segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

38 - Pastor das Migas - 2

Pastor das migas.
José Moreira (1926-1991).
Colecção particular.

Vejamos qual o conceito de migas para os diferentes dicionaristas: - RAPHAEL BLUTEAU (1718): Bocadinhos de pão, migados em caldo; - ANTONIO DE MORAES SILVA (1789): Sopas de pão migado em caldo; - LUIZ MARIA DA SILVA PINTO (1832): Sopas de pão migado; - FREI DOMINGOS VIEIRA (1871): Sopas de pão migado. Migas de alho – Espécie de açorda; - CALDAS AULETE (1881): Sopas de pão e especialmente quando só temperadas com azeite; - ANTONIO DE MORAES SILVA (1891): Sopas de pão migado sem caldo, e talvez temperado. Migas de alho – espécie de açorda; - CÂNDIDO DE FIGUEIREDO (1899): Sopas de pão, açorda; - ANTÓNIO JOSÉ DE CARVALHO e JOÃO DE DEUS (1907): Pedaço de pão migado, sopa; - SILVA BASTOS (1928): Sopas de pão. Açorda; - JOSÉ PEDRO MACHADO (1991): Espécie de açorda com pão migado, geralmente temperadas com azeite; - DICIONÁRIO DA ACADEMIA (2001): Prato semelhante à açorda, que se faz com bocados de pão embebidos em água e temperados com alho, coentros, azeite… Qualquer prato elaborado com ingredientes migados; - ANTÓNIO HOUAISS (2003): Pedaços de pão ensopados num caldo ou sopa. Papa consistente feita com pedaços de pão refogado em carne de porco, banha, toucinho, alho, etc.
Há inúmeros tipos de migas: de bacalhau, de batata, de beldroega, de coentros, de conquilhas, de couve-flor, de espargos, de feijão branco, de feijão-frade, de grão, de grelos, de milho, de nabos, de pão (migas à alentejana), de peixe, de tomate, doces, etc. 
As migas à alentejana são migas de pão, já que no Alentejo, tradicionalmente “terra de pão”, se regista a omnipresença deste alimento na gastronomia regional. Daí que em termos de gíria popular se diga que “O alentejano é pãozeiro”.
Não há referências às migas nos primeiros livros de culinária portugueses: “Livro de Cozinha da Infanta D. Maria de Portugal” (Séc. XV), “Arte de cozinha” de Domingos Rodrigues (1680), “Cozinheiro moderno ou nova arte de cozinhar, onde se ensina pelo methodo mais facil...” de Lucas Rigaud (1780) e “Arte de cozinha”, de João da Mata (1876). Só no “Tratado Completo de Cozinha e Copa” de Carlos Bento da Maia (1904) é que figura uma receita de migas, ainda que doces, mas confeccionadas com pão. É na ”Culinária Portuguesa” de António Maria de Oliveira Bello (1936), considerada por José Quitério a “A autêntica bíblia da nossa cozinha regional”, que aparecem as migas de Carne de Porco à Alentejana. Para a Grande enciclopédia da cozinha” de Maria de Lourdes Modesto (1965), conhecida como "A Diva da Gastronomia Portuguesa”, as migas são um “Prato típico português feito de pão amolecido, cozinhado depois numa gordura, geralmente de porco” e continua a receita, dizendo que em geral se junta a carne e o toucinho que originaram aquela gordura. Mais modernamente, a inclusão de trinta e três receitas de migas na “Cozinha Regional Portuguesa” de Maria Odete Cortes Valente (1987), é bem reveladora da importância das migas na gastronomia popular portuguesa. Por outras palavras: o povo português gosta de migas que enchem, uma vez que “Barriga vazia não conhece alegria".

domingo, 13 de dezembro de 2015

Poesia Portuguesa - 078


POEMA AO PAI
Firmino Mendes

Pai, ainda sei dos caminhos longos
e das manhãs frias, quando me faltaste
As voltas que dei à casa, os gritos
o não saber ainda que a morte era possível

Eu estava ali, mesmo ao lado
e senti o teu coração cair
como um meteoro que incendiasse a
Terra para sempre

Eras demasiado jovem para deixar de ser visto
mas eu já tinha a memória preenchida
com algumas linhas de água que ficaram:
campos de liberdade, caminhos abertos
sobre o medo e os dias de chumbo

Tu sorrias e tocavas a mão aquecida
para lá do pequeno mundo das paisagens
verdes e das casas de granito
com as fábricas ao longe, como cercas
de ferro e arame, onde a servidão se servia fria

Pai, hoje há novos caminhos e alguns dos trilhos
desapareceram para sempre mas eu continuo
a saber onde caminhavas e a colocar os pés
sobre as marcas indeléveis que deixaste

Às vezes, parece que danço, por querer tanto
caminhar sobre os vestígios impressos na lama
e sinto o coração resistente das tartarugas
que continua a bater depois de mortas e esquartejadas

Sei que este não é o tempo que querias: os vampiros
sobrevoam os campos e permanece o ruído das fábricas
Se estivesses aqui, saberias como sofrem os da tua idade:
espoliados, feridos, assaltados, esquecidos, maltratados
Sei que chorarias e assim te vejo em cada um dos que sofrem

Mas o mundo está melhor, pai. Apesar do agudo silêncio
que perturba os que perderam a voz, hoje poderias gritar
ao lado dos filhos que não tiveste tempo de ver crescer
e não terias morrido tão cedo porque os tempos mudaram
ao sabor de Abril

Firmino Mendes

sábado, 12 de dezembro de 2015

Poesia Portuguesa - 077



Vaidade, Tudo Vaidade
António Nobre (1867-1900)

Vaidade, meu amor, tudo vaidade!
Ouve: quando eu, um dia, for alguem,
Tuas amigas ter-te-ão amizade,
(Se isso é amizade) mais do que, hoje, têm.

