quinta-feira, 21 de abril de 2016

Auto das placas malfadadas



O enredo desenrola-se no nosso burgo, mesmo em frente da Casa das Leis, na praça Luís de Gamões, que é contígua à rua da Paróquia. A acção decorre há dois séculos atrás, para onde foram projectados os personagens, devido a uma avaria da máquina do tempo, que os põe a falar de factos que irão decorrer duzentos anos depois. O perfil dos intervenientes pode ser descrito assim:
- ANTÓNIO LIMÕES: Trovador de todas as horas, dias e meses, mas com uma predilecção especial por Abril. Poeta do quotidiano do povo, o qual canta com o vigor de uma mãe que amassa o pão.
- CARMELO ALTURAS: Seco de carnes e voz de trovão que brota lá do alto. Tem cabelo grisalho e usa bigode à mongol. Farejador nato de coisas por descobrir, é uma espécie de cão pisteiro que não descansa enquanto não abocanha a presa. Faz concorrência à traça na sua apetência pelos papéis velhos que povoam bibliotecas e arquivos. O resultado das suas descobertas é como uma candeia que alumia as trevas.
- FRANCISCO TRÁS: Sargento-Mor aposentado, reconhecido como herói pela sua participação capital no levantamento militar que nos restituiu a Liberdade. Estudioso da História Militar a nível local, é uma pessoa muito respeitada e estimada no burgo.
- MARIA MACHADÃO: Mulher robusta, peituda e vigorosa. Com frequência brada e gesticula contra a injustiça. Coitados daqueles que forem alvos da sua ira. Estão sujeitos a levar um par de tabefes.
- FERNÃO: Cronista de serviço. Sempre ao serviço do povo, que o reconhece como mensageiro da comunidade.
A cena única do auto, é fácil de resumir. Fernão encontra o poeta António Limões numa das suas raras saídas de casa, local preferido para poetar. Resolvem pôr as conversas em dia, até que frente à Casa das Leis, se cruzam com Maria Machadão que vocifera e gesticula com Carmelo Alturas. Nesse preciso momento chega também Francisco Trás, que logo pergunta:
- O que é que se passou Maria Machadão? A senhora está fora de si!
A resposta de Maria Machadão é célere:
– Não é caso para menos. Estava aqui a contar ao Carmelo Alturas que estando eu na praça Luís de Gamões, mais uma vez me vieram perguntar onde é que ficava a rua da Paróquia. É que a rua não tem placa nenhuma à entrada. Só lá tem o sítio onde devia estar. Quem me perguntou foi um carroceiro de fora que queria descarregar mercadoria na Estalagem do Jorge. Raro é o dia em que isto não acontece. E o Regedor que não toma providências. Já me estou a passar dos azeites. Qualquer dia dá asneira.
A uma só voz, todos lhe dizem:
- Calma é que é preciso!
Francisco Traz intervém seguidamente dizendo:
