segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Carretilhas

Carretilhas em latão. Da esquerda para a direita, Fig. 1 a Fig. 5. Colecção do autor.

A “carretilha” [do castelhano carretilha, segundo (8), citado por (6)] é um ancestral instrumento de cozinha, cujo começo de utilização se perde na memória dos tempos. A primeira referência que conhecemos a este artefacto foi registada por Bluteau (3) que o define assim: “Pequena roda de metal, com seu eixo, que serve para lavrar bolos, pastéis e outras massas”. Segundo Aulete (1), “recortilha” e “cortilha” são sinónimos de “carretilha”.
Trata-se de um artefacto de cozinha constituído por uma roda dentada circular, em forma de roseta, que gira num eixo encabado e que é impulsionado pela mão humana. Com ele se recorta ou pontilha, deixando em lavor, a massa de forrar pastéis, bolos, biscoitos e doces. Como tal é utilizado por confeiteiros, pasteleiros, doceiros ou simples donas de casa.
O recorte ou o pontilhado executa-se colocando a carretilha sobre a massa e fazendo-a avançar através de força exercida no respectivo cabo. A resistência oferecida pela massa é vencida tanto mais facilmente quanto menos inclinado estiver o cabo em relação ao plano de assentamento da massa. Quanto ao recorte é tanto mais acentuado, quanto mais espaçados e fundos forem os dentes. É exactamente o contrário do que se passa com as carretilhas com dentes pouco espaçados e poucos profundos, que assim são mais adequadas para pontilhar a massa.
A massa que sobra após cada recorte é reaproveitada, sendo novamente tendida com o rolo e utilizada no ciclo de confecção.
As carretilhas têm sido confeccionadas nos materiais mais diversos: latão (as mais antigas – Fig. 1 a Fig. 5), marfim, marfim com cabo de madeira (Fig. 6), madeira (Fig. 7) e folha de Flandres com cabo de madeira. Modernamente surgiram integralmente em aço inox ou em aço inox com cabo de plástico.
Naturalmente que independentemente das suas funções equivalentes, as carretilhas mais nobres e imponentes são as mais antigas, de latão, que na sinuosidade do seu recorte, guardarão porventura, entre outros, segredos relativos a doces ou não, que ficaram para todo o sempre confinados às espessas paredes das cozinhas conventuais.


BIBLIOGRAFIA
(1) - AULETE, Caldas. Diccionario Contemporâneo da Língua Portuguesa (1ª edição). 2 vol. Parceria António Maria Pereira, Lisboa, 1881.
(2) - BASTOS, J.T. da Silva. Diccionário Etymológico, Prosódico e Orthográphico da Língua Portugueza (2ª edição). Parceria António Maria Pereira, Lisboa, 1928.
(3) - BLUTEAU, Raphael. Vocabulario portuguez & latino: aulico, anatomico, architectonico ... 8 vol. Collegio das Artes da Companhia de Jesus. Coimbra, 1712 - 1728.
(4) - FIGUEIREDO, Cândido de. Novo Diccionário da Língua Portuguesa (1ª edição). 2 vol. Editora Tavares Cardoso & Irmão, 1899.
(5) - HOUAISS, António e al. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. 6 vol. Círculo de Leitores. Lisboa, 2003.
(6) - MACHADO, José Pedro Machado. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa (5ªedição). 5 vol. Livros Horizonte. Lisboa, 1989.
(7) - MACHADO, José Pedro Machado. Grande Dicionário da Língua Portuguesa. 6 vol. Publicações Alfa. Lisboa, 1991.
(8) SILVA, Antonio de Moraes. Diccionario da língua portuguesa recopilado dos vocabulários impressos até agora, e nesta segunda edição novamente emendado, e muito acrescentado, por Antonio de Moraes Silva. Typografia Lacerdina. Lisboa, 1813.
(9) - VITERBO, Joaquim de Santa Rosa de. Elucidário das Palavras, Termos e Frases. Edição Critica de Mário Fiúza. 2 vol. Livraria Civilização. Porto, 1966.


