sábado, 8 de agosto de 2020

Isto aqui é o da Joana!


Joana Oliveira (1978- ) a modelar uma Primavera de arco.

Joana:
A força do seus bonecos resulta de procurar ser sempre igual a si própria, na inquietude louvavelmente permanente do seu espírito, que a leva e muito bem a procurar novos caminhos, sem ceder a práticas de modelação e decoração codificadas, que são património de outra época e que uma certa nomenklatura defende e exige para que uma figura possa ser considerada um Boneco de Estremoz.
Dentre os barristas que a precederam, alguns foram capazes de se libertar de uma certa "praxis corporativa", outros não.
Os primeiros libertaram-se e libertaram a Arte Popular de uma condenação à morte por fossilização, ao recusarem-se a produzir figuras que replicassem com maior ou menor fidelidade, o que fizeram os barristas de há 200 ou 300 anos atrás, noutro contexto sociológico.
Os segundos continuaram a produzir à maneira antiga, como se integrassem uma linha de produção que não pode parar e na qual são peças duma engrenagem que há quem defenda que se deve limitar a reproduzir a estética e os modelos que povoam as vitrinas de alguns museus. A meu ver, nada de mais errado.
A Arte e em particular a Arte Popular não são estáticas, reflectem sempre uma época com os seus problemas e os seus anseios. As identidades culturais não pararam no tempo, foram-se modificando e recriaram-se, criando novos paradigmas que persistirão até que as dinâmicas sociais e artísticas gerem novos paradigmas. Haverá sempre Homens e Mulheres cuja inquietude pesa na gestação de novos paradigmas.
Parabéns Joana, por ser uma dessas Mulheres!
Parabéns Joana, por nos deixar felizes com as suas criações! 
Parabéns Joana pelos desafios que lança a si própria e a nós próprios.
Obrigado por nos mostrar que a barrística popular está viva e tem pernas para andar. São novas e importantes passadas a caminho do Futuro.
O Futuro já começou!



Joana Oliveira afina pormenores de uma Primavera de arco.

Com a Guarda de Honra de duas Primaveras de Arco, Joana Oliveira modela
uma Nossa Senhora da Conceição.

Primavera de arco (2020). Joana Oliveira (1978-  ). Colecção do autor.

Passeio de Santo António com o Menino Jesus (2020). Joana Oliveira (1978- ).
Colecção de Alexandre Correia.

Sermão de Santo António aos peixes (2020). Joana Oliveira (1978- ).
Colecção de Alexandre Correia.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Bonecos de Estremoz: Ricardo Fonseca (2.ª parte)


Presépio do tipo do séc. XVIII

A extensão do texto e o considerável
número de ilustrações, aconselhou que
fosse dividido em duas partes,
 que foram publicadas sucessivamente.
Esta é a 2.ª parte.

CRÉDITOS
Fotografias de Luís Mendeiros
Cortesia de Ricardo Fonseca

Aconselho vivamente a leitura da biografia deste barrista, estabelecida na 1º parte.

Presépio da capela alentejana

Nossa Senhora da Conceição

Santo António

São João Baptista em criança

 São Francisco de Assis com Presépio

São Miguel

Santa Bárbara

Rainha Santa Isabel

Pastor

Ceifeira

 Aguadeira da ceifa

Pastor do harmónio

Aguadeiro da cidade

Mulher a fazer um bolo

Tapeteira de Arraiolos

Quarto alentejano

Cozinha alentejana

Cavaleiro tauromáquico em pé

Amor é cego

Amor é cego

Bailadeira pequena

Bailadeira grande

 
Primavera de arco

Xéxé

Folião de Carnaval

Barbeiro sangrador

Rei negro

Rei negro

Hernâni Matos

domingo, 2 de agosto de 2020

Ana das Peles e Sá Lemos


Sá Lemos trocando impressões com Ana das Peles numa sala de aulas da Escola
Industrial António Augusto Gonçalves, em Estremoz. Carlos Alves (1958- ).
Colecção do autor.





A mais recente criação do barrista Carlos Alves intitula-se “Ana das Peles e Sá Lemos”. A obra agora divulgada visa perpetuar no barro a Memória do escultor José Maria de Sá Lemos (1892-1971) que nos anos 30 do séc. XX, atribuiu a si próprio a missão de recuperação da extinta tradição de manufactura dos Bonecos de Estremoz. Visa igualmente perpetuar a Memória de Ana das Peles (1869-1945), velha bonequeira que foi o instrumento primordial dessa recuperação.
Em 1935 os Bonecos de Ana das Peles participaram na “Quinzena de Arte Popular Portuguesa” realizada na Galeria Moos, em Genebra. Em 1936 estiveram presentes na Secção VI (Escultura) da Exposição de Arte Popular Portuguesa ocorrida em Lisboa, em 1937 na Exposição Internacional de Paris e em 1940 na Exposição do Mundo Português, promovida em Lisboa.
Os Bonecos de Ana das Peles, foram nestas exposições, um ex-líbris de excelência da cidade de Estremoz. Eles foram os melhores embaixadores da nossa Arte Popular e da nossa identidade cultural local e regional. Eles foram, simultaneamente, a primeira declaração e a primeira prova insofismável de que na nossa terra existiam criadores populares de grande qualidade. Os Bonecos de Estremoz, até então relativamente pouco conhecidos, adquiriram por mérito próprio e muito justamente grande notoriedade pública.
A 19 de Fevereiro de 2020 completaram-se 75 anos sobre a morte de Ana das Peles. A velha barrista partiu, mas os seus bonecos ficaram como imagem de marca da nossa identidade cultural local e transtagana, testemunho e herança de uma época. Os seus gestos de modeladora de sonhos, continuam a ser repetidos, ainda que recriados pelos barristas de hoje. Por isso Ana das Peles é imortal e os Bonecos de Estremoz serão eternos.
Ana das Peles é uma figura que pela sua acção desempenhou um papel de relevo na construção da Memória de Estremoz, pelo que não pode ser olvidada nas páginas da História local.  Daí que o barrista Carlos Alves tenha modelado o conjunto em epígrafe, inspirando-se numa bem conhecida fotografia de Rogério de Carvalho (1915-1988), datada de 1935 e que representa ”Sá Lemos trocando impressões com Ana das Peles numa sala de aulas da Escola Industrial António Augusto Gonçalves”.
Parabéns Carlos por mais este trabalho, que além de homenagear Sá Lemos e Ana das Peles, vem enriquecer e de que maneira, a já vasta Galeria dos Bonecos da Inovação.