quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

O Cavaleiro da Esperança



Desde sempre a direita procurou “Dividir para reinar”. Todavia esqueceu-se “…que o sonho comanda a vida, / que sempre que um homem sonha / o mundo pula e avança / como bola colorida entre as mãos de uma criança.” (António Gedeão). Daí lhes “Sair o tiro pela culatra”. É que as hostes da esquerda tiveram a capacidade de se afastarem das árvores para verem a floresta. E porque “A falar é que a gente se entende” tiveram consciência de que “A união é força, como a divisão é fraqueza”. Daí que PS, BE, PCP e PEV tenham constituído uma maioria parlamentar, que se assume como alternativa de esquerda sólida e para a totalidade da legislatura, que visa assegurar uma "convergência capaz de virar a página das políticas de austeridade", bem como um "Governo estável, responsável, coerente e duradouro, na perspectiva de uma legislatura". Daí que o Presidente da República não tenha tido outra solução que a de convocar António Costa, a fim de o convidar a formar Governo. Foi um gigantesco sapo que engoliu e cuja digestão lhe custará o resto da vida. É que sabia antecipadamente que tal Governo iria passar na Assembleia da República, suportado pela maioria de esquerda.
Anteriormente aquela estava dividida. Porém, “Nunca é tarde para nos corrigirmos”, o que tem de ser feito com coragem. “A coragem é meia batalha ganha”. Todos tiveram de meter algumas metas na gaveta e de assumir compromissos, pois “Palavra é palavra” e “O tratado é sagrado”. As conversações foram longas, já que “Quem conversa, não conta horas” e “O trabalho tudo vence”. De resto, “Atrás do tempo, tempo vem” e “Com tempo e esperança, tudo se alcança”.
Vão ser tempos de mudança: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, / Muda-se o ser, muda-se a confiança: / Todo o mundo é composto de mudança, Tomando sempre novas qualidades.”; “Continuamente vemos novidades, / Diferentes em tudo da esperança: / Do mal ficam as mágoas na lembrança, / E do bem (se algum houve) as saudades.” (Camões).
Acredito que "Enquanto há vida, há esperança" e "A esperança é a última a morrer", já que “É horrível assistir à agonia de uma esperança.” (Simone de Beauvoir) e “A esperança é uma arma poderosa e nenhum poder no mundo pode privar-te dela.” (Nelson Mandela).
Parafraseando o título do livro de Jorge Amado, dedicado a Luís Carlos Prestes, é caso para dizer que as políticas do XXI Governo Constitucional de António Costa, que irão substituir as anteriores políticas de austeridade da coligação de direita, são “O Cavaleiro da Esperança” do povo português.
A direita continua a fazer a cena do ladrão que grita “Agarra que é ladrão”, mesmo depois de ter perdido tanto no “terreno” como na “secretaria”.
A direita é torta e ignora que “Quem tem direito a ser torto é o anzol”. A direita embriaga-se com as suas próprias palavras, esquecida de que “Pela boca morre o peixe”.

Poesia Portuguesa - 067



O Senhor Morghado
António de Macedo Papança (1852-1913)
(Conde de Monsaraz) 

O senhor morgado
vai no seu murzelo,
todo impertigado,
é um gosto vê-lo
próspero, anafado,
véstia alentejana,
calça de riscado:
Homem duma cana!
Vai, todo se ufana
de ir tão bem montado.
E ela na janela...
Seja Deus louvado!

O senhor morgado
vai nas próprias pernas,
todo bandeado;
Tem palavras ternas
para cada lado.
Quando passa, sente
que é temido e amado;
Fala a toda a gente.
Topa um influente:
"Sou um seu criado..."
Eleições à porta,
Seja Deus louvado!

O senhor morgado
vai na sege rica
todo repimpado
ai que bem lhe fica
o chapéu armado
e a comenda ao peito
e o espadim ao lado!
Que homem tão perfeito!
Deputado eleito
muito bem votado,
vai para o Te-Deum,
Seja Deus louvado!

António de Macedo Papança (1852-1913)
(Conde de Monsaraz) 

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Poesia Portuguesa - 066



Quanto mais amada mais desisto
Natália Correia (1923-1993)

De amor nada mais resta que um Outubro 
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem. 

Natália Correia (1923-1993)


Fabrico dos Chocalhos é Património da Humanidade

O chocalheiro António Augusto Sim-Sim, de Estremoz, mostra o maior chocalho feito por si.
Fotografia NUNO VEIGA/LUSA.

Transcrevo com regozijo e com a devida vénia, 
a notícia do Município de Viana do Alentejo
(http://www.cm-vianadoalentejo.pt/)
de 1 de Dezembro de 2015.

fabrico dos chocalhos, uma arte em vias de desaparecer, foi classificado pela UNESCO como Património Cultural Imaterial com Necessidade de Salvaguarda Urgente.