Carretilhas em marfim e madeira e em madeira.
Da esquerda para a direita, Fig. 6 a Fig. 7.
Colecção do autor.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Ruas de Estremoz - A Toponímia


A TOPONÍMIA
As ruas são espaços públicos multifuncionais. Por eles transitam fluxos de pessoas, veículos e animais. São espaços de passeio, de convívio, de cavaqueira, de aprendizagem, de trabalho, de negócio, de cultura, de prática desportiva, lúdicos, de prazer e, para os mais desafortunados, o único espaço de que dispõem para viver, comer e dormir.
De acordo com a Bíblia Sagrada, “No princípio, Deus criou o céu e a terra” (Génesis 1,1). Contudo, a rua é obra do Homem, surgiu com a formação de aglomerados urbanos e foi adquirindo, conforme as necessidades, várias roupagens que se entrelaçaram numa urdidura e numa trama, que constituem a malha topográfica da nossa urbe. Dela ressaltam entre outros, aglomerados de casas que são: alamedas, altos, arruamentos, azinhagas, avenidas, bairros, becos, calçadas, caminhos, campos, cantinhos, cantos, escadarias, escadas, escadinhas, estradas, jardins, ladeiras, largos, parques, praças, pracetas, rossios, rotundas, ruas, terreiros, transversais, traseiras, travessas, urbanizações, vielas e zonas.
Todos eles são espaços de partilha sociológica, pelo que é natural que nos preocupemos com a natureza do pavimento, o seu estado de conservação e limpeza, bem como com o escoamento adequado das águas pluviais ou a remoção dos resíduos urbanos.
O equilíbrio e a harmonia da vida citadina passa pela fluidez dos fluxos de pessoas e veículos, nem sempre facilitados, devido a estacionamento selvagem ou ocupação indevida da via pública por toda uma parafernália de objectos, estruturas e equipamentos, que na prática são obstáculos e que funcionam, como barreiras arquitectónicas para cegos, idosos e deficientes motores.
A rua e a gestão humana da mesma nos seus múltiplos aspectos não é assim de somenos importância. Por isso, a maior parte de nós preocupa-se com estas questões. Todavia, para além destas, há outras questões igualmente importantes. Tal como nós, as ruas têm que ter nome. É uma prática que se perde na memória dos tempos. E é interessante saber porque é que uma determinada rua tem um nome e não outro qualquer.
Estudar e conhecer a razão de ser dessas designações faz parte da “Toponímia”, encarada como o estudo histórico ou linguístico da origem dos nomes próprios dos lugares. Estes estão profundamente ligados aos valores culturais das populações, reflectindo os sentimentos e a personalidade das pessoas que aí habitam e ao perpetuarem factos, eventos, datas históricas, figuras de relevo, épocas, usos e costumes, acontecimentos locais, assumem-se como um dos aspectos mais relevantes da preservação da nossa identidade cultural, que não pode nem deve ser descaracterizado. Daí que a escolha, atribuição e alteração dos nomes dos lugares (topónimos) se deva rodear de cuidados muito específicos e pautar-se por critérios de rigor, coerência, isenção e seriedade, única forma de garantir que a memória das populações não seja irremediavelmente apagada.
A toponímia e com ela a numeração de edifícios constituem formas de identificação, orientação, comunicação e localização de imóveis urbanos e rústicos e de referenciação de localidades e sítios. Enquanto área de intervenção tradicional do poder local, é reveladora da forma como a Câmara Municipal encara o património cultural.
Em cada município, a competência da atribuição de nomes às ruas pertence à Câmara Municipal, com base num “Regulamento Municipal de Toponímia e de Numeração de Polícia”, aprovado em Assembleia Municipal.
Como surgem então os nomes das ruas?
A Assembleia Municipal e as Juntas de Freguesia poderão apresentar à Câmara, propostas de recomendação de determinados nomes. O mesmo poderá ser efectivado por associações de moradores, associações culturais e desportivas, grupos de cidadãos ou munícipes a título individual. Todavia, antes da decisão da Câmara Municipal, as propostas serão apreciadas pelo Comissão Municipal de Toponímia, cuja composição mínima, inclui entre nós, um eleito da Câmara Municipal, um representante da Junta de Freguesia da área geográfica da rua e um representante dos CTT.

CONTINUA

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Gabriela

 
Sónia Braga em “Gabriela, Cravo e Canela”, a primeira telenovela transmitida em Portugal.


