terça-feira, 16 de março de 2021

Três em um


Geógrafo. Professor. Ex-Presidente da Câmara Municipal de Borba.

Nem todos tiveram o privilégio de ter o Hernâni Matos como professor, como colega e como amigo.

Hernâni professor
O primeiro contacto que tive com ele tinha quinze anos. Fui seu aluno na disciplina de “Mercadorias” no ano letivo 1972/73 e frequentava o Curso Geral de Comércio na Escola Industrial e Comercial de Estremoz.
Um grande professor, não só em tamanho, mas também em qualidade. Com a sua voz de trovão, transmitia os conhecimentos num anfiteatro do primeiro piso a uma turma de “índios” que o respeitavam, onde se aprendia, mas também havia espaço para brincar. Lembro-me de ouvir, no silêncio da aula, os gritos que soavam por toda a escola, da professora Olívia Lencastre, já falecida.
Fui finalista naquele ano e ao consultar a típica pasta de finalistas com dedicatórias dos professores e colegas, deparei com esta dedicatória do meu ex-professor: “Sr. Guarda Verdades, que não as guarde sempre: Hernâni Matos”.

Hernâni colega
Uns anos mais tarde vou reencontrar o Hernâni Matos, agora como colega!
Estávamos num período quente em termos políticos, onde com frequência surgiam reuniões gerais de alunos, reuniões gerais de professores e reuniões gerais de escola, em que as guerras partidárias surgiam com frequência, muito típicas do período quente pós 25 de Abril de 1974.
O Hernâni lá estava sempre na linha da frente! Lembro-me perfeitamente das suas intervenções, com o tal vozeirão, apoiado politicamente na linha da UDP com a qual eu também simpatizava e das “guerras” com os simpatizantes do PCP e do MES, porque nesse tempo os “direitolas” nem piavam, e quando tentavam, rapidamente eram abafados.
O seu papel ativo na política local como militante da UDP, com o nosso amigo Albano Martins e muitos outros, foi marcante em Estremoz e na região.
 
Hernâni amigo
Hernâni é um grande amigo do seu amigo, sempre disposto a colaborar e participar nos mais diversos tipos de atividades de natureza política ou cultural.
Com a teimosia e persistência que o caracterizam, fez um importante trabalho na área da filatelia e conseguiu, desenvolver e dinamizar esta atividade, através da organização de certames filatélicos importantes, com participantes portugueses e espanhóis, promovendo a filatelia, o colecionismo e simultaneamente a cultura estremocense e alentejana.
Foi graças ao seu grande empenho e dedicação à filatelia que recebeu variados prémios e distinções nesta área. Homem grande e grande homem com intervenção importante na divulgação da cultura popular alentejana e em especial dos “Bonecos de Estremoz”, classificados recentemente pela Unesco como Património Cultural Imaterial da Humanidade.

Ângelo João Guarda Verdades de Sá
Estremoz, 25 de Fevereiro de 2021

Hernâni Matos

domingo, 14 de março de 2021

Luís Parente, o Bonacheirão

 

Luís Parente (1974- ) a pintar um Pastor de tarro e manta.

Quem é quem
Luís Parente (1974- ) é professor de Educação Visual e Educação Tecnológica. Como docente trabalhou desde sempre com diversos materiais, entre eles o barro. Só começou a modelar ao modo de Estremoz há cerca de 6 anos, após ter tido lugar na sua escola uma Acção de Formação promovida pelos Serviços Educativos do Museu Municipal, a qual foi orientada por Isabel Borda d’Água. Foi ela a sua mestra, que o motivou e lhe transmitiu conhecimentos e técnicas. A semente encontrou terreno fértil, geneticamente preparado, já que seu pai, Manuel das Neves Parente (1931-2007), foi aluno de Mestre Mariano da Conceição (1903-1959) nos finais dos anos 40 do séc. XX.
O reconhecimento das potencialidades de Luís Parente levaram a que o Município o convidasse a integrar a equipa dos já referidos Serviços Educativos. Estes têm a seu cargo, entre outras funções, a protecção e salvaguarda dos Bonecos de Estremoz, desenvolvendo actividades educativas junto de crianças, jovens e adultos. Conjuntamente com Jorge da Conceição e Isabel Borda d’Água, Luís Parente foi monitor nas sessões práticas do Curso de Formação sobre Técnicas de Produção de Bonecos de Estremoz, que em 2019 teve lugar em Estremoz, no Palácio dos Marqueses de Praia e Monforte.