- O que a Maria Machadão referiu é a falta de uma placa toponímica numa rua. Todavia há outro tipo de placas, que são as placas evocativas das quais eu conheço um exemplo singular. Já o Dr. Marques Fresco na monografia que publicou sobre a nossa terra transtagana, chamava a atenção para a placa que está na Ermida de Santo Disto, ter ali sido posta por engano, uma vez que D. Nuno Álvares Macieira, antes de ter partido para a batalha dos Atasqueiros, ter orado com as suas tropas, não no Rossio Rustiquês Tribal, onde foi construída aquela Ermida, mas sim no Rossio de São Trás, onde veio a ser erigida uma Igreja votada ao Santo. Era aqui que devia estar aquela placa e até agora ninguém teve a coragem de ordenar a sua mudança.
Carmelo Alturas também não se contém e diz:
– A placa que o Francisco Traz relatou é uma placa evocativa mal localizada. Porém, eu conheço uma que está bem situada, mas tem um erro de inscrição. Ao investigar o Arquivo da Escola Industrial António Magusto Ressalves, fiz uma descoberta importante. O afamado escultor Chá Remos, ligado à recuperação dos nossos bonecos de barro, foi Director daquela Escola entre 1932 e 1945, como pude confirmar na imprensa local. Pois, na rua D. Tasco da Fama, existe um prédio azulejado em cuja fachada foi descerrada uma placa, assinalando que ele morou ali até deixar de ser Director da Escola, em 1944. É uma falta de rigor, que não lembra ao Diabo.
Intervém então António Limões, dizendo:
Pois eu conheço um caso diferente dos anteriores. Trata-se de uma placa evocativa, bem localizada e sem erros de inscrição, mas que está completamente ilegível. No largo do Espírito Tanto existe uma placa no frontispício do nº2-2º, evocativa de ali ter morado de 1951 a 1952, o poeta Sebastião da Fama, que pela sua prática pedagógica estabeleceu uma forte ligação afectiva com o nosso burgo, perceptível nos seus Poemas e no seu Diário. Com o rigor do tempo, a tinta das letras sumiu-se e não voltaram a pintá-la. Será que o poeta caiu no esquecimento de quem se devia lembrar destas coisas? É mesmo muito triste. Dói-me a alma só de pensar nisto. Mas há uma pessoa que podia dar um forte contributo para a resolução destas situações.
Perguntam todos simultaneamente:
- Quem?
Responde António Limões:
- O Fernão podia redigir uma crónica sobre isto tudo, num dos jornais onde cronista é. Se o Regedor não tem conhecimento, passa a ter. Mesmo que não leia os jornais, alguém que os leia por ele, vai-lhe dar conhecimento. 
Fernão aceita o encargo, dizendo:
– Contem comigo. Para tal, vou fazer uso da minha pena, que é firme e não tem pena de escrever. Isto é tudo uma questão de penas. Faz pena a situação das placas, que parecem estar a sofrer cada uma delas a sua pena. Mas basta de penas. Não há que ter pena. Pelo contrário, vale a pena procurar libertá-las daquilo que não pode ser uma pena eterna.
Respondem todos em uníssono:
- E não tenha pena.
Ao que Fernão replica:
- Certamente que não.
E porventura estimulado pela presença do poeta António Limões e parafraseando o cantor Daniel Cheire, é levado a versejar: Se cronista sou, / ao Povo o devo. / Aqui onde estou, / Para ele escrevo. E dito isto, retira-se, a fim de lavrar uma crónica que junto do Regedor, dê eco de todos estes brados, através dum jornal onde cronista é.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