A Telenovela “Gabriela” agitou e influenciou a sociedade portuguesa. Agora que se aproxima do fim, foi-me pedido  por um órgão de imprensa local, um comentário sobre a mesma. Aqui fica o seu registo:

Não vi esta “Gabriela”, já que usufruo dum razoável mecanismo de auto-defesa em relação à colonização cultural dos macrocéfalos e gigantescos “Mídia” brasileiros, entre outros.
A gestão do meu tempo lúdico não passa por aí. Para mim, a lusofonia passa por não nos deixarmos colonizar. A meu ver, a lusofonia deve passar também pela afirmação da portugalidade e da nossa identidade cultural nacional, num espaço multicultural de partilha, onde os mais poderosos não se possam servir dos mais fracos, vendendo a mercadoria que têm para vender em cada momento. Para tal criam necessidades de consumo, recorrendo a um marketing condicionador, violento e fascista. Depois argumentam que é o mercado e a gente sabe bem, por experiência de corpo e alma, àquilo a que o mercado nos conduz.
Para além disto, não posso deixar de referir a telenovela “Gabriela, Cravo e Canela”, a primeira telenovela começada a transmitir em Portugal, nos longínquos anos 77, quando no rescaldo do 25 de Novembro, os portugueses se procuravam adaptar à liberdade consentida pela tropa vencedora do confronto, bem como pelos respectivos mentores da sociedade civil.
A primeira telenovela brasileira em Portugal foi um fascínio e o país parava à hora da sua transmissão, não só encantado pelo enredo de Jorge Amado, mas sobretudo pela sensualidade de Sónia Braga, que nos enchia as medidas.
36 anos depois não consigo ver as telenovelas brasileiras da mesma maneira. Se o fizesse seria míope e isso não sou. Sou um defensor intransigente da produção nacional, em detrimento dos enlatados que nos disponibilizam em nome da lusofonia.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Contra a Troika, marchar, marchar.

O Quarto Estado (1901).
Giuseppe Pellizza da Volpedo (1868-1907).
Óleo sobre tela (293 x 545 cm).
Civica Galleria d'Arte Moderna, Milano.

As ruas são espaços públicos multifuncionais. Por eles transitam fluxos de pessoas, veículos e animais. São espaços de passeio, de convívio, de cavaqueira, de aprendizagem, de trabalho, de negócio, de cultura, de prática desportiva, lúdicos, de prazer e, para os mais desafortunados, o único espaço de que dispõem para viver, comer e dormir.
Para além disso, são também espaços de protesto e de luta. Nesse sentido têm que ser utilizados contra as novas orientações da Troika e do (des)Governo) daqueles que nos (des)governam.
- VOLTEMOS À RUA, DE UMA VEZ POR TODAS!
- COMBATAMOS QUEM NOS QUER MANDAR PARA O INFERNO!
- MOSTREMOS O INVERNO DO NOSSO DESCONTENTAMENTO!

domingo, 6 de janeiro de 2013

Adagiário do ano


Cenografia do sistema mundial de Copérnico, mapa celeste do cartógrafo Andreas Cellarius
(c. 1596-1665), conhecido pelo seu Harmonia Macrocosmica de 1660, um atlas celeste publicado
 por Johannes Janssonius em Amsterdão. Neste mapa vêem-se as posições relativas dos planetas em
relação ao Sol, as respectivas órbitas e os planos astrológicos completados com os signos do Zodíaco.

Conceito de ano
O ano é o período de tempo que a Terra gasta a fazer uma revolução completa em torno do Sol. Os anos têm uma duração aproximada de 365 dias, 5 horas, 49 minutos e 12 segundos. Todavia como não pode haver todos os anos um 366º dia com as cerca de 6 horas sobrantes, no calendário gregoriano efectua-se, a cada quatro anos, um acerto no calendário e adiciona-se mais um dia ao ano, sendo que este ano se denomina bissexto.
É habitual falar-se também em ano agrícola. Tradicionalmente, o início deste, como de toda a faina agro-pastoril, não tinha data marcada. Começava com as primeiras chuvas do Outono, que surgiam mais ou menos pelo São Miguel, a 29 de Setembro. Actualmente em termos de gestão agrícola, ano agrícola é o período de tempo correspondente à plantação, colheita e comercialização da safra agrícola.
Fala-se ainda de tempo agrícola ou seja a época do ano que é melhor para se realizar uma determinada cultura, obtendo assim o melhor aproveitamento do solo.
O adagiário do ano é vasto e foi por nós sistematizado em cinco grandes grupos:
- O ano como medida do tempo
- Qualificação do ano
- O contexto social
- Adjectivação do ano agrícola
- Adagiário do ano e meses agrícolas
Passemos cada um desses grupos em revista.

O ano como medida do tempo
O ano é uma unidade usada como medida de tempo:
- Maior é o ano que o mês.
- Não há mal que cem anos dure, nem bem que os ature.
- O que perde o mês, não perde o ano.
- Quem veste ruim pano, veste duas vezes no ano.
- Remenda o pano, durar-te-há outro ano.
- Uma sebe dura três anos, três sebes um cão, três cães um cavalo, três cavalos um homem, três homens um corvo, três corvos um elefante.

