segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Carretilhas

Carretilhas em latão. Da esquerda para a direita, Fig. 1 a Fig. 5. Colecção do autor.

A “carretilha” [do castelhano carretilha, segundo (8), citado por (6)] é um ancestral instrumento de cozinha, cujo começo de utilização se perde na memória dos tempos. A primeira referência que conhecemos a este artefacto foi registada por Bluteau (3) que o define assim: “Pequena roda de metal, com seu eixo, que serve para lavrar bolos, pastéis e outras massas”. Segundo Aulete (1), “recortilha” e “cortilha” são sinónimos de “carretilha”.
Trata-se de um artefacto de cozinha constituído por uma roda dentada circular, em forma de roseta, que gira num eixo encabado e que é impulsionado pela mão humana. Com ele se recorta ou pontilha, deixando em lavor, a massa de forrar pastéis, bolos, biscoitos e doces. Como tal é utilizado por confeiteiros, pasteleiros, doceiros ou simples donas de casa.
O recorte ou o pontilhado executa-se colocando a carretilha sobre a massa e fazendo-a avançar através de força exercida no respectivo cabo. A resistência oferecida pela massa é vencida tanto mais facilmente quanto menos inclinado estiver o cabo em relação ao plano de assentamento da massa. Quanto ao recorte é tanto mais acentuado, quanto mais espaçados e fundos forem os dentes. É exactamente o contrário do que se passa com as carretilhas com dentes pouco espaçados e poucos profundos, que assim são mais adequadas para pontilhar a massa.
A massa que sobra após cada recorte é reaproveitada, sendo novamente tendida com o rolo e utilizada no ciclo de confecção.
As carretilhas têm sido confeccionadas nos materiais mais diversos: latão (as mais antigas – Fig. 1 a Fig. 5), marfim, marfim com cabo de madeira (Fig. 6), madeira (Fig. 7) e folha de Flandres com cabo de madeira. Modernamente surgiram integralmente em aço inox ou em aço inox com cabo de plástico.
Naturalmente que independentemente das suas funções equivalentes, as carretilhas mais nobres e imponentes são as mais antigas, de latão, que na sinuosidade do seu recorte, guardarão porventura, entre outros, segredos relativos a doces ou não, que ficaram para todo o sempre confinados às espessas paredes das cozinhas conventuais.


BIBLIOGRAFIA
(1) - AULETE, Caldas. Diccionario Contemporâneo da Língua Portuguesa (1ª edição). 2 vol. Parceria António Maria Pereira, Lisboa, 1881.
(2) - BASTOS, J.T. da Silva. Diccionário Etymológico, Prosódico e Orthográphico da Língua Portugueza (2ª edição). Parceria António Maria Pereira, Lisboa, 1928.
(3) - BLUTEAU, Raphael. Vocabulario portuguez & latino: aulico, anatomico, architectonico ... 8 vol. Collegio das Artes da Companhia de Jesus. Coimbra, 1712 - 1728.
(4) - FIGUEIREDO, Cândido de. Novo Diccionário da Língua Portuguesa (1ª edição). 2 vol. Editora Tavares Cardoso & Irmão, 1899.
(5) - HOUAISS, António e al. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. 6 vol. Círculo de Leitores. Lisboa, 2003.
(6) - MACHADO, José Pedro Machado. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa (5ªedição). 5 vol. Livros Horizonte. Lisboa, 1989.
(7) - MACHADO, José Pedro Machado. Grande Dicionário da Língua Portuguesa. 6 vol. Publicações Alfa. Lisboa, 1991.
(8) SILVA, Antonio de Moraes. Diccionario da língua portuguesa recopilado dos vocabulários impressos até agora, e nesta segunda edição novamente emendado, e muito acrescentado, por Antonio de Moraes Silva. Typografia Lacerdina. Lisboa, 1813.
(9) - VITERBO, Joaquim de Santa Rosa de. Elucidário das Palavras, Termos e Frases. Edição Critica de Mário Fiúza. 2 vol. Livraria Civilização. Porto, 1966.


Carretilhas em marfim e madeira e em madeira.
Da esquerda para a direita, Fig. 6 a Fig. 7.
Colecção do autor.