47 - Mulher a passar a ferro - 3


Mulher a passar a ferro (1958).
Mariano da Conceição (1903-1959).
Colecção particular.

Pintura Universal
Desde o séc. XVIII que a “Mulher a passar a ferro” constitui um tema apelante na Pintura Universal, o qual foi frequentemente interpretado por artistas de diferentes épocas e correntes estéticas das mais diversas. Destacamos as obras: - Henry Robert Morland: Engomadeira (1750); - Jean-Baptiste Greuze: As lavadeiras (1761); - Louis Léopold Boilly: Jovem engomadeira (c. 1800); - François Bonvin: Engomadeira (1858); - Edgar Degas: Engomadeira (c. 1869); - Louis Joseph Anthonissen: As engomadeiras em Trouville (1888); - Ivana Kobilca: Engomadeiras (1891); - Albert Edelfelt: Lavadeiras (1893); - Konstantin Makovsky: Engomadeira (c. 1900); - Picasso: Engomadeira (1904); - Rik Wouters: Engomadeira (1912); - Gotthardt Kuehl: Pequena aflição (1915); - David McCosh: Engomadeira (1931); - Jean Dubuffet: Mulher a passar a ferro uma camisa (1951);
Arte Portuguesa
Em Portugal apenas conhecemos 3 obras de arte incluídas na temática da “Mulher a passar a ferro”. São elas: - Almada Negreiros: A engomadeira (1915) – Desenho; - Carlos Reis: Engomadeiras (1915) – Pintura a óleo; - Paula Rego: Menina a passar a ferro (1989) – Azulejo.
Figurado de Estremoz
 A “Mulher a passar a ferro” é uma imagem pertencente ao núcleo base do figurado de Estremoz. O exemplar que reproduzimos representa uma mulher trajando à moda do séc. XIX, com a mão esquerda apoiada na anca e com a mão direita segurando a pega de um ferro de engomar maciço, de forma triangular e cor negra, cuja pega é figurada por uma pedaço de arame em forma de U invertido, pintado de preto. A mulher passa a ferro uma peça de roupa de cor branca, assente numa mesa de quatro pernas paralelepipédicas, de cor castanho claro e tampo rectangular de cor creme.
Na cabeça, dois pontos negros representam os olhos, encimados por dois traços castanhos que figuram as pestanas e as sobrancelhas. O nariz em relevo, tem a forma de prisma triangular e a boca é interpretada por uma linha vermelha. Em cada uma das faces é visível uma roseta alaranjada. O cabelo é castanho-escuro com troço atrás, no qual está espetada uma canoa amarela, com pintas verdes e vermelhas. O cabelo encobre as orelhas, das quais pendem dois brincos de forma ovóide e cor amarela. 
 O vestido é cor-de-rosa com pintas azuis, orlado de azul nos punhos, com fita azul à cintura, com pontas pendentes para trás e gola azul em relevo, pintalgada de branco e ostentando à frente um broche semi-esférico cor de zarcão. Os sapatos são negros. 
O conjunto assenta numa base trapezoidal de cor verde, pintalgada de branco, amarelo e zarcão e pintada lateralmente desta mesma cor.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Palácio Tocha vai acolher Museu do Azulejo


Palácio Tocha na actualidade.


O histórico Palácio Tocha, no Largo D. José I, 100, junto ao Jardim Municipal de Estremoz, vai ser transformado pela Fundação Berardo em Museu do Azulejo. Trata-se dum imponente solar setecentista também conhecido por Palácio dos Henriques de Trastâmara, construído no início do século XVIII para residência do capitão Barnabé Henriques e sua família. Era ali que na novela Belmonte, supostamente residia a família Milheiro e em cujo rés-do-chão funcionava a clínica veterinária da Dr.ª Julieta Milheiro.
A revelação das futuras funções do Palácio foi feita à rádio local, pelo Presidente da edilidade Luís Mourinha, que deu conhecimento que no passado dia 7 de Abril, a Direcção Geral da Cultura deu parecer favorável a obras de conservação, restauro e adaptação, as quais deverão ter início em Julho ou Agosto próximo.