Qualificação do ano
O ano pode ser qualificado de bom:
- Ano bom passa rápido.
- Em bom ano e em mau ano, aveza bem o papo.
- Quem bem se estreia, bom ano lhe venha.
Pode também ser qualificado de mau:
- Longo e estreito, como o ano mau.
- Mau ano hás de aguardar, por não empeorar.
- Mau ano hás-de aturar, com medo de piorar.
- Não há mau ano por muito pão.
- Não há mau ano por pedra, mas ai de quem acerta.
- O mau ano entra nadando.
- O mau ano tem os dias longos.
Pode igualmente ser qualificado de caro:
- Ano caro, padeira em todo o cabo.
Pode ainda ser qualificado de novo:
- Ano novo, vida nova.
Pode até ser qualificado de tardio:
- Antes ano tardio do que vazio.
- Melhor é ano tardio que ano vazio.
Todavia há quem dê o conselho:
- Não digas mal do ano até que seja passado.

O contexto social
Como lapso de tempo, o ano é determinante no contexto social:
- A boa safra de uvas dum ano compensa a má do outro ano.
- Ao cabo de um ano, tem o criado as manhas do amo.
- Foi Maria ao banho, teve que contar todo o ano.
- Homem necessitado, cada ano apedrejado.
- Juiz da aldeia, um ano no mando, outro na cadeia.
- Mais pró faz o ano que o campo bem lavrado.
- Metade do ano, com arte e engano; outra metade, com engano e arte.
- O longo uso dos anos se converte em natureza.
- Os anos dão experiência.
- Pão e vinho, um ano meu outro do meu vizinho
- Quem num ano quer ser rico, ao meio o enforcam.
- Um ano de Coimbra vale por três de tarimba.
- Uma vez no ano, essa com dano.

Adjectivação do ano agrícola
O contexto agro-pastoril leva a adjectivar o ano agrícola de múltiplas formas. Assim, o ano é:...de amargura, ...de ameixas, ...de beberas,...de bugalhos,...chuvoso,...de corrilhão, ...de fartura,...de lavrador, ...de linho,...de muito chocalho,...de neve,...de ovelhas,...de pão,...de peras,...de pouco pasto,...de queixas,...de trabalhos,...de trigo,...de vinho. É o que mostram os adágios:
- Ano de ameixas, ano de queixas.
- Ano de bêberas nem de peras, nunca o vejas.
- Ano de bugalhos, ano de trabalhos.
- Ano de corrilhão, ano de pão.
- Ano de fartura, ano de amargura.
- Ano de lavrador, não é de pescador.
- Ano de linho, ano de vinho.
- Ano de muito chocalho e pouco pescoço.
- Ano de neve, paga o que deve.
- Ano de neves, ano de bens.
- Ano de neves, muito pão e muitas crescentes.
- Ano de ovelhas, ano de abelhas.
- Ano de pouco pasto, de muito rasto.
- Ano de trigo, ano de peras.
- Em ano bom o grão é feno e em ano mau a palha é grão.
- Em ano chuvoso, o diligente é preguiçoso.
- Em ano chuvoso, todo o diligente é preguiçoso.
- Em ano de fome não há ruim pão.
- Em ano geado há pão dobrado.