Na mira do colecionador
Comecei a colecionar Bonecos de Luís Parente em 2019 e depois de algum interregno, por me ter espraiado por outros barristas, voltei recentemente a adquirir trabalhos seus. Para além disso, aprofundei o conhecimento que tinha sobre a sua produção, a partir de exemplares cuja visualização me facultou. Como corolário natural desse estudo, sistematizei algumas ideias, das quais seguidamente dou conta.

O acto criador
A modelação é muito cuidada e atenta ao pormenor, o que acentua a vertente fortemente naturalista das suas criações. Para cada figura modela uma cabeça e um rosto que tornam essa figura única. As cabeças não são clonadas a partir de um molde de gesso como tradicionalmente vem sendo feito na barrística de Estremoz, visando rentabilizar a produção.
O barrista recusa esse facilitismo, que a seu ver torna a modelação menos nobre. Para além disso, a sua modelação confere também textura a algumas superfícies, o que reforça a representação naturalista.
Tais factos só valorizam o seu trabalho, já que a estética dos Bonecos de Estremoz é uma estética naturalista, caracterizada por uma morfologia e um cromatismo que são os mesmos daquilo que representam.
O cromatismo e a decoração das suas criações são muito próprios.
No caso do cromatismo, apesar de utilizar as cores tradicionalmente dominantes nos Bonecos de Estremoz, o barrista usufrui de uma paleta cromática ampla, que não permaneceu estática no tempo, condicionada aos pigmentos existentes na cidade até cerca dos anos 60 do século XX. O barrista é um homem do seu tempo, que dispõe de uma vasta gama de pigmentos, com os quais gera cores e tons que lhe permitem transmitir ao barro cozido, os sentimentos e as emoções que lhe vão na alma.
No caso da decoração das figuras e para além da predominância das dicromias cor quente-cor fria, o barrista combina cores análogas e tons da mesma cor, bem como cromias de ordem superior, em qualquer dos casos sempre de uma forma criativa e harmoniosa. Em particular, na decoração de peças de vestuário, o barrista recorre a padrões geométricos e vegetalistas que embelezam e valorizam a composição.
As suas criações são apelativas logo após a modelação, impressão que se acentua após a pintura.
Em termos pessoais, Luís Parente suscita empatia já que é afável, simpático e bonacheirão, características que a sua modelação e a sua decoração transmitem a tudo aquilo que cria. Por isso as suas figuras são inconfundíveis, já que patenteiam um estilo muito próprio, revelador de forte personalidade artística.
O barrista parece ter encontrado o seu próprio caminho, o que requer continuação. Não resisto a invocar aqui o poeta sevilhano António Machado (1875-1939):

“Caminhante, são teus rastos
o caminho, e nada mais;
caminhante, não há caminho,
faz-se caminho ao andar.
Ao andar faz-se o caminho,
e ao olhar-se para trás
vê-se a senda que jamais
se há-de voltar a pisar.
Caminhante, não há caminho,
somente sulcos no mar…”

O caminho do barrista passa pela conjugação temperada dos preceitos da barrística local com o desafio da inovação e o prazer do acto criador. O futuro pertence-lhe. Todos esperamos que na sua caminhada continue sempre igual a si próprio, com criações que para nosso deleite de espírito, sejam belas, harmoniosas e simpáticas. Este, o trinómio global que é timbre dos seus trabalhos. É ele que nos leva a proclamar:
- Obrigado Luís pelo encantamento dos Bonecos que nos aquecem a alma. Bem haja!

Berço do Menino Jesus (Berço das pombinhas).


Presépio de 3 figuras.


Presépio de 5 figuras.

Santo António.

São João Baptista.

Senhora de pézinhos.

Peralta.

Mulher a passar a ferro.

Senhora a servir o chá.

Mulher a vender chouriços.

Ceifeira.

Mulher da azeitona.

Mulher das galinhas.

Pastor de tarro e manta.

Pastor com um borrego ao colo.

Ceifeira e pastor com um borrego ao colo.