História recente do Palácio
Desde que foi erigido e até aos dias de hoje, o Palácio Tocha conheceu diversos proprietários, um dos quais a família Sepúlveda da Fonseca, que visando efectuar partilhas, decide vender o imóvel. Para tal dá preferência à Câmara Municipal de Estremoz, tendo o seu representante Dr. José Filipe Sepúlveda Rosado da Fonseca, contactado o Presidente da Câmara, Luís Mourinha. O Município revela-se interessado na aquisição, mas propõe o pagamento faseado em tal número de parcelas, que aquela família não pode aceitar. O edifício é então vendido no ano de 2000, à Imobiliária Magnólia da Madeira, Lda. A 4 de Junho desse mesmo ano, a CME entrega nas instâncias competentes uma proposta visando a classificação do imóvel como monumento de interesse público.
Em 2008, a Imobiliária Magnólia da Madeira, Lda., faz uma permuta de edifícios com a Associação de Colecções, de cujo Conselho de Administração é Presidente, o Comendador José Manuel Rodrigues Berardo (Joe Berardo). Na prática o proprietário do Palácio Tocha passa a ser o conhecido empresário e coleccionador de Arte, Joe Berardo.
Na sequência da proposta da Câmara, o Palácio Tocha veio a ser classificado como monumento de interesse público, através da Portaria 40/2014 do Secretário de Estado da Cultura, publicada no Diário da Republica - 2.ª Série, Nº 14, de 21-01-2014. O diploma define ainda a zona especial de protecção do monumento.
Face àquela classificação, pessoalmente chocado pelo estado de degradação do edifício e a necessidade urgente de promover o seu restauro e conservação, redigi 3 artigos sob a epígrafe PALÁCIO TOCHA - QUEM LHE ACODE?, publicados no  jornal Brados do Alentejo, a 10  de Julho, 11 de Setembro e 2 de Outubro de 2014. Nesses artigos e conhecedor da legislação em vigor relativa a Defesa do Património, chamei a atenção para as responsabilidades que face a ela, tanto têm o proprietário como a administração pública, responsabilidades que a partir do momento da classificação se impunha que fossem assumidas. É que o edifício é uma jóia arquitectónica da cidade e um tesouro em património azulejar, no qual ressalta o envolvimento de Estremoz e do seu termo, na luta pela independência nacional contra o jugo filipino. São páginas de História Regional e Nacional que estão ali contadas.
Na sua edição de 11 de Setembro de 2014, o jornal Brados do Alentejo, inquiriu sobre a situação do Palácio Tocha, o Presidente do Município, Luís Mourinha. Este declarou que está “preocupado com a situação” e acrescentou ter sido “recentemente contactado verbalmente pelos interessados no sentido de o imóvel ser adaptado a hotel, situação a que a Câmara não se opõe”.
Alguns comentários
Que me sejam permitidos alguns comentários finais:
- Como o edifício ainda se encontra registado em nome da Associação de Colecções, tudo leva a crer que venha a ser registado em nome da Fundação Berardo, o que não deverá constituir problema;
- O projecto de classificação do edifício apresentado oportunamente pela Câmara Municipal de Estremoz, teve que aguardar 14 anos até ser aprovado nas instâncias competentes;
- O tempo não se compadeceu, pelo que o edifício e respectiva zona de protecção se foram degradando duma forma acelerada;
- A meu ver é mais adequada a utilização do imóvel como museu privado, que aquela que teria como hotel, já que assim é mais fácil ao proprietário assegurar o regime legal instituído sobre acesso e visita pública.