Adagiário do ano e meses agrícolas
 No adagiário português, o adagiário do ano tem a ver predominantemente com os meses agrícolas e as fainas agro-pastoris. Temos assim:
JANEIRO
- Água de Janeiro, todo o ano tem concerto.
- Janeiro geoso e Fevereiro chuvoso fazem o ano formoso.
- Janeiro geoso, Fevereiro nevado, Março frio e ventoso, Abril chuvoso e Maio pardo, fazem o ano abundoso.
- Janeiro geoso, Fevereiro nevoso, Março mulinhoso, Abril chuvoso, Maio ventoso, fazem o ano formoso.
- Janeiro geoso, Fevereiro nevoso. Março frio e ventoso, Abril chuvoso e Maio pardo, fazem um ano abundoso.
- O bom tempo de Janeiro faz o ano galhofeiro.
- Se gela no São Suplício, haverá ano propício
FEVEREIRO
- Chuva em Dia das Candeias, ano de ribeiras cheias.
- Fevereiro chuvoso faz o ano formoso.
- Janeiro geoso e Fevereiro chuvoso fazem o ano formoso.
- Janeiro geoso, Fevereiro nevado, Março frio e ventoso, Abril chuvoso e Maio pardo, fazem o ano abundoso.
- Janeiro geoso, Fevereiro nevoso, Março mulinhoso, Abril chuvoso, Maio ventoso, fazem o ano formoso.
- Janeiro geoso, Fevereiro nevoso. Março frio e ventoso, Abril chuvoso e Maio pardo, fazem um ano abundoso.
MARÇO
- Janeiro geoso, Fevereiro nevado, Março frio e ventoso, Abril chuvoso e Maio pardo, fazem o ano abundoso.
- Janeiro geoso, Fevereiro nevoso, Março mulinhoso, Abril chuvoso, Maio ventoso, fazem o ano formoso.
- Janeiro geoso, Fevereiro nevoso. Março frio e ventoso, Abril chuvoso e Maio pardo, fazem um ano abundoso.
- Março amoroso, Abril chuvoso, Maio ventoso, São João calmoso, fazem o ano formoso.
- Março amoroso, Abril ventoso e Maio remeloso, fazem o ano formoso.
- Março chuvento, ano lagarento.
- Não choveu até ao dia de S. José, ano de seca é.
- Natal ao sol, Páscoa ao fogo, fazem o ano formoso.
- Nos bons anos agrícolas, o Natal passa-se em casa e a Páscoa na rua.
- Para o ano ser bom, passar o Natal na rua e a Páscoa em casa.
ABRIL
- A ti, chova todo o ano, e a mim, Abril e Maio.
- Abril chuvoso e Maio ventoso fazem o ano formoso.
- Abril e Maio são as chaves de todo o ano.
- Abril e Maio, chaves do ano.
- Abril molhado, ano abastado.
- Chova-te o ano todo, mas a mim, Abril e Maio.
- Em Abril e Maio, moenda para todo o ano.
- Entre Abril e Maio, moenda para todo o ano.
- Janeiro geoso, Fevereiro nevado, Março frio e ventoso, Abril chuvoso e Maio pardo, fazem o ano abundoso.
- Janeiro geoso, Fevereiro nevoso, Março mulinhoso, Abril chuvoso, Maio ventoso, fazem o ano formoso.
- Janeiro geoso, Fevereiro nevoso. Março frio e ventoso, Abril chuvoso e Maio pardo, fazem um ano abundoso.
- Março amoroso, Abril chuvoso, Maio ventoso, São João calmoso, fazem o ano formoso.
- Março amoroso, Abril ventoso e Maio remeloso, fazem o ano formoso.
- Natal ao sol, Páscoa ao fogo, fazem o ano formoso.
- Nos bons anos agrícolas, o Natal passa-se em casa e a Páscoa na rua.
- Para o ano ser bom, passar o Natal na rua e a Páscoa em casa.
- Quem em Abril não varre a eira e em Maio não rega a leira, anda todo o ano em canseira.
MAIO
- A chuvinha da Ascensão todo o ano dará pão.
- A ti, chova todo o ano, e a mim, Abril e Maio.
- Abril chuvoso e Maio ventoso fazem o ano formoso.
- Abril e Maio são as chaves de todo o ano.
- Abril e Maio, chaves do ano.
- Água de Maio, pão para todo o ano.
- Chova-te o ano todo, mas a mim, Abril e Maio.
- Do mês de Maio o calor, de todo o ano, o valor.
- Em Abril e Maio, moenda para todo o ano.