Primavera.


O Amor é cego


Galo no disco.

Galo no arco.

Galo no poleiro.

Cesto com ovos.

Galinha no choco.

sexta-feira, 12 de março de 2021

O Pernas

 

Mateus Serra. Engenheiro.

Conheci o Hernâni, quando ambos estudava-mos no Colégio de Estremoz, no ano fatídico que o acidente, o erro médico, o azar ou lá o que fosse, lhe roubou uma perna, fazendo que a alcunha que recentemente lhe havíamos posto, deixasse de ser pronunciada.
O Pernas que nasceu por ser magro, alto e com as pernas longas, passou a ser o Hernâni, com todas as suas valências, nascidas talvez também por causa dessa perda dramática.
Voltei a vê-lo, passados talvez três ou quatro anos. Falámos de tudo, com realce para as ciências e as letras. Depois disso, só voltei a saber do Hernâni, pelas redes sociais e fiquei maravilhado com as coisas que escrevia. Crítico mordaz num estilo que me fazia lembrar os clássicos surrealistas. Escrever brincando, deixando meio escondida a mensagem, num ritmo quase poético. Estilo. É o estilo, que caracteriza os seus escritos e que o faz diferente.
Gosto do Hernâni, da sua verticalidade e dos seus escritos que espero, venham a ser lidos por todos. Só não gostei da alcunha Pernas.
 
Mateus Serra
Borba, 20 de Fevereiro de 2021

quinta-feira, 11 de março de 2021

Um lutador


Isabel Taborda Oliveira. Professora. Ex-vereadora do Pelouro da Cultura
da Câmara Municipal de Estremoz.

Meu Amigo Hernâni, que problema tenho! Como exprimir a grande admiração, respeito e amizade, sendo um zero na escrita?
Admiro o seu grande amor por Estremoz e pelas suas gentes. Sempre com um enorme sentido de justiça e isenção. Com persistência, lutando sem tréguas pela verdade e homenageando as pessoas que fizeram a nossa História.
Um grande obrigado pela sua obra e que continue por muitos anos.

 

Isabel Taborda Oliveira
Estremoz, 20 de Fevereiro de 2021



terça-feira, 9 de março de 2021

Hernâni Matos - O Boniqueiro das Palavras


Luís Parente. Professor. Barrista. Presidente do Orfeão de Estremoz Tomaz Alcaide.

Conheço o Professor Hernâni Matos há muitos anos. A minha memória mais antiga, seria eu um catraio, está na rua das lojas... era assim conhecida a rua 5 de Outubro em Estremoz, onde o seu pai tinha uma alfaiataria e o meu tio uma loja de fazendas. Foi ali que o encontrei na minha memória, à porta, a falar com o seu pai. De certa maneira a minha vida sempre se cruzou com a sua, quer fosse por ter sido professor do meu irmão, quer pelo facto de a sua filha ser uma das grandes amigas da minha prima, quer ainda pelo motivo da sua esposa fazer parte do Orfeão, onde os meus pais e tios também cantavam, ou até mesmo, mais tarde, por partilharmos um espaço contíguo no Centro Cultural Dr. Marques Crespo enquanto agentes culturais, eu com o "meu" Museu Rural da Casa do Povo de Santa Maria, ele com um espaço museológico de excepção que geria em nome da Associação Filatélica Alentejana e onde promovia continuamente exposições e eventos culturais de índole diversificada, de reconhecida importância para a cidade e para a região. A partir dessa altura passámos a falar mais do que o simples e cordial "Bom dia! Como está?" e foi então que melhor percebi que o Professor Hernâni Matos não era só um professor de reconhecida qualidade e competência mas um extraordinário intérprete cultural. Homem de cultura, conhecedor e protector de tradições, amante da escrita, defensor de causas que, não raras vezes, lhe terão trazido alguns dissabores por ser uma pessoa vertical e não abdicar da liberdade de expressar o que a sua consciência lhe ditasse. Benfiquista, independente, defensor da festa brava, das ciências, das memórias e estudioso do passado mas sempre, sempre com os olhos postos no futuro... pessoa de interesses e gostos abrangentes e variados como a etnografia, a poesia popular, a filatelia, o coleccionismo e, no fundo, aqueles que, sem desprimor para os restantes, mais me "tocam"... a simpatia e reconhecimento pelo "meu" Orfeão de Estremoz "Tomaz Alcaide" e o amor aos "Bonecos de Estremoz". Sobre os "Bonecos", considero que são poucos os que dedicam o seu tempo a estudar esta arte secular e o Professor Hernâni Matos é um dos expoentes máximos no que a este assunto diz respeito. Sendo eu também artesão, já falámos inúmeras vezes sobre esta temática tendo o próprio confessado que o contributo que pode dar a esta arte é estudá-la, falar sobre ela, dar a conhecer a sua história, a sua evolução e apoiar quem, com a matéria-prima e com as mãos consegue conduzi-la ao futuro e tudo isso, garantidamente fá-lo com mestria. Talvez tenha sido por isso que, há tempos, achei que o epíteto que melhor definiria o Professor Hernâni Matos era o de "Boniqueiro das Palavras", precisamente por ser através delas que expressa toda a sua alma, por ser aquele que consegue, através dessas mesmas palavras, aliar a defesa das características tradicionais dos "Bonecos de Estremoz" à sua contemporaneidade, privilegiando sempre o acto criativo de cada um dos artesãos... e por ser aquele que, mesmo não conseguindo fisicamente modelar um "Boneco", consegue, através da escrita, modelar e pintar os dos outros mas, no fundo, no fundo, ser também aquele que acaba por conseguir de uma outra forma "modelar" e "pintar" os seus.