Palácio Tocha no início do séc. XX


RECHEIO AZULEJAR DO PALÁCIO TOCHA









































sexta-feira, 8 de abril de 2016

Auto do trânsito mal parado


Carruagens nos Champs-Élysées.
Jean Béraud (1849-1935).
Óleo sobre tela (49 x 44 cm).
Colecção privada.

O entrecho desenvolve-se há dois séculos atrás, na nossa urbe transtagana, mais exactamente na conhecida rua da Paróquia. Por ali desfilam os 6 personagens do auto, assim descritos:
- SANDE-AO-CÃO: Lendário comandante dos meirinhos locais, disciplinador nato e com uma actividade notável na repressão de cocheiros que abusivamente estacionavam charretes, breques e carrioles, deixando os outros entalados. Respeitado e temido, dava gosto vê-lo impecavelmente fardado e de pingalim na mão, a coordenar a acção dos meirinhos seus subordinados. Embora ausente da acção, é uma figura que perdura na memória colectiva.
- VASCÃO: Meirinho abatido ao activo. De aspecto relativamente franzino, embigodado, de respeitável barriga e vermelhusco de cores. Foi cocheiro às ordens de Sande-ao-cão, a quem recorda com saudade. Frequentador assíduo da Tapanisca e da estalagem do Jorge, transita pela rua da Paróquia, sempre que vai desinfectar a goela.
- DONA MAGNIFICÊNCIA: Dama peituda, bem maquilhada, ornada de gargantilha, pulseiras e anéis. Tanto se cobre de peles como de sedas. Depende da estação. Sempre que vai ao Milenas que empresta dinheiro a juros, deixa o carriole no meio da rua.
 - CHICO PINGUINHAS: De pequena estatura, bem nutrido de carnes, petisqueiro, usa chapéu à marialva e costuma ir molhar o bico à Tapanisca e à estalagem do Jorge.
- PATILHAS: Meirinho destacado para desenvencilhar o trânsito na rua da Paróquia.
- HOMEM COMUM: Transeunte ocasional da rua da Paróquia.
O auto resume-se a uma cena única, fácil de ser condensada. A meio da manhã de um dia vulgar, Patilhas aparece inesperadamente na rua da Paróquia, em cumprimento da missão que lhe fora atribuída. Aí depara com uma fila de carroças, à espera que Dona Magnificência se digne sair do Milenas e tire o carriole do meio da rua. O que não será fácil, já que a dama fala pelos cotovelos. Toca então a corneta repetidamente e a dama lá aparece, quando o castigo já está aplicado. Dona Magnificência ainda empina os peitos, mas Patilhas com a cara de pau que lhe é habitual, não se deixa intimidar, proclamando:
- A Senhora está coimada, por violação flagrante da lei e desrespeito pelas regras de convivência social. E faz favor de tirar o carriole donde está, senão ainda agrava a pena.
Contrafeita, a bufar e sempre com os peitos empinados, Dona Magnificência sobe para o carriole, falando para o cavalo:
- Vamos embora Barão, que isto não é rua que se recomende!
Com todo este reboliço, Chico Pinguinhas, que tinha a charrete em cima do passeio, aparece à porta da Tapanisca, já com o chapéu às 3 pancadas e com um pastel de bacalhau numa das mãos. A língua solta-se-lhe, quando pergunta a Patilhas:
- Então há azar, senhor meirinho?
Ouve então uma resposta pronta:
- Há azar e não é meu. Acaba de ser coimado. Isto hoje vai tudo a eito. Faz favor de tirar a charrete donde está.
Chico Pinguinhas começa por ficar embatucado, mas acaba por desabafar:
- Não há direito. Já nem um homem pode beber um copo descansado.
Patilhas afirma então:
- Pode. Só tem é que deixar a charrete no Rossio Rustiquês Tribal, que é o maior Rossio do País.
Nisto, surge o Homem Comum, que concorda:
- É assim mesmo, senhor meirinho. O que é pena, é o senhor ir-se embora e daqui a bocado voltar tudo ao mesmo.
Surge então Vascão, que cumprimenta Patilhas, a quem observa:
- Sabes uma coisa? Ainda hão de dizer: VOLTA SANDE-AO-CÃO QUE ESTÁS PERDOADO!
EPÍLOGO
Qualquer semelhança com a realidade local é mera coincidência, visto que o auto reflecte uma realidade de há duzentos anos atrás.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

