terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Poesia Portuguesa - 066



Quanto mais amada mais desisto
Natália Correia (1923-1993)

De amor nada mais resta que um Outubro 
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem. 

Natália Correia (1923-1993)


Fabrico dos Chocalhos é Património da Humanidade

O chocalheiro António Augusto Sim-Sim, de Estremoz, mostra o maior chocalho feito por si.
Fotografia NUNO VEIGA/LUSA.

Transcrevo com regozijo e com a devida vénia, 
a notícia do Município de Viana do Alentejo
(http://www.cm-vianadoalentejo.pt/)
de 1 de Dezembro de 2015.

fabrico dos chocalhos, uma arte em vias de desaparecer, foi classificado pela UNESCO como Património Cultural Imaterial com Necessidade de Salvaguarda Urgente.

A distinção foi aprovada, hoje, dia 1 de dezembro, pelo Comité Intergovernamental para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial reunido na Namíbia.
A conquista desta distinção facilitará a preservação e proteção desta arte secular, apostando em medidas de salvaguarda e promoção da mesma.
De salientar que a candidatura do fabrico dos chocalhos a Património da Humanidade foi entregue na UNESCO em maio de 2014. Durante a fase de análise, no passado mês de novembro, o parecer da UNESCO classificou o dossiê da candidatura, um “modelo” a seguir e recomendou a inscrição do fabrico dos chocalhos na Lista do Património Cultural Imaterial com Necessidade de Salvaguarda Urgente.
Recorde-se que o processo de candidatura que teve âmbito nacional, coordenado pelo antropólogo Paulo Lima, foi liderado pela Turismo do Alentejo e Ribatejo, em colaboração com a Câmara Municipal de Viana do Alentejo e a Junta de Freguesia de Alcáçovas.
A classificação do fabrico dos chocalhos vem juntar-se aos 3 selos de Património Mundial que a região Alentejo já tinha: Centro Histórico de Évora (1986), as Fortificações de Elvas (2012) e o Cante Alentejano (2014).
O fabrico dos chocalhos era uma das 43 candidaturas em análise na Namíbia.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Poesia Portuguesa - 065

Ilustração do poema “O Hissope”, de Cruz e Silva,
feita por Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882)

Em Defesa da Língua Portuguesa
António Dinis da Cruz e Silva (1731-1799)

Desta audácia, Senhor, deste descôco
Que entre nós, sem limite, vai lavrando,
Quem mais sente as terríveis conseqüências
É a nossa português, casta linguagem,
Que em tantas traduções anda envasada
(Traduções que merecem ser queimadas!)
Em mil termos e frases galicanas!
Ah! se, as marmóreas campas levantando,
Saíssem dos sepulcros, onde jazem
Suas honradas cinzas, os antigos
Lusitanos varões, que, com a pena

Ou com a espada e lança, a Pátria ornaram;
Os novos idiotismos escutando,
A mesclada dição, bastardos termos
Com que enfeitar intentam seus escritos
Estes novos, ridículos autores;

(Como se a bela e fértil língua nossa,
Primogênita filha da Latina,
Precisasse de estranhos atavios)
Súbito, certamente pensariam
Que nos sertões estavam de Caconda,
Quilimane, Sofala ou Moçambique;
Até que, já, por fim, desenganados

Que eram em Portugal, que os Portugueses
Eram também os que costumes, língua,
Por tão estranhos modos afrontaram,
Segunda vez, de pejo, morreriam.

António Dinis da Cruz e Silva (1731-1799) 

domingo, 29 de novembro de 2015

Poesia Portuguesa - 064


Retrato de Alves Redol
Ary dos Santos (1937-1984)

Porém  se por alguém não foi ninguém
cantou e disse  flor  canção  amigo
a si o deve. A si e mais a quem
floriu  cresceu  cantou  lutou consigo.

Homem que vive só  não vive bem
morto que morre só é negativo
morrer é separar-se de ninguém
e contudo  com todos  ficar vivo.

Nado-vivo da morte. É isso.  É isso.
Uma espécie de forno de bigorna
de corpo imorredoiro que transforma
em fusão o metal do compromisso:
Forjar o conteúdo pela forma:
marrar até morrer.  E dar por isso.

Ary dos Santos (1937-1984)

sábado, 28 de novembro de 2015

37 – Pastor das migas - 1



Pastor das migas (1948). Mariano da Conceição (1903-1959). Museu Rural de Estremoz.