- Em Maio, o calor, a todo o ano dá valor.
- Entre Abril e Maio, moenda para todo o ano.
- Janeiro geoso, Fevereiro nevado, Março frio e ventoso, Abril chuvoso e Maio pardo, fazem o ano abundoso.
- Janeiro geoso, Fevereiro nevoso, Março mulinhoso, Abril chuvoso, Maio ventoso, fazem o ano formoso.
- Janeiro geoso, Fevereiro nevoso. Março frio e ventoso, Abril chuvoso e Maio pardo, fazem um ano abundoso.
- Maio chocoso e Junho claroso, fazem o ano formoso.
- Maio chocoso, ano formoso.
- Maio chuvoso torna o ano formoso.
- Maio chuvoso, ano formoso.
 - Maio claro e ventoso, faz o ano rendoso.
- Maio frio e ventoso, faz o ano formoso.
- Maio pardo e ventoso, faz o ano formoso.
- Maio pardo e ventoso, faz o ano venturoso.
- Maio pardo, ano claro.
- Maio pardo, ano farto e ventoso, ano formoso.
- Maio pardo, ano farto.
- Maio pardo, faz o ano farto.
- Maio ventoso, ano formoso.
- Maio ventoso, ano rendoso.
- Maio venturoso, ano venturoso.
- Março amoroso faz o ano formoso.
- Março amoroso, Abril chuvoso, Maio ventoso, São João calmoso, fazem o ano formoso.
- Março amoroso, Abril ventoso e Maio remeloso, fazem o ano formoso.
- Quando em Maio arrulha a perdiz, ano feliz.
- Quando em Maio não troa, não é ano de broa.
- Quem em Abril não varre a eira e em Maio não rega a leira, anda todo o ano em canseira.
- Sáveis em Maio, maleitas todo o ano.
JUNHO
- Junho calmoso, ano formoso.
- Junho chuvoso traz ano perigoso.
- Maio chocoso e Junho claroso, fazem o ano formoso.
- Março amoroso, Abril chuvoso, Maio ventoso, São João calmoso, fazem o ano formoso.
JULHO
- Julho calmoso faz o ano formoso.
AGOSTO
-  Corra o ano como for, haja em Agosto e Setembro calor.
SETEMBRO
- Corra o ano como for, haja em Agosto e Setembro calor
- Para o ano não ir mal, hão-de os rios três vezes encher, entre o São Mateus e o Natal.
- Para que o ano não vá mal, hão-de encher os rios três vezes entre S. Mateus e o Natal.
- Quem planta no Outono leva um ano de abono.
- Se houvesse dois S. Miguéis no ano, não havia moço que parasse no amo.
OUTUBRO
- Outubro chuvoso faz ano venturoso.
- Para o ano não ir mal, hão-de os rios três vezes encher, entre o São Mateus e o Natal.
- Para que o ano não vá mal, hão-de encher os rios três vezes entre S. Mateus e o Natal.
- Quem planta no Outono leva um ano de abono.
NOVEMBRO
- Para o ano não ir mal, hão-de os rios três vezes encher, entre o São Mateus e o Natal.
- Para que o ano não vá mal, hão-de encher os rios três vezes entre S. Mateus e o Natal.
- Pelo São Martinho prova o teu vinho; ao cabo de um ano já te não faz dano.
- Quem planta no Outono leva um ano de abono.
- Se em Novembro ouvires trovão, o ano que vem será bom.
DEZEMBRO
- Assim como vires o tempo de Santa Luzia ao Natal, assim estará o ano, mês a mês até ao final.
- Em Dezembro quem vai ao São Silvestre, vai um ano, vem no outro e não se despe.
- Não há ano, afinal, que não tenha o seu Natal.
- Natal ao sol, Páscoa ao fogo, fazem o ano formoso.
- Nos bons anos agrícolas, o Natal passa-se em casa e a Páscoa na rua.
- O ano vai mal, se não há três cheias antes do Natal.
- Para o ano não ir mal, hão-de os rios três vezes encher, entre o São Mateus e o Natal.
- Para o ano ser bom, passar o Natal na rua e a Páscoa em casa.
- Para que o ano não vá mal, hão-de encher os rios três vezes entre S. Mateus e o Natal.
- Quem planta no Outono leva um ano de abono.
Publicado inicialmente a 6 de Janeiro de 2013