Luís Parente.
Estremoz, 15 de Fevereiro 2021

domingo, 7 de março de 2021

Hernâni, “O colecionador”


Luís Mariano Guimarães. Técnico Industrial.

A imagem que tenho do meu amigo Hernâni Matos é a de um colecionador insaciável. Ele tudo organiza e tudo coleciona.
A sua casa é um museu com mais recheio do que muitos museus. Ele são, principalmente, os Bonecos de Estremoz (alguns com séculos), são as rendas, os artefactos de cortiça, as miniaturas talhadas em madeira, são os talegos, os livros, as gravuras, os jornais… é o mundo rural dentro de portas que a Fátima vai gerindo sempre com um sorriso nos lábios.
A única coisa que o faz sair da cama cedo é a intuição de haver alguma novidade transacionável no Mercado de Sábado.
Este mundo vivido entre as memórias da sua cidade levou a que o Hernâni se confunda com a própria Cidade.
De espírito obstinado, algumas vezes sem razão, tem a particularidade de persistir nas suas pesquisas para lá do infinito. Muitas das memórias esquecidas de Estremoz, algumas descobertas também, devem-se a esta maneira de ser.
Acidentalmente tornei-me seu fotógrafo “oficial” através de muitas sessões de inventário dos Bonecos em sua casa, no Museu Municipal, em casa de outros colecionadores, no antigo Museu Rural, em procissões até.
Foi pela mão dele e pelos seus ensinamentos que sei alguma coisa da nossa terra.
A sua ânsia de adquirir conhecimentos e de os transmitir, a sua costela de investigador e professor manifestam-se na sua obra. Infelizmente esta não tem sido valorizada pelos poderes municipais e pela pequenez de alguns decisores.
Um dia vai ter nome de rua, mas o que fazia mesmo falta era o museu Hernâni Matos, Já!
Os estremocenses devem sentir orgulho nesta obra e nesta personagem. Por mim, muito por cima disso, sinto-me agradecido pela sua amizade.
                                                                                                       
 Luís Mariano Guimarães
Estremoz, 16 de Fevereiro de 2021

quinta-feira, 4 de março de 2021

Hernâni Matos: a memória de um amigo distante

 
Adelino Caravela. Aposentado da Função Pública. Filatelista.


Hernâni Matos: a memória de um amigo distante

Vai mais além, 
sempre mais e mais.         
Desata laços,
transpõe barreiras,              
salta os muros da mediocridade,
faz das horas mortas,
tempo de validade. 
Não pactua com o fácil,
diz não quando preciso for.         
Tem a coragem
de renegar, até a dor                                                
é apanágio do forte,
é a bandeira do que nada teme,
nem sequer a morte!
               
 
Adelino Caravela
Leiria, 7 de Fevereiro de 2021