O núcleo base do figurado de Estremoz reúne mais de uma dezena de pastores, dos quais um é conhecido por pastor das migas. Esta imagem exibe alguns dos atributos do pastor: samarra de pele de borrego ou de ovelha, safões, botas de cabedal, calças de saragoça ou de burel castanho, casaco de ganga azul e camisa clara com pregas, de colarinho alto de pontas dobradas, fechado por um par de botões cor de latão. O pastor está sentado num banco paralelepipédico de cor castanha, provavelmente de madeira. À sua frente um barranhão com migas, no qual está mergulhada uma colher que ele segura com a mão direita. Por sua vez, a mão esquerda segura um pão assente na perna do mesmo lado.
Desta figura existem duas variantes: - PM1 – O barranhão está em cima dum cilindro de cor castanha, presumivelmente um cepo de madeira, pelo que o artefacto representa um pastor (com barrete na cabeça) que está a comer migas. Esta é a representação de Isabel Carona; - PM2 – O barranhão assenta numa trempe preta, de ferro, tendo por baixo, achas de lenha a arder. A imagem representa um pastor a fazer as migas. Desta variante existem duas sub-variantes: - PM2A – O pastor tem na cabeça um chapéu aguadeiro. Assim é representado por José Moreira; - PM2B – O pastor cobre a cabeça com um gorro. Esta a figuração de Mariano da Conceição e demais barristas, à excepção de José Moreira. Em qualquer das variantes, a figura está assente numa base trapezoidal de cor verde, pintalgada de branco, amarelo e zarcão, numa alegoria a um chão atapetado por erva e tufos coloridos de flores silvestres.
O vocábulo “migas” é o plural do substantivo feminino “miga”, derivado etimologicamente do latim ”mica” (parcela, migalha, grão, partícula, corpúsculo).
A referência literária mais antiga sobre migas remonta a 1523, é devida a Gil Vicente e surge no “Auto Pastoril Português”, no diálogo entre duas pastoras: “CATERINA - Rogo-te que no-lo digas.  MARGARIDA - Mas é pera adivinhar / e quem quer que o acertar / eu a fartarei de migas.”. Também Fernão Rodrigues Lobo Soropita (séc. XVI-XVII), em “Carta de um negro a uma dama com um soneto” se refere a migas: “…confio, me será mais saborosa que migas de azeite com vez de vinho em cima. Entretanto, bem podeis fazer conta que estou a curtir, como cordovão em pelame, e não haverá cousa que me desatolle desta tristeza.”.
Mais recentemente das migas nos fala João Falcato (Elucidário do Alentejo – 1953): “Modestas, sem a fragrância da Açorda, sem o apreço agradecido do Caspacho, as Migas são o pilar da resistência duma raça aos convites estranhos para loucas transformações.”

Poesia Portuguesa - 063


A VIDA
FLORBELA ESPANCA (1894-1930)
  
É vão o amor, o ódio, ou o desdém;
Inútil o desejo e o sentimento...
Lançar um grande amor aos pés d'alguém
O mesmo é que lançar flores ao vento!

Todos somos no mundo "Pedro Sem",
Uma alegria é feita dum tormento,
Um riso é sempre o eco dum lamento,
Sabe-se lá um beijo donde vem!

A mais nobre ilusão morre... desfaz-se...
Uma saudade morta em nós renasce
Que no mesmo momento é já perdida...

Amar-te a vida inteira eu não podia...
A gente esquece sempre o bem dum dia.
Que queres, ó meu Amor, se é isto a Vida!... 

FLORBELA ESPANCA (1894-1930)

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Poesia Portuguesa - 062


Chove. É dia de Natal
Fernando Pessoa (1888-1935)

Chove. É dia de Natal. 
Lá para o Norte é melhor: 
Há a neve que faz mal, 
E o frio que ainda é pior. 

E toda a gente é contente 
Porque é dia de o ficar. 
Chove no Natal presente. 
Antes isso que nevar. 

Pois apesar de ser esse 
O Natal da convenção, 
Quando o corpo me arrefece 
Tenho o frio e Natal não. 

Deixo sentir a quem quadra 
E o Natal a quem o fez, 
Pois se escrevo ainda outra quadra 
Fico gelado dos pés. 

Fernando Pessoa (1888-1935)