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Aníbal Falcato Alves - Carta aberta a um amigo que partiu


ANÍBAL FALCATO ALVES (1921-1994).
Fotografia do cineasta Manuel Costa e Silva (1938-1999).

LER AINDA

Decorridos quase 20 anos, respigo este texto, armazenado na poeira dos arquivos. Os amigos e a saudade deles, são do melhor que há no mundo. A sua memória e o exemplo de vida, são incentivos à luta e à resistência.
 
CARTA ABERTA UM AMIGO QUE PARTIU

Aníbal:

Partiste inesperadamente, deixando-nos a todos surpresos e chocados. A Natália, os teus filhos, o resto da tua família, os companheiros e os amigos não estavam à espera de uma coisa destas. Claro que eu também não.
Daí a razão desta carta aberta, na qual é suposto que eu esboce o leu retrato, o que convenhamos não é uma tarefa nada fácil. Socorrendo-me do António Simões começarei por dizer-te que: "Fosse como fosse que te descrevesse, seria impossível dar o teu retraio de corpo inteiro. Quem, como tu, se identifica com o húmus da terra que pisa, com o sangue do seu povo, e tem sempre a alma de mesa posta, pronta a acolher os amigos, não cabe nesta folha A4 de 80 gramas em que dactilografo o teu retrato, pois o meu papel de escrita preferido, apesar da sua densidade, não é capaz de suportar esse peso-pesado de coragem e ternura que tu és."
Apesar da dificuldade atrás enunciada, não resisto a fazer de li, este esboço a lápis, ciente de que todos perdoarão, tu incluído, a minha falta de jeito para o desenho verbal.
Lembro-me de, ainda puto de liceu, te ter conhecido de boina basca na cabeça, montado na tua inseparável pasteleira. E foi tal o fascínio que exerceste sobre mim, que eu incapaz de te imitar noutras coisas, copiei de ti a boina basca e a pasteleira, das quais fiz largo uso durante vários anos. Nessa altura eras caixeiro na Tabaqueira e com o Armando Carmelo, o Joaquim Vermelho e o Zé Cachila eras um dos animadores do Cine Clube de Estremoz. Como este, outro não houve. Aqueles programas com as tuas belas gravuras, os ciclos, as sessões comentadas, os debates. Ali, eu e outros putos como eu, aprendemos a ver cinema, a apreciar pintura e música, a conviver, a participar e a resistir e a dizer não. Que bela escola que foi o Cine Clube!
Mais tarde abriste a tua própria Livraria e Papelaria ali na rua 5 de Outubro, onde antes tinham sido a Loja do Thomé e a Loja do Boneco. Ali nos arranjavas os livros proibidos pela censura fascista e que tu corajosamente nos vendias como quem semeia liberdade. Por isso, mais que simples loja era um espaço de convívio e de resistência.
Por essa época, há muito que calcorrearas o Alentejo de lés a lés, sozinho ou com o Giacometti ou o Lopes Graça. E o que tu não fizeste! Tu foste arqueólogo amador e tu fizeste um levantamento etnográfico, sociológico e artístico, cuja dimensão está ainda por avaliar. Ele foi a recolha do genuíno artesanato alentejano, o levantamento fotográfico dos trabalhos do campo, a recolha de poesia popular e de tradições orais, as receitas da gastronomia popular alentejana, as entrevistas com os assalariados rurais, etc, etc.
Foi o teres sabido desde sempre ires beber às raízes mais profundas do povo alentejano, que te deu a tua enorme sabedoria, a tua oralidade transbordante e uma enorme força de viver com a qual contagiavas os que tinham o privilégio de contigo conviver.
Aí pêlos cinquenta anos resolveste mudar de vida e vá de ingressares no Ensino como professor de Trabalhos Manuais primeiro e como orientador pedagógico depois. As tuas mãos nervosas de artista criando beleza levaram o Rogério Ribeiro a dizer que: "Se hoje nos trazes papeis que recortas, afeiçoas, justapões e colas, se ontem sulcavas o linóleo ou a madeira como quem lavra a terra, ou estendias o branco que te inundou os quadros, é porque querias e queres, manter fresca e viva a raiz do pensamento."
Que eu saiba, expuseste pela primeira vez em 1963 no Salão de Primavera, na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa e, a última vez na Biblioteca Municipal do Redondo. No catálogo desta última exposição, que de fotografias se tratava, fez o Armando Carmelo o seguinte retrato: "Aníbal Falcato Alves esteve, desde sempre e com entusiasmo vibrante, ligado a todas as iniciativas culturais da sua terra de origem, muitas das quais ajudou a criar e a subsistir, mercê do empenho pessoal desinteressado que, sempre, por todas elas, demonstrou."
Em 1985, tu, o João Albardeiro, o Jacinto Varela, o Armando Alves e o João Paulo ergueram na Feira de Maio, a "Cozinha dos Ganhões" onde foram promovidos como nunca a cozinha regional alentejana e os vinhos alentejanos. Saiu então o livro de receitas "Cozinha dos Ganhões" do qual foste obreiro. Recentemente publicaste "Os comeres dos Ganhões" onde destacaste o aspecto social dos comeres dos trabalhadores alentejanos. Sem sombra de duvida, que este teu livro foi o último grande amor que te conheci.
Homem livre, sem peias nem no pensamento nem na acção, foste desde sempre solidário. Daí o teu empenhamento desde sempre na luta política e de uma forma mais destacada desde a campanha eleitoral do General Norton de Matos. Nas grandes batalhas estiveste sempre presente no teu posto. No Portugal renascido pudeste publicamente assumir a tua condição de militante comunista, que a tua opção de homem livre e solidário fora há muito tomada. Daí que no passado dia 2 de Julho, após a tua partida, tenha ouvido o companheiro Alexandre Rodrigues, dizer aos muitos amigos presentes: "A melhor homenagem que podemos prestar, ao amigo, ao companheiro, ao camarada Aníbal Falcato é prosseguirmos também nós, com a mesma determinação e confiança a luta por um Alentejo de progresso e bem estar, com os olhos postos no seu elevado exemplo."
Vou terminar Aníbal, que esta carta já vai longa. O resto fica para falarmos um dia. Até lá, adeus e até sempre!
Um forte abraço do amigo:

(Em Estremoz, aos oito de Julho de mil novecentos e noventa e quatro)

domingo, 30 de dezembro de 2012

Vem aí o Ano Novo (2ª edição)


A magistral ilustração de Stuart de Carvalhais (1887-1961), com a qual ilustro a presente crónica, tem por título “Cumprimentos do Ano” e foi publicada na capa da revista “Ilustração Portuguesa”, nº 410, de 29 de Dezembro de 1913. Ela sugere a despedida do “Ano Velho”, aí representado por um ancião de ar respeitável, sentado, vencido decerto pelo desgaste e pelas mazelas da vida. Junto a ele, duas crianças, das quais a mais velhinha lhe entrega um ramo de flores, decerto como reconhecimento do legado positivo que o Ano Velho lhes doou.
Não tenho motivo algum que me leve a crer que esta alegoria de Stuart não fosse apropriada em 1913. Todavia, considero que, actualmente, ela carece de sentido. Por isso me despeço de 2012 com mágoa, azedume e revolta, porque os portugueses nunca perderam tanta qualidade de vida e direitos democráticos como nos anos de 2011 e 2012. Pelo menos até agora. E porquê? Por culpa dos políticos que temos, dos políticos que tivemos e dos políticos que não tivemos, ainda que uma maioria significativa de nós, os gostasse de ter tido.
Conhecedor da obra do poeta popular António Aleixo (1899-1949), identifico-me bastante com o seu pensamento, a começar pelo modo como o poeta se enquadra na Sociedade:

“Sou um dos membros malditos
dessa falsa sociedade que,
baseada nos mitos,
pode roubar à vontade.“

Concordo também com o juízo que faz do Poder:

“Acho uma moral ruim
trazer o vulgo enganado:
mandarem fazer assim
e eles fazerem assado.”

Na óptica do poeta, é um juízo que não é nada positivo:

“Há tantos burros mandando
em homens de inteligência,
que às vezes fico pensando,
se a burrice não será uma ciência...”

Por isso o poeta considera ter o direito de protestar:

“Não me dêem mais desgostos
porque sei raciocinar...
Só os burros estão dispostos
a sofrer sem protestar!”

E vai ao ponto de advertir o Poder:

“Vós que lá do vosso império
prometeis um mundo novo,
calai-vos, que pode o povo
q'rer um mundo novo a sério!”

Proclama igualmente que a situação pode (e digo eu, deve) mudar:

“Esta mascarada enorme
com que o mundo nos aldraba
dura enquanto o povo dorme,
quando ele acordar, acaba.”

Perder a vida será na sua opinião, o que menos importa:

“Que importa perder a vida
em luta contra a traição,
se a Razão mesmo vencida,
não deixa de ser Razão? “

Nunca o pensamento de António Aleixo foi tão pertinente como hoje, por congregar duma forma excepcional uma análise da situação com alguma orientação para a acção. E acreditem que eu percebo da poda. Sou da geração do Maio de 68 em Portugal, doutros tempos de luta e porventura o primeiro divulgador de António Aleixo em Lisboa, em sessões de Canto Livre, em que participavam companheiros como o Zeca, o Adriano, o Fanhais ou o Fanha. Eu era um alentejano fininho com um metro e noventa de altura e olhos de carneiro mal morto. Quando ocupávamos a cantina de Ciências para afrontar o Poder, este cagava-se todo e mandava a polícia de choque contra nós. Nós não nos cagávamos, porque tínhamos tudo no sítio. A nossa força era a consciência política, a unidade, a disciplina e a resistência militante. Tínhamos na massa do sangue a poesia do Daniel Filipe (1925-1964) - Pátria Lugar de Exílio:

“(…) Tendes jornais.
usai-os
tendes exércitos
usai-os
tendes polícia
usai-a
tendes juízes
usai-os
usai-os contra nós
procurai esmagar-nos
cantando resistimos.”

Mais de quarenta anos depois, com toda a adrenalina dos meus 66 anos, repudio a política canalha que nos (des)governa e proclamo alto e bom som: