sábado, 28 de novembro de 2015

37 – Pastor das migas - 1


Pastor das migas (1948).
Mariano da Conceição (1903-1959).
Museu Rural de Estremoz.

O núcleo base do figurado de Estremoz reúne mais de uma dezena de pastores, dos quais um é conhecido por pastor das migas. Esta imagem exibe alguns dos atributos do pastor: pelico de pele de borrego ou de ovelha, botas de cabedal, calças de saragoça ou de burel castanho, casaco de ganga azul e camisa clara com pregas, de colarinho alto de pontas dobradas, fechado por um par de botões cor de latão. O pastor está sentado num banco paralelepipédico de cor castanha, provavelmente de madeira. À sua frente um barranhão com migas, no qual está mergulhada uma colher que ele segura com a mão direita. Por sua vez, a mão esquerda segura um pão assente na perna do mesmo lado.
Desta figura existem duas variantes: - PM1 – O barranhão está em cima dum cilindro de cor castanha, presumivelmente um cepo de madeira, pelo que o artefacto representa um pastor (com barrete na cabeça) que está a comer migas. Esta é a representação de Isabel Carona; - PM2 – O barranhão assenta numa trempe preta, de ferro, tendo por baixo, achas de lenha a arder. A imagem representa um pastor a fazer as migas. Desta variante existem duas sub-variantes: - PM2A – O pastor tem na cabeça um chapéu aguadeiro. Assim é representado por José Moreira; - PM2B – O pastor cobre a cabeça com um gorro. Esta a figuração de Mariano da Conceição e demais barristas, à excepção de José Moreira. Em qualquer das variantes, a figura está assente numa base trapezoidal de cor verde, pintalgada de branco, amarelo e zarcão, numa alegoria a um chão atapetado por erva e tufos coloridos de flores silvestres.
O vocábulo “migas” é o plural do substantivo feminino “miga”, derivado etimologicamente do latim ”mica” (parcela, migalha, grão, partícula, corpúsculo).
A referência literária mais antiga sobre migas remonta a 1523, é devida a Gil Vicente e surge no “Auto Pastoril Português”, no diálogo entre duas pastoras: “CATERINA - Rogo-te que no-lo digas.  MARGARIDA - Mas é pera adivinhar / e quem quer que o acertar / eu a fartarei de migas.”. Também Fernão Rodrigues Lobo Soropita (séc. XVI-XVII), em “Carta de um negro a uma dama com um soneto” se refere a migas: “…confio, me será mais saborosa que migas de azeite com vez de vinho em cima. Entretanto, bem podeis fazer conta que estou a curtir, como cordovão em pelame, e não haverá cousa que me desatolle desta tristeza.”.
Mais recentemente das migas nos fala João Falcato (Elucidário do Alentejo – 1953): “Modestas, sem a fragrância da Açorda, sem o apreço agradecido do Caspacho, as Migas são o pilar da resistência duma raça aos convites estranhos para loucas transformações.”