto Alentejo in ALTO ALENTEJO II. Junta de Província do Alto Alentejo. Évora, 1957.
SANTOS, António Nogueira. Novos dicionários de expressões idiomáticas. Edições João Sá da Costa. Lisboa, 1990.
SIMÕES, Guilherme Augusto. Dicionário de Expressões Populares Portuguesas. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1993.

Publicado em 4 de Abril de 2022



sexta-feira, 1 de abril de 2022

Cerâmica redondense personalizada

 

Fig. 6 - Amália. Bacia de grandes dimensões. Ti Rita (1891-1974).

Preâmbulo
A clareza e o rigor na transmissão do presente texto, exige que precise a etimologia e a semântica de um vocábulo nele usado. A palavra “personalizar”, provém do étimo latino “personãle”, de “persona“ (pessoa). Trata-se de um verbo transitivo que sob o ponto de vista semântico pode ter vários significados: 1 - Tornar pessoal; 2 - Designar pelo nome; 3 - Dar carácter original a um objecto fabricado em série; 4 - Adaptar às preferências ou necessidades do utilizador. No âmbito do presente texto, o termo “personalizar“ deve ser entendido como sendo possuidor dos dois últimos significados.

Personalizar para relevar
As diversas tipologias oláricas redondenses encontram-se muitas vezes personalizadas, o que tanto pode ter acontecido, quer a pedido de clientes quer por iniciativa dos oleiros. Uma tal personalização manifesta-se na decoração da peça cerâmica sob a forma de antropónimos ou figuras antropomórficas que representavam ou supostamente pretendiam representar alguém, tanto da comunidade local como figura pública de âmbito histórico ou do panorama artístico nacional.
A personalização era esgrafitada e pintada, o que podia ser feito de duas maneiras: 1 – Sem recurso a figuras antropomórficas (bustos ou figuras de corpo inteiro), mas utilizando nomes próprios simples (Fig. 1), nomes próprios compostos (Fig. 2), nome e sobrenome (Fig. 3) e nome completo, ainda que abreviado (Fig. 4). 2 – Com recurso a figuras antropomórficas, as quais podem (Fig. 5) ou não (Fig. 6), ser acompanhadas do nome ou nomes (Fig. 7) das personagens perpetuadas no barro.
A personalização da cerâmica redondense é relativamente vulgar em pratos, alguidares, bacias, tigelas, saladeiras e também aparece em barris e cantarinhas, aparentemente com menor frequência.

Consequências da personalização
A personalização “sui generis” da cerâmica redondense é uma das muitas características que a valorizam em relação a outras cerâmicas de índole popular. Na verdade, uma tal personalização faz com que as peças deixem de ser anónimas por um dos seguintes motivos:
1 - Revelam-nos quem é o(a) utilizador(a) / proprietário(a), o(a) qual poderá afirmar coisas do género: “Este prato é meu” ou “Esta tigela é minha”. Neste sentido, a personalização de uma peça olárica transformou-se numa marca de posse, equiparável a um ex-líbris aposto por um bibliófilo num livro da sua biblioteca. 2 - Ao exaltar uma figura pública que anda na berlinda ou está na ribalta e tem admiradores, a personalização potencia o interesse que desperta junto do público, já que adquire ela mesmo uma notoriedade própria, corolário natural da notoriedade da figura pública que ela imortaliza no barro.

Eu e a personalização
Sou apreciador de exemplares oláricos redondenses antigos, os quais na época cumpriram a sua missão: associar-se de uma maneira bijectiva aos seus utilizadores / proprietários ou então imortalizar no barro, figuras gratas à comunidade e nas quais esta se revê. Por um motivo ou pelo outro, são merecedores te todo o meu apreço, pelo que ocupam um lugar de destaque na minha colecção.

BIBLIOGRAFIA
- HOUAISS, António e al. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. 6 vol. Círculo de Leitores. Lisboa, 2003.
- MACHADO, José Pedro. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa (5ªedição). 5 vol. Livros Horizonte. Lisboa, 1989.
PERSONALIZAR, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2021. Disponível em https://dicionario.priberam.org/personalizar [consultado em 01-04-2022].

Fig. 1 - Inscrição "JACINTO". Prato covo de grandes dimensões.
Álvaro Chalana (1916-1983).

Fig. 2 - Inscrição "Maria Izabel". Saladeira de médias dimensões.
Olaria desconhecida. Data desconhecida.

Fig. 3 - Inscrição "viulante ventura". Bacia de grandes dimensões.
Álvaro Chalana (1916-1983).

Fig. 4 - Inscrição “OFERECE F. R. Cte / A J. FALÉ / BARBEIRO / SM”. Borracha.
Olaria F. R. Cte, 1941.

Fig. 5 - Inscrição "MANUEL DOS SANTOS". Bacia de grandes dimensões.
Mestre Álvaro Chalana (1916-1983). 