A distinção foi aprovada, hoje, dia 1 de dezembro, pelo Comité Intergovernamental para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial reunido na Namíbia.
A conquista desta distinção facilitará a preservação e proteção desta arte secular, apostando em medidas de salvaguarda e promoção da mesma.
De salientar que a candidatura do fabrico dos chocalhos a Património da Humanidade foi entregue na UNESCO em maio de 2014. Durante a fase de análise, no passado mês de novembro, o parecer da UNESCO classificou o dossiê da candidatura, um “modelo” a seguir e recomendou a inscrição do fabrico dos chocalhos na Lista do Património Cultural Imaterial com Necessidade de Salvaguarda Urgente.
Recorde-se que o processo de candidatura que teve âmbito nacional, coordenado pelo antropólogo Paulo Lima, foi liderado pela Turismo do Alentejo e Ribatejo, em colaboração com a Câmara Municipal de Viana do Alentejo e a Junta de Freguesia de Alcáçovas.
A classificação do fabrico dos chocalhos vem juntar-se aos 3 selos de Património Mundial que a região Alentejo já tinha: Centro Histórico de Évora (1986), as Fortificações de Elvas (2012) e o Cante Alentejano (2014).
O fabrico dos chocalhos era uma das 43 candidaturas em análise na Namíbia.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Poesia Portuguesa - 065

Ilustração do poema “O Hissope”, de Cruz e Silva,
feita por Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882)

Em Defesa da Língua Portuguesa
António Dinis da Cruz e Silva (1731-1799)

Desta audácia, Senhor, deste descôco
Que entre nós, sem limite, vai lavrando,
Quem mais sente as terríveis conseqüências
É a nossa português, casta linguagem,
Que em tantas traduções anda envasada
(Traduções que merecem ser queimadas!)
Em mil termos e frases galicanas!
Ah! se, as marmóreas campas levantando,
Saíssem dos sepulcros, onde jazem
Suas honradas cinzas, os antigos
Lusitanos varões, que, com a pena

Ou com a espada e lança, a Pátria ornaram;
Os novos idiotismos escutando,
A mesclada dição, bastardos termos
Com que enfeitar intentam seus escritos
Estes novos, ridículos autores;

(Como se a bela e fértil língua nossa,
Primogênita filha da Latina,
Precisasse de estranhos atavios)
Súbito, certamente pensariam
Que nos sertões estavam de Caconda,
Quilimane, Sofala ou Moçambique;
Até que, já, por fim, desenganados

Que eram em Portugal, que os Portugueses
Eram também os que costumes, língua,
Por tão estranhos modos afrontaram,
Segunda vez, de pejo, morreriam.

António Dinis da Cruz e Silva (1731-1799) 

domingo, 29 de novembro de 2015

Poesia Portuguesa - 064


Retrato de Alves Redol
Ary dos Santos (1937-1984)

Porém  se por alguém não foi ninguém
cantou e disse  flor  canção  amigo
a si o deve. A si e mais a quem
floriu  cresceu  cantou  lutou consigo.

Homem que vive só  não vive bem
morto que morre só é negativo
morrer é separar-se de ninguém
e contudo  com todos  ficar vivo.

Nado-vivo da morte. É isso.  É isso.
Uma espécie de forno de bigorna
de corpo imorredoiro que transforma
em fusão o metal do compromisso:
Forjar o conteúdo pela forma:
marrar até morrer.  E dar por isso.

Ary dos Santos (1937-1984)

sábado, 28 de novembro de 2015

37 – Pastor das migas - 1



Pastor das migas (1948). Mariano da Conceição (1903-1959). Museu Rural de Estremoz.

O núcleo base do figurado de Estremoz reúne mais de uma dezena de pastores, dos quais um é conhecido por pastor das migas. Esta imagem exibe alguns dos atributos do pastor: samarra de pele de borrego ou de ovelha, safões, botas de cabedal, calças de saragoça ou de burel castanho, casaco de ganga azul e camisa clara com pregas, de colarinho alto de pontas dobradas, fechado por um par de botões cor de latão. O pastor está sentado num banco paralelepipédico de cor castanha, provavelmente de madeira. À sua frente um barranhão com migas, no qual está mergulhada uma colher que ele segura com a mão direita. Por sua vez, a mão esquerda segura um pão assente na perna do mesmo lado.
Desta figura existem duas variantes: - PM1 – O barranhão está em cima dum cilindro de cor castanha, presumivelmente um cepo de madeira, pelo que o artefacto representa um pastor (com barrete na cabeça) que está a comer migas. Esta é a representação de Isabel Carona; - PM2 – O barranhão assenta numa trempe preta, de ferro, tendo por baixo, achas de lenha a arder. A imagem representa um pastor a fazer as migas. Desta variante existem duas sub-variantes: - PM2A – O pastor tem na cabeça um chapéu aguadeiro. Assim é representado por José Moreira; - PM2B – O pastor cobre a cabeça com um gorro. Esta a figuração de Mariano da Conceição e demais barristas, à excepção de José Moreira. Em qualquer das variantes, a figura está assente numa base trapezoidal de cor verde, pintalgada de branco, amarelo e zarcão, numa alegoria a um chão atapetado por erva e tufos coloridos de flores silvestres.
O vocábulo “migas” é o plural do substantivo feminino “miga”, derivado etimologicamente do latim ”mica” (parcela, migalha, grão, partícula, corpúsculo).
A referência literária mais antiga sobre migas remonta a 1523, é devida a Gil Vicente e surge no “Auto Pastoril Português”, no diálogo entre duas pastoras: “CATERINA - Rogo-te que no-lo digas.  MARGARIDA - Mas é pera adivinhar / e quem quer que o acertar / eu a fartarei de migas.”. Também Fernão Rodrigues Lobo Soropita (séc. XVI-XVII), em “Carta de um negro a uma dama com um soneto” se refere a migas: “…confio, me será mais saborosa que migas de azeite com vez de vinho em cima. Entretanto, bem podeis fazer conta que estou a curtir, como cordovão em pelame, e não haverá cousa que me desatolle desta tristeza.”.
Mais recentemente das migas nos fala João Falcato (Elucidário do Alentejo – 1953): “Modestas, sem a fragrância da Açorda, sem o apreço agradecido do Caspacho, as Migas são o pilar da resistência duma raça aos convites estranhos para loucas transformações.”