Vaidade é o luxo, a gloria, a caridade,
Tudo vaidade! E, se pensares bem,
Verás, perdoa-me esta crueldade,
Que é uma vaidade o amor de tua mãe...

Vaidade! Um dia, foi-se-me a Fortuna
E eu vi-me só no mar com minha escuna,
E ninguem me valeu na tempestade!

Hoje, já voltam com seu ar composto,
Mas eu, ve lá! eu volto-lhes o rosto...
E isto em mim não será uma vaidade?

António Nobre (1867-1900)


sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Poesia Portuguesa - 076



Poveiro
António Nobre (1867-1900)

Poveirinhos! meus velhos pescadores! 
Na Agoa quizera com vocês morar: 
Trazer o lindo gorro de trez cores, 
Mestre da lancha Deixem-nos passar! 

Far-me-ia outro, que os vossos interiores 
De ha tantos tempos, devem já estar 
Calafetados pelo breu das dores, 
Como esses pongos em que andaes no mar! 

Ó meu Pae, não ser eu dos poveirinhos! 
Não seres tu, para eu o ser, poveiro, 
Mail-Irmão do «Senhor de Mattozinhos»! 

No alto mar, ás trovoadas, entre gritos, 
Promettermos, si o barco fôri intieiro, 
Nossa bela á Sinhora dos Afflictos!

António Nobre (1867-1900)


quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Poesia Portuguesa - 075

RETRATO DE FERNANDO PESSOA (1954).
Almada Negreiros (1893-1970).
Óleo sobre tela (201 x 201 cm).
Museu da Cidade, Lisboa.

 António de Oliveira Salazar
 Fernando Pessoa (1888-1935)

António de Oliveira Salazar.
Três nomes em sequência regular...
António é António.
Oliveira é uma árvore.
Salazar é só apelido.
Até aí está bem.
O que não faz sentido
É o sentido que tudo isto tem.
......
Este senhor Salazar
É feito de sal e azar.
Se um dia chove,
A água dissolve
O sal,
E sob o céu
Fica só azar, é natural.
Oh, c'os diabos!
Parece que já choveu...
......
Coitadinho
do tiraninho!
Não bebe vinho.
Nem sequer sozinho...

Bebe a verdade
E a liberdade.
E com tal agrado
Que já começam
A escassear no mercado.

Coitadinho
Do tiraninho!
O meu vizinho
Está na Guiné
E o meu padrinho
No Limoeiro
Aqui ao pé.
Mas ninguém sabe porquê.

Mas enfim é
Certo e certeiro
Que isto consola
E nos dá fé.
Que o coitadinho
Do tiraninho
Não bebe vinho,
Nem até
Café.


Fernando Pessoa (1888-1935)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Poesia Portuguesa - 074

Largo do Espírito Santo, Estremoz. Foto de Rogério Carvalho, c.1940.

Largo do Espírito Santo
Sebastião da Gama (1924 -1952)

Nem mais, nem menos: tudo tal e qual
o sonho desmedido que mantinhas.
Só não sonharas estas andorinhas
que temos no beiral.

E moramos num largo... E o nome lindo
que o nosso largo tem!
Com isto não contáramos também.
(Éramos dois sonhando e exigindo.)

Da nossa casa o Alentejo é verde.
É atirar os olhos: São searas,
são olivais, são hortas... E pensaras
que haviam nossos olhos de ter sede!

E o pão da nossa mesa!... E o pucarinho
que nos dá de beber!... E os mil desenhos
da nossa loiça: flores, peixes castanhos,
dois pássaros cantando sobre um ninho...

E o nosso quarto? Agora podes dar-me
teu corpo sem receio ou amargura.
Olha como a Senhora da moldura
sorri à nossa alma e à nossa carne.

Em tudo, ó Companheira,
a nossa casa é bem a nossa casa.
Até nas flores. Até no azinho em brasa
que geme na lareira.

Deus quis. E nós ao sonho erguemos muros,
rasguei janelas eu e tu bordaste
as cortinas. Depois, ó flor na haste,
foi colher-te e ficarmos ambos puros.

Puros, Amor - e à espera.
E serenos. Também a nossa casa.
(Há-de bater-lhe à porta com a asa
um anjo de sangue e carne verdadeira.)

Sebastião da Gama (1924 -1952)

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Poesia Portuguesa - 073



O sonho
Sebastião da Gama (1924 -1952)

Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.

Chegamos? Não chegamos?

– Partimos. Vamos. Somos.

Sebastião da Gama (1924 -1952)