Fig. 7 - Inscrições "BENFICA", "CARLOS MANUEL" e "RUI AGUAS".
Olaria desconhecida. Data desconhecida.

terça-feira, 29 de março de 2022

A vida eterna das cousas


Bacia com ilustração de desconhecido, da autoria de oleiro desconhecido, em data
desconhecido. Algures na Vila de Redondo.


Descrição de uma bacia
Bacia circular, de grandes dimensões, rodada, de covo acentuado, de bordo liso, esponjado a verde, sem interrupções.
Engobe amarelo palha.
Covo da bacia ornamentado por duas cercaduras, esgrafitadas e pintadas em ocre castanho, uma no topo e outra no fundo da caldeira, qualquer delas constituída pela repetição do símbolo gráfico da vírgula, ao longo de toda a extensão horizontal do covo. As vírgulas encontram-se dispostas segundo um alinhamento paralelo à abertura da bacia, com a componente pontual assente numa circunferência imaginária e a parte curvilínea apontada para o fundo da bacia e orientada no sentido horário.
Fundo com decoração esgrafitada e pintada com base em tricromia verde-amarelo-ocre castanho, com contornos a ocre castanho.
Ilustração constituída por figura antropomórfica masculina, com ar sorridente e cabelo verde ondulado, com risca ao meio. O homem enverga um casaco amarelo tipo paletó, com virados verdes e uma camisa castanha, enfeitada com uma gravata às riscas verdes e castanhas, inclinadas do lado esquerdo para o lado direito da figura.

As marcas do tempo
Estamos em presença de uma bacia esbeiçada, estalada, com falhas no engobe e no vidrado, o qual se encontra picado e manchado no fundo. Trata-se de um exemplar com claras marcas de uso e de acidentes no decurso da sua utilização.
Esta bacia encerra em si, os segredos da sua estória de vida: tanto pode ter sido utilizada num lavatório para lavar rostos e mãos, como pode ter sido usada como recipiente para conter matérias-primas culinárias ou o resultado final de requintadas artes de Pantagruel, que encheram as medidas a alguém, que é o mesmo que dizer lhe fizeram arregalar a vista, criar água na boca, estimular o palato e confortar o estômago. Não sabemos.
Espécimes deste jaez, são como as árvores: morrem de pé. Na verdade, de acordo com a lei de Lavoisier, “Na Natureza, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”. Por isso, esta bacia cuja funcionalidade era o serviço caseiro diário, ao ser abatida ao seu uso inicial, transformou-se num objecto decorativo, cuja exposição numa parede, valoriza e qualifica a casa onde se encontra.
Para além de nos contar a sua estória de vida, a bacia fala-nos ainda e muito sobre a magia das mãos do mesteiral que lhe conferiu forma, luz e cor. Nesse sentido, ela é também um monumental registo identitário.

Monumento ao oleiro desconhecido
A bacia cuja decoração ilustra alguém desconhecido, ilustre ou não e que patenteia em si um monumental registo identitário, revela-se por fim como um monumento ao oleiro desconhecido. Quem foi ele? Quando é que amassou e coloriu o barro para erigir assim um monumento à sua própria Memória? Não sabemos. Apenas sabemos que foi um mesteiral de antanho, de “Redondo, terra de oleiros e cardadores” que lhe deu vida, a qual para nosso conforto espiritual, a lei de Lavoisier assegura ser eterna.

quinta-feira, 24 de março de 2022

Bonecos de Redondo?

 


Fig. 1 - Bonecos de Redondo?

Em 2010 comprei a um vendedor local no Mercado das Velharias em Estremoz, um boneco habitualmente designado por DANÇARINO (Fig. 2) e que se enquadra na categoria das marionetas ou fantoches. Trate-se de um exemplar de arte pastoril alentejana, bem antigo e de autor desconhecido, sobre o qual escrevi então o texto O DANÇARINO
onde expliquei como é que o mesmo era manipulado, recorrendo a um varão que era introduzido na abertura do peito.
Há duas semanas e no mesmo local, comprei a um vendedor de fora, 2 bonecos que se enquadram na categoria anterior, ainda que não apresentem o orifício atrás referido. Todavia, apresentam como que um gancho implantado na cabeça, o qual decerto servirá para a sua manipulação. Só diferem dos Bonecos de Santo Amaro, dos Bonecos de São Bento do Cortiço e dos Bonecos de Santo Aleixo, porque estes apresentam uma argola implantada na cabeça, sendo a partir daí, manipulados com um cabo.
Segundo o vendedor, estes bonecos foram por eles comprados há já algum tempo, a um artesão de Redondo, entretanto falecido e cujo nome desconhece.
Pergunto ao leitor:
- Conhecem algum artesão de Redondo que possa ter produzido estas marionetas?
- Sabem como é que elas eram manipuladas?
- Será legítimo chamar-lhe Bonecos de Redondo?
Todas as respostas serão bem-vindas e por elas vos estou antecipadamente grato.

Fig. 2 - Bailarino.