ESTREMOZ / Casa do Alcaide-Mor


Fachada da Casa do Alcaide-Mor na actualidade
Fotografia de Pedro Soeiro

De bordel a Hotel de Charme

A Câmara Municipal de Estremoz vai vender em hasta pública a Antiga Casa da Câmara / Casa do Alcaide-Mor, situada na Rua do Arco de Santarém, nºs 13 e 15, junto da porta medieval denominada Arco ou Porta de Santarém. A decisão foi tomada em reunião camarária realizada no passado dia 23 de Março, tendo a proposta nesse sentido, sido aprovada por maioria, com 3 votos a favor do Presidente da Câmara e dos Vereadores Francisco Ramos e José Trindade e com 2 votos contra dos Vereadores José Fateixa e José Sadio.
Trata-se de um prédio urbano composto por rés-do-chão, 1.º e 2.º andares, afecto a habitação, com 423 m2 de superfície coberta e logradouro com a área de 556 m2, situado em pleno centro histórico quatrocentista. Edifício modesto, valorizado pela composição da frontaria, nomeadamente as janelas manuelino - mudéjares e elementos setecentistas como a janela ao lado do pórtico e a varanda com balaustrada joanina. O interior da casa encontra-se em ruínas, não restando qualquer cobertura ou estrutura e há muito que a fachada ameaça abater.
O edifício foi classificado como Monumento Nacional pelo Decreto n.º 9.842, DG, 1.ª série, n.º 137 de 20 de Junho de 1924. A classificação foi fruto de um equívoco resultante da suposição de ali ter sido a primitiva Casa da Câmara de Estremoz, tese que carece de provas que a sustentem. A Zona Especial de Protecção do edifício foi definida pela Portaria, DG, 2.ª série, n.º 52, de 2 de Março de 1972.  A casa, ao que tudo indica, residência particular do Alcaide-Mor, terá pertencido em finais do século XVI, a uma filha de Febo Moniz, fidalgo da corte de D. Sebastião.
A primitiva Casa da Câmara terá funcionado no edifício que é conhecido por Sala de Audiências de D. Diniz e que segundo Túlio Espanca, tem uma antiguidade que remonta ao 1º terço do séc. XIV. Nunca foi objecto de classificação e ali funciona a Galeria Municipal D. Diniz.
A hasta pública terá lugar no Salão Nobre dos Paços do Concelho, no próximo dia 14 de Abril, com início previsto para as 10 horas e 30 minutos. O valor base de licitação do imóvel é de 50.000 euros e apenas será permitida a sua utilização para fins turísticos. Tudo indica que o edifício, que no século passado albergou um bordel, se venha a transformar num Hotel de Charme.

terça-feira, 5 de abril de 2016

46 - Mulher a passar a ferro - 2


Mulher a passar a ferro (2013).
Jorge da Conceição (1963- ).
Colecção particular.

Literatura portuguesa (Continuação)
Outras referências literárias antigas, remontam a 1878, são devidas a Eça de Queirós e figuram no romance “O Primo Basílio”: - ENGOMADEIRA: “Jorge ria: — Coitada, é uma pobre de Cristo! — E depois que engomadeira admirável! No ministério examinavam com espanto os seus peitilhos! — O Julião diz bem: eu não ando engomado, ando esmaltado! Não é simpática, não, mas é asseada, é apropositada...”; - GOMA: “Os coletes não estavam prontos, disse com uma voz muito lisboeta; não tivera tempo de os meter em goma.”; - ENGOMAR: “— A senhora sempre quer que engome os coletes todos?”; - FERRO DE ENGOMAR: “Tinha agora dias em que só de ver o balde das águas sujas e o ferro de engomar se lhe embrulhava o estômago.”; - ENGOMADA: “E a alta figura de Acácio adiantou-se, com as bandas do casaco de alpaca deitadas para trás, a calça branca muito engomada caindo sobre os sapatos de entrada baixa, de laço.”; - QUARTO DOS ENGOMADOS: “Subiu pé ante pé para o sótão, pôs o fato de casa e as chinelas, e desceu para o quarto dos engomados, onde Joana sentada num tapete costurava, à luz do petróleo.”.
Posteriormente, em 1888, na obra “Os Maias”, Eça de Queirós volta a abordar a operação de “passar a ferro”, através de termos com ela relacionados: - ENGOMADO: “Quando Craft d'alli a pouco desceu, de casaca, fresco, alvo, engommado, correcto - achou Carlos, ainda com toda a poeira da estrada, de chapéo na cabeça, passeando o quarto, n'esta agitação radiante.; - ENGOMADEIRA: “Foi um encanto para Carlos quando Maria o associou ás suas caridades, pedindo-lhe para ir ver a irmã da sua engommadeira que tinha rheumatismo, e o filho da snr.ª Augusta, a velha do patamar, que estava tisico.”.
Já no séc. XX, em 1919, em “Terras do Demo” de Aquilino Ribeiro, é dito que: “Na véspera, as raparigas tinham-se vestido de madamas com as melhores saias de folhos, brunidas ao ferro”. Posteriormente, em 1927, em “A Planície Heróica” de Manuel Ribeiro, é referido que: “…a menina Conceição, muito alegre e viva, entregue à sua lida de passar a roupa a ferro.”  
A nível de poesia, em 1887, em “O livro de Cesário Verde”, o poeta utiliza igualmente termos relacionados com o acto de passar a ferro: - ENGOMAR: “Sentei-me á secretaria. Alli defronte mora / Uma infeliz, sem, peito, os dois pulmões doentes; / Soffre de falta d'ar, morreram-lhe os parentes / E engomma para fóra.”; - ENGOMADEIRA: “E estou melhor; passou-me a colera. E a visinha? / A pobre engommadeira ir-se-ha deitar sem ceia? / Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia... / Que mundo! Coitadinha!”.
Também Fernando Pessoa, em “Álvaro de Campos - Livro de Versos “(1933) nos fala do acto de engomar: “Ah o som de abanar o ferro da engomadeira / À janela ao lado da minha infância debruçada! / O som de estarem lavando a roupa no tanque! / (…)”. No âmbito do cancioneiro popular é bem conhecida a quadra: “Já passei a roupa a ferro / Já passei o meu vestido / Amanhã vou-me casar / O Manel é meu marido.”

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Estremoz vai ter Metro



A Câmara Municipal de Estremoz vai vender os terrenos da “Mármores Batanete” a um consórcio luso-chinês. A decisão foi aprovada por maioria numa reunião extraordinária do executivo municipal, com os votos contra da oposição socialista.
A iniciativa foi tornada pública numa conferência de imprensa realizada pelo Presidente da edilidade Luís Mourinha, após o término daquela reunião, na qual tornou público o que esteve na origem da decisão. É que com a retoma da ligação ferroviária no ramal Estremoz-Évora, impunha-se a construção de um linha de metro de profundidade entre o princípio e o fim da Avenida Rainha Santa Isabel, que como é sabido foi construída no percurso da anterior linha de caminho de ferro. A decisão visa ainda recapitalizar o Município, que assim se pode abalançar a novas obras de grande envergadura.
Os capitais da futura empresa “Metro de Estremoz” são luso-chineses, contando com a participação pela parte portuguesa dos supermercados “Pingo Doce”, de Jerónimo Martins, que assim facilitarão a chegada de mercadorias, mesmo ali ao pé da porta, o que se traduzirá numa diminuição de custos, importante em termos de concorrência. A participação chinesa é assegurada pela EDP, que assumirá o integral fornecimento de energia às obras, bem como a utilização de mão-de-obra de baixo custo.
Segundo fomos informados, toda a maquinaria e equipamentos para as obras vão ser produzidos localmente na Fundição Pirra e na Gancho, Lda., que para o efeito vão ser reactivadas.
A realização das obras e o funcionamento do metro irão causar no local, um aumento do nível de ruído, mas está assegurado que não haverá reclamações nem protestos, uma vez que os moradores mais próximos, são os defuntos do cemitério municipal. Aqui, o Convento de Santo António, desactivado desde a 1ª República e propriedade do município, vai ter serventia como estação de metro, o que constituirá uma joint venture do município com a empresa luso-chinesa, exploradora daquele meio de transporte.
A decisão do município carece de autorização da Assembleia Municipal, mas está previamente assegurada pelo MIETZ que elegeu a actual maioria municipal, bem como por alguns Presidentes de Junta de Freguesia, que inexplicavelmente no decurso de algumas votações, não se encontram presentes na sala das sessões.
Com a entrada em funcionamento do metro de Estremoz, a chamada cidade branca fica ao nível das maiores capitais europeias. Assim, Estremoz tem mais encanto.  
Em círculos geralmente bem informados, existe a convicção de que na sua próxima viagem ao Alentejo, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, não deixará de visitar Estremoz para felicitar Luís Mourinha pela iniciativa e visitar a SEL – Salsicharia Estremocense, Lda., empresa de sucesso, seguindo-se um périplo pelas adegas do concelho, não só para desembuchar, como para acarinhar a excelência dos vinhos da região.
Aguarda-se a todo o momento a saída de um comunicado de imprensa da oposição socialista, a quem o Presidente da edilidade Luís Mourinha, promete derrotar mais uma vez no próximo pleito eleitoral.